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I
Quem, de
magnetismo terrestre, apenas conhecesse o brinquedo dos patinhos
imantados que, sob a ação do imã, se movimentam em todas as
direções numa bacia com água, dificilmente poderia compreender
que ali está o segredo do mecanismo do Universo e da marcha dos
mundos. O mesmo se dá com quem, do Espiritismo, apenas conhece o
movimento das mesas, em o qual só vê um divertimento, um
passatempo, sem compreender que esse fenômeno tão simples e
vulgar, que a antigüidade e até povos semi-selvagens conheceram,
possa ter ligação com as mais graves questões da ordem social.
Efetivamente, para o observador superficial, que relação pode
ter com a moral e o futuro da Humanidade uma mesa que se move?
Quem quer, porém, que reflita se lembrará de que de uma simples
panela a ferver e cuja tampa se erguia continuamente, fato que
também ocorre desde toda a antigüidade, saiu o possante motor
com que o homem transpõe o espaço e suprime as distâncias.
Pois bem! Sabei,
vós que não credes senão no que pertence ao mundo material, que
dessa mesa, que gira e vos faz sorrir desdenhosamente, saiu uma
ciência, assim como a solução dos problemas que nenhuma
filosofia pudera ainda resolver. Apelo para todos os adversários
de boa-fé e os adjuro a que digam se se deram ao trabalho de
estudar o que criticam. Porque, em boa lógica, a crítica só tem
valor quando o crítico é conhecedor daquilo de que fala. Zombar
de uma coisa que se não conhece, que se não sondou com o
escalpelo do observador consciencioso, não é criticar, é dar
prova de leviandade e triste mostra de falta de critério.
Certamente que, se houvéssemos apresentado esta filosofia como
obra de um cérebro humano, menos desdenhoso tratamento
encontraria e teria merecido as honras do exame dos que
pretendem dirigir a opinião. Vem ela, porém, dos Espíritos. Que
absurdo! Mal lhe dispensam um simples olhar. Julgam-na pelo
título, como o macaco da fábula julgava da noz pela casca.
Fazei, se
quiserdes, abstração da sua origem. Suponde que este livro é
obra de um homem e dizei, do íntimo e em consciência, se, depois
de o terdes lido seriamente, achais nele matéria para zombaria.
II
O Espiritismo é o
mais terrível antagonista do materialismo. Não é, pois, de
admirar que tenha por adversários os materialistas. Mas, como o
materialismo é uma doutrina cujos adeptos mal ousam confessar
que o são (prova de que não se consideram muito fortes e têm a
dominá-los a consciência), eles se acobertam com o manto da
razão e da ciência. E, coisa estranha, os mais cépticos chegam a
falar em nome da religião, que não conhecem e não compreendem
melhor que ao Espiritismo. Por ponto de mira tomam o maravilhoso
e o sobrenatural, que não admitem. Ora, dizem, pois que o
Espiritismo se funda no maravilhoso, não pode deixar de ser uma
suposição ridícula. Não refletem que, condenando, sem
restrições, o maravilhoso e o sobrenatural, também condenam a
religião.
Com efeito, a
religião se funda na revelação e nos milagres. Ora, que é a
revelação, senão um conjunto de comunicações extraterrenas?
Todos os autores sagrados, desde Moisés, têm falado dessa
espécie de comunicações. Que são os milagres, senão fatos
maravilhosos e sobrenaturais, por excelência, visto que, no
sentido litúrgico, constituem derrogações das leis da Natureza?
Logo, rejeitando o maravilhoso e o sobrenatural, eles rejeitam
as bases mesmas da religião. Não é deste ponto de vista, porém,
que devemos encarar a questão.
Ao Espiritismo não
compete examinar se há ou não milagres, isto é, se em certos
casos houve Deus por bem derrogar as leis eternas que regem o
Universo. Permite, a este respeito, inteira liberdade de crença.
Diz e prova que os fenômenos em que se baseia, de sobrenaturais
só têm a aparência. E parecem tais a algumas pessoas, apenas
porque são insólitos e diferentes dos fatos conhecidos. Não são,
contudo, mais sobrenaturais do que todos os fenômenos, cuja
explicação a Ciência hoje dá e que parecem maravilhosos noutra
época. Todos os fenômenos espíritas, sem exceção, resultam de
leis gerais. Revelam-nos uma das forças da Natureza, força
desconhecida, ou, por melhor dizer, incompreendida até agora,
mas que a observação demonstra estar na ordem das coisas.
