O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Os Mandamentos - Explicados em Espírito e Verdade

Autor:
J. B. Roustaing

Data:
01/02/2002

Fonte:
Os Quatro Evangelhos

DOUTRINA

     

DECÁLOGO

Deus, como sabeis, não se comunica diretamente com os homens.

Segundo, porém, a maneira de ver dos Hebreus, era o próprio Deus, sempre Deus, quem falava a Moisés. Era preciso que fosse assim.

Espírito elevado, com relação ao povo hebreu, que ele dirigia; médium, em certas circunstâncias, vidente, audiente, ou inspirado, e também de efeitos físicos, conforme aos casos e às necessidades da sua missão, Moisés se viu obrigado, para dar força e valor aos mandamentos que impunha aos Hebreus, para lhes gravar na memória e nos corações as ordenações e os estatutos que lhes eram indispensáveis naquela época, a cercar-se de todo mistério e de pompas que os impressionassem; a empregar fórmulas capazes de lhes infundir respeito.

Guiado por Espíritos que lhe eram superiores, previa alguns fatos que haviam de dar-se, descobria capacidades, que a multidão desconhecia, isto é, compreendia a ação espiritual sobre o homem e as faculdades materiais necessárias ao desenvolvimento dessa ação. Como sabeis, para que o médium possa operar, é preciso que se ache em determinadas condições fluídicas. Ele tinha a impressão dessas condições e antevia o papel que, aos olhos dos Hebreus, elas desempenhariam, verificando-se, primeiro, nele próprio, depois em outros. Mas, se dissera aos Hebreus: Moisés vos anuncia; Moisés vos concita; Moisés vos ensina; teria sido apupado, teria provocado o riso.

O mesmo modo, para fortemente impressionar e abalar homens que ainda por longo tempo tinham de ser conduzidos pelo temor e pelo terror, para impor o respeito à lei que lhes era dada, foi que no Sinai se produziu aquela formidável manifestação, que precedeu, acompanhou e se seguiu à promulgação do Decálogo e que o cercou de tanto mistério e de tão grande pompa. Dessa manifestação podeis inteirar-vos pelo que sabeis relativamente a efeitos semelhantes produzidos em todos os tempos e ainda agora.

Assim como as outras manifestações físicas de ordem material e de ordem inteligente, relatadas no Antigo Testamento, tudo o que a respeito da de que vimos tratando vos é aí referido foi obra dos Espíritos prepostos à produção de tal efeito.

Esses Espíritos provocaram ruídos mediante o choque de fluídos inflamáveis e desse modo fizeram que a multidão reunida no sopé do monte visse a aparência de um fogo ardente, do qual se desprendia um vapor inflamado, e produziram, como consta do Êxodo, XIX, vv. 16 a 19 e XX, v.18, os efeitos físicos que ali se diz terem sido – trovões, relâmpagos e uma caliginosa e densa nuvem que cobriu o monte, elevando-se-lhe do alto como se de uma fornalha. Manejando fluidos sônicos, causaram o efeito físico “do som de trombeta, que aumentava pouco a pouco e se tornava mais forte e mais agudo”.

A proibição aos Hebreus de transporem a barreira foi motivada pelo perigo, que alguns poderiam ocasionar, do rompimento das colunas de fluidos que se entrechocavam no monte, fato que daria lugar a acidentes semelhantes aos que resultam da passagem do raio.

Estas palavras ditas a Moisés (Êxodo, XX, v.19): “Fala-nos tu mesmo e nós te escutaremos; mas que não nos fale Deus, para que não morramos”, aludem ao ribombo “dos trovoes”, que a multidão tomava pela voz do próprio Deus.

Empregando e combinando fluidos tornados opacos, os Espíritos prepostos produziram – “aquela obscuridade” em que (segundo a expressão bíblica, Êxodo, XX, v.22) Deus estava, isto é, em que estava o Espírito superior, seu enviado, e em que Moisés, após a promulgação do Decálogo, foi receber desse enviado as instruções particulares, as ordenações, os estatutos, indispensáveis aos Hebreus naquela época.

As primeiras tábuas da lei, as quais Deus, com a sua presciência, sabia que seriam quebradas, escreveu-as o próprio Moisés, como médium mecânico e audiente, sob a influência espírita. Elas foram, pois, obra de Deus, por intermédio do Espírito superior enviado, Espírito que, invisível para Moisés, lhe fez ouvir as palavras dos Mandamentos, ao mesmo tempo que fazia com que ele os escrevesse mecanicamente, sob a impressão de que provinham do próprio Deus.

As segundas tábuas Moisés as escreveu também mecanicamente, debaixo da inspiração do Espírito superior enviado. Tão inconsciente, porém, ele se conservou dessa inspiração, que acreditou tê-las escrito “de memória e trazido aos Hebreus, gravadas e tais como se recordava que eram”. Se, entretanto, houveram dito ao povo: “Lembrei-me das palavras gravadas nas primeira tábuas e as reproduzi”, teria feito que duvidassem das procedência delas e que desprezassem a lei. Para que tal não acontecesse foi que, inspirado pelos Espíritos superiores que o assistiam na sua missão, apresentou, crente de ser essa a realidade, as segundas tábuas como escritas, semelhantemente às primeiras, “pelo dedo de Deus”, conforme à expressão bíblica. Moisés, no Sinai, acreditava estar em comunicação direta com o Senhor.

Lede com atenção, na linguagem oriental e apropriada aos tempos, os povos, ao estado das inteligências e ao fim que se tinha em vista alcançar, a narrativa do que se refere à promulgação do Decálogo, ao que ocorreu às vistas do povo hebreu relativamente à preparação e ao fato dessa promulgação, ao que ocorreu para serem dadas a Moisés as instruções particulares que ele recebeu e àquele povo, por seu intermédio, as ordenações e estatutos que lhe eram então indispensáveis; lede a narrativa do que se passou quando Moisés, tendo recebido as duas tábuas da lei, desceu do Sinai, avisado, pelo Espírito superior, dos atos de idolatria que se praticavam no acampamento; do que se deu em seguida, desde o momento em que ele atirou ao chão e quebrou as primeiras tábuas na falda do monte, até o em que deste desceu segunda vez trazendo as novas tábuas; e, se atentardes no que se acha dito acerca dos acontecimentos que precederam, prepararam e efetivaram a promulgação do Decálogo e acerca do que sucedeu para que Moisés entrasse no desempenho público da sua missão e do que se seguiu, compreendereis a necessidade que havia, de acordo com a presciência e a sabedoria infinitas de Deus, de conduzir-se pelo terror aquele povo atrasado, indócil, sempre pronto a esquecer e desconhecer o seu Deus, a se subtrair à direção do seu enviado, profundamente imbuído dos prejuízos, das idéias politeístas, de tendências para a idolatria e no seio do qual se tinham que preparar o advento do Messias, os elementos e os meios apropriados ao desempenho da sua missão terrena e ao da missão dos apóstolos. Compreendereis a necessidade que havia de serem os Hebreus, termédio daquele que os chefiava, em contacto com o seu Deus, sob as mãos do próprio Deus, do “Eterno”, único eterno, “Senhor acima de todos os deuses, do Deus forte e cioso, que exerce vingança contra os que lhe desconhecem a lei, que pune a iniqüidade dos pais nos filhos na terceira e quarta gerações dos que o odeiam, que usa de misericórdia na sucessão de mil gerações para que com os que o amam e guardam seus mandamentos, seus preceitos”.

Dar-vos-emos, dentro em pouco, ao explicarmos o segundo Mandamento do Decálogo, o verdadeiro sentido desta últimas palavras que, tomadas à letra, seriam uma enormidade e que, segundo o espírito, em espírito e verdade, são a expressão sublime da justiça e da bondade de Deus.

Há um fato sobre o qual não devemos guardar silêncio e que, para os que lhe não sabem compreender nem explicar a necessidade, o motivo e o fim, conformemente à presciência e à sabedoria do Senhor, constitui uma monstruosidade. Esse fato, de que, mais tarde, sob o império da branda e pura lei de amor e caridade que o Cristo veio trazer aos homens, a ignorância, o fanatismo, a vertigem do poder e a ambição fizeram uma arma e um exemplo, é o do massacre que Moisés ordenou fosse feito, em nome do Senhor, dentro do acampamento hebreu, nas circunstâncias referidas no Êxodo, capítulo XXXII.

“Moisés, diz-se ali, vendo então que o povo ficara inteiramente nu (pois que Aarão o despojara por aquela abominação vergonhosa e o pusera todo nu no meio dos seus inimigos), parou à porta do acampamento e disse: Junte-se a mim todo aquele que for do Senhor. E, tendo-se reunido ao seu derredor todos os filhos de Levi, disse-lhes ele: Eis o que diz o Senhor, o Deus de Israel: Ponha cada homem na cintura sua espada; passai e repassai através do campo, de uma porta à outra, e que cada um mate seu irmão, seu amigo e aquele que lhe for mais chegado.” – “Os filhos de Levi fizeram o que Moisés ordenara e houve cerca de três mil homens mortos esse dia. – Então Moisés lhe disse: Tendes, cada um de vós, consagrado vossas mãos ao Senhor, mesmo matando vosso filho e vosso irmão, a fim de que a benção de Deus vos seja dada.” (Êxodo, cap XXXII, vv. 25-29.).

Quando da encarnação daquela geração de homens, maior talvez do que na época atual era a mistura dos Espíritos que revestiam o corpo carnal. A maioria deles tomara por missão manter a Terra e popularizar a idéia da unidade de Deus. Mas, sentindo-se demasiado fracos para perseverar, muitos haviam pedido que o curso da existência lhes fosse detido, caso faltassem aos seus compromissos.

