O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Raça Adâmica

Autor:
Allan Kardec

Fonte:
A Gênese

DOUTRINA

     

Segundo o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, querendo-se uma dessas colônias de Espíritos, vindos de uma outra esfera, que deram nascimento à raça simbolizada na pessoa de Adão, e, por esta razão, chamada raça adâmica.  Quando ela chegou, a Terra estava povoada desde tempos imemoriais, como a América quando chegaram os Europeus.

A raça adâmica, mais avançada do que aquelas que a precederam sobre a Terra era com efeito, mais inteligente; foi ela que levou todas as outras ao progresso. A Gênese no-la mostra, desde seus princípios, industriosa, apta para as artes e para as ciências, sem passar pela infância intelectual, o que não é o próprio das raças primitivas, mas o que concorda com a opinião de que se compunha de Espíritos que já progrediram. Tudo prova que ela não era antiga sobre a Terra. E nada se opõe a que não esteja aqui senão há alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, e, ao contrário, tenderia a confirmá-las.

A doutrina que fez todo o gênero humano proceder de uma única individualidade há seis mil anos, não é mais admissível no estado atual dos conhecimentos.  As principais considerações que a contradizem, tiradas da ordem física e da ordem moral, se resumem nos seguintes pontos:

Do ponto de vista psicológico, certas raças apresentam tipos particulares característicos, que não permitem assinalar-lhes uma origem comum. Há diferenças que, evidentemente, não são o efeito do clima, uma vez que os brancos que se reproduzem no país dos negros não se tornam negros, e reciprocamente.  O ardor do Sol tosta e amorena a epiderme, mas nunca transformou um branco em negro, achatou o nariz, mudou a forma dos traços da fisionomia, nem tornou encarapinhados e lanudos os cabelos longos e macios.  Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido particular, subcutâneo, que se liga à espécie.

É necessário, pois, considerar as raças negras, mongólicas, caucásicas, como tendo as suas origens próprias e nascidas simultaneamente, ou sucessivamente, sobre diferentes partes do globo; seu cruzamento produziu as raças mistas secundárias.  Os caracteres fisiológicos das raças primitivas são o início evidente de que elas provieram de tipos especiais.  As mesmas considerações existem, pois, tanto para os homens como para os animais, quanto à pluralidade das estirpes.

Adão e seus descendentes são representados na Gênese como homens essencialmente inteligentes, uma vez que, desde a segunda geração, edificam as suas casas, cultivam a terra, trabalham os metais.  Seus progressos nas artes e nas ciências foram rápidos e constantemente sustentados.  Não se conceberia, pois, que essa estirpe tivesse por descendentes, os povos numerosos tão atrasados, de uma inteligência tão rudimentar, que costeiam, ainda em nossos dias, a animalidade; que perdessem todo o traço e até a menor lembrança tradicional do que faziam seus pais.  Uma diferença tão radical nas aptidões intelectuais, e no desenvolvimento moral, atesta, com não menos evidência, uma diferença de origem.

Independentemente dos fatos geológicos, a prova da existência do homem sobre a Terra antes da época fixada pela Gênese é tirada da população do globo.

Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, diz-se, a trinta mil a nos, documentos mais autênticos atestam que o Egito, a Índia e outros países estavam povoados e florescentes pelo menos três mil anos antes da era cristã, mil anos, conseqüentemente, depois da criação do primeiro homem, segundo a cronologia bíblica.  Documentos e observações recentes não deixam nenhuma dúvida, hoje, sobre as relações que existiram entre a América e os antigos egípcios; de onde é necessário concluir que esse continente já era povoado nessa época.  Seria, pois, preciso admitir que, em mil anos, a posteridade de um único homem pode cobrir a maior parte da Terra; ora, uma tal fecundidade seria contrária a todas as leis antropológicas. (1)

A impossibilidade se torna ainda mais evidente, se se admite, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com exceção de Noé e família que não era numerosa no ano de 1656, seja 2348 anos antes da era cristã.  Não seria, pois, em realidade, que de Noé dataria o povoamento do globo; ora, quando os hebreus se estabeleceram no Egito, 612 anos depois do dilúvio, esse já era um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar de outros países, em menos de seis séculos, só pelos descendentes de Noé, o que não é admissível.

Notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus como estrangeiros; seria de espantar que tivessem perdido a lembrança de uma comunidade de origem tão próxima, então que conservavam religiosamente os monumentos de sua história.

Uma lógica rigorosa, corroborada pelos fatos, demonstra, pois, da maneira mais peremptória, que o homem está sobre a Terra há um tempo indeterminado, bem anterior à época assinalada pela Gênese.  Ocorre o mesmo com a diversidade de estirpes primitivas; porque demonstrar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição contrária.  Se a geologia descobre traços autênticos da presença do homem antes do grande período diluviano, a demonstração será ainda mais absoluta. 

(1) A Exposição Universal de 1867 apresentou antiguidades do México, que não deixam nenhuma dúvida sobre as relações que os povos desse continente tiveram com os antigos egípcios.  Escavações puseram a descoberto, por toda a parte, três berços de civilizações que parecem dar, ao mundo americano, uma antiguidade fabulosa.  É assim que, cada dia, a ciência vem dar o desmentido dos fatos à doutrina que limita em 6000 anos a aparição do homem sobre a Terra, ao pretender fazê-lo sair de uma estirpe única.