Assim, pois, o
Espiritismo se apóia menos no maravilhoso e no sobrenatural do
que a própria religião. Conseguintemente, os que o atacam por
esse lado mostram que o não conhecem e, ainda quando fossem os
maiores sábios, lhes diríamos: se a vossa ciência, que vos
instruiu em tantas coisas, não vos ensinou que o domínio da
Natureza é infinito, sois apenas meio sábios.
III
Dizeis que
desejais curar o vosso século de uma mania que ameaça invadir o
mundo. Preferiríeis que o mundo fosse invadido pela
incredulidade que procurais propagar?
A que se deve atribuir o relaxamento dos laços de família e a
maior parte das desordens que minam a sociedade, senão à
ausência de toda crença? Demonstrando a existência e a
imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro,
levanta os ânimos abatidos, faz suportar com resignação as
vicissitudes da vida. Ousaríeis chamar a isto um mal? Duas
doutrinas se defrontam: uma, que nega o futuro; outra, que lhe
proclama e prova a existência; uma, que nada explica, outra, que
explica tudo e que, por isso mesmo, se dirige à razão; uma, que
é a sanção do egoísmo; outra, que oferece base à justiça, à
caridade e ao amor do próximo. A primeira somente mostra o
presente e aniquila toda esperança; a segunda consola e desvenda
o vasto campo do futuro. Qual a mais preciosa?
Algumas pessoas, dentre as mais cépticas, se fazem apóstolos da
fraternidade e do progresso. Mas, a fraternidade pressupõe
desinteresse, abnegação da personalidade. Com que direito
impondes um sacrifício àquele a quem dizeis que, com a morte,
tudo se lhe acabará; que amanhã, talvez, ele não será mais do
que uma velha máquina desmantelada e atirada ao monturo? Que
razões terá ele para impor a si mesmo uma privação qualquer?
Não será mais natural que trate de viver o melhor possível,
durante os breves instantes que lhe concedeis? Daí o desejo de
possuir muito para melhor gozar. Do desejo nasce a inveja dos
que possuem mais e, dessa inveja à vontade de apoderar-se do que
a estes pertence, o passo é curto. Que é que o detém? A lei? A
lei, porém, não abrange todos os casos. Direis que a
consciência, o sentimento do dever. Mas, em que baseias o
sentimento do dever? Terá razão de ser esse sentimento, de par
com a crença de que tudo se acaba com a vida? Onde essa crença
exista, uma só máxima é racional: cada um por si, não passando
de vãs palavras as idéias de fraternidade, de consciência, de
dever, de humanidade, mesmo de progresso.
Oh! Vós que
proclamais semelhantes doutrinas, não sabeis quão grande é o mal
que fazeis à sociedade, nem de quantos crimes assumis a
responsabilidade! Para o céptico, tal coisa não existe. Só à
matéria rende ele homenagem.
IV
O progresso da
Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de
amor e de caridade, lei que se funda na certeza do futuro.
Tirai-lhe essa certeza e lhe tirareis a pedra fundamental. Dessa
lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as
condições da felicidade do homem. Só ela pode curar as chagas da
sociedade. Comparando as idades e os povos, pode ele avaliar
quanto a sua condição melhora, à medida que essa lei vai sendo
mais bem compreendida e praticada. Ora, se, aplicando-a parcial
e incompletamente, aufere o homem tanto bem, que não conseguirá
quando fizer dela a base de todas as suas instituições sociais!
Será isso possível? Certo, porquanto, desde que ele já deu dez
passos, possível lhe é dar vinte e assim por diante.
Do futuro se pode,
pois, julgar pelo passado. Já vemos que pouco a pouco se
extinguem as antipatias de povo para povo. Diante da
civilização, diminuem as barreiras que os separavam. De um
extremo a outro do mundo, eles se estendem as mãos. Maior
justiça preside à elaboração das leis internacionais. As guerras
se tornam cada vez mais raras e não excluem os sentimentos de
humanidade. Nas relações, a uniformidade se vai estabelecendo.
Apagam-se as distinções de raças e de castas e os que professam
crenças diversas impõem silêncio aos prejuízos de seita, para se
confundirem na adoração de um único Deus. Falamos dos povos que
marcham à testa da civilização. (789-793)
A todos estes
respeitos, no entanto, longe ainda estamos da perfeição e muitas
ruínas antigas, ainda se têm que abater, até que não restem mais
vestígios da barbaria. Poderão acaso essas ruínas sustentar-se
contra a força irresistível do progresso, contra essa força viva
que é, em si mesma, uma lei da Natureza? Sendo a geração atual
mais adiantada do que a anterior, por que não o será mais do que
a presente a que lhe há de suceder? Sê-lo-á, pela força das
coisas. Primeiro, porque, com as gerações, todos os dias se
extinguem alguns campeões dos velhos abusos, o que permite à
sociedade formar-se de elementos novos, livres dos velhos
preconceitos. Em segundo lugar, porque, desejando o progresso, o
homem
estuda os obstáculos e se aplica a removê-los.