Vimos de dizer: “Sentindo-se demasiado fracos para perseverar.” Sabeis, com efeito, que o espírito, sobretudo o espírito inferior, conserva por mais ou menos tempo, na erraticidade, os preconceitos, as opiniões, as idéias, os pendores, as tendências da sua precedente encarnação. De sorte que, quando se prepara para outras provas, tem que temer e teme que. Em a nova existência terrestre, voltem a dominá-lo esses preconceitos, opiniões, tendências e pendores, contra os quais lhe cumpre lutar como encarnado.

Assim é que freqüentemente vedes entre vós mancebos, até crianças, que, apresentando indícios de más paixões, mostrando-se viciosos, mesmo em centros de depuração, vêm a ter cortado o fio de suas existências, a fim de que possam, por meio de reflexões e estudos feitos na erraticidade, adquirir a força que ainda lhes faltava. São Espíritos que pediram lhes fosse detido o curso da vida terrena, caso faltasse a seus compromissos.

Essa categoria de Espíritos é menos culpada. Peca mais por fraqueza do que por vontade. E a morte prematura, que eles lhe pediram nessas circunstâncias, lhes auxilia o desenvolvimento, o progresso.

Entre os encarnados da geração a que nos estamos referindo, havia também uma categoria de Espíritos que tinha de expiar assassínios por eles cometidos (nessa época grosseira se praticavam tantos!) e que pediram aquela expiação para conseguirem, pela aplicação da lei de talião, depurar-se, reparar e progredir.

Os que tombaram mortos aos golpes dos levitas tiveram uma sorte prevista e por ele pedida, porquanto uns pertenciam à categoria dos que haviam tomado por missão manter na Terra e popularizar a idéia de unidade de Deus e rogado que o curso da existência terrena lhes fosse detido, caso faltassem aos seus compromissos; pertencendo os outros à dos que, tendo de expiar assassínios por eles cometidos anteriormente, pediram aquela expiação e a sofreram.

Foi assim e nenhum golpe se perdeu, porque, em circunstâncias tais, como deveis compreender, os Espíritos protetores, prepostos a vigiar as provas e expiações de cada um, para que elas se cumprissem, impelindo os culpados ou dirigindo as espadas dos que acutilavam, faziam que aqueles recebessem o golpe que os prostaria. Deu-se ali o que se dá com a bala que deve ferir a este ou aquele e que segue a sua trajetória, mesmo quando toda a probabilidade era de que se perdesse.

Dissemos que os Espíritos prepostos a vigiar as provas e expiações de cada um, a fim de que elas se cumprissem, impeliam os culpados ou dirigiam as espadas dos que acutilavam, no sentido de que aqueles Espíritos, para que as provas e expiações se verificassem, atuavam sobre o culpado e sobre o que empunhava a espada: sobre o culpado e sobre o que empunhava a espada: sobre um pela ação do magnetismo espiritual, sobre o outro por meio da inspiração e da ação fluídica. Aqui é que, considerando a Providência divina e a ação, sobre o homem, dos Espíritos prepostos, a obrarem debaixo da direção da presciência e da sabedoria infinitas de Deus, podeis dizer: “O homem se agita e Deus o conduz.”

Nada é sem motivo e sem objetivo. O que o homem muitas vezes encara como ato de uma vontade arbitraria, nunca é senão a conseqüência do passado, ou a preparação do futuro.

Assim, o massacre que Moisés ordenou em nome do Senhor teve por motivo e por fim: de um lado, deter o curso da existência terrena de alguns Espíritos, conformemente ao que eles pediram, nos termos e nas condições das provas escolhidas por uns e das expiações solicitadas por outros, provas e expiações pelas quais todos tinham que passar, e não apenas fazer arbitrariamente vítimas perdidas, porquanto os que pereceram, repetimos, tiveram sorte prevista e pedida; de outro lado, impor, pelo terror, pelo medo, àqueles homens atrasados, indóceis, inclinados à idolatria, à revolta, sempre prontos a esquecer e desconhecer o seu Deus, a se subtrair à direção do enviado deste, absoluta submissão à vontade, aos mandamentos e preceitos divinos; fazer-lhes compreender a necessidade dessa submissão; forçá-los a caminhar, dóceis à voz de seu chefe, pelas sendas que lhes estavam traçadas e a desempenhar a tarefa providencial que lhes fora confiada na marcha do progresso da humanidade.

Moisés era, pois, um instrumento humano que, sob as inspirações dos Espíritos do Senhor que o assistiam na sua missão, obrava para que fosse detido o curso de provas que haviam falhado e se cumprissem determinadas expiações, fazendo que os que caíam aos golpes dos levitas sofressem a sorte por eles mesmos prevista e perdida. E, também, procedendo dessa maneira, preparava o futuro. Cada época tem seus costumes e necessidades.

Não julgueis, portanto, do vosso ponto de vista e de acordo com os tempos em que viveis. Reportai-vos, com relação aos Hebreus, aos tempos, aos homens, aos preconceitos, às crenças, às condições que era indispensável se verificassem para que executasse a obra que se tinha de executar naquela época e no futuro.

Desde aqueles tempos bárbaros e em outros nos quais a civilização e a inteligência já estavam muito mais apuradas, não há visto, pelo que toca as coisas de ordem humana, sempre que uma revolta explodiu, a dizimação de homens, para que, num exército, fosse mantida a disciplina, a submissão aos chefes incumbidos de comandá-lo?

Pelo que respeita às coisas de ordem religiosa, não se hão feito freqüentemente, muito freqüentemente mesmo, massacres em nome de Deus?

Para terdes disso alguns dos numerosos exemplos que a história da vossa humanidade colheu, lembrai-vos das guerras religiosas, dos autos-de-fé espanhóis e por fim da carnificina do dia de São Bartolomeu.

Não são sempre os ministros do culto, por efeito da ignorância, do fanatismo, do abuso do poder, da ambição, impelindo os homens a se matarem reciprocamente, nas guerras religiosas, a fim de consagrarem eles sua mãos ao Senhor, e atraírem as bênçãos de Deus? Matando eles próprios, nos autos-de-fé espanhóis, em honra do seu Deus e para obterem suas graças?

E quais foram os instigadores do massacre de São Bartolomeu? Os sacerdotes, os servidores de Deus! Qual foi aí, como nas guerras religiosas, o móvel? A ambição, porém, não mais a de se engrandecerem aos olhos de Deus, e sim a de conservarem o poder.

Recordando estas fases da história do passado, estes massacres e guerras religiosas, não abrimos exceção a favor dos padres protestantes, que também excitaram seus rebanhos contra os católicos e igualmente mataram.

Uns, como os levitas de Moisés, matavam para provar que eram filhos de Deus! Aos outros, estes, como os protestantes, matavam para conquistar o poder; aqueles, como os católicos, para evitar que o poder lhes fosse arrebatado.

E então não havia, como ao tempo dos Hebreus, um enviado de Deus, qual Moisés junto do Sinai, falando em nome do Senhor e dizendo a seus levitas: “Eis o que diz o Senhor, o Deus de Israel”; e dizendo, depois de concluída a obra: “Consagrastes vossas mãos ao Senhor, mesmo matando cada um seu filho e seu irmão, a fim de que a benção de Deus vos seja dada”. Não; a necessidade, o motivo e o fim a que obedecera o ato de Moisés não existiam mais. Esses massacres, essas guerras religiosas, esses autos-de-fé, esse S. Bartolomeu foram obra humana da ignorância do fanatismo, do abuso do poder, da ambição, que fizeram, do fato ocorrido ao pé do Sinai, por ordem de Moisés e pelo braço armado dos levitas, uma arma e um exemplo.

E porque esses massacres, essas guerras religiosas, esses autos-de-fé, esse S. Bartolomeu? Porque os homens da Igreja não quiseram compreender que a sua missão não consiste em fazer parar os que lhes estão confiados e obrigá-los a olhar para trás; mas, ao contrário, em impeli-los para diante, pela senda do progresso.

Se, por um lado, instigadores culpados de semelhantes carnificinas tiveram que sofrer longa e dolorosa expiação, por outro lado, os que nelas pereceram, bem como os que tombaram aos golpes dos levitas no campo israelita, não foram vítimas perdidas, porquanto, como já o temos dito e repetimos, nada ocorre que não seja conseqüência do passado e preparação do futuro, sob a influencia e a ação dos Espíritos prepostos a vigiar pelas provas e expiações de cada um. Os que pereceram tiveram a sorte por eles prevista e pedida. Deus, mesmo com relação ao instante da morte de suas criaturas, nada espera do que, na ignorância em que vos achais assim das causas como dos fenômenos, chamais o acaso.

Vamos agora explicar-vos, em espírito e verdade, o Decálogo. Vamos dar-vos uma explicação, não relativa e restrita aos Hebreus, aos “Cristãos”, mas geral, passível de aplicar-se a todos os povos e a todas as épocas. Podeis começar.

“Então fez Deus que se ouvissem estas palavras:” Eu sou o Eterno, o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito e da casa da servidão.”

Deus, criador de tudo o que é, tirou do nada o espírito (daqui a pouco explicaremos o sentido que deveis atribuir a essa palavra tomada à linguagem humana), para lhe dar o ser, o pensamento, a personalidade. Foi por sua vontade onipotente que o homem saiu das faixas da matéria, para ensaiar seus primeiros passos na senda espiritual. Foi ele ainda, o Senhor, quem lhe mostrou o caminho que o leva para fora da escravidão do pecado e da matéria, iluminando-o com o facho da verdade.

