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DECÁLOGO
Deus, como
sabeis, não se comunica diretamente com os homens.
Segundo,
porém, a maneira de ver dos Hebreus, era o próprio Deus, sempre
Deus, quem falava a Moisés. Era preciso que fosse assim.
Espírito
elevado, com relação ao povo hebreu, que ele dirigia; médium, em
certas circunstâncias, vidente, audiente, ou inspirado, e também
de efeitos físicos, conforme aos casos e às necessidades da sua
missão, Moisés se viu obrigado, para dar força e valor aos
mandamentos que impunha aos Hebreus, para lhes gravar na memória
e nos corações as ordenações e os estatutos que lhes eram
indispensáveis naquela época, a cercar-se de todo mistério e de
pompas que os impressionassem; a empregar fórmulas capazes de
lhes infundir respeito.
Guiado por
Espíritos que lhe eram superiores, previa alguns fatos que
haviam de dar-se, descobria capacidades, que a multidão
desconhecia, isto é, compreendia a ação espiritual sobre o homem
e as faculdades materiais necessárias ao desenvolvimento dessa
ação. Como sabeis, para que o médium possa operar, é preciso que
se ache em determinadas condições fluídicas. Ele tinha a
impressão dessas condições e antevia o papel que, aos olhos dos
Hebreus, elas desempenhariam, verificando-se, primeiro, nele
próprio, depois em outros. Mas, se dissera aos Hebreus: Moisés
vos anuncia; Moisés vos concita; Moisés vos ensina; teria sido
apupado, teria provocado o riso.
O mesmo
modo, para fortemente impressionar e abalar homens que ainda por
longo tempo tinham de ser conduzidos pelo temor e pelo terror,
para impor o respeito à lei que lhes era dada, foi que no Sinai
se produziu aquela formidável manifestação, que precedeu,
acompanhou e se seguiu à promulgação do Decálogo e que o cercou
de tanto mistério e de tão grande pompa. Dessa manifestação
podeis inteirar-vos pelo que sabeis relativamente a efeitos
semelhantes produzidos em todos os tempos e ainda agora.
Assim como
as outras manifestações físicas de ordem material e de ordem
inteligente, relatadas no Antigo Testamento, tudo o que a
respeito da de que vimos tratando vos é aí referido foi obra dos
Espíritos prepostos à produção de tal efeito.
Esses
Espíritos provocaram ruídos mediante o choque de fluídos
inflamáveis e desse modo fizeram que a multidão reunida no sopé
do monte visse a aparência de um fogo ardente, do qual se
desprendia um vapor inflamado, e produziram, como consta do
Êxodo, XIX, vv. 16 a 19 e XX, v.18, os efeitos físicos que ali
se diz terem sido – trovões, relâmpagos e uma caliginosa e densa
nuvem que cobriu o monte, elevando-se-lhe do alto como se de uma
fornalha. Manejando fluidos sônicos, causaram o efeito físico
“do som de trombeta, que aumentava pouco a pouco e se tornava
mais forte e mais agudo”.
A
proibição aos Hebreus de transporem a barreira foi motivada pelo
perigo, que alguns poderiam ocasionar, do rompimento das colunas
de fluidos que se entrechocavam no monte, fato que daria lugar a
acidentes semelhantes aos que resultam da passagem do raio.
Estas
palavras ditas a Moisés (Êxodo, XX, v.19): “Fala-nos tu mesmo e
nós te escutaremos; mas que não nos fale Deus, para que não
morramos”, aludem ao ribombo “dos trovoes”, que a multidão
tomava pela voz do próprio Deus.
Empregando
e combinando fluidos tornados opacos, os Espíritos prepostos
produziram – “aquela obscuridade” em que (segundo a expressão
bíblica, Êxodo, XX, v.22) Deus estava, isto é, em que estava o
Espírito superior, seu enviado, e em que Moisés, após a
promulgação do Decálogo, foi receber desse enviado as instruções
particulares, as ordenações, os estatutos, indispensáveis aos
Hebreus naquela época.
As primeiras
tábuas da lei, as quais Deus, com a sua presciência, sabia que
seriam quebradas, escreveu-as o próprio Moisés, como médium
mecânico e audiente, sob a influência espírita. Elas foram,
pois, obra de Deus, por intermédio do Espírito superior enviado,
Espírito que, invisível para Moisés, lhe fez ouvir as palavras
dos Mandamentos, ao mesmo tempo que fazia com que ele os
escrevesse mecanicamente, sob a impressão de que provinham do
próprio Deus.
As
segundas tábuas Moisés as escreveu também mecanicamente, debaixo
da inspiração do Espírito superior enviado. Tão inconsciente,
porém, ele se conservou dessa inspiração, que acreditou tê-las
escrito “de memória e trazido aos Hebreus, gravadas e tais como
se recordava que eram”. Se, entretanto, houveram dito ao povo:
“Lembrei-me das palavras gravadas nas primeira tábuas e as
reproduzi”, teria feito que duvidassem das procedência delas e
que desprezassem a lei. Para que tal não acontecesse foi que,
inspirado pelos Espíritos superiores que o assistiam na sua
missão, apresentou, crente de ser essa a realidade, as segundas
tábuas como escritas, semelhantemente às primeiras, “pelo dedo
de Deus”, conforme à expressão bíblica. Moisés, no Sinai,
acreditava estar em comunicação direta com o Senhor.
Lede com
atenção, na linguagem oriental e apropriada aos tempos, os
povos, ao estado das inteligências e ao fim que se tinha em
vista alcançar, a narrativa do que se refere à promulgação do
Decálogo, ao que ocorreu às vistas do povo hebreu relativamente
à preparação e ao fato dessa promulgação, ao que ocorreu para
serem dadas a Moisés as instruções particulares que ele recebeu
e àquele povo, por seu intermédio, as ordenações e estatutos que
lhe eram então indispensáveis; lede a narrativa do que se passou
quando Moisés, tendo recebido as duas tábuas da lei, desceu do
Sinai, avisado, pelo Espírito superior, dos atos de idolatria
que se praticavam no acampamento; do que se deu em seguida,
desde o momento em que ele atirou ao chão e quebrou as primeiras
tábuas na falda do monte, até o em que deste desceu segunda vez
trazendo as novas tábuas; e, se atentardes no que se acha dito
acerca dos acontecimentos que precederam, prepararam e
efetivaram a promulgação do Decálogo e acerca do que sucedeu
para que Moisés entrasse no desempenho público da sua missão e
do que se seguiu, compreendereis a necessidade que havia, de
acordo com a presciência e a sabedoria infinitas de Deus, de
conduzir-se pelo terror aquele povo atrasado, indócil, sempre
pronto a esquecer e desconhecer o seu Deus, a se subtrair à
direção do seu enviado, profundamente imbuído dos prejuízos, das
idéias politeístas, de tendências para a idolatria e no seio do
qual se tinham que preparar o advento do Messias, os elementos e
os meios apropriados ao desempenho da sua missão terrena e ao da
missão dos apóstolos. Compreendereis a necessidade que havia de
serem os Hebreus, termédio daquele que os chefiava, em contacto
com o seu Deus, sob as mãos do próprio Deus, do “Eterno”, único
eterno, “Senhor acima de todos os deuses, do Deus forte e cioso,
que exerce vingança contra os que lhe desconhecem a lei, que
pune a iniqüidade dos pais nos filhos na terceira e quarta
gerações dos que o odeiam, que usa de misericórdia na sucessão
de mil gerações para que com os que o amam e guardam seus
mandamentos, seus preceitos”.
Dar-vos-emos,
dentro em pouco, ao explicarmos o segundo Mandamento do
Decálogo, o verdadeiro sentido desta últimas palavras que,
tomadas à letra, seriam uma enormidade e que, segundo o
espírito, em espírito e verdade, são a expressão sublime da
justiça e da bondade de Deus.
Há um fato
sobre o qual não devemos guardar silêncio e que, para os que lhe
não sabem compreender nem explicar a necessidade, o motivo e o
fim, conformemente à presciência e à sabedoria do Senhor,
constitui uma monstruosidade. Esse fato, de que, mais tarde, sob
o império da branda e pura lei de amor e caridade que o Cristo
veio trazer aos homens, a ignorância, o fanatismo, a vertigem do
poder e a ambição fizeram uma arma e um exemplo, é o do massacre
que Moisés ordenou fosse feito, em nome do Senhor, dentro do
acampamento hebreu, nas circunstâncias referidas no Êxodo,
capítulo XXXII.
“Moisés, diz-se
ali, vendo então que o povo ficara inteiramente nu (pois que
Aarão o despojara por aquela abominação vergonhosa e o pusera
todo nu no meio dos seus inimigos), parou à porta do acampamento
e disse: Junte-se a mim todo aquele que for do Senhor. E,
tendo-se reunido ao seu derredor todos os filhos de Levi,
disse-lhes ele: Eis o que diz o Senhor, o Deus de Israel: Ponha
cada homem na cintura sua espada; passai e repassai através do
campo, de uma porta à outra, e que cada um mate seu irmão, seu
amigo e aquele que lhe for mais chegado.” – “Os filhos de Levi
fizeram o que Moisés ordenara e houve cerca de três mil homens
mortos esse dia. – Então Moisés lhe disse: Tendes, cada um de
vós, consagrado vossas mãos ao Senhor, mesmo matando vosso filho
e vosso irmão, a fim de que a benção de Deus vos seja dada.”
(Êxodo, cap XXXII, vv. 25-29.).
Quando da
encarnação daquela geração de homens, maior talvez do que na
época atual era a mistura dos Espíritos que revestiam o corpo
carnal. A maioria deles tomara por missão manter a Terra e
popularizar a idéia da unidade de Deus. Mas, sentindo-se
demasiado fracos para perseverar, muitos haviam pedido que o
curso da existência lhes fosse detido, caso faltassem aos seus
compromissos.