Desde que é
incontestável o movimento progressivo, não há que duvidar do
progresso vindouro. O homem quer ser feliz e é natural esse
desejo. Ora, buscando progredir, o que ele procura é aumentar a
soma da sua felicidade, sem o que o progresso careceria de
objeto. Em que consistiria para ele o progresso, se lhe não
devesse melhorar a posição?
Quando, porém, conseguir a soma de gozos que o progresso
intelectual lhe pode proporcionar, verificará que não está
completa a sua felicidade. Reconhecerá ser esta impossível, sem
a segurança nas relações sociais, segurança que somente no
progresso moral lhe será dado achar. Logo, pela força mesma das
coisas, ele próprio dirigirá o progresso para essa senda e o
Espiritismo lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para alcançar
tal objetivo.
V
Os que dizem que
as crenças espíritas ameaçam invadir o mundo, proclamam, ipso
facto, a força do Espiritismo, porque jamais poderia tornar-se
universal uma idéia sem fundamento e destituída de lógica.
Assim, se o Espiritismo se implanta por toda parte, se,
principalmente nas classes cultas, recruta adeptos, como todos
facilmente reconhecerão, é que tem um fundo de verdade.
Baldados, contra essa tendência, serão todos os esforços dos
seus detratores e a prova é que o próprio ridículo, de que
procuram cobri-lo, longe de lhe amortecer o ímpeto, parece
ter-lhe dado novo vigor, resultado que plenamente justifica o
que repetidas vezes os Espíritos hão dito: “Não vos inquieteis
com a oposição; tudo o que contra vós fizerem se tornará o vosso
favor e os vossos maiores adversários, sem o quererem, servirão
à vossa causa. Contra a vontade de Deus não poderá prevalecer a
má vontade dos homens.”
Por meio do
Espiritismo, a Humanidade tem que entrar numa nova fase, a do
progresso moral que lhe é conseqüência inevitável. Não mais,
pois, vos espanteis da rapidez com que as idéias espíritas se
propagam. A causa dessa celeridade reside na satisfação que
trazem a todos os que as aprofundam e que nelas vêem alguma
coisa mais do que fútil passatempo.. Ora, como cada um o que
acima de tudo quer é a sua felicidade, nada há de surpreendente
em que cada um se apegue a uma idéia que faz ditosos os que a
esposam.
Três períodos
distintos apresenta o desenvolvimento dessas idéias: primeiro, o
da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos
desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o
da aplicação e das conseqüências. O período da curiosidade
passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez satisfeita, muda de
objeto. O mesmo não acontece com o que desafia a meditação séria
e o raciocínio. Começou o segundo período, o terceiro virá
inevitavelmente.
O Espiritismo
progrediu principalmente depois que foi sendo mais bem
compreendido na sua essência íntima, depois que lhe perceberam o
alcance, porque tange a corda mais sensível do homem: a da sua
felicidade, mesmo neste mundo. Aí a causa da sua propagação, o
segredo da força que o fará triunfar. Enquanto a sua influência
não atinge as massas, ele vai felicitando os que o compreendem.
Mesmo os que nenhum fenômeno têm testemunhado, dizem: à parte
esses fenômenos, há a filosofia, que me explica o que NENHUMA
OUTRA me havia explicado. Nela encontro, por meio unicamente do
raciocínio, uma solução racional para os problemas que no mais
alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, firmeza,
confiança; livra-me do tormento da incerteza. Ao lado de tudo
isto, secundária se torna a questão dos fatos materiais.
Quereis, vós todos
que o atacais, um meio de combatê-lo com êxito? Aqui o tendes.
Substituí-o por alguma coisa melhor; indicai solução MAIS
FILOSÓFICA para todas as questões que ele resolveu; dai ao homem
OUTRA CERTEZA que o faça mais feliz, porém compreendei bem o
alcance desta palavra certeza, porquanto o homem não aceita,
como certo, senão o que lhe parece lógico. Não vos contenteis
com dizer: isto não é assim; demasiado fácil é semelhante
afirmativa. Provai, não por negação, mas por fatos, que isto não
é real, nunca o foi e NÃO PODE ser. Se não é, dizei o que o é,
em seu lugar. Provai, final mente, que as conseqüências do
Espiritismo não são tornar melhor o homem e, portanto, mais
feliz, pela prática da mais pura moral evangélica, moral a que
se tecem muitos louvores, mas que muito pouco se pratica. Quando
houverdes feito isso, tereis o direito de o atacar.