Povos da Terra, levantai os olhos! “A coluna luminosa”, que vos há de guiar para fora da escravidão, que vos há de conduzir à pátria da liberdade, se move à vossa frente. O espírito da Verdade acendeu o farol para o qual devem os vossos olhares voltar-se. Caminhai, caminhai sem descanso, pois tendes a chegar à “terra prometida”, onde “correm o leite e o mel” da palavra de paz e de amor a Deus.

 

MOISÉS, ELIAS, JOÃO (1), MATEUS, MARCOS, LUCAS, JOÃO
assistidos pelos Apóstolos

 

Falando do Espírito, dissemos que Deus o tirara do “nada”, para lhe dar o ser, o pensamento e a personalidade. O nada, na acepção humana em que empregais esse termo, não existe, é uma coisa sem sentido, do ponto de vista correlativo de Deus e da criação.

O nada, para o Espírito, é, espiritualmente, a inconsciência do ser. Assim, o princípio espiritual contido nos minerais e nos vegetais está no nada, com relação ao seu ser.

O nada da matéria propriamente dita é a volatilização dos princípios materiais que devem aglomerar-se para constituir, quer os planetas, quer os corpos. É assim que foi explicado haver Deus feito sair do nada, do caos, o mundo. Foi porque ele constituiu em um corpo as moléculas esparsas na imensidade.

 

PRIMEIRO MANDAMENTO

Não terás outros deuses diante da minha face.

 

Jeová é o Deus só e único, o Criador incriado, aquele que é, aquele de quem, por quem e em quem tudo é. Não desvie o homem do seu Criador o pensamento, para pô-lo na criatura e lhe render culto e homenagem devidas tão-somente ao Senhor, não porque ele seja um Deus cioso, mas porque o homem é um Espírito fraco, que facilmente se afasta do caminho e penosamente a este volve.

 

SEGUNDO MANDAMENTO

Não farás imagens esculpidas das coisas que estão em cima, nos céus, nem embaixo, sobre a terra, nem nas águas, sob a terra. – Não te prostarás diante delas; não as adorarás, nem as servirás, porquanto eu sou o Eterno teu Deus, o Deus forte e cioso que puno a iniqüidade dos pais nos filhos na terceira e na quarta gerações dos que me odeiam e que uso de misericórdia, na sucessão de mil gerações, com os que me amam e guardam meus mandamentos.

 

A unidade de Deus, sendo o princípio fundamental da fé, teve que ser salvaguardada pelos teólogos. As nossas palavras remontam até à origem da crença. Todos os que se achavam à frente do culto a possuíam firme, embora entre o povo espalhassem outra.

A idéia da unidade de Deus se perpetuou em todas as idades, no seio de todos os povos, ainda que sem o caráter de generalidade. Quer dizer, conquanto não fosse geral, era partilhada pelos espíritos intelectualmente mais adiantados, se bem menos virtuosos, que governavam os povos, quer como sacerdotes, quer como filósofos ou sábios.

A proibição de fazerem imitações das coisas criadas não implica, para os homens, a obrigação de se privarem de tais reproduções. Proibiu-se-lhes apenas que se prostrassem diante delas e as servissem, a fim de que a unidade do principio criador fosse sempre mantida. Mas, os homens, materiais por natureza, tinham necessidade de representações materiais, para alimentar sua fé. Daí a adoração, o culto prestado ao que, desde a origem, não passava de representações sem importância, isto é, de simulacros colocados nos templos como ornatos. Transportai-vos ao templo de Salomão e, nos quatro cantos do altar, vereis anjos de asas espalmadas, outros voltados para o Oriente, para o Ocidente, etc. A representação artística e simbólica não era interdita. Era-o apenas o culto votado a essas representações.

Moisés, naquela ocasião, lembrou ao Hebreus o poder de Deus, de quem era ele o representante, apresentando-o como “forte e cioso”, isto é, sem admitir a partilha de seus direitos e com o poder de os fazer respeitar, não, porém, ferindo o inocente para punir o culpado até à terceira e à quarta gerações, nem concedendo graça aos culpados, através de mil gerações, por favor a um justo que houvesse servido de tronco a essa posteridade. Fraqueza da inteligência humana!

Essa punição, como essa misericórdia, verdadeiras monstruosidades, se entendidas segundo a letra, são, segundo o espírito, a expressão sublime da justiça e, ao mesmo tempo, da bondade infinita de Deus. A explicação e a justificativa de compreender-se aquela sentença desse duplo ponto de vista, achá-las-eis no princípio da reencarnação, que mostra o castigo a cair sempre, de gerações em gerações, sobre o Espírito culpado e a misericórdia sempre a descer, também de gerações em gerações, sobre o Espírito que se depura e progride para o bem.

Os espíritos geralmente se agregam, formando categorias se seres similares. Ora, compreende-se que esposos culpados atraiam para o seu lar Espíritos pouco adiantados, dispostos a seguir os caminhos que eles trilham; do mesmo modo que os que observam as leis do Senhor e cuja posteridade há de ser cada vez mais virtuosa atraiam, de geração em geração, Espíritos cada vez mais adiantados.

Vimos de dizer: “Compreende-se que esposos culpados atraiam para o seu lar Espíritos pouco adiantados, dispostos a seguir os caminhos que eles trilham.” Efetivamente, isso é bem compreensível. Antes de tudo, sabeis haver Espíritos que, pouco desejosos de progredir, procuram os laços de simpatia, seja esta oriunda do bem, seja do mal, que já os prenderam; e outros que, embora impulsionados pelo desejo de progredir, escolhem meios cujas influências perniciosas não podem vencer. Repetimos, não obstante já visto vos ter sido dito muitas vezes, que, sobretudo neste último caso, o Espírito é prevenido dos perigos que correrá, encarnado, e da queda, quase inevitável, que daí lhe resultará. Se persiste, é por sua livre vontade.

Compreendei, de conformidade com esses princípios, a progressão do castigo e da misericórdia. O castigo se verifica na terceira e na quarta gerações, porque, pouco a pouco, o Espírito se depura ou por efeito da encarnação de outros no meio que ele tem preferido, ou por efeito das provações pelas quais passa aí repetidamente. Desde que um começo de melhora se faz sentir nele, o Espírito entra na senda do progresso, atrai a si companheiros também mais adiantados e, através de mil gerações e mesmo mais, se vai mostrando cada vez melhor, até atingir, por fim, a perfeição.

 

TERCEIRO MANDAMENTO

Não tomarás em vão o nome do Eterno, do Senhor teu Deus; porquanto o Eterno, o Senhor, não terá por inocente aquele que em vão houver tomado o seu nome.

 

Não devendo perder de vista a unidade de Deus, não devendo prosternar-se diante de nenhuma imagem para adorá-la, também não devia o homem dar o título de Deus, nem atribuir seu poder, a nenhuma criatura, a nenhuma imitação. Por extensão, não deve tampouco usar mal do nome do Senhor, desde que esse nome lhe desperta um pensamento sério. Igualmente, se não ainda mais, com referência ao Criador de todas as coisas é que se estende a recomendação de Jesus aos homens para que de nenhuma forma jurassem: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; “nem pela terra, porque lhe serve de escabelo para os pés.”

Cuidai, pois, de suprimir da vossa linguagem esses juramentos feitos “diante de Deus, à face do céu”, ou mediante qualquer outra expressão exagerada, que todas quase sempre ocultam, mesmo àquele que as emprega, a pouca confiança que nelas ele próprio deposita. Esforçai-vos por encaminhar sempre o vosso pensamento para o Senhor, quando o sue nome invocardes. Constitui um abuso fazê-lo em circunstâncias triviais ou culposas.

A invocação do nome de Deus, feita com o coração cheio de sinceridade, atrai, não o próprio Deus à vossa presença, porquanto muito longe ainda está o planeta terreno do ponto que há de alcançar para que isso se dê, mas o amparo dos Espíritos superiores, dos bons Espíritos que o pai de família investiu no governo de seus filhos e que lhes transmitem suas vontades, até que, pela purificação e pelo progresso, a inteligência se lhes ache bastante desenvolvida para não mais necessitarem de intermediários.

 

QUARTO MANDAMENTO

Lembra-te do dia de Sábado para o santificares. Trabalharás seis dias e farás a tua obra, mas o sétimo dia é o dia de descanso, consagrado ao Eterno, ao Senhor teu Deus. Não farás obra alguma nesse dia, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teus servo, nem tua serva, nem teu gado, nem teu hóspede, o estrangeiro que estiver dentro dos muros de tuas cidades.

 

Este mandamento, a que foi dado o cunho religioso, é uma lei inteiramente civil e de utilidade humanitária, que teve se ser imposta aos Hebreus, a fim de domar neles o pendor para o abuso do poder.

A do trabalho é uma lei necessária à humanidade. E pelo trabalho que ela progride, que adquire ou repara. Mas o repouso não é menos indispensável, assim ao corpo, como ao espírito.

Dizem aos homens: Daí ao vosso corpo tempo de refazer suas forcas, daí ao vosso espírito ensejo de se libertar dos cuidados da matéria, a fim de que possa elevar-se para o seu Criador e afastar-se da Terra que o retém cativo, a fim de se alcandorar, por meio da esperança e da meditação, às esferas elevadas que o aguardam, não teria bastado. E ainda agora seria bastante?

Havia, nesse mandamento, um sentimento profundo de filantropia, que os homens não souberam apreciar. Os povos antigos, dados todos aos abusos da força, tinham, todos eles, escravos encarregados dos mais rudes trabalhos. Não se fazia mister assegurar a estes um repouso necessário, tornando isso uma obrigação para seus senhores? Os animais, votados ao desprezo, porque tidos como carentes de alma, de inteligência, considerados como coisas, como incapazes mesmo da sensação de dor, teriam sido, sem esse mandamento, levados, pelo excesso de trabalho, a extrema fadiga, as raças se teriam esgotado e as mais úteis ao homem desapareceriam da superfície da terra, por efeito da degenerescência.

