O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Encarnação dos Espíritos

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
A Gênese

DOUTRINA

     

O Espiritismo nos ensina de que maneira se opera a união do Espírito e do corpo na encarnação.

O Espírito, pela sua essência espiritual, é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter uma ação direta sobre a matéria, sendo-lhe necessário um intermediário; esse intermediário está no envoltório fluídico que faz, de alguma sorte, parte integrante do Espírito, envoltório semimaterial, quer dizer, tendo da matéria por sua origem e da espiritualidade por sua natureza etérea; como toda matéria, ela é haurida no fluido cósmico universal, que sofre, nessa circunstância, uma modificação especial.  Esse envoltório, designado sob o nome de perispírito, de um ser abstrato, faz um ser concreto, definido, perceptível pelo pensamento; ele o torna apto para agir sobre a matéria tangível, do mesmo modo que todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.

O fluido perispiritual é, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria.  Durante a sua união com o corpo, é o veículo de seu pensamento, para transmitir o movimento às deferentes partes do organismo que agem sob o impulso de sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores.  Ele tem por fio condutor os nervos, como no telégrafo o fluido elétrico tem por condutor o fio metálico.

Quando o Espírito deve se encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que não é outra coisa senão uma expansão do seu perispírito, liga-o ao germe para o qual se acha atraído, por uma força irresistível,  desde o momento da concepção.  À medida que o germe se desenvolve, o laço se aperta; sob a influência do princípio vital material do germe, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, com o corpo que se forma: de onde se pode dizer que o Espírito, por intermédio de seu perispírito, toma, de alguma sorte, raiz nesse germe, como uma planta na terra.  Quando o geme está inteiramente desenvolvido, a união é completa, e, então, ele nasce para a vida exterior.

Por um efeito contrário, essa união do perispírito e da matéria carnal, que se cumprira sob a influência do principio vital do germe, quando esse principio deixa de agir, em conseqüência da desorganização do corpo, a união que era mantida por uma força atuante, cessa quando essa força deixa de agir; então o perispírito se desliga, molécula a molécula, como estava unido, e o Espírito se entrega à sua liberdade. Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo, mas a morte do corpo que causa a partida do Espírito.

Desde o instante que se segue à morte, a integridade do Espírito está inteira; que as suas faculdades adquirem mesmo uma penetração maior, ao passo que o princípio de vida está extinto no corpo, é a prova evidente de que o principio vital e o principio espiritual são duas coisas distintas.

O Espiritismo nos ensina, pelos fatos que nos faculta observar, os fenômenos que acompanham essa separação; algumas vezes, ela é rápida, fácil, doce e insensível; de outras vezes, é lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, segundo o estado moral do Espírito, e pode durar meses inteiros.

Um fenômeno particular, igualmente assinalado pela observação, acompanha sempre a encarnação do Espírito.  Desde que este é preso pelo laço fluídico que o liga ao germe, a perturbação se apodera dele; essa perturbação cresce à medida que o laço se aperta, e nos últimos momentos, o Espírito perde toda a consciência de si mesmo, de sorte que ele nunca é testemunha consciente de seu nascimento.  No momento em que a criança respira, o Espírito começa a recobrar as suas faculdades que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devem servir para a sua manifestação.

Mas, ao mesmo tempo em que o Espírito recobra a consciência de si mesmo, ele perde a lembrança de seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que estavam, momentaneamente, estacionadas em seu estado latente e que, em retomando a sua atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que o fazia precedentemente; ele renasce o que se fez pelo seu trabalho anterior, é, por isso, um novo ponto de partida, um novo degrau a subir.  Aqui ainda se manifesta a bondade do Criador, porque a lembrança de um passado, freqüentemente penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras de sua nova existência, poderia perturbá-lo ou entravá-lo; ele não se lembra senão daquilo que aprendeu, porque isso lhe é útil.  Se, algumas vezes, conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugidio.  É, pois, um homem novo, por ancião que seja o seu Espírito, ele se apóia sobre novos hábitos, com a ajuda dos que adquiriu.  Quando ele entra na vida espiritual, o seu passado se desenrola aos seus olhos, e julga se empregou bem ou mal o seu tempo.

Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, apesar do esquecimento do passado; o Espírito é sempre ele, antes, durante a encarnação e depois dela; a encarnação não é senão uma fase especial de sua existência.  Esse esquecimento não ocorre mesmo senão durante a vida exterior de relação; durante o sono, o Espírito, em parte, desligado dos laços carnais, entregue à liberdade e à vida espiritual, lembra-se; sua vida espiritual não é mais tanto obscurecida pela matéria.