Vimos de
dizer: “Sentindo-se demasiado fracos para perseverar.” Sabeis,
com efeito, que o espírito, sobretudo o espírito inferior,
conserva por mais ou menos tempo, na erraticidade, os
preconceitos, as opiniões, as idéias, os pendores, as tendências
da sua precedente encarnação. De sorte que, quando se prepara
para outras provas, tem que temer e teme que. Em a nova
existência terrestre, voltem a dominá-lo esses preconceitos,
opiniões, tendências e pendores, contra os quais lhe cumpre
lutar como encarnado.
Assim é
que freqüentemente vedes entre vós mancebos, até crianças, que,
apresentando indícios de más paixões, mostrando-se viciosos,
mesmo em centros de depuração, vêm a ter cortado o fio de suas
existências, a fim de que possam, por meio de reflexões e
estudos feitos na erraticidade, adquirir a força que ainda lhes
faltava. São Espíritos que pediram lhes fosse detido o curso da
vida terrena, caso faltasse a seus compromissos.
Essa
categoria de Espíritos é menos culpada. Peca mais por fraqueza
do que por vontade. E a morte prematura, que eles lhe pediram
nessas circunstâncias, lhes auxilia o desenvolvimento, o
progresso.
Entre os
encarnados da geração a que nos estamos referindo, havia também
uma categoria de Espíritos que tinha de expiar assassínios por eles cometidos
(nessa época grosseira se praticavam tantos!) e que pediram
aquela expiação para conseguirem, pela aplicação da lei de
talião, depurar-se, reparar e progredir.
Os que
tombaram mortos aos golpes dos levitas tiveram uma sorte
prevista e por ele pedida, porquanto uns pertenciam à categoria
dos que haviam tomado por missão manter na Terra e popularizar a
idéia de unidade de Deus e rogado que o curso da existência
terrena lhes fosse detido, caso faltassem aos seus compromissos;
pertencendo os outros à dos que, tendo de expiar assassínios por
eles cometidos anteriormente, pediram aquela expiação e a
sofreram.
Foi assim
e nenhum golpe se perdeu, porque, em circunstâncias tais, como
deveis compreender, os Espíritos protetores, prepostos a vigiar
as provas e expiações de cada um, para que elas se cumprissem,
impelindo os culpados ou dirigindo as espadas dos que
acutilavam, faziam que aqueles recebessem o golpe que os
prostaria. Deu-se ali o que se dá com a bala que deve ferir a
este ou aquele e que segue a sua trajetória, mesmo quando toda a
probabilidade era de que se perdesse.
Dissemos
que os Espíritos prepostos a vigiar as provas e expiações de
cada um, a fim de que elas se cumprissem, impeliam os culpados
ou dirigiam as espadas dos que acutilavam, no sentido de que
aqueles Espíritos, para que as provas e expiações se
verificassem, atuavam sobre o culpado e sobre o que empunhava a
espada: sobre o culpado e sobre o que empunhava a espada: sobre
um pela ação do magnetismo espiritual, sobre o outro por meio da
inspiração e da ação fluídica. Aqui é que, considerando a
Providência divina e a ação, sobre o homem, dos Espíritos
prepostos, a obrarem debaixo da direção da presciência e da
sabedoria infinitas de Deus, podeis dizer: “O homem se agita e
Deus o conduz.”
Nada é sem
motivo e sem objetivo. O que o homem muitas vezes encara como
ato de uma vontade arbitraria, nunca é senão a conseqüência do
passado, ou a preparação do futuro.
Assim, o
massacre que Moisés ordenou em nome do Senhor teve por motivo e
por fim: de um lado, deter o curso da existência terrena de
alguns Espíritos, conformemente ao que eles pediram, nos termos
e nas condições das provas escolhidas por uns e das expiações
solicitadas por outros, provas e expiações pelas quais todos
tinham que passar, e não apenas fazer arbitrariamente vítimas
perdidas, porquanto os que pereceram, repetimos, tiveram sorte
prevista e pedida; de outro lado, impor, pelo terror, pelo medo,
àqueles homens atrasados, indóceis, inclinados à idolatria, à
revolta, sempre prontos a esquecer e desconhecer o seu Deus, a
se subtrair à direção do enviado deste, absoluta submissão à
vontade, aos mandamentos e preceitos divinos; fazer-lhes
compreender a necessidade dessa submissão; forçá-los a caminhar,
dóceis à voz de seu chefe, pelas sendas que lhes estavam
traçadas e a desempenhar a tarefa providencial que lhes fora
confiada na marcha do progresso da humanidade.
Moisés
era, pois, um instrumento humano que, sob as inspirações dos
Espíritos do Senhor que o assistiam na sua missão, obrava para
que fosse detido o curso de provas que haviam falhado e se
cumprissem determinadas expiações, fazendo que os que caíam aos
golpes dos levitas sofressem a sorte por eles mesmos prevista e
perdida. E, também, procedendo dessa maneira, preparava o
futuro. Cada época tem seus costumes e necessidades.
Não
julgueis, portanto, do vosso ponto de vista e de acordo com os
tempos em que viveis. Reportai-vos, com relação aos Hebreus, aos
tempos, aos homens, aos preconceitos, às crenças, às condições
que era indispensável se verificassem para que executasse a obra
que se tinha de executar naquela época e no futuro.
Desde
aqueles tempos bárbaros e em outros nos quais a civilização e a
inteligência já estavam muito mais apuradas, não há visto, pelo
que toca as coisas de ordem humana, sempre que uma revolta
explodiu, a dizimação de homens, para que, num exército, fosse
mantida a disciplina, a submissão aos chefes incumbidos de
comandá-lo?
Pelo que
respeita às coisas de ordem religiosa, não se hão feito
freqüentemente, muito freqüentemente mesmo, massacres em nome de
Deus?
Para
terdes disso alguns dos numerosos exemplos que a história da
vossa humanidade colheu, lembrai-vos das guerras religiosas, dos
autos-de-fé espanhóis e por fim da carnificina do dia de São
Bartolomeu.
Não são
sempre os ministros do culto, por efeito da ignorância, do
fanatismo, do abuso do poder, da ambição, impelindo os homens a
se matarem reciprocamente, nas guerras religiosas, a fim de
consagrarem eles sua mãos ao Senhor, e atraírem as bênçãos de
Deus? Matando eles próprios, nos autos-de-fé espanhóis, em honra
do seu Deus e para obterem suas graças?
E quais
foram os instigadores do massacre de São Bartolomeu? Os
sacerdotes, os servidores de Deus! Qual foi aí, como nas guerras
religiosas, o móvel? A ambição, porém, não mais a de se
engrandecerem aos olhos de Deus, e sim a de conservarem o poder.
Recordando
estas fases da história do passado, estes massacres e guerras
religiosas, não abrimos exceção a favor dos padres protestantes,
que também excitaram seus rebanhos contra os católicos e
igualmente mataram.
Uns, como
os levitas de Moisés, matavam para provar que eram filhos de
Deus! Aos outros, estes, como os protestantes, matavam para
conquistar o poder; aqueles, como os católicos, para evitar que
o poder lhes fosse arrebatado.
E então
não havia, como ao tempo dos Hebreus, um enviado de Deus, qual
Moisés junto do Sinai, falando em nome do Senhor e dizendo a
seus levitas: “Eis o que diz o Senhor, o Deus de Israel”; e
dizendo, depois de concluída a obra: “Consagrastes vossas mãos
ao Senhor, mesmo matando cada um seu filho e seu irmão, a fim de
que a benção de Deus vos seja dada”. Não; a necessidade, o
motivo e o fim a que obedecera o ato de Moisés não existiam
mais. Esses massacres, essas guerras religiosas, esses
autos-de-fé, esse S. Bartolomeu foram obra humana da ignorância
do fanatismo, do abuso do poder, da ambição, que fizeram, do
fato ocorrido ao pé do Sinai, por ordem de Moisés e pelo braço
armado dos levitas, uma arma e um exemplo.
E porque
esses massacres, essas guerras religiosas, esses autos-de-fé,
esse S. Bartolomeu? Porque os homens da Igreja não quiseram
compreender que a sua missão não consiste em fazer parar os que
lhes estão confiados e obrigá-los a olhar para trás; mas, ao
contrário, em impeli-los para diante, pela senda do progresso.
Se, por um
lado, instigadores culpados de semelhantes carnificinas tiveram
que sofrer longa e dolorosa expiação, por outro lado, os que
nelas pereceram, bem como os que tombaram aos golpes dos levitas
no campo israelita, não foram vítimas perdidas, porquanto, como
já o temos dito e repetimos, nada ocorre que não seja
conseqüência do passado e preparação do futuro, sob a influencia
e a ação dos Espíritos prepostos a vigiar pelas provas e
expiações de cada um. Os que pereceram tiveram a sorte por eles
prevista e pedida. Deus, mesmo com relação ao instante da morte
de suas criaturas, nada espera do que, na ignorância em que vos
achais assim das causas como dos fenômenos, chamais o acaso.
Vamos
agora explicar-vos, em espírito e verdade, o Decálogo. Vamos
dar-vos uma explicação, não relativa e restrita aos Hebreus, aos
“Cristãos”, mas geral, passível de aplicar-se a todos os povos e
a todas as épocas. Podeis começar.
“Então fez
Deus que se ouvissem estas palavras:” Eu sou o Eterno, o Senhor
teu Deus, que te tirei da terra do Egito e da casa da servidão.”
Deus,
criador de tudo o que é, tirou do nada o espírito (daqui a pouco
explicaremos o sentido que deveis atribuir a essa palavra tomada
à linguagem humana), para lhe dar o ser, o pensamento, a
personalidade. Foi por sua vontade onipotente que o homem saiu
das faixas da matéria, para ensaiar seus primeiros passos na
senda espiritual. Foi ele ainda, o Senhor, quem lhe mostrou o
caminho que o leva para fora da escravidão do pecado e da
matéria, iluminando-o com o facho da verdade.
Povos da
Terra, levantai os olhos! “A coluna luminosa”, que vos há de
guiar para fora da escravidão, que vos há de conduzir à pátria
da liberdade, se move à vossa frente. O espírito da Verdade
acendeu o farol para o qual devem os vossos olhares voltar-se.
