|
Reconciliação
“...
Reconcilia-te, depressa, com teu adversário...”. (Jesus)
Conta-nos André
Luiz o seu encontro com o “Velho Silveira”
(1).
Tinha gravado em suas lembranças todo o mal que seu pai, como
negociante inflexível, havia feito àquela família despojando-a
de todos os seus bens. Recordou, envergonhado, as súplicas da
Senhora Silveira, pedindo mais longo prazo para que seu marido
quitasse as dívidas; o marido estava acamado e o tratamento
exigia soma considerável. O pai manteve-se irredutível;
lamentava as ocorrências, mas no tocante aos débitos
reconhecidos não via alternativa: as promissórias teriam efeito
legal. Foi a completa ruína financeira da família. Relembrou o
dia em que o próprio piano da Senhorita Silveira foi retirado da
residência para satisfazer às últimas exigências do credor
inflexível.
Agora, encontrava
Silveira participando de equipe socorrista da Colônia
Espiritual, em que ele, André, fazia seu aprendizado. Quis pedir
desculpas pelo procedimento do pai, ensaiando algumas
explicações, mas não conseguiu, porque ele mesmo, na ocasião,
havia encorajado o progenitor a consumar a ação até o fim. Via
apenas o direito de sua casa, e mais nada. Silveira
identificando seu constrangimento abraçou-o fraternalmente e
voltou ao trabalho.
Desconcertado,
André procurou a enfermeira Narcisa, expondo a ocorrência, a
pedir conselhos.
- Aproveitou você,
o belo ensejo?
- Que quer dizer?
- Desculpou-se com o Silveira? Olhe que é grande felicidade
reconhecer os próprios erros; não perca a oportunidade de se
fazer amigo; aproveite o momento; talvez não se ofereça tão cedo
outra oportunidade, porque Silveira é ocupadíssimo.
E foi o que André
Luiz fez; correu ao encontro de Silveira e falou-lhe
abertamente:
- Você compreende,
nós estávamos cegos; nada conseguíamos vislumbrar, senão o
interesse próprio. Quando o dinheiro se alia à vaidade,
dificilmente pode o homem afastar-se do mau caminho.
Silveira,
comovido, não o deixou terminar.
- Ora, André, quem
haverá isento de faltas? Seu pai foi meu verdadeiro instrutor.
Devemos-lhe, meus filhos e eu, abençoadas lições de esforço
pessoal. Sem aquela atitude enérgica que nos subtraiu as
possibilidades materiais, que seria de nós no tocante ao
progresso espiritual? Nossos adversários não são propriamente
inimigos e, sim, benfeitores. Não se entregue a lembranças
tristes. Trabalhemos com o Senhor, reconhecendo o infinito da
vida; quero ter a satisfação de visitar seu pai, junto de você.
Pareceu a André
que, num dos escaninhos escuros do coração, se acendera divina
luz para sempre.
(1) “Nosso
Lar”.
Editor
|