|
Aristocracia vem
do grego aristos, o melhor, e Kratus, poder: a aristocracia, em
sua acepção literária, significa, pois: Poder dos melhores.
Convir-se-á que o sentido primitivo foi, por vezes,
singularmente desviado; mas vejamos que influência o Espiritismo
pode exercer sobre a sua aplicação. Para isso tomemos as coisas
no ponto de partida e sigamo-las através das idades, para delas
deduzir o que ocorrerá mais tarde.
Em nenhum tempo,
nem em nenhum povo, os homens em sociedade puderam abster-se de
chefes; são encontrados entre os povos mais selvagens. Isso se
prende a que, em razão da diversidade das aptidões e dos
caracteres inerentes à espécie humana, há por toda a parte
homens incapazes que é preciso dirigir, fracos que é necessário
proteger, paixões que é preciso comprimir; daí a necessidade de
uma autoridade. Sabe-se que, nas sociedades primitivas, essa
autoridade foi deferida aos chefes de família, aos anciãos, aos
velhos, em uma palavra, aos patriarcas; essa foi a primeira de
todas as aristocracias.
Tornando-se as
sociedades mais numerosas, a autoridade patriarcal ficou
impossibilitada em certas circunstâncias. As querelas entre
populações vizinhas ocasionaram os combates; foi preciso para
dirigi-las não de velhos, mas de homens fortes, vigorosos e
inteligentes; daí os chefes militares.
Vitoriosos esses
chefes, se lhes conferia a autoridade, esperando encontrar, em
sua bravura, uma garantia contra os ataques dos inimigos;
muitos, abusando de sua posição, dela se apoderaram eles mesmos;
depois, os vencedores se impuseram aos vencidos, ou os reduziram
à servidão; daí a autoridade da força bruta, que foi a segunda
aristocracia.
Os fortes, com
seus bens, transmitiram, muito naturalmente, sua autoridade aos
seus filhos, e os fracos sob compressão, não ousando nada dizer,
se habituaram, pouco a pouco, a considerar estes como os
herdeiros dos direitos conquistados pelos seus pais, e como seus
superiores; daí a divisão da sociedade em duas classes: os
superiores e os inferiores, aqueles que mandam e aqueles que
obedecem; daí, por conseqüência, a aristocracia de nascimento,
que se torna tão poderosa e tão preponderante quanto a da força,
porque ela não tinha força por si mesma, como nos primeiros
tempos em que era preciso pagar por sua pessoa, ela dispunha de
uma força mercenária. Tendo todo o poder, se dava, naturalmente,
privilégios.
Para a conservação
desses privilégios, era preciso lhes dar o prestígio da
legalidade, e ela fez as leis em seu proveito, o que lhe era
fácil, uma vez que só ela as fazia. Isso não era sempre
suficiente; deu-se o prestígio do direito divino, para torná-las
respeitáveis e invioláveis. Para assegurar o respeito da parte
da classe submissa que se tornava mais numerosa, e mais difícil
de contentar, mesmo pela força, não havia senão um meio,
impedi-la de ver claro, quer dizer, mantê-la na ignorância.
Se a classe
superior tivesse podido nutrir a classe inferior sem nada fazer,
a teria facilmente dominado por muito tempo ainda; mas como esta
era obrigada a trabalhar para viver, e trabalhar tanto mais
quanto era oprimida, disso resultou que a necessidade de
encontrar, sem cessar, novos recursos, de lutar contra uma
concorrência invasora, de procurar novos mercados para os
produtos, desenvolveu a sua inteligência, e ela se esclareceu
pelas mesmas causas das quais se serviu para sujeitá-la. Não se
vê aí o dedo da Providência? A classe submissa, portanto, viu
claro; viu a pouca consistência do prestígio que se lhe opunha
e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios e
proclamou a igualdade diante da lei. Esse princípio marcou, em
certos povos, o fim do reino da aristocracia de nascimento, que
não é mais do que nominal e honorífica, uma vez que ela não
confere mais direitos legais.