Caminhai, caminhai sem descanso, pois tendes a chegar à “terra
prometida”, onde “correm o leite e o mel” da palavra de paz e de
amor a Deus.
MOISÉS, ELIAS, JOÃO (1), MATEUS,
MARCOS, LUCAS, JOÃO
assistidos pelos Apóstolos
Falando do
Espírito, dissemos que Deus o tirara do “nada”, para lhe dar o
ser, o pensamento e a personalidade. O nada, na acepção humana
em que empregais esse termo, não existe, é uma coisa sem
sentido, do ponto de vista correlativo de Deus e da criação.
O nada, para o
Espírito, é, espiritualmente, a inconsciência do ser. Assim, o
princípio espiritual contido nos minerais e nos vegetais está no
nada, com relação ao seu ser.
O nada da matéria
propriamente dita é a volatilização dos princípios materiais que
devem aglomerar-se para constituir, quer os planetas, quer os
corpos. É assim que foi explicado haver Deus feito sair do nada,
do caos, o mundo. Foi porque ele constituiu em um corpo as
moléculas esparsas na imensidade.
PRIMEIRO MANDAMENTO
Não terás outros
deuses diante da minha face.
Jeová é o Deus só
e único, o Criador incriado, aquele que é, aquele de quem, por
quem e em quem tudo é. Não desvie o homem do seu Criador o
pensamento, para pô-lo na criatura e lhe render culto e
homenagem devidas tão-somente ao Senhor, não porque ele seja um
Deus cioso, mas porque o homem é um Espírito fraco, que
facilmente se afasta do caminho e penosamente a este volve.
SEGUNDO MANDAMENTO
Não farás imagens
esculpidas das coisas que estão em cima, nos céus, nem embaixo,
sobre a terra, nem nas águas, sob a terra. – Não te prostarás
diante delas; não as adorarás, nem as servirás, porquanto eu sou
o Eterno teu Deus, o Deus forte e cioso que puno a iniqüidade
dos pais nos filhos na terceira e na quarta gerações dos que me
odeiam e que uso de misericórdia, na sucessão de mil gerações,
com os que me amam e guardam meus mandamentos.
A unidade de Deus,
sendo o princípio fundamental da fé, teve que ser salvaguardada
pelos teólogos. As nossas palavras remontam até à origem da
crença. Todos os que se achavam à frente do culto a possuíam
firme, embora entre o povo espalhassem outra.
A idéia da unidade
de Deus se perpetuou em todas as idades, no seio de todos os
povos, ainda que sem o caráter de generalidade. Quer dizer,
conquanto não fosse geral, era partilhada pelos espíritos
intelectualmente mais adiantados, se bem menos virtuosos, que
governavam os povos, quer como sacerdotes, quer como filósofos
ou sábios.
A proibição de
fazerem imitações das coisas criadas não implica, para os
homens, a obrigação de se privarem de tais reproduções.
Proibiu-se-lhes apenas que se prostrassem diante delas e as
servissem, a fim de que a unidade do principio criador fosse
sempre mantida. Mas, os homens, materiais por natureza, tinham
necessidade de representações materiais, para alimentar sua fé.
Daí a adoração, o culto prestado ao que, desde a origem, não
passava de representações sem importância, isto é, de simulacros
colocados nos templos como ornatos. Transportai-vos ao templo de
Salomão e, nos quatro cantos do altar, vereis anjos de asas
espalmadas, outros voltados para o Oriente, para o Ocidente,
etc. A representação artística e simbólica não era interdita.
Era-o apenas o culto votado a essas representações.
Moisés, naquela
ocasião, lembrou ao Hebreus o poder de Deus, de quem era ele o
representante, apresentando-o como “forte e cioso”, isto é, sem
admitir a partilha de seus direitos e com o poder de os fazer
respeitar, não, porém, ferindo o inocente para punir o culpado
até à terceira e à quarta gerações, nem concedendo graça aos
culpados, através de mil gerações, por favor a um justo que
houvesse servido de tronco a essa posteridade. Fraqueza da
inteligência humana!
Essa punição, como
essa misericórdia, verdadeiras monstruosidades, se entendidas
segundo a letra, são, segundo o espírito, a expressão sublime da
justiça e, ao mesmo tempo, da bondade infinita de Deus. A
explicação e a justificativa de compreender-se aquela sentença
desse duplo ponto de vista, achá-las-eis no princípio da
reencarnação, que mostra o castigo a cair sempre, de gerações em
gerações, sobre o Espírito culpado e a misericórdia sempre a
descer, também de gerações em gerações, sobre o Espírito que se
depura e progride para o bem.
Os espíritos
geralmente se agregam, formando categorias se seres similares.
Ora, compreende-se que esposos culpados atraiam para o seu lar
Espíritos pouco adiantados, dispostos a seguir os caminhos que
eles trilham; do mesmo modo que os que observam as leis do
Senhor e cuja posteridade há de ser cada vez mais virtuosa
atraiam, de geração em geração, Espíritos cada vez mais
adiantados.
Vimos de dizer:
“Compreende-se que esposos culpados atraiam para o seu lar
Espíritos pouco adiantados, dispostos a seguir os caminhos que
eles trilham.” Efetivamente, isso é bem compreensível. Antes de
tudo, sabeis haver Espíritos que, pouco desejosos de progredir,
procuram os laços de simpatia, seja esta oriunda do bem, seja do
mal, que já os prenderam; e outros que, embora impulsionados
pelo desejo de progredir, escolhem meios cujas influências
perniciosas não podem vencer. Repetimos, não obstante já visto
vos ter sido dito muitas vezes, que, sobretudo neste último
caso, o Espírito é prevenido dos perigos que correrá, encarnado,
e da queda, quase inevitável, que daí lhe resultará. Se
persiste, é por sua livre vontade.
Compreendei, de
conformidade com esses princípios, a progressão do castigo e da
misericórdia. O castigo se verifica na terceira e na quarta
gerações, porque, pouco a pouco, o Espírito se depura ou por
efeito da encarnação de outros no meio que ele tem preferido, ou
por efeito das provações pelas quais passa aí repetidamente.
Desde que um começo de melhora se faz sentir nele, o Espírito
entra na senda do progresso, atrai a si companheiros também mais
adiantados e, através de mil gerações e mesmo mais, se vai
mostrando cada vez melhor, até atingir, por fim, a perfeição.
TERCEIRO MANDAMENTO
Não tomarás em vão
o nome do Eterno, do Senhor teu Deus; porquanto o Eterno, o
Senhor, não terá por inocente aquele que em vão houver tomado o
seu nome.
Não devendo perder
de vista a unidade de Deus, não devendo prosternar-se diante de
nenhuma imagem para adorá-la, também não devia o homem dar o
título de Deus, nem atribuir seu poder, a nenhuma criatura, a
nenhuma imitação. Por extensão, não deve tampouco usar mal do
nome do Senhor, desde que esse nome lhe desperta um pensamento
sério. Igualmente, se não ainda mais, com referência ao Criador
de todas as coisas é que se estende a recomendação de Jesus aos
homens para que de nenhuma forma jurassem: nem pelo céu, porque
é o trono de Deus; “nem pela terra, porque lhe serve de escabelo
para os pés.”
Cuidai, pois, de
suprimir da vossa linguagem esses juramentos feitos “diante de
Deus, à face do céu”, ou mediante qualquer outra expressão
exagerada, que todas quase sempre ocultam, mesmo àquele que as
emprega, a pouca confiança que nelas ele próprio deposita.
Esforçai-vos por encaminhar sempre o vosso pensamento para o
Senhor, quando o sue nome invocardes. Constitui um abuso fazê-lo
em circunstâncias triviais ou culposas.
A invocação do
nome de Deus, feita com o coração cheio de sinceridade, atrai,
não o próprio Deus à vossa presença, porquanto muito longe ainda
está o planeta terreno do ponto que há de alcançar para que isso
se dê, mas o amparo dos Espíritos superiores, dos bons Espíritos
que o pai de família investiu no governo de seus filhos e que
lhes transmitem suas vontades, até que, pela purificação e pelo
progresso, a inteligência se lhes ache bastante desenvolvida
para não mais necessitarem de intermediários.
QUARTO
MANDAMENTO
Lembra-te do dia de Sábado para o santificares. Trabalharás seis
dias e farás a tua obra, mas o sétimo dia é o dia de descanso,
consagrado ao Eterno, ao Senhor teu Deus. Não farás obra alguma
nesse dia, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teus servo,
nem tua serva, nem teu gado, nem teu hóspede, o estrangeiro que
estiver dentro dos muros de tuas cidades.
Este
mandamento, a que foi dado o cunho religioso, é uma lei
inteiramente civil e de utilidade humanitária, que teve se ser
imposta aos Hebreus, a fim de domar neles o pendor para o abuso
do poder.
A do
trabalho é uma lei necessária à humanidade. E pelo trabalho que
ela progride, que adquire ou repara. Mas o repouso não é menos
indispensável, assim ao corpo, como ao espírito.
Dizem aos
homens: Daí ao vosso corpo tempo de refazer suas forcas, daí ao
vosso espírito ensejo de se libertar dos cuidados da matéria, a
fim de que possa elevar-se para o seu Criador e afastar-se da
Terra que o retém cativo, a fim de se alcandorar, por meio da
esperança e da meditação, às esferas elevadas que o aguardam,
não teria bastado. E ainda agora seria bastante?
Havia,
nesse mandamento, um sentimento profundo de filantropia, que os
homens não souberam apreciar. Os povos antigos, dados todos aos
abusos da força, tinham, todos eles, escravos encarregados dos
mais rudes trabalhos. Não se fazia mister assegurar a estes um
repouso necessário, tornando isso uma obrigação para seus
senhores? Os animais, votados ao desprezo, porque tidos como
carentes de alma, de inteligência, considerados como coisas,
como incapazes mesmo da sensação de dor, teriam sido, sem esse
mandamento, levados, pelo excesso de trabalho, a extrema fadiga,
as raças se teriam esgotado e as mais úteis ao homem
desapareceriam da superfície da terra, por efeito da
degenerescência.
