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“O Céu E O
Inferno” – Capítulo VI, item 18.
Allan Kardec
Até aqui, o dogma
da eternidade das penas não foi combatido senão pelo raciocínio;
vamos mostrá-lo em contradição com os fatos positivos que temos
sob os olhos, e provar-lhe a impossibilidade.
Segundo esse
dogma, a sorte da alma está irrevogavelmente fixada depois da
morte. É, pois, uma sentença definitiva oposta ao progresso.
Ora, a alma progride ou não? Aí está toda a questão. Se ela
progride, a eternidade das penas é impossível.
Pode-se duvidar
desse progresso, quando se vê a imensa variedade de aptidões
morais e intelectuais que existem sobre a Terra, desde o
selvagem até o homem civilizado? Quando se vê a diferença que
apresenta um mesmo povo de um século para outro? Se se admite
que essas não são as mesmas almas, é preciso admitir, pois, que
Deus criou almas em todos os graus de adiantamento, segundo os
tempos e os lugares; que favorece a algumas, ao passo que
destina as outras a uma inferioridade perpétua: o que é
incompatível com a justiça, que deve ser a mesma para todas as
criaturas.
PENAS DEPOIS DA
MORTE
Diante do antigo
dogma das penas eternas, cuja criação a teologia terrestre
atribui ao Criador, examinemos o comportamento do homem –
criatura imperfeita – perante as criações estruturadas por ele
mesmo.
Determinada
companhia de armadores constrói um navio; contudo, não o
arremessa ao mar sem a devida assistência. Comandantes, pilotos,
maquinistas e marinheiros constituem-lhe a equipagem para que
atenda dignamente aos seus fins. Quando alguma brecha surge na
embarcação, ninguém se lembra de arrojá-la ao fundo. Ao revés, o
socorro habitual envida o máximo esforço, de modo a recuperá-la.
E se algum sinistro sobrevém, doloroso e inevitável, o assunto é
motivo para vigorosos estudos, a fim de que novos barcos se
levantem amanhã, em mais alto nível de segurança.
Na mesma diretriz,
o avião conta com mecânicos adestrados, em cada estação de
pouso; o automóvel dispõe, na estrada, dos postos de
abastecimento; a locomotiva transita sobre trilhos certos e
chaves condicionadas; a fábrica produz com supervisores e
técnicos; o hospital funciona com médicos e enfermeiros; e a
habitação recolhe o amparo de engenheiros e higienistas.
Em todas as
formações humanas respeitáveis, tudo está previsto, de maneira
que o trabalho seja protegido e os erros retificados, com
aproveitamento de experiência e sucata, sempre que esse ou
aquele edifício e essa ou aquela máquina entrem naturalmente em
desuso.
Isso acontece
entre os homens, cujas obras estão indicadas pelo tempo a
incessante renovação.
Em matéria, pois, de
castigos, depois da morte, reflitamos, sim, na justiça da Lei
que determina realmente seja dado a cada um conforme as próprias
obras; entretanto, acima de tudo e em todas as circunstâncias,
aceitemos Deus, na definição de Jesus, que no-lo revelou como
sendo o “Pai nosso que está nos Céus”.
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