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Origem da Doutrina das Penas Eternas. - Argumentos a Favor das
Penas Eternas. - Impossibilidade Material das Penas Eternas. - A
doutrina das Penas Eternas fez sua Época. - Ezequiel Contra a
Eternidade das Penas e o Pecado Original.
Origem da Doutrina das Penas Eternas
1. - A crença na eternidade das penas perde terreno dia a dia,
de modo que, sem ser profeta, pode prever-se-lhe o fim próximo.
Tais e de tal ordem poderosos e peremptórios têm sido os
argumentos a ela opostos, que nos parece quase supérfluo
ocuparmos-nos de tal doutrina de ora em diante, deixando que por
si mesma se extinga.
Mas não se pode contestar que, apesar de caduca, ainda constitui
a tecla dos adversários das idéias novas, o ponto que defendem
com mais obstinação, convictos aliás da vulnerabilidade que ela
apresenta, e não menos convictos das conseqüências dessa queda.
Por este lado, a questão merece sério exame.
2. - A doutrina das penas eternas teve sua razão de ser, como a
do inferno material, enquanto o temor podia constituir um freio
para os homens pouco adiantados intelectual e moralmente.
Na impossibilidade de apreenderem as nuanças tantas vezes
delicadas do bem e do mal, bem como o valor relativo das
atenuantes e agravantes, os homens não se impressionariam,
então, a não ser pouco ou mesmo nada com a idéia das penas
morais.
Tampouco compreenderiam a temporalidade dessas penas e a justiça
decorrente das suas gradações e proporções.
3. - Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o
homem.
O senso moral é o que de mais tardio nele se desenvolve, razão
pela qual também não pode fazer de Deus, dos seus atributos e da
vida futura, senão uma idéia muito imperfeita e vaga.
Assimilando-o à sua própria natureza, Deus não passa para ele de
um soberano absoluto, tanto mais terrível quanto invisível, como
um rei despótico que, fechado no seu palácio, jamais se
mostrasse aos súditos. Sem compreenderem o seu poder moral, só o
aceitam pela força material. Não o vêem senão armado com o raio,
ou no meio de coriscos e tempestades, semeando de passagem a
destruição, a ruína, semelhantemente aos guerreiros invencíveis.
Um Deus de mansuetude e cordura não seria um Deus, porém um ser
fraco e sem meios de se fazer obedecer. A vingança implacável,
os castigos terríveis, eternos, nada tinham de incompatível com
a idéia que se fazia de Deus, não lhes repugnavam à razão.
Implacável também ele, homem, nos seus ressentimentos, cruel
para os inimigos e inexorável para os vencidos, Deus, que lhe
era superior, deveria ser ainda mais terrível.
Para tais homens eram precisas crenças religiosas assimiladas à
sua natureza rústica. Uma religião toda espiritual, toda amor e
caridade não podia aliar-se à brutalidade dos costumes e das
paixões.
Não censuremos, pois, a Moisés sua legislação draconiana, apenas
bastante para conter o povo indócil, nem o haver feito de Deus
um Deus vingativo. A época assim o exigia, essa época em que a
doutrina de Jesus não encontraria eco e até se anularia.
4. - À medida que o Espírito se desenvolvia, o véu material
ia-se-lhe dissipando pouco a pouco, e os homens habilitavam-se a
compreender as coisas espirituais. Mas isso não aconteceu senão
lenta e gradualmente. Por ocasião de sua vinda, já Jesus pôde
proclamar um Deus clemente, falando do seu reino, não deste
mundo, e acrescentando:
- Amai-vos uns aos outros e fazei bem aos que vos odeiam, ao
passo que os antigos diziam: olho por olho, dente por dente.
Ora, quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus?
Seriam almas novamente criadas e encarnadas? Mas se assim fosse,
Deus teria criado para o tempo de Jesus almas mais adiantadas
que para o tempo de Moisés? E daí o que teria decorrido para
estas últimas? Consumir-se-iam por toda a eternidade no
embrutecimento? O mais comezinho bom-senso repele essa
suposição. Não; essas almas eram as mesmas que viviam sob o
império das leis mosaicas e que tinham adquirido, em várias
existências, o desenvolvimento suficiente à compreensão de uma
doutrina mais elevada, assim como hoje mais adiantadas se
encontram para receber um ensino ainda mais completo.