Quanto ao
estrangeiro que, considerado hóspede, devia ser respeitado, se o
mandamento o não atingisse, provavelmente se teria visto
oprimido, no dia de sábado, por todos os trabalhos de que
cumpria se abstivessem os fiéis. E violada estaria a
hospitalidade, lei santa que os antigos geralmente respeitavam.
Notai que
em todos os cultos se vos depara essa salvaguarda da saúde pelo
repouso.
Hoje, ó
bem-amados, nós vos dizemos: Trabalhai, trabalhai, com coragem e
zelo, porém, não ultrapasseis nunca os limites das vossas
forças. Guardai e fazei guardar o Sábado, não por puerilidade,
mas porque a razão vos diz que necessitais de descanso um dia ou
outro. Tomai-o quando dele sentirdes séria necessidade.
Sobretudo, jamais sobrecarregueis de trabalho os vossos
inferiores e respeitai o repouso do gado.
Os Hebreus
levavam tão longe a observância do sábado, que a própria terra
repousava, não no sétimo dia, mas no sétimo ano. Este método,
que parecerá infantil aos modernos agricultores, tinha, no
entanto, sua razão de ser. Sendo menos numerosos os homens,
menores as necessidades, possível era dar-se a terra o luxo de
um repouso que lhe permitia readquirir forças naturalmente, sem
o recurso a artifícios, cujo abuso gera muitas das enfermidades
de que padeceis, sem lhes descobrirdes as verdadeiras causas. Os
rebanhos encontravam pastagens nas terras que repousavam e a
presença deles ali bastava para restituir ao solo os sais
necessários à reprodução dos vegetais. Isto, porém, sai do
quadro dos nossos trabalhos.
Terminando, nós vos dizemos, como Jesus e com Jesus: “O Sábado
foi feito para o homem, não o homem para o sábado.” Nunca
esqueçais estas palavras do Mestre e ponde-as em prática tais
quais vos foram explicadas, em espírito e verdade, no comentário
sobre os Evangelhos.
Em seguida
a este Mandamento se lê: “Porquanto, o Eterno, o Senhor, fez, em
seis dias, os céus, a terra e o mar e tudo o que está neles e
descansou no sétimo dia. “Eis
porque o Eterno, o Senhor, abençoou o dia de repouso e o
santificou.
Há nestas
palavras um comentário acrescentado à lei por Moisés, a fim de
lhe dar mais força e valor aos olhos dos homens. Elas resumem as
explicações que ele deu ao povo, para que este compreendesse a
necessidade do descanso que se lhe prescrevia. Tão necessário
era este, que Deus o impusera a si mesmo.
Falando a
homens pouco adiantados, Moisés usava uma linguagem que lhes era
possível compreender. E ele próprio, conquanto versado nas
ciências e mistérios egípcios, não possuía, como encarnado, os
conhecimentos que depois o trabalho dos séculos desenvolveu.
Pode
conciliar-se o que Moisés, por essas palavras, disse de Deus e
da Criação com o que atualmente se conhece e está assente, tanto
pela ciência humana, quanto pela revelação e pela ciência
espíritas?
É inútil
tentá-lo. Moisés, interpretando, como o fez, o mandamento do
descanso e dando-lhe origem tão augusta, não teve outra intenção
além da de gravar mais profundamente, no coração dos Hebreus, o
respeito àquela lei.
A criação
ele a dividiu em seis épocas e não dias e o fez, não por efeito
de pesquisas científicas, mas sempre com o mesmo objetivo. O
mandamento que, reclamado pelas necessidades humanas, impunha o
repouso septenário, protegia os fracos. E Moisés obrigou os
fortes a se submeterem.
É então impossível
toda explicação entre os sábios e os padres, com o fim de
conciliarem o texto relativo às seis épocas com os dados atuais
da ciência humana?
Impossível, com efeito, pois que a própria ciência não tem sobre
isso a última palavra.
Os
cataclismos que hão ocasionado as transformações do vosso
planeta ainda a Ciência os não pode calcular, tanto mais quando,
tendo sido parciais, muitas vezes fizeram passar de uma parte
para outra os elementos de produção. Ainda não chegastes ao
termo deles. Muitos, parciais a princípio, depois gerais, virão
a produzir-se, derrocando o estado atual, para destruir o
princípio material e levar o planeta terreno ao ponto de
partida, isto é, ao estado fluídico, mas em que os fluídos se
acharão expurgados de todas as moléculas materiais.
QUINTO
MANDAMENTO
Honra a
teu pai e a tua mãe.
Compreenda
os Mandamentos do Senhor, em toda a sua grandeza, aquele que
quiser obedecer-lhes. Honra a teu pai e a tua mãe: Estes são os
chefes que o Senhor te dá, os guias encarnados que prepôs à tua
guarda. Mas, os que se encarregam da tua educação, que te
desenvolvem a inteligência, que vigiam a tua adolescência, não
são também teu pai e tua mãe – espirituais? E, por vezes, não
fazem mais do que o pai e a mãe segundo a carne, que esquecem
seus sagrados deveres e deixam o filho, que o Senhor lhes
confiou, entregue a seus maus pendores, quando não chegam até a
fazê-lo ceder às inclinações más que neles predominam, dando-lhe
o exemplo do orgulho ou do egoísmo, da luxúria, dos vícios e
paixões inferiores que degradam a humanidade e levam o Espírito
à perdição, fazendo-o falir em suas provas?
O chefe de
Estado, o juiz que governa com sabedoria, que faz justiça a
todos, que dispensa sua solicitude até ao mais íntimo de seus
administrados, não é um pai a quem deves honrar, pois governa
uma grande família?
E, falando
assim, as nossas palavras se estendem a todo aquele que, como
superior, qualquer que seja a sua condição, cumpre santamente
suas obrigações para com os que lhe estão subordinados. A lei do
respeito e do amor deve abranger todas as classes, todas as
condições. É a cadeia que liga uns aos outros todos os membros
da família universal.
A fim de
que teus dias sejam prolongados na terra que o Eterno, o Senhor
teu Deus, te dará.
Estas
palavras, aditadas à lei, constituem um acréscimo feito por
Moisés ao quinto Mandamento, tendo ainda por fim forçar à
obediência e ao respeito à lei homens dominados unicamente pelo
egoísmo e pelo instinto do presente.
Bem viver
e viver longo constituía para tais homens a primeira e única
preocupação. Pelo ponto sensível era, pois, que importava
prendê-los. E Moisés bem o percebeu.
Mas,
tomai, ó filhos amados, a palavra – terra em acepção simbólica e
compreendereis como a vossa vida poderá prolongar-se em a
morada, que reservada vos está, no sentido de que mais cedo a
ela podereis chegar, cumprindo melhor os vossos deveres. Como
sabeis, a morada reservada aos homens que o merecem são as
esferas superiores, que eles atingem à medida que se elevam e a
que tanto mais cedo chegarão quanto mais esforços fizerem por se
aperfeiçoar.
Homem,
honra a teu pai e a tua mãe e teus dias serão prolongados na
terra que o Senhor teu Deus te dará. Mas, compreende-o bem, essa
terra não é o solo que pisam teus pés.
As
dificuldades que surgiram na interpretação dos Mandamentos
nasceram de não terem querido ou não terem sabido os
interpretadores distinguir do princípio exarado na lei as
adições feitas à lei, separar o que veio de Deus do que veio do
homem, sob a inspiração divina, por intermédio dos Espíritos
superiores, com um objetivo transitório e humano. O que, na lei,
vem de Deus é imutável; o que veio por aquela inspiração divina
foi um meio de que Moisés se serviu para, atendendo ao momento,
segundo a letra, e preparando o futuro, segundo o espírito,
auxiliar o progresso humano, de conformidade com as necessidades
da época.
Na Terra
em que habitais, enquanto a ocupardes pela encarnação, vossos
dias não podem ser prolongados.
No O Livro dos
Espíritos se lê, com relação à morte, o seguinte: “De fatal, no
verdadeiro sentido da palavra, não há senão o instante da morte.
Em chegando esse momento, ou por um meio ou por outro, não vos
podeis subtrair a ele”. – Depois, como resposta a esta pergunta:
“Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não
morreremos se a hora não for chegada?” se lê: “Não, não
perecerás e tens disso milhares de exemplos; mas, tendo chegado
a hora de partires, nada pode obstar à tua partida”. – Diante
dessas palavras e destas que acabais de proferir mediunicamente:
“Na terra em que habitais, enquanto a ocupardes pela encarnação,
vossos dias não podem ser prolongados” – em que sentido, em que
condições e segundo que regras se deve entender que o instante
da morte é fatal? Deve-se entendê-lo de modo absoluto e no
sentido de que o homem nada pode conseguir, para abreviar sua
existência, pelo uso e abuso do seu livre-arbítrio, por seus
atos, pela maneira por que se utiliza da sua existência,
deixando de cumprir as obrigações que lhe são impostas para que
o corpo lhe dure até ao termo de sua provações?
O Livro
dos Espíritos era a base da revelação, porém não a revelação
toda. Se nessa obra se houvesse entrado em todos os pormenores,
mais terríveis teriam sido as tempestades que ela levantou, mais
numerosos os antagonistas, mais penosa a luta. Foi preciso,
primeiramente, desentulhar o caminho e mostrar a luz que
cintilava por entre as abertas do silvedo. Pouco a pouco, o
horizonte foi sendo alargado e ainda o será mais.
Sob certos
pontos de vista, como esse que ali se adotou, mas sem que se
houvesse entrado em todos os desenvolvimentos, a morte é
determinada. Credes, porém, fracas e finitas criaturas, que
aquele que se move no infinito e abrange com o seu olhar as
plêiades inumeráveis de estrelas, de mundos que ele projetou no
espaço, mede o tempo com os vossos compassos? Tudo é detido em
sua marcha, tudo tem determinada a sua duração, ao simples olhar
daquele que é o infinito. Mas, a barreira que se ergue diante de
vós não é determinada como o interpretais.