O Espiritismo é
forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus,
a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque
mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da
vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do
futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.
Que compensação
ofereceis aos sofrimentos deste mundo, vós cuja doutrina
consiste unicamente na negação do futuro? Enquanto vos apoiais
na incredulidade, ele se apóia na confiança em Deus; ao passo
que convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira
fraternidade, vós lhes ofereceis o nada por perspectiva e o
egoísmo por consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais.
Ele prova pelos fatos, vós nada provais. Como quereis que se
hesite entre as duas doutrinas?
VI
Falsíssima idéia
formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da
prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se
a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está
na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso. Na
antigüidade, era objeto de estudos misteriosos, que
cuidadosamente se ocultavam do vulgo. Hoje, para ninguém tem
segredos. Fala uma linguagem clara, sem ambigüidades.
Nada há nele de
místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas
interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados
são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade.
Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo.
Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê.
Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se
apóiam no nada.
Os obstáculos que
tentassem oferecer à liberdade das manifestações poderiam
pôr-lhe fim? Não, porque produziriam o efeito de todas as
perseguições: o de excitar a curiosidade e o desejo de conhecer
o que foi proibido. De outro lado, se as manifestações espíritas
fossem privilégio de um único homem, sem dúvida que, segregado
esse homem, as manifestações cessariam. Infelizmente para os
seus adversários, elas estão ao alcance de toda gente e todos a
elas recorrem, desde o mais pequenino até o mais graduado, desde
o palácio até a mansarda. Poderão proibir que sejam obtidas em
público. Sabe-se, porém, precisamente que em público não é onde
melhor se dão e sim na intimidade. Ora, podendo todos ser
médiuns, quem poderá impedir que uma família, no seu lar; um
indivíduo, no silêncio de seu gabinete; o prisioneiro, no seu
cubículo, entrem em comunicação com os Espíritos, a despeito dos
esbirros e mesmo na presença deles? Se as proibirem num país,
poderão obstar a que se verifiquem nos países vizinhos, no mundo
inteiro, uma vez que nos dois hemisférios não há lugar onde não
existam médiuns? Para se encarcerarem todos os médiuns, preciso
fora que se encarcerasse a metade do gênero humano. Chegassem
mesmo, o que não seria mais fácil, a queimar todos os livros
espíritas e no dia seguinte estariam reproduzidos, porque
inatacável é a fonte donde dimanam e porque ninguém pode
encarcerar ou queimar os Espíritos, seus verdadeiros autores.
O Espiritismo não
é obra de um homem. Ninguém pode inculcar-se como seu criador,
pois tão antigo é ele quanto a criação. Encontramo-lo por toda
parte, em todas as religiões, principalmente na religião
Católica e aí com mais autoridade do que em todas as outras,
porquanto nela se nos depara o princípio de tudo que há nele: os
Espíritos em todos os graus de elevação, suas relações ocultas e
ostensivas com os homens, os anjos guardiães, a reencarnação, a
emancipação da alma durante a vida, a dupla vista, todos os
gêneros de manifestações, as aparições e até as aparições
tangíveis. Quanto aos demônios, esses não são senão os maus
Espíritos e, salvo a crença de que aqueles foram destinados a
permanecer perpetuamente no mal, ao passo que a senda do
progresso se conserva aberta aos segundos, não há entre uns e
outros mais do que simples diferença de nomes.
Que faz a moderna
ciência espírita? Reúne em corpo de doutrina o que estava
esparso: explica, com os termos próprios, o que só era dito em
linguagem alegórica; poda o que a superstição e a ignorância
engendraram, para só deixar o que é real e positivo. Esse o seu
papel! O de fundadora não lhe pertence. Mostra o que existe,
coordena, porém não cria, por isso que suas bases são de todos
os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria
considerar-se bastante forte para abafá-la com sarcasmos, ou,
ainda, com perseguições? Se a proscreverem de um lado, renascerá
noutras partes, no próprio terreno donde a tenham banido, porque
ela está em a Natureza e ao homem não é dado aniquilar uma força
da Natureza, nem opor veto aos decretos de Deus.
Que interesse, aos
demais, haveria em obstar-se a propagação das idéias espíritas?