5. - O Cristo não pôde, no entanto, revelar aos seus
contemporâneos todos os mistérios do futuro. Ele próprio o
disse: Muitas outras coisas vos diria se estivésseis em estado
de as compreender, e eis por que vos falo em parábolas.
Sobretudo no que diz respeito à moral, isto é, aos deveres do
homem, foi o Cristo muito explícito porque, tocando na corda
sensível da vida material, sabia fazer-se compreender; quanto a
outros pontos, limitou-se a semear sob a forma alegórica os
germens que deveriam ser desenvolvidos mais tarde.
A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta
última ordem de idéias. Sobretudo, em relação às penas, ele não
poderia romper bruscamente com as idéias preconcebidas. Vindo
traçar aos homens novos deveres, substituir o ódio e a vingança
pelo amor do próximo e pela caridade, o egoísmo pela abnegação,
era já muito; além disso, não podia racionalmente enfraquecer o
temor do castigo reservado aos prevaricadores, sem enfraquecer
ao mesmo tempo a idéia do dever.
Se ele prometia o reino dos céus aos bons, esse reino estaria
interdito aos maus, e para onde iriam eles? Demais, seria
necessária a inversão da Natureza para que inteligências ainda
muito rudimentares pudessem ser impressionadas de feição a
identificarem-se com a vida espiritual, levando-se em conta a
circunstância de Jesus se dirigir ao povo, à parte menos
esclarecida da sociedade, que não podia prescindir de imagens de
alguma sorte palpáveis, e não de idéias sutis.
Eis a razão por que Jesus não entrou em minúcias supérfluas a
este respeito; nessa época não era preciso mais do que opor uma
punição à recompensa.
6. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os
ameaçou de serem lançados na Geena. Ora, que vem a ser a Geena?
Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusalém, um
monturo onde se despejavam as imundícies da cidade.
Dever-se-ia interpretar isso também ao pé da letra? Entretanto
era uma dessas figuras enérgicas de que ele se servia para
impressionar as massas. O mesmo se dá com o fogo eterno. E se
tal não fora o seu pensar, ele estaria em contradição, exaltando
a demência e misericórdia de Deus, pois demência e
inexorabilidade são sentimentos antagônicos que se anulam.
Desconhecer-se-ia, pois, o sentido das palavras de Jesus,
atribuindo-lhes a sanção do dogma das penas eternas, quando todo
o seu ensino proclamou a mansidão do Criador, a sua benignidade
No Pai Nosso Jesus nos ensina a dizer: - Perdoai-nos, Senhor, as
nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.
Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria
pedi-lo.
Esse perdão é, porém, incondicional? É uma remissão pura e
simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão
subordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale
dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Deus,
fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não
podia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse.
O Pai Nosso é um protesto cotidiano contra a eterna vingança de
Deus.
7. - Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma
idéia confusa, o fogo material nada tinha de improcedente, mesmo
porque já participava da crença pagã, quase universalmente
propagada. Igualmente a eternidade das penas nada tinha que
pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à
legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo
eterno não podia passar, portanto, de simples figura, pouco lhe
importando fosse essa figura interpretada à letra, desde que ela
servisse de freio às paixões humanas. Sabia ele ao demais que o
tempo e o progresso se incumbiriam de explicar o sentido
alegórico, mesmo porque, segundo a sua predição, o Espírito de
Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas. O caráter
essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do
arrependimento, e Jesus nunca disse que o arrependimento não
mereceria a graça do Pai.
Ao contrário, sempre que se lhe deparou ensejo, ele falou de um
Deus clemente, misericordioso, solícito em receber o filho
pródigo que voltasse ao lar paterno; inflexível, sim, para o
pecador obstinado, porém, pronto sempre a trocar o castigo pelo
perdão do culpado sinceramente arrependido. Este não é, por
certo, o traço de um Deus sem piedade. Também convém assinalar
que Jesus nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo
contra os maiores culpados, a condenação irremissível.