Quanto ao estrangeiro que, considerado hóspede, devia ser respeitado, se o mandamento o não atingisse, provavelmente se teria visto oprimido, no dia de sábado, por todos os trabalhos de que cumpria se abstivessem os fiéis. E violada estaria a hospitalidade, lei santa que os antigos geralmente respeitavam.

Notai que em todos os cultos se vos depara essa salvaguarda da saúde pelo repouso.

Hoje, ó bem-amados, nós vos dizemos: Trabalhai, trabalhai, com coragem e zelo, porém, não ultrapasseis nunca os limites das vossas forças. Guardai e fazei guardar o Sábado, não por puerilidade, mas porque a razão vos diz que necessitais de descanso um dia ou outro. Tomai-o quando dele sentirdes séria necessidade. Sobretudo, jamais sobrecarregueis de trabalho os vossos inferiores e respeitai o repouso do gado.

Os Hebreus levavam tão longe a observância do sábado, que a própria terra repousava, não no sétimo dia, mas no sétimo ano. Este método, que parecerá infantil aos modernos agricultores, tinha, no entanto, sua razão de ser. Sendo menos numerosos os homens, menores as necessidades, possível era dar-se a terra o luxo de um repouso que lhe permitia readquirir forças naturalmente, sem o recurso a artifícios, cujo abuso gera muitas das enfermidades de que padeceis, sem lhes descobrirdes as verdadeiras causas. Os rebanhos encontravam pastagens nas terras que repousavam e a presença deles ali bastava para restituir ao solo os sais necessários à reprodução dos vegetais. Isto, porém, sai do quadro dos nossos trabalhos.

Terminando, nós vos dizemos, como Jesus e com Jesus: “O Sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado.” Nunca esqueçais estas palavras do Mestre e ponde-as em prática tais quais vos foram explicadas, em espírito e verdade, no comentário sobre os Evangelhos.

Em seguida a este Mandamento se lê: “Porquanto, o Eterno, o Senhor, fez, em seis dias, os céus, a terra e o mar e tudo o que está neles e descansou no sétimo dia. “Eis porque o Eterno, o Senhor, abençoou o dia de repouso e o santificou.

Há nestas palavras um comentário acrescentado à lei por Moisés, a fim de lhe dar mais força e valor aos olhos dos homens. Elas resumem as explicações que ele deu ao povo, para que este compreendesse a necessidade do descanso que se lhe prescrevia. Tão necessário era este, que Deus o impusera a si mesmo.

Falando a homens pouco adiantados, Moisés usava uma linguagem que lhes era possível compreender. E ele próprio, conquanto versado nas ciências e mistérios egípcios, não possuía, como encarnado, os conhecimentos que depois o trabalho dos séculos desenvolveu.

Pode conciliar-se o que Moisés, por essas palavras, disse de Deus e da Criação com o que atualmente se conhece e está assente, tanto pela ciência humana, quanto pela revelação e pela ciência espíritas?

É inútil tentá-lo. Moisés, interpretando, como o fez, o mandamento do descanso e dando-lhe origem tão augusta, não teve outra intenção além da de gravar mais profundamente, no coração dos Hebreus, o respeito àquela lei.

A criação ele a dividiu em seis épocas e não dias e o fez, não por efeito de pesquisas científicas, mas sempre com o mesmo objetivo. O mandamento que, reclamado pelas necessidades humanas, impunha o repouso septenário, protegia os fracos. E Moisés obrigou os fortes a se submeterem.

É então impossível toda explicação entre os sábios e os padres, com o fim de conciliarem o texto relativo às seis épocas com os dados atuais da ciência humana?

Impossível, com efeito, pois que a própria ciência não tem sobre isso a última palavra.

Os cataclismos que hão ocasionado as transformações do vosso planeta ainda a Ciência os não pode calcular, tanto mais quando, tendo sido parciais, muitas vezes fizeram passar de uma parte para outra os elementos de produção. Ainda não chegastes ao termo deles. Muitos, parciais a princípio, depois gerais, virão a produzir-se, derrocando o estado atual, para destruir o princípio material e levar o planeta terreno ao ponto de partida, isto é, ao estado fluídico, mas em que os fluídos se acharão expurgados de todas as moléculas materiais.

 

QUINTO MANDAMENTO


Honra a teu pai e a tua mãe.

 

Compreenda os Mandamentos do Senhor, em toda a sua grandeza, aquele que quiser obedecer-lhes. Honra a teu pai e a tua mãe: Estes são os chefes que o Senhor te dá, os guias encarnados que prepôs à tua guarda. Mas, os que se encarregam da tua educação, que te desenvolvem a inteligência, que vigiam a tua adolescência, não são também teu pai e tua mãe – espirituais? E, por vezes, não fazem mais do que o pai e a mãe segundo a carne, que esquecem seus sagrados deveres e deixam o filho, que o Senhor lhes confiou, entregue a seus maus pendores, quando não chegam até a fazê-lo ceder às inclinações más que neles predominam, dando-lhe o exemplo do orgulho ou do egoísmo, da luxúria, dos vícios e paixões inferiores que degradam a humanidade e levam o Espírito à perdição, fazendo-o falir em suas provas?

O chefe de Estado, o juiz que governa com sabedoria, que faz justiça a todos, que dispensa sua solicitude até ao mais íntimo de seus administrados, não é um pai a quem deves honrar, pois governa uma grande família?

E, falando assim, as nossas palavras se estendem a todo aquele que, como superior, qualquer que seja a sua condição, cumpre santamente suas obrigações para com os que lhe estão subordinados. A lei do respeito e do amor deve abranger todas as classes, todas as condições. É a cadeia que liga uns aos outros todos os membros da família universal.

A fim de que teus dias sejam prolongados na terra que o Eterno, o Senhor teu Deus, te dará.

Estas palavras, aditadas à lei, constituem um acréscimo feito por Moisés ao quinto Mandamento, tendo ainda por fim forçar à obediência e ao respeito à lei homens dominados unicamente pelo egoísmo e pelo instinto do presente.

Bem viver e viver longo constituía para tais homens a primeira e única preocupação. Pelo ponto sensível era, pois, que importava prendê-los. E Moisés bem o percebeu.

Mas, tomai, ó filhos amados, a palavra – terra em acepção simbólica e compreendereis como a vossa vida poderá prolongar-se em a morada, que reservada vos está, no sentido de que mais cedo a ela podereis chegar, cumprindo melhor os vossos deveres. Como sabeis, a morada reservada aos homens que o merecem são as esferas superiores, que eles atingem à medida que se elevam e a que tanto mais cedo chegarão quanto mais esforços fizerem por se aperfeiçoar.

Homem, honra a teu pai e a tua mãe e teus dias serão prolongados na terra que o Senhor teu Deus te dará. Mas, compreende-o bem, essa terra não é o solo que pisam teus pés.

As dificuldades que surgiram na interpretação dos Mandamentos nasceram de não terem querido ou não terem sabido os interpretadores distinguir do princípio exarado na lei as adições feitas à lei, separar o que veio de Deus do que veio do homem, sob a inspiração divina, por intermédio dos Espíritos superiores, com um objetivo transitório e humano. O que, na lei, vem de Deus é imutável; o que veio por aquela inspiração divina foi um meio de que Moisés se serviu para, atendendo ao momento, segundo a letra, e preparando o futuro, segundo o espírito, auxiliar o progresso humano, de conformidade com as necessidades da época.

Na Terra em que habitais, enquanto a ocupardes pela encarnação, vossos dias não podem ser prolongados.

No O Livro dos Espíritos se lê, com relação à morte, o seguinte: “De fatal, no verdadeiro sentido da palavra, não há senão o instante da morte. Em chegando esse momento, ou por um meio ou por outro, não vos podeis subtrair a ele”. – Depois, como resposta a esta pergunta: “Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não morreremos se a hora não for chegada?” se lê: “Não, não perecerás e tens disso milhares de exemplos; mas, tendo chegado a hora de partires, nada pode obstar à tua partida”. – Diante dessas palavras e destas que acabais de proferir mediunicamente: “Na terra em que habitais, enquanto a ocupardes pela encarnação, vossos dias não podem ser prolongados” – em que sentido, em que condições e segundo que regras se deve entender que o instante da morte é fatal? Deve-se entendê-lo de modo absoluto e no sentido de que o homem nada pode conseguir, para abreviar sua existência, pelo uso e abuso do seu livre-arbítrio, por seus atos, pela maneira por que se utiliza da sua existência, deixando de cumprir as obrigações que lhe são impostas para que o corpo lhe dure até ao termo de sua provações?

O Livro dos Espíritos era a base da revelação, porém não a revelação toda. Se nessa obra se houvesse entrado em todos os pormenores, mais terríveis teriam sido as tempestades que ela levantou, mais numerosos os antagonistas, mais penosa a luta. Foi preciso, primeiramente, desentulhar o caminho e mostrar a luz que cintilava por entre as abertas do silvedo. Pouco a pouco, o horizonte foi sendo alargado e ainda o será mais.

Sob certos pontos de vista, como esse que ali se adotou, mas sem que se houvesse entrado em todos os desenvolvimentos, a morte é determinada. Credes, porém, fracas e finitas criaturas, que aquele que se move no infinito e abrange com o seu olhar as plêiades inumeráveis de estrelas, de mundos que ele projetou no espaço, mede o tempo com os vossos compassos? Tudo é detido em sua marcha, tudo tem determinada a sua duração, ao simples olhar daquele que é o infinito. Mas, a barreira que se ergue diante de vós não é determinada como o interpretais.