É exato que elas se erguem contra os abusos que nascem do
orgulho e do egoísmo. Mas, se é certo que desses abusos há quem
aproveite, à coletividade humana eles prejudicam. A
coletividade, portanto, será favorável a tais idéias,
contando-se-lhes por adversários sérios apenas os interessados
em manter aqueles abusos. As idéias espíritas, ao contrário, são
um penhor de ordem e tranqüilidade, porque, pela sua influência,
os homens se tornam melhores uns para com os outros, menos
ávidos das coisas materiais e mais resignados aos decretos da
Providência.
VII
O Espiritismo se
apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o
dos princípios e da filosofia que delas decorrem e o da
aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três
graus de adeptos: 1° os que crêem nas manifestações e se limitam
a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência
experimental; 2° os que lhe percebem as conseqüências morais; 3°
os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral. Qualquer
que seja o ponto de vista, científico ou moral, sob que
considerem esses estranhos fenômenos, todos compreendem
constituírem eles uma ordem, inteiramente nova, de idéias que
surge e da qual não pode deixar de resultar uma profunda
modificação no estado da Humanidade e compreendem que essa
modificação não pode deixar de operar-se no sentido do bem.
Quanto aos
adversários, também podemos classificá-los em três categorias.
1ª - A dos que negam sistematicamente tudo o que é novo, ou
deles não venha, e que falam sem conhecimento de causa. A esta
classe pertencem todos os que não admitem senão o que possa ter
o testemunho dos sentidos. Nada viram, nada querem ver e ainda
menos aprofundar. Ficariam mesmo aborrecidos se vissem as coisas
muito claramente, porque forçoso lhes seria convir em que não
têm razão. Para eles, o Espiritismo é uma quimera, uma loucura,
uma utopia, não existe: está dito tudo. São os incrédulos de
caso pensado. Ao lado desses, podem colocar-se os que não se
dignam de dar aos fatos a mínima atenção, sequer por desencargo
de consciência, a fim de poderem dizer: Quis ver e nada vi. Não
compreendem que seja preciso mais de meia hora para alguém se
inteirar de uma ciência. 2ª - A dos que, sabendo muito bem o que
pensar da realidade dos fatos, os combatem, todavia, por motivos
de interesse pessoal. Para estes, o Espiritismo existe, mas lhes
receiam as conseqüências. Atacam-no como a um inimigo. 3ª - A
dos que acham na moral espírita censura por demais severa aos
seus atos ou às suas tendências. Tomado ao sério, o Espiritismo
os embaraçaria; não o rejeitam, nem o aprovam: preferem fechar
os olhos. Os primeiros são movidos pelo orgulho e pela
presunção; os segundos, pela ambição; os terceiros, pelo
egoísmo. Concebe-se que, nenhuma solidez tendo, essas causas de
oposição venham a desaparecer com o tempo, pois em vão
procuraríamos uma quarta classe de antagonistas, a dos que em
patentes provas contrárias se apoiassem demonstrando estudo
laborioso e porfiado da questão. Todos apenas opõem a negação,
nenhum aduz demonstração, séria e irrefutável.
Fora presumir da
natureza humana supor que ela possa transformar-se de súbito,
por efeito das idéias espíritas. A ação que estas exercem não é
certamente idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que as
professam. Mas, o resultado dessa ação, qualquer que seja, ainda
que extremamente fraco, representa sempre uma melhora. Será,
quando menos, o de dar a prova da existência de um mundo
extracorpóreo, o que implica a negação das doutrinas
materialistas. Isto deriva da só observação dos fatos, porém,
para os que compreendem o Espiritismo filosófico e nele vêem
outra coisa, que não somente fenômenos mais ou menos curiosos,
diversos são os seus efeitos.
O primeiro e mais
geral consiste e desenvolver o sentimento religioso até naquele
que, sem ser materialista, olha com absoluta indiferença para as
questões espirituais. Daí lhe advém o desprezo pela morte. Não
dizemos o desejo de morrer; longe disso, porquanto o espírita
defenderá sua vida como qualquer outro, mas uma indiferença que
o leva a aceitar, sem queixa, nem pesar, uma morte inevitável,
como coisa mais de alegrar do que de temer, pela certeza que tem
do estado que se lhe segue.
