O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Hipótese sobre a Origem dos Corpos Humanos

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
A Gênese

DOUTRINA

     

Da semelhança de formas exteriores que existem entre o corpo do homem e o do macaco, certos fisiologistas concluíram que o primeiro não era senão uma transformação do segundo.  Nisso não há nada de impossível, sem que, se assim o for, a dignidade do homem tenha algo a sofrer.  Corpos de macacos puderam muito bem servir de vestimenta aos primeiros Espíritos humanos, necessariamente pouco avançados, que vieram se encarnar sobre a Terra, sendo estas vestimentas os meios apropriados às suas necessidades e mais próprios ao exercício de suas faculdades que o corpo de nenhum outro animal.  Em lugar de que uma vestimenta especial fosse feita para o Espírito, nele encontrou uma inteiramente pronta.  Deve, pois, ter-se vestido com a pele do macaco, sem deixar de ser Espírito humano, como o homem se reveste, às vezes, com a pele de certos animais, sem deixar de ser homem.

Fique bem entendido que não se trata aqui senão de uma hipótese, que de nenhum modo é colocada como princípio, mas dada somente para mostrar que a origem do corpo não prejudica o Espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o corpo do macaco não implica a paridade entre seu Espírito e o do macaco.

Admitindo essa hipótese, pode-se dizer que, sob a influência e pelo efeito da atividade intelectual de seu novo habitante, o envoltório modificou-se, embelezou-se nos detalhes, conservando em tudo a forma geral do conjunto.  Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como ocorre com árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, pouco a pouco, se distanciou do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu.  O Espírito macaco, que não se exterminou, continuou a procriar corpos de macacos para seu uso, com o fruto da planta brava reproduz planta brava, e o Espírito humano procriou corpos de homens, variantes do primeiro molde em que se estabeleceu.  A linhagem se bifurcou; ela produziu um descendente, e esse descendente tornou-se linhagem.

Como não há transição brusca na Natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra devem ter pouco diferenciado do macaco pela forma exterior, e, sem dúvida, não muito mais pela inteligência.  Há ainda, em nossos dias, selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés, e a conformação da cabeça, têm de tal modo o comportamento do macaco, que não lhes falta senão serem peludos para completarem a semelhança.