A duração
da vida se regula pelo princípio que liga o Espírito ao corpo. O
cordão fluídico de que se vos tem falado é a mola que põe em
movimento o mecanismo corporal. Determinada é a duração dessa
mola, mas dentro de uma amplitude que não podeis compreender e
que não se mede pelos minutos da vossa pêndula. Extensão mais ou
menos longa que é dada, de acordo com a maneira por que dela
fizerdes uso. É como um pedaço de borracha que se pode esticar
até certo ponto, conforme a maior ou menor força, a maior ou
menor destreza que se empregue.
Conquanto
seja difícil fazer-vos compreender esta apreciação, vamos
dar-vos o sentido e o alcance do que acabamos de dizer.
A duração do homem
tem um limite natural, determinado, no curso regular da
existência, pelas leis imutáveis da natureza, pela ação e
aplicação dessas leis, de conformidade com os meios e os climas,
por isso que os fluidos que servem para a formação e o
entretenimento dos seres humanos estão em relação com os climas
sobre que eles atuam. E a matéria está em relação adequada com
eles, porquanto, segundo a lei de harmonia universal, tudo é
determinado. Aí, nesse limite natural, é que está o momento
irrevogável do fim humano, fim contra o qual o livre-arbítrio do
homem nada pode, no sentido de prolongar além dele a duração do
corpo.
Eis qual
é, na verdadeira significação da palavra, o instante fatal da
morte. Neste sentido é que os dias da criatura humana não podem
ser prolongados. Eles não podem ir além daquele limite natural.
Mas, o livre-arbítrio do homem pode, seja por meio de suas
resoluções espíritas, isto é, pelas determinações que toma, como
Espírito, antes de encarnar, seja pelo uso que faz da sua
existência como encarnado, interromper o curso desta em
determinado tempo, entre o instante do seu nascimento e aquele
natural limite, que é a hora fatal do fim humano.
O
livre-arbítrio do Espírito o coloca em condições de marcar,
antes da encarnação, a duração aproximada do corpo que lhe
servirá de envoltório, tomando ele o encargo de cumprir as
obrigações necessárias a fazê-lo durar até ao termo de suas
provas. Uma vez encarnado, como ignore quanto tempo durarão
estas, deve empregar todos os esforços para se por em estado de
levá-las a cabo.
Neste
caso, tendo, pelas suas resoluções espíritas, marcado a
terminação da prova, portanto a duração de sua existência
terrena, o Espírito se acha impelido de atingir de atingir o
termo geral desta – o seu limite natural. O corpo, então, sob a
vigilância e a direção dos Espíritos prepostos à tarefa de velar
pelo cumprimento das provas, se forma em condições de durar o
tempo predeterminado, cabendo, porém, repetimo-lo, ao Espírito
encarnado cumprir todas as obrigações de que dependa a duração
dele até ao fim das provas a que serve de instrumento.
Cumpridas
que sejam todas essas obrigações, o instante da morte é
irrevogável, porém não fatal, no verdadeiro sentido desta
palavra, visto ser o resultado do uso que do seu livre-arbítrio
fez o Espírito antes de encarnar.
O homem,
todavia, pode, pelo exercício desse mesmo livre-arbítrio, pelo
abuso que dele faça, pela maneira por que conduza a sua
existência, deter o curso desta antes do tempo marcado pelas
suas resoluções espíritas, pelas determinações que tomou, como
Espírito, antes de encarnar.
Assim é
que o doente usa do livre-arbítrio, tanto quanto cuida do seu
corpo para torná-lo capaz de levar a cabo as provas que seu
Espírito escolheu, como quando apressa a sua morte, quer
descuidando-se dele, o que muito se aproxima do suicídio, quer
praticando abusos e excessos, desde que esse descuido, esses
abusos e excessos constituam infração das obrigações que lhe
cabia cumprir para fazê-lo durar até ao fim das provas que
escolhera.
O tempo
não é, pois, limitado segundo o vosso ponto de vista, se bem o
seja com relação ao infinito e às leis que regem o Universo.
Sim, o
instante da morte é fatal, no verdadeiro sentido da palavra,
porque a vida corpórea não pode ultrapassar certo limite.
Não, o
instante da morte não é fatal, relativamente à duração da vossa
existência restrita, porque o limite natural, no curso regular
da vida terrena, só raramente é atingido, pela razão de que as
vossas resoluções espíritas, ou os vossos atos, uns e outras
conseqüências do vosso livre-arbítrio, impedem que o atinjais.
Quando,
para o homem, é chegada a hora de partir, nada pode eximi-lo da
partida. E isto se verifica, desde que essa hora chegue, ou
porque o limite natural tenha sido alcançado, ou por efeito de
suas resoluções espíritas, ou em conseqüência de atos seus, dada
a maneira por que haja conduzido a sua existência, constituíram
infração das obrigações que ele tinha necessidade de cumprir,
para fazer que seu corpo durasse até ao termo das provas que
buscara.
Dentro
dessa latitude que vos é concedida, podeis mover-vos e usar do
vosso livre-arbítrio que, a não ser assim, não passaria de uma
palavra oca e infalivelmente traria a todo aquele que raciocina
a idéia de fatalismo, de predestinação, de escravidão moral.
Há, porém,
uma distinção a estabelecer-se quanto à duração da vossa
existência, restringida, com relação ao limite natural, pelas
vossas resoluções espíritas, ou por atos vossos que,
conformemente ao emprego que dais à vida corporal, constituem
infração das obrigações que tendes necessidade de cumprir, para
que o vosso corpo dure até à terminação das provas que
escolhestes.
De acordo
com o que já vos dissemos, para o homem que cumpriu, que cumpre
todas as obrigações cuja observância é necessária para que seu
corpo dure até ao termo de suas provas, e que, pelas suas
resoluções espíritas, determinou uma duração restrita para a sua
excelência, o instante da morte é e permanece irrevogável. Nesse
caso, qualquer que seja o perigo que o ameace, ele não perecerá,
se a hora não houver chegado. Qualquer que seja a situação em
que se encontre, os meios apropriados a salvá-lo lhe serão
preparados e colocados ao alcance pelos Espíritos prepostos ao
encargo de vigiar o cumprimento das provas, das expiações. Se,
ao contrário, a hora chegou, ele morrerá, perecerá. Disso
tendes, como se vos disse, milhares de exemplos. De fato,
quantas e quantas vezes, no mesmo lugar, uns perecem, outros se
salvam!
Já
recebestes sobre isto explicações nos comentários aos três
primeiros Evangelhos, quanto aos casos de naufrágio, de
incêndio, de desmoronamentos subterrâneos, das quedas. Não temos
que voltar a esse ponto.
No caso de
assassínio, o assassino não é instrumento cego da Providência
quando, em determinado tempo, põe termo à prova de um que se
destinara a essa expiação. Assim procedendo, usou do seu
livre-arbítrio. O assassínio é a conseqüência do livre-arbítrio
de um e da escolha das provas, das expiações, feita pelo outro
que, aplicando a si mesmo a lei de talião, buscou morrer, ou de
morte violenta, mas sem determinar em que época, nem de que
gênero seria a morte, ou, então, de uma forma precisa, perecendo
assassinado.
No
primeiro caso, se o assassino usa do seu livre-arbítrio para
domar sua paixões e perdoa ao que ia ser uma vítima, outra
circunstância a este se apresentará, que porá fim as suas
provas. Estas se cumprirão assim conforme às resoluções que seu
Espírito tomou antes de encarnar.
No segundo
caso, se o assassino procede da mesma forma, os acontecimentos
da vida aproximarão o encarnado, que deva sofrer a expiação de
morrer assassinado, de outro encarnado em quem os maus pendores
predominam, para que se dê o que haja de dar-se.
O
assassino e a vítima, uma vez encarnados, não mais se lembram da
escolha que fizeram – um, da prova de que terá de sair vencedor
ou vencido e que constitui, para ele, a luta contra uma
tendência de que lhe cumpre triunfar; - o outro, da expiação por
que deve passar, como meio de reparação e de depuração. Assim,
não é por impulso próprio que a vítima se encaminha para o
matadouro. Entretanto, algumas vezes, ele prepara,
inconscientemente, o caminho que a conduzirá lá, ou é para lá
guiada pelos Espíritos prepostos a vigiar o cumprimento das
provas, das expiações.
Compreendei bem o sentido destas últimas palavras. Os guias não
dirigem os atos do assassino; dirigem o Espírito daquele que
sofrer a expiação, dirigem os acontecimentos que o conduzirão ao
caminho, seja da prova, seja da expiação. Não deduzais daí que à
vítima o Espírito seu protetor dê por inspiração, no momento em
que ela desperta, a lembrança da resolução que seu Espírito haja
tomado enquanto esteve desprendido, durante o sono, a de se
colocar no rumo dos sucessos que tenham de levá-la ao
cumprimento da expiação escolhida; não. Isso seria um suplício
moral infligido ao encarnado e a Providência é piedosa para com
seus filhos. Mas, conforme já vos foi explicado no comentário
aos três primeiros Evangelhos, o encarnado, ao despertar,
conserva uma impressão vaga, que se torna a determinante da sua
vontade, de seus atos.
Se a hora
fixada pelas resoluções espíritas, quanto à época da morte, não
soou e permanece irrevogável, por estar aquele que se acha
submetido à expiação cumprido todas as obrigações de que há de
resultar a duração de seu corpo até ao fim de suas provas, os
Espíritos prepostos a velar pelo cumprimento destas, das
expiações, preparam e põem ao alcance dele os meios próprios a
subtraí-lo ao assassínio. Ele se salvará, qualquer que seja o
perigo que o ameace.
No caso em
que, praticando, pelo uso que faz da usa existência, atos que
constituam infração das obrigações que lhe era necessário
cumprir para que o corpo lhe durasse até ao fim de suas provas,
infração, portanto, de suas resoluções espíritas, o homem detém
o curso dessas provas, ele apressa o instante de sua morte.
