O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
União do Princípio Espiritual e da Matéria

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
A Gênese

DOUTRINA

     

Devendo a matéria ser o objeto de trabalho do Espírito, para o desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que pudesse atuar sobre ela, por isso veio habita-la, como o lenhador habita a floresta.  Devendo ser a matéria, ao mesmo tempo, o objetivo e o instrumento de trabalho, Deus, em lugar de unir o Espírito à pedra rígida, criou, para seu uso, corpos organizados; flexíveis, capazes de receber todos os impulsos de sua vontade, e de se prestar a todos os seus movimentos.

O corpo é, pois, ao mesmo tempo, o envoltório e o instrumento do Espírito, e à medida que este adquire novas aptidões, ele reveste um envoltório apropriado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, como se dá a um obreiro ferramentas menos grosseiras à medida que ele seja capaz de fazer uma obra mais cuidada.

Para ser mais exato, é necessário dizer que é o próprio Espírito que dá forma ao seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades; aperfeiçoa-o, desenvolve-o e completa o organismo à medida que sente a necessidade de manifestar novas faculdades; em uma palavra, ele a coloca na estrutura de sua inteligência; Deus lhe fornece os materiais: cabe-lhe empregá-los; assim é que as raças avançadas têm um organismo ou, querendo-se, uma aparelhagem cerebral mais aperfeiçoada que as raças primitivas.  Explica-se assim, igualmente, o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e ao comportamento do corpo.

Desde que um Espírito nasce na vida espiritual, deve, para o seu adiantamento, fazer uso de suas faculdades, de inicio, rudimentares; por isso, ele reveste um envoltório corporal apropriado ao seu estado de infância intelectual, envoltório que deixa para revestir um outro à medida que as suas forças aumentam.  Ora, como em todos os tempos houve mundos, e que esses mundos deram nascimento a corpos organizados próprios a receberem os Espíritos, de todos os tempos os Espíritos encontraram, qualquer que fosse o seu grau de adiantamento, os elementos necessários à sua vida carnal.

Sendo o corpo exclusivamente material, sofre as influências da matéria.  Depois de funcionar algum tempo, ele se desorganiza e se decompõe; o princípio vital, não achando mais o elemento de sua atividade, se extingue e o corpo morre.  O Espírito, para quem o corpo privado de vida é doravante sem utilidade, deixa-o como se deixa uma casa em ruína ou uma veste fora de serviço.

O corpo não é, pois, senão um envoltório destinado a receber o Espírito; desde então, pouco importam a sua origem e os materiais de que é construído.  Que o corpo do homem seja uma criação especial ou não, não deixa de ser formado com os mesmos elementos que o dos animais, animado do mesmo princípio vital, de outro modo dito, aquecido pelo mesmo fogo, como é alumiado pela mesma luz, sujeito às mesmas vicissitudes e às mesmas necessidades: é um  ponto sobre o qual não há contestação.

A não considerar senão a matéria, e fazendo abstração do Espírito, o homem não tem, pois, nada que o distingue do animal; mas tudo muda de aspecto fazendo-se uma distinção entre a habitação e o habitante.

Um grande senhor, sob o colmo ou vestido com o burel de um camponês, com isso não se acha menos grande senhor.  Ocorre o mesmo com o homem; não é a sua vestimenta de carne que o eleva acima do animal e dele faz um ser à parte, é o seu ser espiritual, o seu Espírito.