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Doenças da Alma
- Chegaste, alguma
vez, a examinar casos declarados de esquizofrenia? Foi a
pergunta do instrutor Calderaro dirigida a André Luiz
(1),
quando da visita de socorro ao velho Fabrício, que já se
apresentava no limiar da loucura, e que se ainda não enveredara
pelo terreno da alienação mental, devia-se ao carinho e
dedicação de uma parenta desencarnada que o assistia, vigilante.
- Este ramo
ingrato da Ciência – continuou Calderaro – que estuda a
patologia da alma é, há muito tempo, campo de batalha entre
fisiologistas e psicólogos; tal conflito é, em verdade
lamentável, de vez que ambas as correntes possuem substanciais
argumentos com que se digladiam. Somos, contudo, forçados a
reconhecer que a Psicologia ocupa a melhor posição, por
escalpelar o problema nas adjacências das causas profundas, ao
passo que a Fisiologia analisa os efeitos e procura remediá-los
na superfície.
Observando mais
profundamente os quadros interiores do enfermo, pode André
verificar as imagens torturantes em sua tela da memória:
imaginação superexcitada detinha-se a ouvir o passado; recordava
a figura de um velhinho agonizante a recomendar-lhe que cuidasse
de três jovens, também ali presentes nas suas reminiscências...
O ancião e os jovens pareciam revoltados contra ele,
acusando-o...
- Nosso irmão
enfermo – elucidou Calderaro -, teve a infelicidade de
apropriar-se indebitamente de grande herança, depois de haver
prometido ao genitor moribundo velar pelos irmãos mais novos. A
se sentir, porém, dono da situação, desamparou os manos e
expulsou-os do lar, valendo-se de rábulas bem remunerados,
arrojando os irmãos à penúria. Dois deles morreram minados pela
tuberculose e o outro desencarnou em míseras condições, relegado
ao abandono. Nosso desditoso amigo conseguiu escapar à justiça
terrena, mas não pode eliminar dos escaninhos da consciência os
resquícios do mal praticado; os remanescentes do crime são
guardados em sua organização mental como carvões em brasa viva,
sempre que excitadas pelo sopro das recordações.
- Mas há esperança
de reequilíbrio para breve? Indagou André.
- Absolutamente
não – respondeu Calderaro -. No caso dele funcionariam em vão as
terapêuticas em uso. O espírito delinqüente pode receber os mais
variados gêneros de colaboração, mas será sempre o médico de si
mesmo.
Nesse instante
entra no quarto do enfermo um menino de seus oito anos a
indagar:
- Está melhor vovô?
- Estou melhor, meu filhinho... Fabricinho, você acredita que
Deus perdoa aos pecadores como eu? Mesmo a um homem que trai a
confiança paterna e rouba aos irmãos?
- Eu acho, vovô, que Deus perdoa sempre...
Calderaro olhou
para André significativamente e concluiu: - Este menino é o
ex-pai de Fabrício, que volta ao convívio do filho pelas portas
benditas da reencarnação. É o único neto do enfermo e, mais
tarde, assumirá a direção dos patrimônios materiais da família,
bens que inicialmente lhe pertenciam. A Lei jamais dorme. Quanto
ao enfermo, guardando na mente os resíduos da ação criminosa,
logo após o abandono do corpo experimentará por muito tempo os
resultados de sua queda, até que o sofrimento alije os elementos
malignos que lhe intoxicam a alma. Quando esse serviço
purgatorial estiver completo, então...
- Regressará aos
seus familiares?
- Será compelido a esforçar-se intensivamente para os alcançar.
Mas jamais estará desamparado. Todos temos a imensa família,
dentro da qual nos integramos desde a origem – a Humanidade.
(1) No Mundo
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