A duração da vida se regula pelo princípio que liga o Espírito ao corpo. O cordão fluídico de que se vos tem falado é a mola que põe em movimento o mecanismo corporal. Determinada é a duração dessa mola, mas dentro de uma amplitude que não podeis compreender e que não se mede pelos minutos da vossa pêndula. Extensão mais ou menos longa que é dada, de acordo com a maneira por que dela fizerdes uso. É como um pedaço de borracha que se pode esticar até certo ponto, conforme a maior ou menor força, a maior ou menor destreza que se empregue.

Conquanto seja difícil fazer-vos compreender esta apreciação, vamos dar-vos o sentido e o alcance do que acabamos de dizer.

A duração do homem tem um limite natural, determinado, no curso regular da existência, pelas leis imutáveis da natureza, pela ação e aplicação dessas leis, de conformidade com os meios e os climas, por isso que os fluidos que servem para a formação e o entretenimento dos seres humanos estão em relação com os climas sobre que eles atuam. E a matéria está em relação adequada com eles, porquanto, segundo a lei de harmonia universal, tudo é determinado. Aí, nesse limite natural, é que está o momento irrevogável do fim humano, fim contra o qual o livre-arbítrio do homem nada pode, no sentido de prolongar além dele a duração do corpo.

Eis qual é, na verdadeira significação da palavra, o instante fatal da morte. Neste sentido é que os dias da criatura humana não podem ser prolongados. Eles não podem ir além daquele limite natural. Mas, o livre-arbítrio do homem pode, seja por meio de suas resoluções espíritas, isto é, pelas determinações que toma, como Espírito, antes de encarnar, seja pelo uso que faz da sua existência como encarnado, interromper o curso desta em determinado tempo, entre o instante do seu nascimento e aquele natural limite, que é a hora fatal do fim humano.

O livre-arbítrio do Espírito o coloca em condições de marcar, antes da encarnação, a duração aproximada do corpo que lhe servirá de envoltório, tomando ele o encargo de cumprir as obrigações necessárias a fazê-lo durar até ao termo de suas provas. Uma vez encarnado, como ignore quanto tempo durarão estas, deve empregar todos os esforços para se por em estado de levá-las a cabo.

Neste caso, tendo, pelas suas resoluções espíritas, marcado a terminação da prova, portanto a duração de sua existência terrena, o Espírito se acha impelido de atingir de atingir o termo geral desta – o seu limite natural. O corpo, então, sob a vigilância e a direção dos Espíritos prepostos à tarefa de velar pelo cumprimento das provas, se forma em condições de durar o tempo predeterminado, cabendo, porém, repetimo-lo, ao Espírito encarnado cumprir todas as obrigações de que dependa a duração dele até ao fim das provas a que serve de instrumento.

Cumpridas que sejam todas essas obrigações, o instante da morte é irrevogável, porém não fatal, no verdadeiro sentido desta palavra, visto ser o resultado do uso que do seu livre-arbítrio fez o Espírito antes de encarnar.

O homem, todavia, pode, pelo exercício desse mesmo livre-arbítrio, pelo abuso que dele faça, pela maneira por que conduza a sua existência, deter o curso desta antes do tempo marcado pelas suas resoluções espíritas, pelas determinações que tomou, como Espírito, antes de encarnar.

Assim é que o doente usa do livre-arbítrio, tanto quanto cuida do seu corpo para torná-lo capaz de levar a cabo as provas que seu Espírito escolheu, como quando apressa a sua morte, quer descuidando-se dele, o que muito se aproxima do suicídio, quer praticando abusos e excessos, desde que esse descuido, esses abusos e excessos constituam infração das obrigações que lhe cabia cumprir para fazê-lo durar até ao fim das provas que escolhera.

O tempo não é, pois, limitado segundo o vosso ponto de vista, se bem o seja com relação ao infinito e às leis que regem o Universo.

Sim, o instante da morte é fatal, no verdadeiro sentido da palavra, porque a vida corpórea não pode ultrapassar certo limite.

Não, o instante da morte não é fatal, relativamente à duração da vossa existência restrita, porque o limite natural, no curso regular da vida terrena, só raramente é atingido, pela razão de que as vossas resoluções espíritas, ou os vossos atos, uns e outras conseqüências do vosso livre-arbítrio, impedem que o atinjais.

Quando, para o homem, é chegada a hora de partir, nada pode eximi-lo da partida. E isto se verifica, desde que essa hora chegue, ou porque o limite natural tenha sido alcançado, ou por efeito de suas resoluções espíritas, ou em conseqüência de atos seus, dada a maneira por que haja conduzido a sua existência, constituíram infração das obrigações que ele tinha necessidade de cumprir, para fazer que seu corpo durasse até ao termo das provas que buscara.

Dentro dessa latitude que vos é concedida, podeis mover-vos e usar do vosso livre-arbítrio que, a não ser assim, não passaria de uma palavra oca e infalivelmente traria a todo aquele que raciocina a idéia de fatalismo, de predestinação, de escravidão moral.

Há, porém, uma distinção a estabelecer-se quanto à duração da vossa existência, restringida, com relação ao limite natural, pelas vossas resoluções espíritas, ou por atos vossos que, conformemente ao emprego que dais à vida corporal, constituem infração das obrigações que tendes necessidade de cumprir, para que o vosso corpo dure até à terminação das provas que escolhestes.

De acordo com o que já vos dissemos, para o homem que cumpriu, que cumpre todas as obrigações cuja observância é necessária para que seu corpo dure até ao termo de suas provas, e que, pelas suas resoluções espíritas, determinou uma duração restrita para a sua excelência, o instante da morte é e permanece irrevogável. Nesse caso, qualquer que seja o perigo que o ameace, ele não perecerá, se a hora não houver chegado. Qualquer que seja a situação em que se encontre, os meios apropriados a salvá-lo lhe serão preparados e colocados ao alcance pelos Espíritos prepostos ao encargo de vigiar o cumprimento das provas, das expiações. Se, ao contrário, a hora chegou, ele morrerá, perecerá. Disso tendes, como se vos disse, milhares de exemplos. De fato, quantas e quantas vezes, no mesmo lugar, uns perecem, outros se salvam!

Já recebestes sobre isto explicações nos comentários aos três primeiros Evangelhos, quanto aos casos de naufrágio, de incêndio, de desmoronamentos subterrâneos, das quedas. Não temos que voltar a esse ponto.

No caso de assassínio, o assassino não é instrumento cego da Providência quando, em determinado tempo, põe termo à prova de um que se destinara a essa expiação. Assim procedendo, usou do seu livre-arbítrio. O assassínio é a conseqüência do livre-arbítrio de um e da escolha das provas, das expiações, feita pelo outro que, aplicando a si mesmo a lei de talião, buscou morrer, ou de morte violenta, mas sem determinar em que época, nem de que gênero seria a morte, ou, então, de uma forma precisa, perecendo assassinado.

No primeiro caso, se o assassino usa do seu livre-arbítrio para domar sua paixões e perdoa ao que ia ser uma vítima, outra circunstância a este se apresentará, que porá fim as suas provas. Estas se cumprirão assim conforme às resoluções que seu Espírito tomou antes de encarnar.

No segundo caso, se o assassino procede da mesma forma, os acontecimentos da vida aproximarão o encarnado, que deva sofrer a expiação de morrer assassinado, de outro encarnado em quem os maus pendores predominam, para que se dê o que haja de dar-se.

O assassino e a vítima, uma vez encarnados, não mais se lembram da escolha que fizeram – um, da prova de que terá de sair vencedor ou vencido e que constitui, para ele, a luta contra uma tendência de que lhe cumpre triunfar; - o outro, da expiação por que deve passar, como meio de reparação e de depuração. Assim, não é por impulso próprio que a vítima se encaminha para o matadouro. Entretanto, algumas vezes, ele prepara, inconscientemente, o caminho que a conduzirá lá, ou é para lá guiada pelos Espíritos prepostos a vigiar o cumprimento das provas, das expiações.

Compreendei bem o sentido destas últimas palavras. Os guias não dirigem os atos do assassino; dirigem o Espírito daquele que sofrer a expiação, dirigem os acontecimentos que o conduzirão ao caminho, seja da prova, seja da expiação. Não deduzais daí que à vítima o Espírito seu protetor dê por inspiração, no momento em que ela desperta, a lembrança da resolução que seu Espírito haja tomado enquanto esteve desprendido, durante o sono, a de se colocar no rumo dos sucessos que tenham de levá-la ao cumprimento da expiação escolhida; não. Isso seria um suplício moral infligido ao encarnado e a Providência é piedosa para com seus filhos. Mas, conforme já vos foi explicado no comentário aos três primeiros Evangelhos, o encarnado, ao despertar, conserva uma impressão vaga, que se torna a determinante da sua vontade, de seus atos.

Se a hora fixada pelas resoluções espíritas, quanto à época da morte, não soou e permanece irrevogável, por estar aquele que se acha submetido à expiação cumprido todas as obrigações de que há de resultar a duração de seu corpo até ao fim de suas provas, os Espíritos prepostos a velar pelo cumprimento destas, das expiações, preparam e põem ao alcance dele os meios próprios a subtraí-lo ao assassínio. Ele se salvará, qualquer que seja o perigo que o ameace.