8. Todas as religiões primitivas, revestindo o caráter dos
povos, tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos
exércitos.
O Jeová dos hebreus facultava-lhes mil modos de exterminar os
inimigos; recompensava-os com a vitória ou punia-os com a
derrota. Tal idéia a respeito de Deus levava a honrá-lo ou
apaziguá-lo com sangue de animais ou de homens, e daí os
sacrifícios sangrentos que representavam papel tão saliente em
todas as religiões da antigüidade. Os judeus tinham abolido os
sacrifícios humanos; os cristãos, apesar dos ensinamentos do
Cristo, por muito tempo julgaram honrar o Criador votando, aos
milhares, às chamas e às torturas, os que denominavam hereges, o
que constituía sob outra forma verdadeiros sacrifícios humanos,
pois que os promoviam para maior glória de Deus, e com
acompanhamento de cerimônias religiosas. Hoje, ainda invocam o
Deus dos exércitos antes do combate, glorificam-no após a
vitória, e quantas vezes por causas injustas e anticristãs.
9. Quão tardo é o homem em desfazer-se dos seus hábitos,
prejuízos e primitivas idéias! Quarenta séculos nos separam de
Moisés, e a nossa geração cristã ainda vê traços de antigos usos
bárbaros, senão consagrados, ao menos aprovados pela religião
atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não-ortodoxos para
acabar com as fogueiras e fazer compreender a verdadeira
grandeza de Deus. Mas, à falta de fogueiras, prevalecem ainda as
perseguições materiais e morais, tão radicada está no homem a
idéia da crueldade divina. Nutrido por sentimentos inculcados
desde a infância, poderá o homem estranhar que o Deus que lhe
apresentam, lisonjeado por atos bárbaros, condene a eternas
torturas e veja sem piedade o sofrimento dos culpados? Sim, são
filósofos, ímpios como querem alguns, que se hão escandalizado
vendo o nome de Deus profanado por atos indignos dele. São eles
que o mostram aos homens na plenitude da sua grandeza,
despojando-o de paixões e baixezas atribuídas por uma crença
menos esclarecida.
Neste ponto a religião tem ganho em dignidade o que tem perdido
em prestígio exterior, porque se homens há devotados à forma,
maior é o número dos sinceramente religiosos pelo sentimento,
pelo coração.
Mas, ao lado destes, quantos não têm sido levados, sem mais
reflexão, a negarem toda a Providência! O modo por que a
religião tem estacionado, em antagonismo com os progressos da
razão humana, sem saber conciliá-los com as crenças, degenerou
em deísmo para uns, em cepticismo absoluto para outros, sem
esquecermos o panteísmo, isto é, o homem fazendo-se deus ele
próprio, à falta de um mais perfeito.
Argumentos a Favor das Penas Eternas
10. - Voltemos ao dogma das penas eternas. Eis o principal
argumento invocado em seu favor: "É doutrina sancionada entre os
homens que a gravidade da ofensa é proporcionada à qualidade do
ofendido. O crime de lesa-majestade, por exemplo, o atentado à
pessoa de um soberano, sendo considerado mais grave do que o
fora em relação a qualquer súdito, é, por isso mesmo, mais
severamente punido. E sendo Deus muito mais que um soberano,
pois é infinito, deve ser infinita a ofensa a Ele, como infinito
o respectivo castigo, isto é, eterno."
Refutação: Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto
de partida, uma base sobre a qual se apóie, premissas, enfim.
Tomemos essas premissas aos próprios atributos de Deus; - único,
eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e
bom, infinito em todas as perfeições.
É impossível conceber Deus de outra maneira, visto como, sem a
infinita perfeição, poder-se-ia conceber outro ser que lhe fosse
superior. Para que seja único acima de todos os seres, faz-se
mister que ninguém possa excedê-lo ou sequer igualá-lo em
qualquer coisa, Logo, é necessário que seja de todo infinito.