Soa-lhe então a hora de partir, porque, usando e abusando do seu
livre-arbítrio, pôs fim à duração de seu corpo, com o fazer que
entrassem em ação os meios pelos quais esse fim chega. É que,
procedendo daquela forma, ele atraiu fluidos cuja ação, de
conformidade com as leis naturais e imutáveis que os regem,
prepara e executa a destruição do corpo, a rutura do laço que a
este liga o Espírito, desse cordão fluídico que é a mola, o
instrumento e o meio de que depende a vida. E, ao mesmo tempo
que atraía aqueles fluidos, ele repelia os apropriados à
conservação do corpo até ao termo das provas por que devia
passar.
O homem
que se deixa arrastar ao suicídio usa do seu livre-arbítrio,
quer quando atenta, de qualquer modo, contra a vida, quer quando
afasta a arma que dirigira contra si mesmo, ou renuncia ao
projeto de matar-se e ao gênero de morte que escolhera. Se,
porém, a hora que ele, ao tomar as suas resoluções espíritas,
fixou para morrer é e se conserva irrevogável, por haverem sido,
de sua parte, cumpridas todas as obrigações que lhe importava
cumprir para que seu corpo durasse até ao termo de suas provas,
os Espíritos prepostos a velar pelo cumprimento destas
prepararão e lhe porão ao alcance os meios adequados a se
subtrair à morte. O suicídio abortará, ele será salvo.
Não
concluais daí que o homem possa seguir impunemente o seu pendor
para o suicídio e a ele ceder, atentando contra a própria vida,
porquanto, de um lado, o suicídio é crime perante Deus e, de
outro, o homem não sabe se chegou ou não a hora da sua partida.
A duração
da vida é limitada, mas o livre-arbítrio do homem pode fazê-lo
sucumbir ao mau pensamento de interromper ele mesmo o curso da
sua existência, ou levá-lo a dominar esse arrastamento culposo.
Aquele que
se suicidou, como o que morreu assassinado ou de qualquer outra
forma, morreria sempre, mas de maneira diversa, de modo natural,
desde que houvesse chegado para ele a hora de partir, quer por
haver atingido o limite natural marcado para fim da vida humana
que segue o seu curso, regular, quer por haverem suas provas
atingido o termo que ele lhes fixou ao tomar suas resoluções
espíritas, quer, finalmente, por ter, pelos seus atos,
infringido as obrigações que precisava cumprir, a fim de fazer
que seu corpo durasse até ao termo daquelas provas.
Cedendo ao
arrastamento que lhe cumpria combater, o gênero de morte a que
sucumbiu resultou de sua escolha, mas ele partiu porque chegara
a hora de partir. Se houvesse combatido os pendores que o
impeliam a matar-se, teria saído vencedor da prova, não se veria
condenado a recomeçar nas mesmas condições.
O
sentimento que induz o homem a se suicidar não lhe nasce no
íntimo instantaneamente. É um gérmen que se desenvolve, como que
devido a uma tendência constitutiva de uma prova de que ele
precisa triunfar. Se, em lugar de combater essa tendência, o
homem se lhe entrega, morre culpado, faliu. Se, em vez de se lhe
entregar, investe contra a idéia de destruir a existência que o
Senhor lhe concedeu, a hora da libertação, quando soar, o
encontrará isento da mancha de uma ação má e da dos maus
pensamentos que a houverem causado.
Combatendo
as tendências que os propeliam para a destruição de si mesmo,
evitando a série de acontecimentos que poderiam levá-lo a um tal
ato de desespero, o suicida teria podido evitar o crime. O homem
pode evitá-lo, pois que pode, pela força da sua vontade, repelir
as tentações. Aquele que escolheu, como prova, resistir à
tendência aos suicídio, pode sair vencedor da luta. A bondade de
Deus lhe faculta os meios; cabe-lhe alcançar a vitória,
porquanto, nas provas em que o homem, para purificar seu
Espírito no cadinho da reencarnação, é chamado a vencer suas
tendências, Deus lhe deixa a liberdade de escolher entre o bem e
o mal. Assim, há sempre luta e possibilidades de triunfo ou de
derrota.
Quer
sucumba na prova do suicídio, quer triunfe dela, morre sempre no
tempo preciso, isto é, quando chega para ele a hora de partir,
de uma das maneiras que acabamos de assinalar. Mas Deus,
conhecendo todas as coisas, por efeito da sua sabedoria infinita
e da sua presciência, vê se o homem vencerá ou sucumbirá. Se
tiver que sair vencedor, o Senhor, por intermédio dos Espíritos
prepostos a velar pela execução das provas, prepara
circunstâncias que lhe acarretem um fim natural. Se houver de
sucumbir na prova, o Senhor deixa que, na inviolabilidade do seu
livre-arbítrio, o homem consuma a obra criminosa, dando à sua
existência o fim que ele próprio preparou e que constituirá um
ato culposo da sua vontade.
Eis tudo o
que temos para vos dizer sobre o instante da morte, o qual se
fosse, como falsamente alguns o consideram, fatal, de modo
absoluto e em todos os casos, seria um atentado ao
livre-arbítrio do homem e envolveria, inevitavelmente, a idéia
de fatalismo.
SEXTO
MANDAMENTO
Não
matarás.
Não corte
aquele que nada pode criar o fio da existência das criaturas do
Senhor. Não deixe o homem que em seu coração se desenvolva o
instinto da destruição, pois não sabe que responsabilidade
assume.
Este
Mandamento, muito vago em seu enunciado, tem um alcance maior do
que supondes e ultrapassa de muito os limites do vosso ser. Em
cada uma das fases do seu passado, a humanidade o interpretou
segundo as suas necessidades. Em cada uma das fases do seu
futuro o interpretará de maneira a lhe ampliar a inteligência e
aplicação.
Nos tempos
primitivos, o “não matarás” significava, para os Hebreus: “Não
derramarás, sem motivo, o sangue do teu irmão”. Mas, a pena de
morte vigorava para o menor delito e o sangue das vítimas
oferecidas em holocausto corria incessantemente sobre o altar e
tão pouco poupados eram os escravos, quanto os animais.
Mais
tarde, a pena de morte se tornou menos aplicada. Só o era àquele
cujo crime se tinha por bem comprovado. Os próprios animais
passaram a ser, em parte, menos sacrificados, quando nada, nas
cerimônias do culto. Porém, as vinganças, as guerras, a
crueldade continuaram, como continuam, a derramar sangue por
todos os lados.
Hoje, os
que hão escutado a nossa voz, mesmo os que não a têm
compreendido ou a consideram mentirosa, se levantam contra a
aplicação da pena de morte ao criminoso, anelam pelo momento em
que não mais homens se alinhem diante de homens, para
descarregar uns sobre os outros seus mortíferos projéteis e
alguns – os que nos atendem – poupam a vida de todas essas
criaturas fracas que o Senhor lhe pôs no caminho, a fim de
desenvolver em seus corações a caridade e fazer-lhes compreender
a solidariedade universal. Mas, o sangue ainda corre nos
matadouros e, aos magotes, caem, sob os golpes dos cutelos
assassinos, as vítimas necessárias à alimentação humana.
Mais
tarde, o sangue deixará de ser derramado na Terra. Mais tarde, o
homem não matará. Amará e protegerá o fraco, quer seja este um
homem também, quer uma animal confiado à sua guarda.
Compreenderá a lei de amor e saberá elevar-se acima das
necessidades da carne, necessidades a que ainda precisa
satisfazer, porquanto correspondem à organização atual da
máquina, mas que diminuirão gradualmente, à medida que o
Espírito crescer na sabedoria e em ciência, porque, de par com
este crescimento, também gradativamente se modificará o
organismo humano. O progresso físico marcha e se desenvolve
concomitantemente com o progresso moral e intelectual, com os
quais guarda relação.
Neste
momento, a abolição da pena de morte é reclamada na França, está
proposta nas assembléias legislativas da Itália e da Bélgica.
São
esforços generosos; são promissores começos. Ainda não chegou,
porém, o momento de abolir-se a pena de morte. É preciso que se
depure o moral das classes inferiores, inferiores não do ponto
de vista das condições sociais, mas do adiantamento moral,
intelectual, dos Espíritos. Enquanto não chega esse esperado
momento, a vós, homens, a vós espíritas, sobretudo cabe, pelos
vossos ensinos e exemplos, apressar-lhe o advento possível e
oportuno.
SÉTIMO
MANDAMENTO
Não
cometerás adultério.
A natureza
material do homem o impele para a lubricidade. Nada lhe refreia
os desejos, desde que se entregue aos instintos animais. E
sabeis que estes instintos, principalmente, dominavam naquelas
afastadas épocas. Não vedes que ainda agora eles arrastam muitos
de vossos irmãos a vergonhosos transviamentos?
Os laços
que prendem um ao outro o homem e a mulher e que os induzem a
perpetuar a espécie têm uma origem nobre e pura, de onde a
materialidade da encarnação os desviou, mas à qual é preciso que
voltem.
A
proibição de cometer adultério devia bastar para conter os
excessos. Mas, ainda aí a interpretação obedeceu às necessidades
da época: o homem e a mulher casados, se cometiam adultério,
eram punidos, ela com a pena de morte, ele com a pecha de
infame.
Este
Mandamento, segundo o espírito, se estende a toda quebra da
união pura. Compreende todos os arrastamentos carnais, sejam
quais forem, que impilam o macho para a fêmea e que rebaixam a
humanidade até ao nível dos instintos do bruto.
Não vos
dizemos: “Deus criou um homem de uma mulher, a fim de provar que
uma só existência deviam eles ter”. Esse era o lado moral, o fim
moral que, sob o véu da letra, Moises adotara, colocando-se no
ponto de vista dos Hebreus, e que permaneceram os mesmos para as
gerações então futuras. Já vos demos explicações a respeito
dessa figura emblemática da criação e acerca da própria criação.
Dir-vos-emos, não obstante, o seguinte: os Espíritos se grupam
por atração de simpatia. Cada Espírito escolhe o companheiro, ou
a companheira, com quem passe o tempo de sua provação. Tal a
regra, cuja única exceção se encontra no caso do celibato como
provação.