Tomando a Humanidade em seu grau mais ínfimo da escala intelectual, entre os selvagens mais atrasados, pergunta-se se aí está o ponto de partida da alma humana.

Segundo a opinião de alguns filósofos espiritualistas, o principio inteligente, distinto do principio material, se individualiza, se elabora, em passando pelos diversos graus da animalidade; é aí que a alma ensaia para a vida e desenvolve as suas primeiras faculdades pelo exercício; seria, por assim dizer, o seu tempo de incubação.  Chegada ao grau de desenvolvimento que comporta esse estado, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana.  Haveria, assim, filiação espiritual do animal ao homem, como há filiação corpórea.

Esse sistema, fundado sobre a grande lei da unidade que preside à criação, responde, é necessário nisso convir, à justiça e à bondade do Criador; ele dá um resultado, um objetivo, um destino aos animais, que não mais são seres deserdados, mas que encontram, no futuro que lhes está reservado, uma compensação aos seus sofrimentos.  O que constitui o homem espiritual, não é a sua origem, mas os atributos especiais dos quais está dotado em sua entrada na humanidade, atributos que o transformam e dele fazem um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga de onde saiu.  Por ter passado pela fieira da animalidade, com isso o homem não seria menos homem; não seria mais animal como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe pelo qual começou no mundo.

Mas esse sistema levanta numerosas questões, das quais não é oportuno discutir aqui o pró e o contra, não mais que examinar as diferentes hipóteses que se fizeram a esse respeito.  Sem, pois, procurar a origem da alma, e as fieiras pelas quais pode passar, nós a tomamos em sua entrada na humanidade, no ponto em que, dotada do senso moral e do livre arbítrio, ela começa a incorrer na responsabilidade de seus atos.

A obrigação, para o Espírito encarnado, de prover a nutrição de seu corpo, sua segurança e seu bem-estar, constrange-os a aplicar suas faculdades na busca de exercê-las e desenvolvê-las.  Sua união com a matéria é, pois, útil ao seu adiantamento; eis porque a encarnação é uma necessidade.  Por outro lado, pelo trabalho inteligente que realiza em seu proveito sobre a matéria, concorre para a transformação e o progresso material do globo em que habita; assim é que, progredindo ele mesmo, colabora na obra do Criador, de que é agente inconsciente.

Mas a encarnação do Espírito não é constante nem perpétua; não é senão transitória; deixando um corpo, não retoma outro imediatamente; durante um lapso de tempo mais ou menos considerável, vive da vida espiritual, que é a vida normal; de tal sorte que a soma do tempo passado nas diferentes encarnações é pouca coisa comparada ao tempo que ele passa no estado de Espírito livre.

No intervalo dessas encarnações, o Espírito progride igualmente, no sentido de que aproveita, para o seu adiantamento, os conhecimentos e a experiência adquiridos na vida corpórea; ele examina o que fez em sua permanência terrestre, passa em revista o que aprendeu, reconhece suas faltas, organiza seus planos e toma as resoluções segundo as quais conta guiar-se numa nova existência, tratando de fazer o melhor.  Assim é que cada existência é um passo adiante na via do progresso, uma espécie de escola de aplicação.

A encarnação não é, pois, normalmente, uma punição para o Espírito, como alguns o pensam, mas uma condição inerente à inferioridade do Espírito e um meio de progredir.

À medida que o Espírito progride moralmente, ele se desmaterializa, quer dizer que, subtraindo-se à influência da matéria, depura-se; sua vida se espiritualiza, suas faculdades e suas percepções se estendem; sua felicidade está em razão do progresso realizado.  Mas como age em virtude do seu livre arbítrio, pode, por negligência ou má vontade, retardar o seu adiantamento; prolongar, por conseguinte, a duração de suas encarnações materiais, que se tornam então, para ele, uma punição, uma vez que, por sua falta, permaneceu nas classes inferiores, obrigado a recomeçar a mesma tarefa.  Depende, pois, do Espírito abreviar, por seu trabalho e depuração de si mesmo, a duração do período de encarnação.

O progresso material de um globo segue o progresso moral de seus habitantes; ora, como a criação dos mundos e dos Espíritos é incessante, que estes progridem mais ou menos rapidamente, em virtude de seu livre arbítrio, disso resulta que há mundos mais ou menos antigos, em diferentes graus de adiantamento físico e moral, onde a encarnação é mais ou menos material, e onde, por conseguinte, o trabalho, para os Espíritos, é mais ou menos rude.  Sob esse ponto de vista, a Terra é um dos menos avançados; povoada de Espíritos relativamente inferiores, a vida corpórea nela é mais penosa do que em outros, como ocorre com os mais atrasados, onde é ainda mais penosa que sobre a Terra, e para os quais a Terra seria, relativamente, um mundo feliz.