No caso em que, praticando, pelo uso que faz da usa existência, atos que constituam infração das obrigações que lhe era necessário cumprir para que o corpo lhe durasse até ao fim de suas provas, infração, portanto, de suas resoluções espíritas, o homem detém o curso dessas provas, ele apressa o instante de sua morte. Soa-lhe então a hora de partir, porque, usando e abusando do seu livre-arbítrio, pôs fim à duração de seu corpo, com o fazer que entrassem em ação os meios pelos quais esse fim chega. É que, procedendo daquela forma, ele atraiu fluidos cuja ação, de conformidade com as leis naturais e imutáveis que os regem, prepara e executa a destruição do corpo, a rutura do laço que a este liga o Espírito, desse cordão fluídico que é a mola, o instrumento e o meio de que depende a vida. E, ao mesmo tempo que atraía aqueles fluidos, ele repelia os apropriados à conservação do corpo até ao termo das provas por que devia passar.

O homem que se deixa arrastar ao suicídio usa do seu livre-arbítrio, quer quando atenta, de qualquer modo, contra a vida, quer quando afasta a arma que dirigira contra si mesmo, ou renuncia ao projeto de matar-se e ao gênero de morte que escolhera. Se, porém, a hora que ele, ao tomar as suas resoluções espíritas, fixou para morrer é e se conserva irrevogável, por haverem sido, de sua parte, cumpridas todas as obrigações que lhe importava cumprir para que seu corpo durasse até ao termo de suas provas, os Espíritos prepostos a velar pelo cumprimento destas prepararão e lhe porão ao alcance os meios adequados a se subtrair à morte. O suicídio abortará, ele será salvo.

Não concluais daí que o homem possa seguir impunemente o seu pendor para o suicídio e a ele ceder, atentando contra a própria vida, porquanto, de um lado, o suicídio é crime perante Deus e, de outro, o homem não sabe se chegou ou não a hora da sua partida.

A duração da vida é limitada, mas o livre-arbítrio do homem pode fazê-lo sucumbir ao mau pensamento de interromper ele mesmo o curso da sua existência, ou levá-lo a dominar esse arrastamento culposo.

Aquele que se suicidou, como o que morreu assassinado ou de qualquer outra forma, morreria sempre, mas de maneira diversa, de modo natural, desde que houvesse chegado para ele a hora de partir, quer por haver atingido o limite natural marcado para fim da vida humana que segue o seu curso, regular, quer por haverem suas provas atingido o termo que ele lhes fixou ao tomar suas resoluções espíritas, quer, finalmente, por ter, pelos seus atos, infringido as obrigações que precisava cumprir, a fim de fazer que seu corpo durasse até ao termo daquelas provas.

Cedendo ao arrastamento que lhe cumpria combater, o gênero de morte a que sucumbiu resultou de sua escolha, mas ele partiu porque chegara a hora de partir. Se houvesse combatido os pendores que o impeliam a matar-se, teria saído vencedor da prova, não se veria condenado a recomeçar nas mesmas condições.

O sentimento que induz o homem a se suicidar não lhe nasce no íntimo instantaneamente. É um gérmen que se desenvolve, como que devido a uma tendência constitutiva de uma prova de que ele precisa triunfar. Se, em lugar de combater essa tendência, o homem se lhe entrega, morre culpado, faliu. Se, em vez de se lhe entregar, investe contra a idéia de destruir a existência que o Senhor lhe concedeu, a hora da libertação, quando soar, o encontrará isento da mancha de uma ação má e da dos maus pensamentos que a houverem causado.

Combatendo as tendências que os propeliam para a destruição de si mesmo, evitando a série de acontecimentos que poderiam levá-lo a um tal ato de desespero, o suicida teria podido evitar o crime. O homem pode evitá-lo, pois que pode, pela força da sua vontade, repelir as tentações. Aquele que escolheu, como prova, resistir à tendência aos suicídio, pode sair vencedor da luta. A bondade de Deus lhe faculta os meios; cabe-lhe alcançar a vitória, porquanto, nas provas em que o homem, para purificar seu Espírito no cadinho da reencarnação, é chamado a vencer suas tendências, Deus lhe deixa a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Assim, há sempre luta e possibilidades de triunfo ou de derrota.

Quer sucumba na prova do suicídio, quer triunfe dela, morre sempre no tempo preciso, isto é, quando chega para ele a hora de partir, de uma das maneiras que acabamos de assinalar. Mas Deus, conhecendo todas as coisas, por efeito da sua sabedoria infinita e da sua presciência, vê se o homem vencerá ou sucumbirá. Se tiver que sair vencedor, o Senhor, por intermédio dos Espíritos prepostos a velar pela execução das provas, prepara circunstâncias que lhe acarretem um fim natural. Se houver de sucumbir na prova, o Senhor deixa que, na inviolabilidade do seu livre-arbítrio, o homem consuma a obra criminosa, dando à sua existência o fim que ele próprio preparou e que constituirá um ato culposo da sua vontade.

Eis tudo o que temos para vos dizer sobre o instante da morte, o qual se fosse, como falsamente alguns o consideram, fatal, de modo absoluto e em todos os casos, seria um atentado ao livre-arbítrio do homem e envolveria, inevitavelmente, a idéia de fatalismo.

 

SEXTO MANDAMENTO

Não matarás.

 

Não corte aquele que nada pode criar o fio da existência das criaturas do Senhor. Não deixe o homem que em seu coração se desenvolva o instinto da destruição, pois não sabe que responsabilidade assume.

Este Mandamento, muito vago em seu enunciado, tem um alcance maior do que supondes e ultrapassa de muito os limites do vosso ser. Em cada uma das fases do seu passado, a humanidade o interpretou segundo as suas necessidades. Em cada uma das fases do seu futuro o interpretará de maneira a lhe ampliar a inteligência e aplicação.

Nos tempos primitivos, o “não matarás” significava, para os Hebreus: “Não derramarás, sem motivo, o sangue do teu irmão”. Mas, a pena de morte vigorava para o menor delito e o sangue das vítimas oferecidas em holocausto corria incessantemente sobre o altar e tão pouco poupados eram os escravos, quanto os animais.

Mais tarde, a pena de morte se tornou menos aplicada. Só o era àquele cujo crime se tinha por bem comprovado. Os próprios animais passaram a ser, em parte, menos sacrificados, quando nada, nas cerimônias do culto. Porém, as vinganças, as guerras, a crueldade continuaram, como continuam, a derramar sangue por todos os lados.

Hoje, os que hão escutado a nossa voz, mesmo os que não a têm compreendido ou a consideram mentirosa, se levantam contra a aplicação da pena de morte ao criminoso, anelam pelo momento em que não mais homens se alinhem diante de homens, para descarregar uns sobre os outros seus mortíferos projéteis e alguns – os que nos atendem – poupam a vida de todas essas criaturas fracas que o Senhor lhe pôs no caminho, a fim de desenvolver em seus corações a caridade e fazer-lhes compreender a solidariedade universal. Mas, o sangue ainda corre nos matadouros e, aos magotes, caem, sob os golpes dos cutelos assassinos, as vítimas necessárias à alimentação humana.

Mais tarde, o sangue deixará de ser derramado na Terra. Mais tarde, o homem não matará. Amará e protegerá o fraco, quer seja este um homem também, quer uma animal confiado à sua guarda. Compreenderá a lei de amor e saberá elevar-se acima das necessidades da carne, necessidades a que ainda precisa satisfazer, porquanto correspondem à organização atual da máquina, mas que diminuirão gradualmente, à medida que o Espírito crescer na sabedoria e em ciência, porque, de par com este crescimento, também gradativamente se modificará o organismo humano. O progresso físico marcha e se desenvolve concomitantemente com o progresso moral e intelectual, com os quais guarda relação.

Neste momento, a abolição da pena de morte é reclamada na França, está proposta nas assembléias legislativas da Itália e da Bélgica.

São esforços generosos; são promissores começos. Ainda não chegou, porém, o momento de abolir-se a pena de morte. É preciso que se depure o moral das classes inferiores, inferiores não do ponto de vista das condições sociais, mas do adiantamento moral, intelectual, dos Espíritos. Enquanto não chega esse esperado momento, a vós, homens, a vós espíritas, sobretudo cabe, pelos vossos ensinos e exemplos, apressar-lhe o advento possível e oportuno.

 

SÉTIMO MANDAMENTO

Não cometerás adultério.

 

A natureza material do homem o impele para a lubricidade. Nada lhe refreia os desejos, desde que se entregue aos instintos animais. E sabeis que estes instintos, principalmente, dominavam naquelas afastadas épocas. Não vedes que ainda agora eles arrastam muitos de vossos irmãos a vergonhosos transviamentos?

Os laços que prendem um ao outro o homem e a mulher e que os induzem a perpetuar a espécie têm uma origem nobre e pura, de onde a materialidade da encarnação os desviou, mas à qual é preciso que voltem.

A proibição de cometer adultério devia bastar para conter os excessos. Mas, ainda aí a interpretação obedeceu às necessidades da época: o homem e a mulher casados, se cometiam adultério, eram punidos, ela com a pena de morte, ele com a pecha de infame.

Este Mandamento, segundo o espírito, se estende a toda quebra da união pura. Compreende todos os arrastamentos carnais, sejam quais forem, que impilam o macho para a fêmea e que rebaixam a humanidade até ao nível dos instintos do bruto.

Não vos dizemos: “Deus criou um homem de uma mulher, a fim de provar que uma só existência deviam eles ter”. Esse era o lado moral, o fim moral que, sob o véu da letra, Moises adotara, colocando-se no ponto de vista dos Hebreus, e que permaneceram os mesmos para as gerações então futuras. Já vos demos explicações a respeito dessa figura emblemática da criação e acerca da própria criação. Dir-vos-emos, não obstante, o seguinte: os Espíritos se grupam por atração de simpatia. Cada Espírito escolhe o companheiro, ou a companheira, com quem passe o tempo de sua provação. Tal a regra, cuja única exceção se encontra no caso do celibato como provação.