Os
Espíritos encarnam, nascem, geralmente em condições que lhes
permitam reunir-se. Os que são reciprocamente simpáticos se
acham destinados à união. Mas, as disposições materiais de um ou
de outro, como encarnados, podem quebrar acidentalmente a
harmonia e lhes retardar a união, quer nos limites da encarnação
presente, quer até uma outra encarnação. Assim é que um Espírito
se vê repelido, desprezado, ou abandonado por outro que lhe é
simpático, que o chama, isto é, para o qual ele se sente
atraído, porém que se deixou seduzir, ou pelos arrastamentos
carnais, ou pelo orgulho, pela ambição, pelo amor do ouro.
Quanto
Espíritos simpáticos um ao outro chegam a unir-se na Terra, de
conformidade com a escolha por eles reciprocamente feita antes
de encarnarem, nada mais haverá que os separe, que rompa os
laços dessa união, desde que ela se realizou por efeito de
idênticas tendências para o bem. Esses não precisam mais que um
mandamento lhes diga: “Não cometereis adultério”. Porém, se, uma
vez encarnados, descuidando-se dos compromissos assumidos no
estado espírita, compromissos cuja lembrança perderam, se bem
que um secreto instinto do coração os advirta deles, e dos quais
a influência da matéria os afasta, os Espíritos, homens e
mulheres, não procuram, na união conjugal, mais do que uma
passageira satisfação material, mais do que uma combinação
matemática ou social, um negócio de interesse ou de orgulho, os
compromissos terrenos quebram os laços de simpatia. Em tal caso,
uma afeição pura não enche os corações e os Espíritos buscam a
compensações na variedade e no mau proceder. A esses o
mandamento diz: "Não fornicarás, não cometerás adultério,
porquanto, se a ti mesmo te impuseste carregar uma pesada
cadeia, tens que sofrer as conseqüências; tens que, pelo
respeito que deves a esse compromisso irrefletido, atenuar a
falta que praticaste contraindo-o; tens que vencer os teus
instintos sensuais; tens que dominar a carne e fazer que nasça a
simpatia que deverá reinar - entre o teu Espírito e o da
companheira que inconsideradamente escolheste - quando começar o
dia da liberdade pela volta de ambos à vida espírita."
Algumas
vezes, a união é imposta ao encarnado pela influência e
autoridade dos pais, movidos pelo interesse ou pelo orgulho. Tal
união constitui, para o que a sofre, uma provação por ele
escolhida e que será temporária, ou durará todo o tempo da sua
existência terrena. No primeiro caso, terá por efeito apenas
retardar, no curso da sua encarnação atual, a união simpática
que ele escolhera antes desta. No segundo, o efeito será adiar
essa união para uma encarnação posterior.
E tanto
para esse, como para o que se uniu fugindo às suas provas, o
Mandamento emprega a mesma linguagem de que usa para com o que,
livre e voluntária, mas irrefletidamente, assumiu um
compromisso, desviando-se do caminho que devia seguir.
Algumas
vezes também, certos Espíritos, desejosos de vencer a antipatia
que experimentam um pelo outro, embora nem sempre seja
recíproca, escolhem, como provação, unir-se humanamente. Ainda a
esses o Mandamento diz: "Não cometereis adultério". E Jesus, com
a sua voz meiga, repete: "Não separe o homem o que Deus uniu."
Concluindo
as nossas observações sobre este ponto, repetimos: Os Espíritos
se destinam à união. Antes de encarnarem, escolhem os que lhes
sejam companheiros, a fim de juntos passarem o tempo de
provação, auxiliando-se mutuamente, ressalvada a possibilidade
de uns ou outros fugirem ao cumprimento de suas resoluções
espíritas. Mas, quer isto se dê, quer não, a escolha, seja
conforme ou contrária a essas resoluções espíritas, não é fruto
do que chamais - o acaso e sim o resultado da direção impressa
às provas. Dessa direção depende ser o Espírito desviado de sua
rota, ou livre e voluntariamente, ou porque sofra a imposição de
uma vontade.
Feita a
escolha e dado que um dos Espíritos ou ambos se afastem do
caminho que deviam seguir, pode acontecer, ou que venham a
encontrar-se, ao cabo de certo tempo, na encarnação presente, ou
que fiquem momentaneamente separados, até uma nova encarnação,
na qual os reconduzirão um ao outro as mesmas simpatias, ou
então, se o caso de resultar de antipatia, a intenção de, por
prova, viverem unidos. A escolha reiteradamente feita acabará
por torná-los capazes de levarem a cabo a prova.
O celibato
também é, para uns, prova; para outros, desvio. Os que, por
prova, se destinam ao celibato, não escolheram companheira para
a vida, ou pelo menos (dizemo-lo, a fim de não deixar margem
para falsas interpretações), não determinaram que se verificasse
sua união terrena com outro Espírito.
Para
explicarmos todos os casos em que o celibato constitui um
transviamento, teríamos que entrar e muitos pormenores. Bastará,
pois, vos façamos notar que há celibatários - por egoísmo, por
lubricidade, por indiferença, por avareza, por quietismo,
doutrina que, assente numa falsa idéia da espiritualidade, faz
consistir a perfeição cristã na inação da alma e em a criatura
negligenciar das obras exteriores. Há ainda o celibato por voto
decorrente da condição imposta a todo aquele, homem e mulher,
que se propõe entrar para as ordens monásticas e religiosas.
Conforme vos foi relatado no comentário sobre os três primeiros
Evangelhos, a imposição desse compromisso nasceu de uma falsa
interpretação e de uma aplicação falsa destas palavras de Jesus:
"Há os que se fizeram eunucos pelo reino dos céus; aquele que
puder compreender isto, que o compreenda", palavras que a Igreja
não soube nem pôde compreender. O que, a esse respeito, ocorreu,
sob o império e o véu da letra, na era cristã, postos de parte
os desvios e abusos, teve a sua razão de ser, mas tem que cessar
e cessará na era nova do Cristianismo do Cristo, na era
espírita, sob o império do espírito.
OITAVO
MANDAMENTO
Não
furtarás.
O egoísmo
e a inveja são inimigos ocultos que todo homem traz dentro de
si. São dois sentimentos que o levam a apoderar-se de tudo o que
lhe possa convir, quer moralmente, quer fisicamente. São dois
sentimentos que o excitam a empregar a astúcia ou a força para
conseguir o que deseja.
Impor-lhe
o respeito à propriedade de outrem, qualquer que ela seja, é
forçá-lo a domar esses princípios de todo mal, conduzindo-o à
obediência à lei do trabalho, da injustiça, do amor e da
caridade que, banindo-lhe do coração o egoísmo e a inveja, lhe
excluem do pensamento e dos atos a preguiça, a ignorância, a
miséria, os transbordamentos, os desvios, os excessos do
Espírito e da carne e, portanto, o instinto ou a vontade do
roubo de qualquer natureza, tanto do ponto de vista das pessoas,
como do das propriedades de ordem material, moral e intelectual.
Tal o objetivo deste Mandamento.
NONO
MANDAMENTO
Não dirás
falso testemunho contra o teu próximo.
Não é o
que entra no homem o que o macula, disse Jesus, porque o que
entra no homem vai aos intestinos e daí para o lugar secreto. O
que macula o homem são as palavras que lhe sobem do coração aos
lábios.
A verdade,
em toda a sua simplicidade, deve inspirar as palavras daquele
que teme a Deus e procura caminhar nas sendas por ele traçadas.
Este
Mandamento, apropriado a uma época em que, pelo testemunho de um
só homem, um outro homem podia, em certos casos, ser condenado à
morte, se estende, avolumando-se de princípios, a todos os
séculos e clareia os que se aproximam.
Vimos de
dizer que ele era apropriado a uma época em que, pelo testemunho
de um só homem, podia outro ser condenado à morte. Ainda nos
dias de hoje as causas subsistem, porém, porque a justiça dos
homens progrediu, como todas as coisas, mais raros são os fatos
dessa natureza. Na época de que falamos, quando este Mandamento
apareceu, no período da era hebraica, bastava que um homem
acusasse o outro de blasfemo, ou de um pecado, para que esse
outro fosse lapidado. E esses costumes, essas tradições
hebraicas, por longos séculos e sob diversos aspectos e de
pontos de vista diferentes, com relação à era cristã, deixaram
traços que ainda se notam nas vossas legislações humanas: civis,
políticas e religiosas.
Não dar
falso testemunho é, em toda ocasião, em todo lugar e em todos os
casos, render homenagem à verdade; é desfraldar sem vexame, nem
vacilações, o estandarte da verdade; é não temer altear o facho
de luz que aclara; é destruir o alqueire que a cobre, para
fazê-la brilhar aos olhos de todos.
Não
pronunciar falso testemunho é marchar sempre de acordo com a
consciência.
DÉCIMO
MANDAMENTO
Não
cobiçarás a casa de teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu
próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu
jumento, nem coisa alguma que seja de teu próximo.
Este
Mandamento se prende, dando-lhe maior amplitude, ao que diz:
"Não furtarás". Ele ensina ao homem que não lhe basta abster-se
de uma ação má; que lhe cumpre ter-se em guarda contra o mau
pensamento, pois, para Deus, o pensamento, em muitas
circunstâncias, vale tanto quanto o ato. Efetivamente, aquele
que concebe um mau desígnio, mas que não o pode executar, seja
porque uma série de acontecimentos o impeça, não é tão culpado
como o que o executa? Faltou-lhe a ocasião, eis tudo.
Branqueai
e limpai os sepulcros dos vossos corações; purificai os vossos
pensamentos; que nenhum destes seja de ordem a vos fazer corar
diante dos vossos irmãos, pois o que não ousareis confessar a
homens falíveis como vós está exposto às vistas do supremo
Juiz, que lê no mais recôndito da vossa alma.
Nada
cobiceis; não premediteis nenhum mal; não vos entregueis a
nenhum mau pensamento, por isso que aquele que sonda os corações
e as entranhas julga, assim os sentimentos, como os atos.
Que sobre
vós derrame o Senhor as suas bênçãos.
Moisés
AMOR DE
DEUS E DO PRÓXIMO
"Amarás ao
Eterno teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de
todas as tuas forças." (Deuteronômio, cap. VI, vv. 4-5.)