O segundo efeito,
quase tão geral quanto o primeiro, é a resignação nas
vicissitudes da vida. O Espiritismo dá a ver as coisas de tão
alto, que, perdendo a vida terrena três quartas partes da sua
importância, o homem não se aflige tanto com as tribulações que
a acompanham. Daí, mais coragem nas aflições, mais moderação nos
desejos. Daí, também, o banimento da idéia de abreviar os dias
da existência, por isso que a ciência espírita ensina que, pelo
suicídio, sempre se perde o que se queria ganhar. A certeza de
um futuro, que temos a faculdade de tornar feliz, a
possibilidade de estabelecermos relações com os entes que nos
são caros, oferecem ao espírita suprema consolação. O horizonte
se lhe dilata ao infinito, graças ao espetáculo, a que assiste
incessantemente, da vida de além-túmulo, cujas misteriosas
profundezas lhe é facultado sondar.
O terceiro efeito
é o estimular no homem a indulgência para com os defeitos
alheios.
Todavia, cumpre
dizê-lo, o princípio egoísta e tudo que dele decorre são o que
há de mais tenaz no homem e, por conseguinte, de mais difícil de
desarraigar. Toda gente faz voluntariamente sacrifícios,
contanto que nada custem e de nada privem. Para a maioria dos
homens, o dinheiro tem ainda irresistível atrativo e bem poucos
compreendem a palavra supérfluo, quando de suas pessoas se
trata. Por isso mesmo, a abnegação da personalidade constitui
sinal de grandíssimo progresso.
VIII
Perguntam algumas
pessoas: Ensinam os Espíritos qualquer moral nova, qualquer
coisa superior ao que disse o Cristo? Se a moral deles não é
senão a do Evangelho, de que serve o Espiritismo? Este
raciocínio se assemelha notavelmente ao do califa Omar, com
relação à biblioteca de Alexandria: “Se ela não contém, dizia
ele, mais do que o que está no Alcorão, é inútil. Logo deve ser
queimada. Se contém coisa diversa, é nociva. Logo, também deve
ser queimada.”
Não, o Espiritismo
não traz moral diferente da de Jesus. Mas, perguntamos, por
nossa vez: Antes que viesse o Cristo, não tinham os homens a lei
dada por Deus a Moisés?
A doutrina do Cristo não se acha contida no Decálogo? Dir-se-á,
por isso, que a moral de Jesus era inútil? Perguntaremos, ainda,
aos que negam utilidade à moral espírita: Por que tão pouco
praticada é a do Cristo? E por que, exatamente os que com
justiça lhe proclamam a sublimidade, são os primeiros a
violar-lhe o preceito capital: o da caridade universal? Os
Espíritos vêm não só confirmá-la, mas também mostrar-nos a sua
utilidade prática. Tornam inteligíveis e patentes verdades que
haviam sido ensinadas sob a forma alegórica. E, justamente com a
moral, trazem-nos a definição dos mais abstratos problemas da
psicologia.
Jesus veio mostrar
aos homens o caminho do verdadeiro bem. Por que, tendo-o enviado
para fazer lembrada Sua lei que estava esquecida, não havia Deus
de enviar hoje os Espíritos, a fim de a lembrarem novamente aos
homens, e com maior precisão, quando eles a olvidam, para tudo
sacrificar ao orgulho e à cobiça? Quem ousaria pôr limites ao
poder de Deus e traçar-Lhe normas? Quem nos diz que, como o
afirmam os Espíritos, não estão chegando os tempos preditos e
que não chegamos aos em que verdades mal compreendidas, ou
falsamente interpretadas, devam ser ostensivamente reveladas ao
gênero humano, para lhe apressar o adiantamento? Não haverá
alguma coisa de providencial nessas manifestações que se
produzem simultaneamente em todos os pontos do globo? Não é um
único homem, um profeta quem nos vem advertir. A luz surge por
toda parte. É todo um mundo novo que se desdobra às nossas
vistas. Assim como a invenção do microscópio nos revelou o mundo
dos infinitamente pequenos, de que não suspeitávamos; assim como
o telescópio nos revelou milhões de mundos de cuja existência
também não suspeitávamos, as comunicações espíritas nos revelam
o mundo invisível que nos cerca, nos acotovela constantemente e
que, à nossa revelia, toma parte em tudo o que fazemos.
Decorrido que seja
mais algum tempo, a existência desse mundo, que nos espera, se
tornará tão incontestável como a do mundo microscópico e dos
globos disseminados pelo espaço. Nada, então, valerá o nos terem
feito conhecer um mundo todo; o nos haverem iniciado nos
mistérios da vida de além-túmulo? É exato que essas descobertas,
se se lhes pode dar este nome, contrariam algum tanto certas
idéias aceitas. Mas, não é real que todas as grandes descobertas
científicas hão igualmente modificado, subvertido até, as mais
correntes idéias? E o nosso amor-próprio não teve que se curvar
diante da evidência? O mesmo acontecerá com relação ao
Espiritismo, que, em breve, gozará do direito de cidade entre os
conhecimentos humanos.