Então, se levantou
um novo poder, o do dinheiro, porque com dinheiro se dispõe de
homens e de coisas. Era um sol diante do qual se inclinava, como
outrora se inclinava diante de um brasão, e mais baixo ainda. O
que não se concedia mais ao título, se concedia à fortuna, e a
fortuna teve os seus privilégios iguais. Mas, então, percebeu-se
que , se para fazer fortuna é preciso uma dose de inteligência,
não era preciso tanto para herdá-la, e que os filhos são,
freqüentemente, mais hábeis para comer do que para ganhar, que
os próprios meios de se enriquecer nem sempre são
irrepreensíveis; disso resultou que o dinheiro perdeu, pouco a
pouco, seu prestígio moral, e que essa força tende a se
substituir por um outro poder, uma outra aristocracia mais
justa: a da inteligência, diante da qual todos podem se inclinar
sem se aviltar, porque ela pertence ao pobre como ao rico.
Será essa a
última? Ela é a alta expressão da Humanidade civilizada? Não. A
inteligência nem sempre é uma garantia de moralidade, e o homem
mais inteligente pode fazer um emprego muito mau de suas
faculdades. Por outro lado, só a moralidade pode, a miúdo, ser
incapaz. A união dessas duas faculdades, inteligência e
moralidade, é, pois, necessária para criar uma preponderância
legitima, e à qual a massa se submeterá cegamente, porque lhe
inspirará toda a confiança por suas luzes e por sua justiça.
Será a última aristocracia, a que será a conseqüência, ou antes,
o sinal do advento do reino do bem sobre a Terra. Chegará muito
naturalmente pela força das coisas; quando os homens dessa
categoria forem bastante numerosos, para formarem uma maioria
imponente, será a eles que a massa confiará os seus interesses.
Como vimos, todas
as aristocracias têm a sua razão de ser; nascem do estado da
Humanidade; ocorrerá o mesmo com aquela que se tornar uma
necessidade; todas fizeram, ou farão, o seu tempo segundo o
país, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só esse
princípio pode constituir uma supremacia durável, porque será
animado dos sentimentos de justiça e de caridade; supremacia que
chamaremos: aristocracia intelecto-moral.
Um tal estado de
coisas é possível com o egoísmo, o orgulho, a cupidez que reinam
soberanos sobre a Terra? A isso responderemos com firmeza: sim,
não somente é possível, mas chegará, porque é inevitável.
Hoje, a
inteligência domina; é soberana, ninguém poderia contestá-lo; e
isso é tão verdadeiro que vedes o homem do povo chegar aos
primeiros cargos. Essa aristocracia não é mais justa, mais
lógica, mais racional do que a da força brutal, de nascimento ou
do dinheiro? Por que, pois, seria impossível juntar-lhe a
moralidade? - Porque, dizem os pessimistas, o mal domina sobre a
Terra. - Está dito que o bem não o dominará jamais? Os costumes
e, por conseqüência, as instituições sociais, não valem cem
vezes mais hoje do que na Idade Média? Cada século não foi
marcado por um progresso?
Por que, pois, a
Humanidade se deteria quando tem ainda tanto a fazer? Os homens,
por um instinto natural, procuram seu bem-estar; se não o
encontram completo no reino da inteligência, procurá-lo-ão
alhures; e onde poderão encontrá-lo se não for no reino da
moralidade? Para isso, é preciso que a moralidade domine
numericamente. Há muito a fazer, é incontestável, mas, ainda uma
vez, haveria tola presunção em dizer que a Humanidade chegou ao
seu apogeu, quando é vista a marchar, sem cessar, no caminho do
progresso.