E porque são infinitos, os atributos divinos não sofrem aumento
nem diminuição, sem o que não seriam infinitos e Deus perfeito
tampouco. Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus
atributos, não haveria mais Deus, por isso que poderia coexistir
um ser mais perfeito. O infinito de uma qualidade exclui a
possibilidade da existência de outra qualidade contrária que
pudesse diminuí-la ou anulá-la. Um ser infinitamente bom não
pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau
pode ter a menor parcela de bondade. Assim também um objeto não
seria de um negro absoluto com a mais leve nuança de branco, e
vice-versa.
Estabelecido este ponto de partida, oporemos aos argumentos
supra os seguintes:
11. - Só um ser infinito pode fazer algo de infinito. O homem,
finito nas virtudes, nos conhecimentos, no poderio, nas aptidões
e na existência terrestre, não pode produzir senão coisas
limitadas.
Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz, sê-lo-ia
igualmente no bem, igualando-se, então, a Deus. Mas se o homem
fosse infinito no bem não praticaria o mal, pois o bem absoluto
é a exclusão de todo o mal.
Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser
infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo
infinitamente vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo
não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto como um
destes atributos exclui o outro. Se não for infinitamente bom
não é perfeito; e não sendo perfeito deixa de ser Deus.
Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é
misericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser
infinitamente bom. E por que daria Deus aos homens uma lei de
perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria dai que o homem
que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem,
seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que o
ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro carinho.
Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver também as
torturas dos condenados; e se Ele se conserva insensível aos
gemidos por toda a eternidade, será eternamente impiedoso; ora,
sem piedade, não há bondade infinita.
12. - A isto se responde que o pecador arrependido, antes da
morte, tem a misericórdia de Deus, e que mesmo o maior culpado
pode receber essa graça. Quanto a isto não há dúvida, e
compreende-se que Deus só perdoe ao arrependido, mantendo-se
inflexível para com os obstinados; mas se Ele é todo
misericordioso para a alma arrependida antes da morte, por que
deixará de o ser para quem se arrepende depois dela? Por que a
eficácia do arrependimento só durante a vida, um breve instante,
e não na eternidade que não tem fim? Circunscritas a um dado
tempo, a bondade e misericórdia divinas teriam limites, e Deus
não seria infinitamente bom.
13. - Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é
inexorável absolutamente, nem leva a complacência ao ponto de
deixar impunes todas as faltas; ao contrário, pondera
rigorosamente o bem e o mal, recompensando um e punindo outro
eqüitativa e proporcionalmente, sem se enganar jamais na
aplicação. Se por uma falta passageira, resultante sempre da
natureza imperfeita do homem e muitas vezes do meio em que vive,
a alma pode ser castigada eternamente sem esperança de clemência
ou de perdão, não há proporção entre a falta e o castigo - não
há justiça. Reconciliando-se com Deus, arrependendo-se, e
pedindo para reparar o mal praticado, o culpado deve subsistir
para o bem, para os bons sentimentos. Mas, se o castigo é
irrevogável, esta subsistência para o bem não frutifica, e um
bem não considerado significa injustiça. Entre os homens, o
condenado que se corrige tem por comutada e às vezes mesmo
perdoada a sua pena; e, assim, haveria mais equidade na justiça
humana que na divina.
Se a pena é irrevogável, inútil será o arrependimento, e o
culpado, nada tendo a esperar de sua correção, persiste no mal,
de modo que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente, mas
ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso não há
nem bondade nem Justiça.
14. Sendo em tudo infinito, Deus deve abranger o passado e o
futuro; deve saber, ao criar uma alma, se ela virá a falir,
assaz gravemente, para ser eternamente condenada. Se o não
souber, a sua sabedoria deixará de ser infinita, e Ele deixará
de ser Deus. Sabendo-o, cria voluntariamente uma alma desde logo
votada ao eterno suplício, e, nesse caso, deixa de ser bom.