Os Espíritos encarnam, nascem, geralmente em condições que lhes permitam reunir-se. Os que são reciprocamente simpáticos se acham destinados à união. Mas, as disposições materiais de um ou de outro, como encarnados, podem quebrar acidentalmente a harmonia e lhes retardar a união, quer nos limites da encarnação presente, quer até uma outra encarnação. Assim é que um Espírito se vê repelido, desprezado, ou abandonado por outro que lhe é simpático, que o chama, isto é, para o qual ele se sente atraído, porém que se deixou seduzir, ou pelos arrastamentos carnais, ou pelo orgulho, pela ambição, pelo amor do ouro.

Quanto Espíritos simpáticos um ao outro chegam a unir-se na Terra, de conformidade com a escolha por eles reciprocamente feita antes de encarnarem, nada mais haverá que os separe, que rompa os laços dessa união, desde que ela se realizou por efeito de idênticas tendências para o bem. Esses não precisam mais que um mandamento lhes diga: “Não cometereis adultério”. Porém, se, uma vez encarnados, descuidando-se dos compromissos assumidos no estado espírita, compromissos cuja lembrança perderam, se bem que um secreto instinto do coração os advirta deles, e dos quais a influência da matéria os afasta, os Espíritos, homens e mulheres, não procuram, na união conjugal, mais do que uma passageira satisfação material, mais do que uma combinação matemática ou social, um negócio de interesse ou de orgulho, os compromissos terrenos quebram os laços de simpatia. Em tal caso, uma afeição pura não enche os corações e os Espíritos  buscam a compensações na variedade e no mau proceder. A esses o mandamento diz: "Não fornicarás, não cometerás adultério, porquanto, se a ti mesmo te impuseste carregar uma pesada cadeia, tens que sofrer as conseqüências; tens que, pelo respeito que deves a esse compromisso irrefletido, atenuar a falta que praticaste contraindo-o; tens que vencer os teus instintos sensuais; tens que dominar a carne e fazer que nasça a simpatia que deverá reinar - entre o teu Espírito e o da companheira que inconsideradamente escolheste - quando começar o dia da liberdade pela volta de ambos à vida espírita."

Algumas vezes, a união é imposta ao encarnado pela influência e autoridade dos pais, movidos pelo interesse ou pelo orgulho. Tal união constitui, para o que a sofre, uma provação por ele escolhida e que será temporária, ou durará todo o tempo da sua existência terrena. No primeiro caso, terá por efeito apenas retardar, no curso da sua encarnação atual, a união simpática que ele escolhera antes desta. No segundo, o efeito será adiar essa união para uma encarnação posterior.

E tanto para esse, como para o que se uniu fugindo às suas provas, o Mandamento emprega a mesma linguagem de que usa para com o que, livre e voluntária, mas irrefletidamente, assumiu um compromisso, desviando-se do caminho que devia seguir.

Algumas vezes também, certos Espíritos, desejosos de vencer a antipatia que experimentam um pelo outro, embora nem sempre seja recíproca, escolhem, como provação, unir-se humanamente. Ainda a esses o Mandamento diz: "Não cometereis adultério". E Jesus, com a sua voz meiga, repete: "Não separe o homem o que Deus uniu."

Concluindo as nossas observações sobre este ponto, repetimos: Os Espíritos se destinam à união. Antes de encarnarem, escolhem os que lhes sejam companheiros, a fim de juntos passarem o tempo de provação, auxiliando-se mutuamente, ressalvada a possibilidade de uns ou outros fugirem ao cumprimento de suas  resoluções espíritas. Mas, quer isto se dê, quer não, a escolha, seja conforme ou contrária a essas resoluções espíritas, não é fruto do que chamais - o acaso e sim o resultado da direção impressa às provas. Dessa direção depende ser o Espírito desviado de sua rota, ou livre e voluntariamente, ou porque sofra a imposição de uma vontade.

Feita a escolha e dado que um dos Espíritos ou ambos se afastem do caminho que deviam seguir, pode acontecer, ou que venham a encontrar-se, ao cabo de certo tempo, na encarnação presente, ou que fiquem momentaneamente separados, até uma nova encarnação, na qual os reconduzirão um ao outro as mesmas simpatias, ou então, se o caso de resultar de antipatia, a intenção de, por prova, viverem unidos. A escolha reiteradamente feita acabará por torná-los capazes de levarem a cabo a prova.

O celibato também é, para uns, prova; para outros, desvio. Os que, por prova, se destinam ao celibato, não escolheram companheira para a vida, ou pelo menos (dizemo-lo, a fim de não deixar margem para falsas interpretações), não determinaram que se verificasse sua união terrena com outro Espírito.

Para explicarmos todos os casos em que o celibato constitui um transviamento, teríamos que entrar e muitos pormenores. Bastará, pois, vos façamos notar que há celibatários - por egoísmo, por lubricidade, por indiferença, por avareza, por quietismo, doutrina que, assente numa falsa idéia da espiritualidade, faz consistir a perfeição cristã na inação da alma e em a criatura negligenciar das obras exteriores. Há ainda o celibato por voto decorrente da condição imposta a todo aquele, homem e mulher, que se propõe entrar para as ordens monásticas e religiosas. Conforme vos foi relatado no comentário sobre os três primeiros Evangelhos, a imposição desse compromisso nasceu de uma falsa interpretação e de uma aplicação falsa destas palavras de Jesus: "Há os que se fizeram eunucos pelo reino dos céus; aquele que puder compreender isto, que o compreenda", palavras que a Igreja não soube nem pôde compreender. O que, a esse respeito, ocorreu, sob o império e o véu da letra, na era cristã, postos de parte os desvios e abusos, teve a sua razão de ser, mas tem que cessar e cessará na era nova do Cristianismo do Cristo, na era espírita, sob o império do espírito.

 

OITAVO MANDAMENTO

Não furtarás.

 

O egoísmo e a inveja são inimigos ocultos que todo homem traz dentro de si. São dois sentimentos que o levam a apoderar-se de tudo o que lhe possa convir, quer moralmente, quer fisicamente. São dois sentimentos que o excitam a empregar a astúcia ou a força para conseguir o que deseja.

Impor-lhe o respeito à propriedade de outrem, qualquer que ela seja, é forçá-lo a domar esses princípios de todo mal, conduzindo-o à obediência à lei do trabalho, da injustiça, do amor e da caridade que, banindo-lhe do coração o egoísmo e a inveja, lhe excluem do pensamento e dos atos a preguiça, a ignorância, a miséria, os transbordamentos, os desvios, os excessos do Espírito e da carne e, portanto, o instinto ou a vontade do roubo de qualquer natureza, tanto do ponto de vista das pessoas, como do das propriedades de ordem material, moral e intelectual. Tal o objetivo deste Mandamento.

 

NONO MANDAMENTO

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

 

Não é o que entra no homem o que o macula, disse Jesus, porque o que entra no homem vai aos intestinos e daí para o lugar secreto. O que macula o homem são as palavras que lhe sobem do coração aos lábios.

A verdade, em toda a sua simplicidade, deve inspirar as palavras daquele que teme a Deus e procura caminhar nas sendas por ele traçadas.

Este Mandamento, apropriado a uma época em que, pelo testemunho de um só homem, um outro homem podia, em certos casos, ser condenado à morte, se estende, avolumando-se de princípios, a todos os séculos e clareia os que se aproximam.

Vimos de dizer que ele era apropriado a uma época em que, pelo testemunho de um só homem, podia outro ser condenado à morte. Ainda nos dias de hoje as causas subsistem, porém, porque a justiça dos homens progrediu, como todas as coisas, mais raros são os fatos dessa natureza. Na época de que falamos, quando este Mandamento apareceu, no período da era hebraica, bastava que um homem acusasse o outro de blasfemo, ou de um pecado, para que esse outro fosse lapidado. E esses costumes, essas tradições hebraicas, por longos séculos e sob diversos aspectos e de pontos de vista diferentes, com relação à era cristã, deixaram traços que ainda se notam nas vossas legislações humanas: civis, políticas e religiosas.

Não dar falso testemunho é, em toda ocasião, em todo lugar e em todos os casos, render homenagem à verdade; é desfraldar sem vexame, nem vacilações, o estandarte da verdade; é não temer altear o facho de luz que aclara; é destruir o alqueire que a cobre, para fazê-la brilhar aos olhos de todos.

Não pronunciar falso testemunho é marchar sempre de acordo com a consciência.

 

DÉCIMO MANDAMENTO

Não cobiçarás a casa de teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que seja de teu próximo.

 

Este Mandamento se prende, dando-lhe maior amplitude, ao que diz: "Não furtarás". Ele ensina ao homem que não lhe basta abster-se de uma ação má; que lhe cumpre ter-se em guarda contra o mau pensamento, pois, para Deus, o pensamento, em muitas circunstâncias, vale tanto quanto o ato. Efetivamente, aquele que concebe um mau desígnio, mas que não o pode executar, seja porque uma série de acontecimentos o impeça, não é tão culpado como o que o executa? Faltou-lhe a ocasião, eis tudo.

Branqueai e limpai os sepulcros dos vossos corações; purificai os vossos pensamentos; que nenhum destes seja de ordem a vos fazer corar diante dos vossos irmãos, pois o que não ousareis confessar a homens falíveis como vós está exposto às vistas do  supremo Juiz, que lê no mais recôndito da vossa alma.

Nada cobiceis; não premediteis nenhum mal; não vos entregueis a nenhum mau pensamento, por isso que aquele que sonda os corações e as entranhas julga, assim os sentimentos, como os atos.