Dizemos primeiro
que os bons, sobre a Terra, não são inteiramente tão raros
quanto se crê; os maus são numerosos, isto infelizmente é
verdade; mas o que os faz parecer ainda mais numerosos, é que
são mais audazes, e sentem que essa audácia mesma lhes é
necessária para triunfarem; e, todavia, compreendem de tal modo
a preponderância do bem que, não podendo praticá-lo, dele tomam
a máscara.
Os bons, ao
contrário, não exibem as suas boas qualidades; não se colocam em
evidência e eis porque parecem tão pouco numerosos; mas sondai
os atos íntimos, realizados sem ostentação, e, em todas as
classes da sociedade, encontrareis ainda bastante boas e
louváveis naturezas para vos tranqüilizar o coração e não
desesperar da Humanidade. E, depois, é preciso dizer também,
entre os maus há muitos que não o são senão por arrastamento, e
que se tornariam bons se fossem submetidos a uma boa influência.
Coloquemos em fato que, sobre 100 indivíduos, há 25 bons e 75
maus; sobre estes últimos, há deles 50 que o são por fraqueza, e
que seriam bons se tivessem bons exemplos sob os olhos, e se,
sobretudo, tivessem tido uma boa direção desde a infância; e que
sobre os 25 francamente maus, nem todos são incorrigíveis.
No estado atual
das coisas, os maus estão em maioria e fazem a lei para os bons;
suponhamos que uma circunstância leve à conversão dos 50
medianos, os bons estarão em maioria e farão a lei por seu
turno; sobre os 25 outros francamente maus, vários sofrerão a
influência, e não ficarão senão alguns incorrigíveis sem
preponderância.
Tomemos um exemplo
para comparação: Há povos entre os quais o assassínio e o roubo
são o estado normal; o bem ali é exceção. Entre os povos mais
avançados e os melhores governados da Europa, o crime é exceção;
perseguido pelas leis, e sem influência sobre a sociedade. O que
ali ainda domina são os vícios de caráter: o orgulho, o egoísmo,
a cupidez e seu cortejo.
Por que, pois,
esses povos progredindo, os vícios ali não se tornariam a
exceção, como o são hoje os crimes, ao passo que os povos
inferiores alcançariam novo nível? Negar a possibilidade dessa
marcha ascendente seria negar o progresso.
Seguramente, tal
estado de coisas não poderia ser a obra de um dia, mas se há uma
causa que deve apressar-lhe o advento, sem nenhuma dúvida, é o
Espiritismo. Agente por excelência da solidariedade humana,
mostrando as provas da vida atual como a conseqüência lógica e
racional das ações realizadas nas existências anteriores,
fazendo de cada homem o artífice voluntário de sua própria
felicidade, de sua vulgarização universal resultará,
necessariamente, uma elevação sensível do nível moral atual.
Os princípios
gerais de nossa filosofia estão apenas elaborados e coordenados,
e já reuniram , numa imponente comunhão de pensamentos, milhões
de adeptos disseminados sobre toda a Terra. Os progressos
realizados sob a sua influência, as transformações individuais e
locais que provocaram, em menos de quinze anos, nos permitem
apreciar as imensas modificações fundamentais que são chamados a
determinar no futuro.
Mas se, graças ao
desenvolvimento e à aceitação geral dos ensinos dos Espíritos, o
nível moral da Humanidade tende constantemente a se elevar,
enganar-se-ia estranhamente supondo-se que a moralidade se
tornará preponderante com relação à inteligência. O Espiritismo,
com efeito, não pede para ser aceito cegamente. Ele apela para a
discussão e a luz.
"Em lugar da fé
cega, que anula a liberdade de pensar, ele disse: Não há fé
inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em
todas as épocas da Humanidade. À fé, é necessária uma base, e
essa base é a inteligência perfeita do que se deve crer; para
crer, não basta ver, é preciso sobretudo compreender." (O
Evangelho Segundo o Espiritismo.) É, pois, com justiça que
podemos considerar o Espiritismo como um dos mais poderosos
precursores da aristocracia do futuro, quer dizer, da
aristocracia intelectomoral.
|