"Amarás ao
teu próximo como a ti mesmo." (Levítico, cap. XIX, v.18. -
Mateus, cap. XXII, vv. 30-40. - Marcos, cap. XII, vv. 28-31. -
Lucas, cap. X, vv. 25-28 e 29-37.)
"E estes
mandamentos que hoje te prescrevo estarão em teu coração; tu os
inculcarás a teus filhos e deles falarás quando estiveres em tua
casa, quando te puseres a caminho, quando te deitares e quando
te levantares; e os atarás como um sinal em tuas mãos e estarão
como testeiras entre teus olhos; escrevê-los-á também nos
umbrais de tua casa e nas tuas portas. - Ouve, pois, ó Israel e
cuida de guardá-los, a fim de que sejas feliz e muito te
multipliques na terra onde manam leite e mel, como o disse o
Eterno, o Deus de teus pais." (Deuteronômio, cap. VI, vv.
6-7-8-9 e v.3)
"Toda a
lei e os profetas se acham contidos nestes dois mandamentos."
(Mateus, cap. XXII, v.40.)
Amar a
Deus é render homenagem ao princípio do amor, à causa da vida.
Criatura
ínfima, que pode o homem, que pode o Espírito que anima essa
forma grosseira fazer como testemunho de reconhecimento ao
Senhor onipotente por todos os tesouros que lhe pôs nas mãos, a
fim de que deles se utilize incessantemente? Amar, porquanto o
amor inspira a submissão, a gratidão e o respeito; amar,
porquanto o amor é o único laço que liga a criatura ao Criador.
E esse amor deve manifestar-se de todos os modos, visto que
representa a criação inteira.
Para amar
a Deus, deve o homem limpar seu coração, seu Espírito, seu corpo
de todas as nódoas, pois o amor induz à aproximação e o que quer
que seja impuro não pode aproximar-se de Deus.
Dissemos
que o homem deve limpar seu coração, seu Espírito e seu corpo de
todas as nódoas. Deve limpar o corpo, como o coração e o
Espírito, porque o corpo é o instrumento com que este cumpre
suas provas e realiza, encarnando, sua marcha ascensional pela
senda do progresso moral, intelectual e físico. Deve limpar seu
coração, seu Espírito e seu corpo, para, por meio do progresso
moral e intelectual, obter a depuração do coração e do Espírito
e, por meio desta, conseguir o progresso físico e, em
conseqüência, o do envoltório corporal, isentando-o da liga
impura da matéria, com o desprender-se dela cada vez mais, no
curso das vidas sucessivas e progressivas e através da
hierarquia ascensional dos mundos.
Para amar
a Deus, deve o homem trabalhar continuamente por elevar sua
inteligência, por desenvolvê-la, por alargar seus conhecimentos,
por dilatar sua ciência, porquanto a ignorância não pode
aproximar-se da onisciência e tudo o que é amor tende a unir-se.
Amar a
Deus é fundir-se na humanidade, é absorver-se no amor fraternal,
por isso que todo homem - como todas as criaturas do Senhor -
provém do mesmo princípio, tende ao mesmo fim, é uma parte do
ser dividido ao infinito, para o efeito de elevar-se do
infinitamente pequeno ao infinitamente grande, na
individualidade e na imortalidade.
Homens,
não vos equivoqueis quanto ao sentido e ao alcance destas
últimas palavras: "é uma parte do ser dividido ao infinito, para
o efeito de elevar-se do infinitamente pequeno ao infinitamente
grande, na individualidade e na imortalidade." Mal
compreendidas, elas dariam lugar a falsa interpretações, do
ponto de vista das idéias panteístas, idéias errôneas e falsas.
Para bem lhes compreenderdes o sentido e o alcance, reportai-vos
ao que já vos foi explicado no comentário do Evangelho de João
(n. 11, v. 24, deste tomo) sobre Deus e, nos comentários sobre
os três primeiros Evangelhos (ns. 56 e seguintes, 1º tomo),
sobre a origem da essência espiritual, do Espírito (a origem da
alma), suas fases, seus fins e deus destinos, sobre a origem dos
mundos, de todas as criações de ordem espiritual, fluídica e
material.
O que
nesses lugares foi explicado vos mostra que Deus, o Criador
incriado, é pessoal e distinto de criação, da criatura, como a
causa é pessoal e distinta do efeito que ela gera, que ela
produz; como o infinito, o incriado é pessoal e distinto do
finito, do criado; como a eternidade é pessoal e distinta do
tempo, da duração que ela gera, que ela produz relativamente à
criação, à criatura.
O que
então foi explicado vos mostra que Deus, o Criador incriado, é
pessoal e distinto da criação, das criaturas, que são dele, por
ele e nele e não ele, que são, pois, nesse sentido, uma parte do
ser dividido ao infinito, para o efeito de elevar-se do
infinitamente pequeno ao infinitamente grande, na
individualidade e na imortalidade.
O que em
tais pontos foi explicado vos mostra que Deus, Criador incriado,
inteligência, pensamento, fluido, habita (no dizer do apóstolo
Paulo) uma luz inacessível e possui, ele só, a imortalidade; que
o fluido universal, que dele parte e o toca, é, por suas
quintessências e mediante todas as combinações, modificações e
transformações por que ele o faz passar, o instrumento e o meio
de que se serve para realizar, no infinito e na eternidade, pela
ação da sua vontade onipotente, todas as criações, espirituais,
fluídicas e materiais; a criação de todos os mundos, de todos os
seres em todos os reinos da natureza; a criação de tudo se move,
vive, é.
O que
assim foi explicado vos mostra o Espírito, na origem de sua
formação, como essência espiritual, saindo do todo universal,
isto é, do conjunto dos fluidos espalhados no espaço e que são a
fonte de tudo o que existe, quer no estado espiritual, quer no
estado fluídico, quer no estado material: como essência
espiritual formada da quintessência desses fluidos, pela vontade
do Senhor onipotente, só e única essência de vida no infinito e
na eternidade. É ele quem anima essa quintessência dos fluidos
para lhe dar o ser, para, mediante uma combinação sutil, cuja
essência somente nas irradiações divinas se encontra, fazer dela
essências espirituais, os princípios primitivos do Espírito em
gérmem e destinados à sua formação. Neste sentido é que as
essências espirituais são partes do ser dividido ao infinito,
para efeito de se elevarem do infinitamente pequeno ao
infinitamente grande, individualizadas e imortalizadas.
O que nos
pontos indicados acima foi explicado vos mostra a grande lei,
cuja ação se exerce por intermédio dos fluidos magnéticos que
nos envolvem, como se formáramos um único ser, a fim de nos
ajudar a subir para Deus pela conjugação de nossas forças, a
grande lei da atração magnética ligando, no universo infinito,
todos os mundos, unindo todos os Espíritos encarnados ou não,
todas as criaturas oriundas de Deus, criador incriado, imutável,
eterno, infinito, como o todo universal de que fazemos parte e
que se acha submetido ao seu mando. Tudo e todos têm dele, por
ele e nele o ser e se acham presos pelos laços da unidade e da
solidariedade.
A
humanidade inteira deve, portanto, considerar-se uma
individualidade única, um imenso corpo que, em cada indivíduo,
tem um membro ligado ao todo. Tudo, portanto, deve tender para a
harmonia humana, aguardando o momento de poder elevar-se à
harmonia celeste.
Assim,
amar ao próximo como a si mesmo é uma conseqüência do amor de
Deus. E é neste sentido e do ponto de vista desta unidade e
desta solidariedade, humanas, universais em Deus, que, segundo o
espírito e em verdade, depois de haver lembrado o mandamento do
amor a Deus e de haver dito: "Este é o primeiro e o maior dos
mandamentos", Jesus, recordando o do amor ao próximo como a si
mesmo, disse: "Eis o segundo, semelhante ao primeiro".
Os dois
Mandamentos, segundo a letra e para os Hebreus, objetivavam a
nacionalidade deles. Porém, segundo o espírito oculto pela
letra, Israel era, simbolicamente, a personificação da
humanidade toda. E Jesus, dizendo: "Toda a lei e os profetas se
contêm nestes dois mandamentos", proclamou serem eles, para
todos os homens, Judeus e Gentios, o único meio de salvação,
isto é, de depuração, de progresso. Proclamou-os o caminho único
para a perfeição e, portanto, para a vida eterna, para a vida
dos puros Espíritos, onde tudo são delícias, claridade, ventura,
atividade e perseverança no estudo, para um avanço contínuo e
cada vez maior em ciência universal, no infinito e na
eternidade; onde tudo é amor e devotamento, para o progresso
universal, na vida e na harmonia universais.
Homens,
praticai, com sinceridade e zelo, sem afrouxamento, sem cessar,
estes dois Mandamentos, nunca fazendo aos outros, nem por
palavras, nem por atos, o que não quereríeis que vos fizessem,
fazendo, ao contrário, do ponto de vista do bem e do belo, do
que é justo, bom e verdadeiro, assim na ordem material, como na
ordem moral e intelectual, tudo o que desejaríeis que vos
fizessem, porquanto Jesus também disse: "Aí estão toda a lei e
os profetas". E, conforme ele igualmente o proclamou, a cada um
há de ser e será dado de acordo com as suas obras e cada um será
julgado pelas suas obras no tribunal da própria consciência,
sede do Tribunal de Deus.
Preparai
assim, praticando, com sinceridade, humildade e desinteresse, a
justiça, o amor e a caridade, o advento da fraternidade humana
que, só ela, pode estabelecer e fazer reinar, estabelecerá e
fará reinar na Terra a liberdade para todos e a igualdade entre
todos, diante de Deus e diante dos homens, sob o império da lei
de reciprocidade e de solidariedade.
Compreendendo e praticando todos, desse modo, em espírito e
verdade, o direito e o dever, dos pontos de vista social,
familiar e individual, preparai o advento do reino de Deus na
Terra, sob o império e a ação da lei de amor e de unidade.
MOISÉS,
MATEUS, MARCOS, LUCAS e JOÃO.
assistidos
pelos Apóstolos
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