Quando os Espíritos adquiriram, sobre um mundo, a soma do progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para se encarnarem num outro mais avançado, onde adquirem novos conhecimentos, e assim por diante até que, não lhes sendo mais útil a encarnação num corpo material, vivem exclusivamente a vida espiritual, onde progridem ainda num outro sentido e por outros meios.  Chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, têm seu pensamento, tornam-se seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob suas ordens os Espíritos em diferentes graus de adiantamento.

Assim, todos os Espíritos, encarnados e desencarnados, em qualquer grau da hierarquia a que pertençam, desde o menor ao maior, têm suas atribuições no grande mecanismo do Universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo tempo em que são úteis a si mesmos; aos menos avançados, como a de simples operários, incumbe uma tarefa material, de inicio inconsciente, depois gradativamente inteligente.  Por toda a parte, a atividade no mundo espiritual, em nenhuma parte a ociosidade inútil.

A coletividade dos Espíritos, de alguma sorte, é a alma do Universo; é o elemento espiritual que age em tudo e por toda parte, sob o impulso do pensamento divino.  Sem esse elemento, não há senão a matéria inerte, sem objetivo, sem inteligência, sem outro motor que as forças materiais que deixam uma multidão de problemas insolúveis; pela ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem um objetivo, uma razão de ser, tudo se explica; eis porque, sem a espiritualidade, tropeça-se com dificuldades insuperáveis.

Quando a Terra se encontrou nas condições climatéricas próprias à existência da espécie humana, os Espíritos humanos nela se encarnaram.  De onde vinham?  Que esses Espíritos foram criados nesse momento, que vieram todos formados da Terra, do espaço ou de outros mundos, a sua presença depois de um tempo limitado é um fato, uma vez que antes deles, não havia senão animais; eles se revestiram de corpos apropriados às suas necessidades especiais, às suas aptidões, e, fisiologicamente, pertencem à animalidade; sob a sua influência, e pelo exercício de suas faculdades, esses corpos se modificaram e se aperfeiçoaram: eis o que resulta da observação.  Deixemos, pois, de lado a questão da origem, ainda insolúvel para o momento; tomemos o Espírito, não em seu ponto de partida, mas naquele em que os primeiros germes do livre arbítrio e do senso moral nele se manifestando, vemo-lo desempenhando seu papel humanitário, sem nos inquietar com o meio onde passou o seu período de infância ou, querendo-se, de incubação.  Apesar da analogia do seu envoltório com o dos animais, as faculdades morais e intelectuais que o caracterizam, saberemos distingui-los destes últimos, como sob a mesma vestimenta de lã, distinguimos o camponês do homem civilizado.

Se bem que os primeiros que vieram devem ter sido pouco avançados, em razão mesmo de que deveriam se encarnar em corpos muito imperfeitos, deveria haver entre eles diferenças sensíveis nos caracteres e nas aptidões.  Os Espíritos similares, naturalmente, se agruparam por analogia e por simpatia.  A Terra encontrou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso.  Os corpos, recebendo a impressão do caráter do Espírito, e esses corpos procriando segundo o seu tipo respectivo, disso resultaram diferentes raças, no físico como no moral.  Os Espíritos similares, continuando a se encarnar de preferência entre seus semelhantes, perpetuaram o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, que não se perde senão com o tempo pela sua fusão e o progresso dos Espíritos.

Pode-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a essas multidões de emigrantes, de origens diversas, que vão se estabelecer sobre uma terra virgem.  Encontram a madeira e a pedra para fazerem as suas habitações, e cada um dá à sua um cunho diferente segundo o grau de seu saber e seu gênio particular.  Agrupam-se por analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, tendo cada um seus costumes e o seu caráter próprio.

O progresso, pois, não foi uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes, naturalmente, passaram as outras, sem contar que Espíritos, novamente nascidos na vida espiritual, vindo se encarnar sobre a Terra depois dos primeiros aí chegados, tornam a diferença do progresso mais sensível.  Seria impossível, com efeito, atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que se distinguem com dificuldade do macaco, que aos Chineses, e ainda menos que aos Europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à Humanidade; esperarão um dia o nível de seus primogênitos, mas não será isso certamente nos corpos da mesma raça física, impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral.  Quando o instrumento não mais estiver em relação com o seu desenvolvimento, emigrarão desse meio para se encarnarem num grau superior, e assim por diante, até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra, para passar a outros mundos, mais e mais avançados.