As comunicações
com os seres de além-túmulo deram em resultado fazer-nos
compreender a vida futura, fazer-nos vê-la, iniciar-nos no
conhecimento das penas e gozos que nos estão reservados, de
acordo com os nossos méritos e, desse modo, encaminhar para o
espiritualismo os que no homem somente viam a matéria, a máquina
organizada. Razão, portanto, tivemos para dizer que o
Espiritismo, com os fatos, matou o materialismo. Fosse este
único resultado por ele produzido e já muita gratidão lhe
deveria a ordem social. ele, porém, faz mais: mostra os
inevitáveis efeitos do mal e, conseguintemente, a necessidade do
bem. Muito maior do que se pensa é, e cresce todos os dias, o
número daqueles em que ele há melhorado os sentimentos,
neutralizado as más tendências e desviado do mal. É que para
esses o futuro deixou de ser coisa imprecisa, simples esperança,
por se haver tornado uma verdade que se compreende e explica,
quando se vêem e ouvem os que partiram lamentar-se ou
felicitar-se pelo que fizeram na Terra. Quem disso é testemunha
entra a refletir e sente a necessidade de a si mesmo se
conhecer, julgar e emendar.
IX
Os adversários do
Espiritismo não se esqueceram de armar-se contra ele de algumas
divergências de opiniões sobre certos pontos de doutrina. Não é
de admirar que, no início de uma ciência, quando ainda são
incompletas as observações e cada um a considera do seu ponto de
vista, apareçam sistemas contraditórios. Mas, já três quartos
desses sistemas caíram diante de um estudo mais aprofundado, a
começar pelo que atribuía todas as comunicações ao Espírito do
mal, como se a Deus fora impossível enviar bons Espíritos aos
homens: doutrina absurda, porque os fatos a desmentem; ímpia,
porque importa na negação do poder e da bondade do Criador.
Os Espíritos
sempre disseram que nos não inquietássemos com essas
divergências e que a unidade se estabeleceria. Ora, a unidade já
se fez quanto à maioria dos pontos e as divergências tendem cada
vez mais a desaparecer. Tendo-se-lhes perguntado: Enquanto se
não faz a unidade, sobre que pode o homem, imparcial e
desinteressado, basear-se para formar juízo? Eles responderam:
“Nuvem alguma obscurece a luz verdadeiramente pura; o diamante
sem jaça é o que tem mais valor: julgai, pois, dos Espíritos
pela pureza de seus ensinos. Não olvideis que, entre eles, há os
que ainda se não despojaram das idéias que levaram da vida
terrena. Sabei distingui-los pela linguagem de que usam.
Julgai-os pelo conjunto do que vos dizem. Vede se há
encadeamento lógico nas suas idéias; se nestas nada revela
ignorância, orgulho ou malevolência; em suma, se suas palavras
trazem todas o cunho de sabedoria que a verdadeira superioridade
manifesta. Se o vosso mundo fosse inacessível ao erro, seria
perfeito, e longe disso se acha ele. Ainda estais aprendendo a
distinguir do erro a verdade.
Faltam-vos as
lições da experiência para exercitar o vosso juízo e fazer-vos
avançar. A unidade se produzirá do lado em que o bem jamais
esteve de mistura com o mal; desse lado é que os homens se
coligarão pela força mesma das coisas, porquanto reconhecerão
que aí é que está a verdade.
“Aliás, que
importam algumas dissidências, mais de forma que de fundo! Notai
que os princípios fundamentais são os mesmos por toda parte e
vos hão de unir num pensamento comum: o amor de Deus e a prática
do bem. Quaisquer que se suponham ser o modo de progressão ou as
condições normais da existência futura, o objetivo final é um
só: fazer o bem. Ora, não há duas maneiras de fazê-lo.”