Uma vez que Deus pode conferir a graça ao pecador arrependido,
tirando-o do inferno, deixam de existir penas eternas, e o juízo
dos homens está revogado.
15. Conseguintemente, a doutrina das penas eternas absolutas
conduz à negação, ou, pelo menos, ao enfraquecimento de alguns
atributos de Deus, sendo incompatível com a perfeição absoluta,
donde resulta este dilema: Ou Deus é perfeito, e não há penas
eternas, ou há penas eternas, e Deus não é perfeito.
16. - Também se invoca a favor do dogma da eternidade das penas
o seguinte argumento:
"A recompensa conferida aos bons, sendo eterna, deve ter por
corolário a eterna punição. Justo é proporcionar a punição à
recompensa."
Refutação: Deus criou as almas para fazê-las felizes ou
desgraçadas?
Evidentemente a felicidade da criatura deve ser o fito do
Criador, ou Ele não seria bom. Ela atinge a felicidade pelo
próprio mérito, que, adquirido, não mais o perde.
O contrário seria a sua degeneração. A felicidade eterna é,
pois, a conseqüência da sua imortalidade.
Antes, porém, de chegar à perfeição, tem lutas a sustentar,
combates a travar com as más paixões. Não tendo sido criada
perfeita, mas suscetível de o ser, a fim de que tenha o mérito
de suas obras, a alma pode cair em faltas, que são conseqüentes
à sua natural fraqueza. E se por esta fraqueza fora eternamente
punida, era caso de perguntar por que não a criou Deus mais
forte?
A punição é antes uma advertência do mal já praticado, devendo
ter por fim reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse
irremissível, o desejo de melhorar seria supérfluo; nem o fim da
criação seria alcançado, porquanto haveria seres 'predestinados
à felicidade ou à desgraça. Se uma alma se arrepende, pode
regenerar-se, e podendo regenerar-se pode aspirar à felicidade.
E Deus seria justo se lhe recusasse os respectivos meios?
Sendo o bem o fim supremo da Criação, a felicidade, que é o seu
prêmio, deve ser eterna; e o castigo, como meio de alcançá-la,
temporário. A noção mais comezinha da justiça humana prescreve
que se não pode castigar perpetuamente quem se mostra desejoso
de praticar o bem.
17. - Um último argumento a favor das penas eternas é este:
"O temor das penas eternas é um freio; anulado este, o homem,
por nada temer, entregar-se-ia a todos os excessos."
Refutação: Esse raciocínio procederia se a temporalidade das
penas importasse, de fato, na supressão de toda sanção penal.
A felicidade ou infelicidade futura é conseqüência rigorosa da
justiça de Deus, pois a identidade de condições para o bom e
para o mau seria a negação dessa justiça.
Mas, em não ser eterno, nem por isso o castigo deixa de ser
temeroso, e tanto maior será o temor quanto maior a convicção.
Esta, por sua vez, tanto mais profunda será, quanto mais
racional a procedência do castigo. Uma penalidade, em que se não
crê, não pode ser um freio, e a eternidade das penas está nesse
caso.
A crença nessa penalidade, já o afirmamos, teve a sua utilidade,
a sua razão de ser em dada época; hoje, não somente deixa de
impressionar os ânimos, mas até produz descrentes.
Antes de a preconizar como necessidade, fora mister demonstrar a
sua realidade. Seria preciso, além disso, observar a sua
eficácia junto àqueles que a preconizam e se esforçam por
demonstrá-la.
E, desgraçadamente, entre esses, muitos provam pelos atos que
nada temem das penas eternas.
Assim, impotente para reprimir os próprios profitentes, que
império poderá exercer sobre os descrentes e refratários?
Impossibilidade Material das Penas Eternas
18. - Até aqui, só temos combatido o dogma das penas eternas com
o raciocínio. Demonstremo-lo agora em contradição com os fatos
positivos que observamos, provando-lhe a impossibilidade.
Por este dogma a sorte das almas, irrevogavelmente fixada depois
da morte, é, como tal, um travão definitivo aplicado ao
progresso.
Ora, a alma progride ou não? Eis a questão: - Se progride, a
eternidade das penas é impossível.