Que sobre vós derrame o Senhor as suas bênçãos.

Moisés

 

AMOR DE DEUS E DO PRÓXIMO

 

"Amarás ao Eterno teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." (Deuteronômio, cap. VI, vv. 4-5.)

"Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." (Levítico, cap. XIX, v.18. - Mateus, cap. XXII, vv. 30-40. - Marcos, cap. XII, vv. 28-31. - Lucas, cap. X, vv. 25-28 e 29-37.)

 

"E estes mandamentos que hoje te prescrevo estarão em teu coração; tu os inculcarás a teus filhos e deles falarás quando estiveres em tua casa, quando te puseres a caminho, quando te deitares e quando te levantares; e os atarás como um sinal em tuas mãos e estarão como testeiras entre teus olhos; escrevê-los-á também nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. - Ouve, pois, ó Israel e cuida de guardá-los, a fim de que sejas feliz e muito te multipliques na terra onde manam leite e mel, como o disse o Eterno, o Deus de teus pais." (Deuteronômio, cap. VI, vv. 6-7-8-9 e v.3)

"Toda a lei e os profetas se acham contidos nestes dois mandamentos." (Mateus, cap. XXII, v.40.)

Amar a Deus é render homenagem ao princípio do amor, à causa da vida.

Criatura ínfima, que pode o homem, que pode o Espírito que anima essa forma grosseira fazer como testemunho de reconhecimento ao Senhor onipotente por todos os tesouros que lhe pôs nas mãos, a fim de que deles se utilize incessantemente? Amar, porquanto o amor inspira a submissão, a gratidão e o respeito; amar, porquanto o amor é o único laço que liga a criatura ao Criador. E esse amor deve manifestar-se de todos os modos, visto que representa a criação inteira.

Para amar a Deus, deve o homem limpar seu coração, seu Espírito, seu corpo de todas as nódoas, pois o amor induz à aproximação e o que quer que seja impuro não pode aproximar-se de Deus.

Dissemos que o homem deve limpar seu coração, seu Espírito e seu corpo de todas as nódoas. Deve limpar o corpo, como o coração e o Espírito, porque o corpo é o instrumento com que este cumpre suas provas e realiza, encarnando, sua marcha ascensional pela senda do progresso moral, intelectual e físico. Deve limpar seu coração, seu Espírito e seu corpo, para, por meio do progresso moral e intelectual, obter a depuração do coração e do Espírito e, por meio desta, conseguir o progresso físico e, em conseqüência, o do envoltório corporal, isentando-o da liga impura da matéria, com o desprender-se dela cada vez mais, no curso das vidas sucessivas e progressivas e através da hierarquia ascensional dos mundos.

Para amar a Deus, deve o homem trabalhar continuamente por elevar sua inteligência, por desenvolvê-la, por alargar seus conhecimentos, por dilatar sua ciência, porquanto a ignorância não pode aproximar-se da onisciência e tudo o que é amor tende a unir-se.

Amar a Deus é fundir-se na humanidade, é absorver-se no amor fraternal, por isso que todo homem - como todas as criaturas do Senhor - provém do mesmo princípio, tende ao mesmo fim, é uma parte do ser dividido ao infinito, para o efeito de elevar-se do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, na individualidade e na imortalidade.

Homens, não vos equivoqueis quanto ao sentido e ao alcance destas últimas palavras: "é uma parte do ser dividido ao infinito, para o efeito de elevar-se do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, na individualidade e na imortalidade." Mal compreendidas, elas dariam lugar a falsa interpretações, do ponto de vista das idéias panteístas, idéias errôneas e falsas. Para bem lhes compreenderdes o sentido e o alcance, reportai-vos ao que já vos foi explicado no comentário do Evangelho de João (n. 11, v. 24, deste tomo) sobre Deus e, nos comentários sobre os três primeiros Evangelhos (ns. 56 e seguintes, 1º tomo), sobre a origem da essência espiritual, do Espírito (a origem da alma), suas fases, seus fins e deus destinos, sobre a origem dos mundos, de todas as criações de ordem espiritual, fluídica e material.

O que nesses lugares foi explicado vos mostra que Deus, o Criador incriado, é pessoal e distinto de criação, da criatura, como a causa é pessoal e distinta do efeito que ela gera, que ela produz; como o infinito, o incriado é pessoal e distinto do finito, do criado; como a eternidade é pessoal e distinta do tempo, da duração que ela gera, que ela produz relativamente à criação, à criatura.

O que então foi explicado vos mostra que Deus, o Criador incriado, é  pessoal e distinto da criação, das criaturas, que são dele, por ele e nele e não ele, que são, pois, nesse sentido, uma parte do ser dividido ao infinito, para o efeito de elevar-se do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, na individualidade e na imortalidade.

O que em tais pontos foi explicado vos mostra que Deus, Criador incriado, inteligência, pensamento, fluido, habita (no dizer do apóstolo Paulo) uma luz inacessível e possui, ele só, a imortalidade; que o fluido universal, que dele parte e o toca, é, por suas quintessências e mediante todas as combinações, modificações e transformações por que ele o faz passar, o instrumento e o meio de que se serve para realizar, no infinito e na eternidade, pela ação da sua vontade onipotente, todas as criações, espirituais, fluídicas e materiais; a criação de todos os mundos, de todos os seres em todos os reinos da natureza; a criação de tudo se move, vive, é.

O que assim foi explicado vos mostra o Espírito, na origem de sua formação, como essência espiritual, saindo do todo universal, isto é, do conjunto dos fluidos espalhados no espaço e que são a fonte de tudo o que existe, quer no estado espiritual, quer no estado fluídico, quer no estado material: como essência espiritual formada da quintessência desses fluidos, pela vontade do Senhor onipotente, só e única essência de vida no infinito e na eternidade. É ele quem anima essa quintessência dos fluidos para lhe dar o ser, para, mediante uma combinação sutil, cuja essência somente nas irradiações divinas se encontra, fazer dela essências espirituais, os princípios primitivos do Espírito em gérmem e destinados à sua formação. Neste sentido é que as essências espirituais são partes do ser dividido ao infinito, para efeito de se elevarem do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, individualizadas e imortalizadas.

O que nos pontos indicados acima foi explicado vos mostra a grande lei, cuja ação se exerce por intermédio dos fluidos magnéticos que nos envolvem, como se formáramos um único ser, a fim de nos ajudar a subir para Deus pela conjugação de nossas forças, a grande lei da atração magnética ligando, no universo infinito, todos os mundos, unindo todos os Espíritos encarnados ou não, todas as criaturas oriundas de Deus, criador incriado, imutável, eterno, infinito, como o todo universal de que fazemos parte e que se acha submetido ao seu mando. Tudo e todos têm dele, por ele e nele o ser e se acham presos pelos laços da unidade e da solidariedade.

A humanidade inteira deve, portanto, considerar-se uma individualidade única, um imenso corpo que, em cada indivíduo, tem um membro ligado ao todo. Tudo, portanto, deve tender para a harmonia humana, aguardando o momento de poder elevar-se à harmonia celeste.

Assim, amar ao próximo como a si mesmo é uma conseqüência do amor de Deus. E é neste sentido e do ponto de vista desta unidade e desta solidariedade, humanas, universais em Deus, que, segundo o espírito e em verdade, depois de haver lembrado o mandamento do amor a Deus e de haver dito: "Este é o primeiro e o maior dos mandamentos", Jesus, recordando o do amor ao próximo como a si mesmo, disse: "Eis o segundo, semelhante ao primeiro".

Os dois Mandamentos, segundo a letra e para os Hebreus, objetivavam a nacionalidade deles. Porém, segundo o espírito oculto pela letra, Israel era, simbolicamente, a personificação da humanidade toda. E Jesus, dizendo: "Toda a lei e os profetas se contêm nestes dois mandamentos", proclamou serem eles, para todos os homens, Judeus e Gentios, o único meio de salvação, isto é, de depuração, de progresso. Proclamou-os o caminho único para a perfeição e, portanto, para a vida eterna, para a vida dos puros Espíritos, onde tudo são delícias, claridade, ventura, atividade e perseverança no estudo, para um avanço contínuo e cada vez maior em ciência universal, no infinito e na eternidade; onde tudo é amor e devotamento, para o progresso universal, na vida e na harmonia universais.

Homens, praticai, com sinceridade e zelo, sem afrouxamento, sem cessar, estes dois Mandamentos, nunca fazendo aos outros, nem por palavras, nem por atos, o que não quereríeis que vos fizessem, fazendo, ao contrário, do ponto de vista do bem e do belo, do que é justo, bom e verdadeiro, assim na ordem material, como na ordem moral e intelectual, tudo o que desejaríeis que vos fizessem, porquanto Jesus também disse: "Aí estão toda a lei e os profetas". E, conforme ele igualmente o proclamou, a cada um há de ser e será dado de acordo com as suas obras e cada um será julgado pelas suas obras no tribunal da própria consciência, sede do Tribunal de Deus.

Preparai assim, praticando, com sinceridade, humildade e desinteresse, a justiça, o amor e a caridade, o advento da fraternidade humana que, só ela, pode estabelecer e fazer reinar, estabelecerá e fará reinar na Terra a liberdade para todos e a igualdade entre todos, diante de Deus e diante dos homens, sob o império da lei de reciprocidade e de solidariedade.

Compreendendo e praticando todos, desse modo, em espírito e verdade, o direito e o dever, dos pontos de vista social, familiar e individual, preparai o advento do reino de Deus na Terra, sob o império e a ação da lei de amor e de unidade.

 

MOISÉS, MATEUS, MARCOS, LUCAS e JOÃO.

assistidos pelos Apóstolos