Se é certo que,
entre os adeptos do Espiritismo, se contam os que divergem de
opinião sobre alguns pontos da teoria, menos certo não é que
todos estão de acordo quanto aos pontos fundamentais. Há,
portanto, unidade, excluídos apenas os que, em número muito
reduzido, ainda não admitem a intervenção dos Espíritos nas
manifestações; os que as atribuem a causas puramente físicas, o
que é contrário a este axioma: Todo efeito inteligente há de ter
uma causa inteligente; ou ainda a um reflexo do nosso próprio
pensamento, o que os fatos desmentem. Os outros pontos são
secundários e em nada comprometem as bases fundamentais. Pode,
pois haver escolas que procurem esclarecer-se acerca das partes
ainda controvertidas da ciência; não deve haver seitas rivais
umas das outras. Antagonismo só poderia existir entre os que
querem o bem e os que quisessem ou praticassem o mal. Ora, não
há espírita sincero e compenetrado das grandes máximas morais
ensinadas pelos Espíritos que possa querer o mal, nem desejar
mal ao seu próximo, sem distinção de opiniões. Se errônea for
alguma destas, cedo ou tarde a luz para ela brilhará, se a
buscar de boa-fé e sem prevenções. Enquanto isso não se dá, um
laço comum existe que as deve unir a todos num só pensamento;
uma só meta para todas. Pouco, por conseguinte, importa qual
seja o caminho, uma vez que conduza a essa meta. Nenhuma deve
impor-se por meio do constrangimento material ou moral e em
caminho falso estaria unicamente aquela que lançasse anátema
sobre outra, porque então procederia evidentemente sob a
influência de maus Espíritos.
O argumento
supremo deve ser a razão. A moderação garantirá melhor a vitória
da verdade do que as diatribes envenenadas pela inveja e pelo
ciúme. Os bons Espíritos só pregam a união e o amor ao próximo,
e nunca um pensamento malévolo ou contrário à caridade pode
provir de fonte pura. Ouçamos sobre este assunto, e para
terminar, os conselhos do Espírito Santo Agostinho:
“Por bem largo tempo, os homens se têm estraçalhado e
anatematizado mutuamente em nome de um Deus de paz e
misericórdia, ofendendo-O com semelhante sacrilégio. O
Espiritismo é o laço que um dia os unirá, porque lhes mostrará
onde está a verdade, onde o erro. Durante muito tempo, porém,
ainda haverá escribas e fariseus que O negarão, como negaram o
Cristo. Quereis saber sob a influência de que Espíritos estão as
diversas seitas que entre si fizeram partilha do mundo? Julgai-o
pelas suas obras e pelos seus princípios.
Jamais os bons
Espíritos foram os instigadores do mal; jamais aconselharam ou
legitimaram o assassínio e a violência; jamais estimularam os
ódios dos partidos, nem a sede das riquezas e das honras, nem a
avidez dos bens da Terra. Os que são bons, humanitários e
benevolentes para com todos, esses os Seus prediletos e
prediletos de Jesus, porque seguem a estrada que este lhes
indicou para chegarem até Ele.”
SANTO AGOSTINHO.
Nota Especial
n°1 (à 34ª edição, em 1974), a que faz remissão a pág. 51: A
definição dada na resposta à questão n° 1 de “O Livro dos
Espíritos” - cause première - vem sendo tradicionalmente
registrada nas traduções publicadas pela FEB, ou sob sua licença
e responsabilidade, em língua portuguesa, como causa primária,
embora haja quem prefira grafá-la como causa primeira, solução
alternativa para mero caso de semântica. Além da de Guillon
Ribeiro, foram examinadas as traduções das edições publicadas em
1904 e 1889, bem assim a de Fortúnio - pseudônimo de Joaquim
Carlos Travassos - (B. L. Garnier, Editor, Rio, 1875), que é a
da 1ª edição em língua portuguesa lançada no Brasil (vide
“Reformador” de 1952, págs. 98/99, e de 1973, págs. 230 e
segs.), todas norteadas por idêntico critério quanto ao detalhe
citado. Com os melhores dicionaristas, no caso, está Domingos de
Azevedo, autor do “Grande Dicionário Francês-Português”,
Livraria Bertrand, Lisboa, 1952, 2° volume, pág. 1160: “premier,
ière (...) | | Fig. La cause première, a causa primária, Deus.”
Nota Especial
n°2 (à 34ª edição, em 1974), referida à pág. 472: Em edições
anteriores a esta, as questões n°s 1012 a 1019 figuraram sob os
n°s 1011 a 1018, respectivamente, sem ter sido atribuído número
à questão imediatamente seguinte à de n° 1010, mantendo-se, não
obstante, o texto em sua incolumidade original. O lapso, nasceu,
no passado, de compreensível equívoco, pois na seqüência da
numeração das questões o Codificador salteou o n° 1011 na 2ª
edição francesa, definitiva, de março de 1860. Todavia, o texto
foi mantido assim, mesmo nas quatorze edições que se seguiram
até a desencarnação de Allan Kardec.
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