E poder-se-á duvidar desse progresso, vendo a variedade enorme
de aptidões morais e intelectuais existentes sobre a Terra,
desde o selvagem ao homem civilizado, aferindo a diferença
apresentada por um povo de um a outro século? Se se admite não
ser das mesmas almas, é força admitir que Deus criou almas em
todos os graus de adiantamento, segundo os tempos e lugares,
favorecendo umas e destinando outras a perpétua inferioridade -
o que seria incompatível com a justiça, que, aliás, deve ser
igual para todas as criaturas.
19. - É incontestável que a alma atrasada moral e
intelectualmente, como a dos povos bárbaros, não pode ter os
mesmos elementos de felicidade, as mesmas aptidões para gozar
dos esplendores do infinito, como a alma cujas faculdades estão
largamente desenvolvidas. Se, portanto, estas almas não
progredirem, não podem em condições mais favoráveis gozar na
eternidade senão de uma felicidade, por assim dizer, negativa.
Para estar de acordo com a rigorosa justiça, chegaremos, pois, à
conclusão de que as almas mais adiantadas são as atrasadas de
outro tempo, com progressos posteriormente realizados. Mas, aqui
atingimos a questão magna da pluralidade das existências como
meio único e racional de resolver a dificuldade. Façamos
abstração, porém, dessa questão e consideremos a alma sob o
ponto de vista de uma única existência.
20. - Figuremos um rapaz de 20 anos, desses que comumente se
encontram, ignorante, viciado por índole, céptico, negando sua
alma e a Deus, entregue à desordem e cometendo toda sorte de
malvadeza. Esse rapaz encontra-se, depois, num meio favorável,
melhor; trabalha, instrui-se, corrige-se gradualmente e acaba
por tornar-se crente e piedoso. Eis aí um exemplo palpável do
progresso da alma durante a vida, exemplo que se reproduz todos
os dias. Esse homem morre em avançada idade, como um santo, e
naturalmente certa se lhe torna a salvação. Mas qual seria a sua
sorte se um acidente lhe pusesse termo à existência, trinta ou
quarenta anos mais cedo? Ele estava nas condições exigidas para
ser condenado, e, se o fosse, todo o progresso se lhe tornaria
impossível.
E assim, segundo a doutrina das penas eternas, teremos um homem
salvo somente pela circunstância de viver mais tempo,
circunstância, aliás, fragilíssima, uma vez que um acidente
qualquer poderia tê-la anulado fortuitamente. Desde que sua alma
pôde progredir em um tempo dado, por que razão não mais poderia
progredir depois da morte, se uma causa alheia à sua vontade a
tivesse impedido de fazê-lo durante a vida? Por que lhe
recusaria Deus os meios de regenerar-se na outra vida,
concedendo-lhos nesta? Neste caso, o arrependimento veio, posto
que tardio; mas se desde o momento da morte se impusesse
irrevogável condenação, esse arrependimento seria infrutífero
por todo o sempre, como destruídas seriam as aptidões dessa alma
para o progresso, para o bem.
21. - O dogma da eternidade absoluta das penas é, portanto,
incompatível com o progresso das almas, ao qual opõe uma
barreira insuperável. Esses dois princípios destroem-se, e a
condição indeclinável da existência de um é o aniquilamento do
outro. Qual dos dois existe de fato? A lei do progresso é
evidente: não é uma teoria, é um fato corroborado pela
experiência: é uma lei da Natureza, divina, imprescritível. E,
pois, que esta lei existe inconciliável com a outra, é porque a
outra não existe. Se o dogma das penas eternas existisse
verdadeiramente, Santo Agostinho, S. Paulo e tantos outros
jamais teriam visto o céu, caso morressem antes de realizar o
progresso que lhes trouxe a conversão.
A esta última asserção respondem que a conversão dessas santas
personagens não é um resultado do progresso da alma, porém, da
graça que lhes foi concedida e de que foram tocadas.
