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A História de
Claire
(1)
Evocado na
Sociedade de Paris por um médium que a conheceu quando em vida,
esse Espírito se apresentou demonstrando, ao mesmo tempo,
sofrimento e revolta, conforme se deduz das suas primeiras
palavras:
“Eis-me, eu, a
infeliz Claire; que queres tu que eu te ensine? A resignação e a
esperança não são palavras para aquele que sabe que, inumeráveis
como os calhaus da praia, seus sofrimentos durarão a sucessão
dos séculos intermináveis. Eu posso abrandá-los, dizeis? Que
palavra vaga! Eu sofro!... Não vejo nada ao meu redor, senão
sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro!”.
“A minha
infelicidade aumenta a cada dia; aumenta na medida em que o
conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria!
Quanto vos maldigo, horas culpáveis, horas de egoísmo e de
esquecimento, onde, desconhecendo toda a caridade, todo o
devotamento, não pensava senão no meu bem-estar. Vãs
preocupações de interesses materiais! Estou roída pelo
incessante lamento do tempo perdido...”.
“Não tenho
expressões para pintar a angústia desse tempo que foge, sem que
as horas lhe marquem os períodos. Vejo apenas um fraco raio de
esperança, e esta esperança tu ma deste; não me abandoneis,
pois”.
Esclarece o
Espírito de São Luís: “Perguntar-se-á, talvez, o que fez essa
mulher para ser tão miserável? Cometeu ela algum crime horrível?
Foi roubada, assassinada? Não; nada fez que merecera a justiça
dos homens. Ao contrário, ela zombou do que chamais a felicidade
terrestre: beleza, fortuna, prazeres, adulações, tudo lhe
sorria, nada lhe faltava. O que ela fez? Foi egoísta; tinha
tudo, exceto bom coração. Se não violou a lei dos homens, ela
violou a lei de Deus, porque desconheceu a caridade, a primeira
das virtudes. Não amou senão a ela mesma. Como não procurou
senão os gozos mundanos, e hoje esses gozos não mais existem, o
vazio se fez ao seu redor; o egoísmo fez a sua alegria na Terra,
agora é o verme que lhe rói o coração”.
A história de
Claire é a história de uma multidão de pessoas que vivem no
mundo; homenageadas por suas vantagens físicas, econômicas e
sociais, que afagam a sua vaidade; o remorso é a sua punição,
quando o vazio e a indiferença se fazem ao seu redor.
Editor
(1) Allan Kardec, “O Céu E O Inferno”.
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