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1. Deus e o
infinito. - 2. Provas da existência de Deus. - 3. Atributos da
Divindade. - 4. Panteísmo.
Deus e o
infinito
1.
Que é Deus?
"Deus é a
inteligência suprema, causa primária de todas as coisas" (1). (Vide
Nota Especial n° 1, da
Editora (FEB), à pág. 494.)
2.
Que se deve entender por
infinito?
"O que não tem
começo nem fim: o desconhecido; tudo que é desconhecido é
infinito."
3.
Poder-se-ia dizer que Deus é o
infinito?
"Definição
incompleta. Pobreza da linguagem humana, insuficiente para
definir o que está acima da linguagem dos homens."
(1) O texto colocado
entre aspas, em seguida às perguntas, é a resposta que os
Espíritos deram.
Para destacar as
notas e explicações aditadas pelo autor, quando haja
possibilidade de serem confundidas com o texto da resposta,
empregou-se um outro tipo menor. Quando formam capítulos
inteiros, sem ser possível a confusão, o mesmo tipo usado para
as perguntas e respostas foi o empregado.
Deus é infinito em Suas
perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus é o
infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa
mesma, é definir uma coisa que não está conhecida por uma outra
que não está mais do que a primeira.
Provas da existência de Deus
4.
Onde se pode encontrar a prova da
existência de Deus?
"Num axioma que aplicais às
vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de
tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá."
Para crer-se em Deus, basta se
lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo
tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo
efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma
coisa.
5.
Que dedução se pode tirar do
sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da
existência de Deus?
"A de que Deus existe; pois,
donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É
ainda uma conseqüência do princípio - não há efeito sem causa."
6.
O sentimento íntimo que temos da
existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado
de idéias adquiridas?
"Se assim fosse, por que
existiria nos vossos selvagens esse sentimento?"
Se o sentimento da existência de
um ser supremo fosse tão-somente produto de um ensino, não seria
universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber
esse ensino, conforme se dá com as noções científicas.
7.
Poder-se-ia achar nas
propriedades íntimas da matéria a causa primária da formação das
coisas?
"Mas, então, qual seria a causa
dessas propriedades? É indispensável sempre uma causa primária."
Atribuir a
formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria
seria tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades
são, também elas, um efeito que há de ter uma causa.
8.
Que se deve pensar da opinião dos
que atribuem a formação primária a uma combinação fortuita da
matéria, ou, por outra, ao acaso?
"Outro
absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser
inteligente? E, demais, que é o acaso? Nada."
A harmonia
existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e
desígnios determinados e, por isso mesmo, revela um poder
inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez,
pois que o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a
inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.
9.
Em que é que, na causa primária,
se revela uma inteligência suprema e superior a todas as
inteligências?
"Tendes um
provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem!
Vede a obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a
incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Por
isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre
ser, que um sopro de Deus pode abater!"
Do poder de
uma inteligência se julga pelas obras. Não podendo nenhum ser
humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é,
conseguintemente, uma inteligência superior à Humanidade.
Quaisquer que
sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela
própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto
maior há de ser a causa primária. Aquela inteligência superior é
que é a causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome
que lhe dêem.
Atributos
da divindade
10.
Pode o homem compreender a
natureza íntima de Deus?
"Não;
falta-lhe para isso o sentido."
11.
Será dado um dia ao homem
compreender o mistério da Divindade?
"Quando não
mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua
perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e
compreenderá."
A
inferioridade das faculdades do homem não lhe permite
compreender a natureza íntima de Deus. Na infância da
Humanidade, o homem O confunde muitas vezes com a criatura,
cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que nele se
desenvolve o senso moral, seu pensamento penetra melhor no âmago
das coisas; então, faz idéia mais justa da Divindade e, ainda
que sempre incompleta, mais conforme à sã razão.
12.
Embora não possamos compreender a
natureza íntima de Deus, podemos formar idéia de algumas de Suas
perfeições?
"De algumas,
sim. O homem as compreende melhor à proporção que se eleva acima
da matéria. Entrevê-as pelo pensamento."
13.
Quando dizemos que Deus é eterno,
infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente
justo e bom, temos idéia completa de Seus atributos?
"Do vosso
ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém,
que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais
inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas
idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com
efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas
perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse
infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por
conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem
que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das
imperfeições que a imaginação possa conceber."
Deus é
eterno. Se tivesse tido princípio, teria saído do nada, ou,
então, também teria sido criado, por um ser anterior. É assim
que, de degrau em degrau, remontamos ao infinito e à eternidade.
É imutável.
Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo
nenhuma estabilidade teriam.
É imaterial.
Quer isto dizer que a sua natureza difere de tudo o que chamamos
matéria. De outro modo, ele não seria imutável, porque estaria
sujeito às transformações da matéria.
É único.
Se muitos Deuses houvesse, não haveria unidade de vistas, nem
unidade de poder na ordenação do Universo.
É
onipotente. Ele o é, porque é único. Se não dispusesse do
soberano poder, algo haveria mais poderoso ou tão poderoso
quanto ele, que então não teria feito todas as coisas.
As que não
houvesse feito seriam obra de outro Deus.
É
soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis
divinas se revela, assim nas mais pequeninas coisas, como nas
maiores, e essa sabedoria não permite se duvide nem da justiça
nem da bondade de Deus.
Panteísmo
14.
Deus é um ser distinto, ou será,
como opinam alguns, a resultante de todas as forças e de todas
as inteligências do Universo reunidas?
"Se fosse
assim, Deus não existiria, porquanto seria efeito e não causa.
Ele não pode ser ao mesmo tempo uma e outra coisa.
"Deus existe;
disso não podeis duvidar e é o essencial. Crede-me, não vades
além.
Não vos
percais num labirinto donde não lograríeis sair. Isso não vos
tornaria melhores, antes um pouco mais orgulhosos, pois que
acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai,
consequentemente, de lado todos esses sistemas; tendes bastantes
coisas que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos.
Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos
libertardes delas, o que será mais útil do que pretenderdes
penetrar no que é impenetrável."
15.
Que se deve pensar da opinião
segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres,
todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e
constituiriam, em conjunto, a própria Divindade, ou, por outra,
que se deve pensar da doutrina panteísta?
"Não podendo
fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus."
16.
Pretendem os que professam esta
doutrina achar nela a demonstração de alguns dos atributos de
Deus: Sendo infinitos os mundos, Deus é, por isso mesmo,
infinito; não havendo o vazio, ou o nada em parte alguma, Deus
está por toda parte; estando Deus em toda parte, pois que tudo é
parte integrante de Deus, Ele dá a todos os fenômenos da
Natureza uma razão de ser inteligente. Que se pode opor a este
raciocínio?
"A razão.
Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o
absurdo."
Esta doutrina
faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema
inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto
pequeno. Ora, transformando-se a matéria incessantemente, Deus,
se fosse assim, nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia sujeito
a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da
Humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da
Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as propriedades
da matéria à idéia de Deus, sem que Ele fique rebaixado ante a
nossa compreensão e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem
a resolver o problema da Sua natureza íntima. Não sabemos tudo o
que Ele é, mas sabemos o que Ele não pode deixar de ser e o
sistema de que tratamos está em contradição com as suas mais
essenciais propriedades. Ele confunde o Criador com a criatura,
exatamente como o faria quem pretendesse que engenhosa máquina
fosse parte integrante do mecânico que a imaginou.
A inteligência
de Deus se revela em Suas obras como a de um pintor no seu
quadro; mas, as obras de Deus não são o próprio Deus, como o
quadro não é o pintor que o concebeu e executou.
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