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1. Necessidade do
Trabalho. - 2. Limite do Trabalho. Repouso.
Necessidade do Trabalho
647. A necessidade
do trabalho é lei da Natureza?
“O trabalho é lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma
necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais,
porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.”
675. Por trabalho
só se devem entender as ocupações materiais?
“Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação
útil é trabalho.”
676. Por que o
trabalho se impõe ao homem?
“Por ser uma conseqüência da sua natureza corpórea. É expiação
e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da sua inteligência.
Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância, quanto
à inteligência. Por isso é que seu alimento, sua segurança e seu
bem-estar dependem do seu trabalho e da sua atividade. Ao
extremamente fraco de corpo outorgou Deus a inteligência, em
compensação. Mas é sempre um trabalho.”
677. Por que provê
a Natureza, por si mesma, a todas as necessidades dos animais?
“Tudo em a Natureza trabalha. Como tu, trabalham os animais, mas
o trabalho deles, de acordo com a inteligência de que dispõem,
se limita a cuidarem da própria conservação. Daí vem que o do
homem visa duplo fim: a conservação do corpo e o desenvolvimento
da faculdade de pensar, o que também é uma necessidade e o eleva
acima de si mesmo. Quando digo que o trabalho dos animais se
cifra no cuidarem da própria conservação, refiro-me ao objetivo
com que trabalham. Entretanto, provendo às suas necessidades
materiais, eles se constituem, inconscientemente, executores dos
desígnios do
Criador e, assim, o trabalho que executam também concorre para a
realização do objetivo
final da Natureza, se bem quase nunca lhe descubrais o resultado
imediato.”
678. Em os mundos mais aperfeiçoados, os homens se acham
submetidos à mesma
necessidade de trabalhar?
“A natureza do trabalho está em relação com a natureza das
necessidades. Quanto
menos materiais são estas, menos material é o trabalho. Mas, não
deduzais daí que o
homem se conserve inativo e inútil. A ociosidade seria um
suplício, em vez de ser um
benefício.”
679. Achar-se-á isento da lei do trabalho o homem que possua
bens suficientes para
lhe assegurarem a existência?
“Do trabalho material, talvez; não, porém, da obrigação de
tornar-se útil, conforme
aos meios de que disponha, nem de aperfeiçoar a sua inteligência
ou a dos outros, o que
também é trabalho. Aquele a quem Deus facultou a posse de bens
suficientes a lhe
garantirem a existência não está, é certo, constrangido a
alimentar-se com o suor do seu
rosto, mas tanto maior lhe é a obrigação de ser útil aos seus
semelhantes, quanto mais
ocasiões de praticar o bem lhe proporciona o adiantamento que
lhe foi feito.”
680. Não há homens que se encontram impossibilitados de
trabalhar no que quer
que seja e cuja existência é, portanto, inútil?
“Deus é justo e, pois, só condena aquele que voluntariamente
tornou inútil a sua
existência, porquanto esse vive a expensas do trabalho dos
outros. Ele quer que cada um
seja útil, de acordo com as suas faculdades.” (643)
681. A lei da Natureza impõe aos filhos a obrigação de
trabalharem para seus
pais?
“Certamente, do mesmo modo que os pais têm que trabalhar para
seus filhos. Foi
por isso que Deus fez do amor filial e do amor paterno um
sentimento natural. Foi para que,
por essa afeição recíproca, os membros de uma família se
sentissem impelidos a ajudarem-se
mutuamente, o que, aliás, com muita freqüência se esquece na
vossa sociedade atual.”
(205)
Limite do Trabalho. Repouso
682. Sendo uma necessidade para todo aquele que trabalha, o
repouso não é
também uma lei da Natureza?
“Sem dúvida. O repouso serve para a reparação das forças do
corpo e também é
necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, a
fim de que se eleve acima
da matéria.”
683. Qual o limite do trabalho?
“O das forças. Em suma, a esse respeito Deus deixa inteiramente
livre o homem.”
684. Que se deve pensar dos que abusam de sua autoridade,
impondo a seus
inferiores excessivo trabalho?
“Isso é uma das piores ações. Todo aquele que tem o poder de
mandar é responsável
pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores,
porquanto, assim fazendo,
transgride a lei de Deus.” (273)
685. Tem o homem o direito de repousar na velhice?
“Sim, que a nada é obrigado, senão de acordo com as suas
forças.”
a) - Mas, que há de fazer o velho que precisa trabalhar para
viver e não pode?
“O forte deve trabalhar para o fraco. Não tendo este família, a
sociedade deve fazer
as vezes desta. É a lei de caridade.”
Não basta se diga ao homem que lhe corre o dever de trabalhar. É
preciso que aquele
que tem de prover à sua existência por meio do trabalho encontre
em que se ocupar, o que
nem sempre acontece. Quando se generaliza, a suspensão do
trabalho assume as proporções
de um flagelo, qual a miséria. A ciência econômica procura
remédio para isso no equilíbrio
entre a produção e o consumo. Mas, esse equilíbrio, dado seja
possível estabelecer-se,
sofrerá sempre intermitências, durante as quais não deixa o
trabalhador de ter que viver. Há
um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o
qual a ciência econômica
não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a
educação intelectual, mas a
educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos
livros e sim à que
consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos,
porquanto a educação é o
conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de
indivíduos que todos os dias
são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio
e entregues a seus próprios
instintos, serão de espantar as conseqüências desastrosas que
daí decorrem? Quando essa
arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no
mundo hábitos de ordem e
de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de
respeito a tudo o que é
respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos
penosamente os maus dias
inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só
uma educação bem
entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real
do bem-estar, o penhor da
segurança de todos.
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