Porém, isto é simples jogo de palavras. Se esses santos
praticaram o mal e depois o bem, é que melhoraram; logo,
progrediram. E por que lhes teria Deus concedido como especial
favor a graça de se corrigirem? Sim, por que a eles e não a
outros? Sempre, sempre a doutrina dos privilégios, incompatível
com a justiça de Deus e com seu igual amor por todas as
criaturas.
Segundo a Doutrina Espírita, de acordo mesmo com as palavras do
Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é
o filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte, nada
devendo ao favoritismo: Deus o recompensa pelos esforços e pune
pela negligência, isto por tanto tempo quanto nela persistir.
A doutrina das Penas eternas fez sua
Época.
22. - A crença na eternidade das penas prevaleceu salutarmente
enquanto os homens não tiveram ao seu alcance a compreensão do
poder moral. É o que sucede com as crianças durante certo tempo
contidas pela ameaça de seres quiméricos com os quais são
intimidadas: -chegadas ao período do raciocínio, repelem por si
mesmas essas quimeras da infância, tornando-se absurdo o querer
governá-las por tais meios.
Se os que as dirigem pretendessem incutir-lhes ainda a
veracidade de tais fábulas, certo decairiam da sua confiança. É
isso que se dá hoje com a Humanidade, saindo da
infância e abandonando, por assim dizer, os cueiros. O homem não
é mais passivo instrumento vergado à força material, nem o ente
crédulo de outrora que tudo aceitava de olhos fechados.
23. - A crença é um ato de entendimento que, por isso mesmo, não
pode ser imposta. Se, durante certo período da Humanidade, o
dogma da eternidade das penas se manteve inofensivo e benéfico
mesmo, chegou o momento de tornar-se perigoso.
Imposto como verdade absoluta, quando a razão o repele, ou o
homem quer acreditar e procura uma crença mais racional,
afastando-se dos que o professam, ou, então, descrê
absolutamente de tudo. Quem quer que estude o assunto,
calmamente, verá que, em nossos dias, o dogma da eternidade das
penas tem feito mais ateus e materialistas do que todos os
filósofos.
As idéias seguem um curso incessantemente progressivo, e absurdo
é querer governar os homens desviando-os desse curso; pretender
contê-los, retroceder ou simplesmente parar enquanto ele avança,
é condenar-se, é perder-se. Seguir ou deixar de seguir essa
evolução é uma questão de vida ou de morte para as religiões
como para os governos.
Este fatalismo é um bem ou um mal? Para os que vivem do passado,
vendo-o aniquilar-se, será um mal; mas para os que vivem pelo
futuro é uma lei do progresso, de Deus em suma.
E contra uma lei de Deus é inútil toda revolta, impossível a
luta. Para que, pois, sustentar a todo o transe uma crença que
se dissolve em desuso fazendo mais danos que benefícios à
religião? Ah! contrista dizê-lo, mas uma questão material domina
aqui a questão religiosa.
Esta crença tem sido grandemente explorada pela idéia de que com
dinheiro se abrem as portas do céu, livrando das do inferno. As
quantias por estes meios arrecadadas, outrora e ainda hoje, são
incalculáveis, e verdadeiramente fabuloso o imposto prévio pago
ao temor da eternidade. E sendo facultativo tal imposto, a renda
é sempre proporcional à crença; extinta esta, improdutivo será
aquele.
De bom grado cede a criança o bolo a quem lhe promete afugentar
o lobisomem, mas se a criança já não acreditar em lobisomens,
guardará o bolo.
24. - A Nova Revelação, dando noções mais sensatas da vida
futura e provando que podemos, cada um de nós, promover a
felicidade pelas próprias obras, deve encontrar tremenda
oposição, tanto mais viva por estancar uma das mais rendosas
fontes de receita. E assim tem sido, sempre que uma nova
descoberta ou invento abala costumes inveterados e
preestabelecidos.
Quem vive de velhos e custosos processos jamais deixa de
preconizar-lhes a superioridade e excelência e de desacreditar
os novos, mais econômicos.
Acreditar-se-á, por exemplo, que a imprensa, apesar dos
benefícios prestados à sociedade, tenha sido aclamada pela
classe dos copistas?
Não, certamente eles deveriam profligá-la. O mesmo se tem dado
em relação a maquinismos, caminho de ferro e centenares de
outras descobertas e aplicações.
Aos olhos dos incrédulos o dogma da eternidade das penas
afigura-se futilidade da qual se riem; para o filósofo esse
dogma tem uma gravidade social pelos abusos que acoroçoa, ao
passo que o homem verdadeiramente religioso tem a dignidade da
religião interessada na destruição dos abusos que tal dogma
origina, e da sua causa, enfim.
Ezequiel contra a Eternidade das Penas e o Pecado Original
25. - A quem pretenda encontrar na Bíblia a justificação da
eternidade das penas, pode-se opor os textos contrários que a
tal respeito não comportam ambigüidades. As seguintes palavras
de Ezequiel são a mais explícita negação, não somente das penas
irremissíveis, mas da responsabilidade que o pecado do pai do
gênero humano acarretasse à sua raça:
1. O Senhor novamente me falou e disse: - 2. Donde vem o uso
desta parábola entre vós e consagrada proverbialmente em Israel:
Os pais, dizeis, comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos
ficaram estragados? - 3. Por mim juro, disse o Senhor Deus, que
essa parábola não passará mais entre vós, como provérbio em
Israel: - 4. Pois todas as almas me pertencem; a do filho está
comigo como a do pai; a alma que tiver pecado morrerá ela
própria.
5. Se um homem for justo, se proceder segundo a eqüidade e a
justiça; - 7. Se não magoar nem oprimir ninguém; se entregar ao
seu devedor o penhor que este lhe houver dado; se não tomar nada
do bem de outrem por violência; se dá o seu pão a quem tem fome;
se veste os que estão nus; - 8. Se não se presta à usura e não
percebe mais do que tem dado; se desvia sua mão da iniqüidade e
promove um juízo conciliatório entre dois que contendem; - 9. Se
caminha segundo a pauta dos meus preceitos e observa as minhas
ordens para obrar conforme a verdade, esse homem é justo e
viverá mui certamente, disse o Senhor Deus.
10. Se esse homem tem um filho que dê em ladrão, e derrame
sangue, ou que cometa algumas destas faltas; - 13. Esse filho
morrerá mui certamente, pois tem praticado todas essas ações
detestáveis, e seu sangue permanecerá sobre a terra.
14. Se esse homem tem um filho que, vendo todos os crimes por
seu pai cometidos, se aterrorize e evite imitação; - 17. Este
não morrerá por causa da iniqüidade de seu pai, mas viverá mui
certamente. - 18. Seu pai, que tinha oprimido os outros por
calúnias e que tinha praticado ações criminosas no meio do seu
povo, morreu por causa da sua própria iniqüidade.
19. Se dizes: Por que o filho não tem suportado a iniqüidade de
seu pai? É porque o filho tem obrado segundo a eqüidade e a
justiça; tem guardado todos os meus preceitos; e porque os tem
praticado viverá mui certamente.
20. A alma que tem pecado morrerá ela mesma: o filho não sofrerá
pela iniqüidade do pai e o pai não sofrerá pelo iniqüidade do
filho; a justiça do justo verterá sobre ele mesmo, a impiedade
do ímpio verterá sobre ele.
21. Se o ímpio fez penitencia de todos os pecados que tem
cometido, se observou todos os meus preceitos, se obra segundo a
eqüidade e a justiça, ele viverá certamente e não morrerá. - 22.
Eu não me lembrei mais de todas as iniqüidades que ele tenha
cometido; viverá nas obras de justiça que houver praticado.
23. É que eu quero a morte do ímpio? disse o Senhor Deus, e não
quero antes que se converta e desgarre do mau caminho que
trilha? (Ezequiel, cap.XVIII.)
Dizei-lhes estas palavras: Eu juro por mim mesmo que não quero a
morte do ímpio, mas que o ímpio se converta, que abandone o mau
caminho e que viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11.)
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