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Entrevista com a psicóloga Joana D’Arc Parreiras de Paulo
que trabalha no Instituto de Assistência Psíquica Renascimento,
em Belo Horizonte (MG) e é membro da Associação Médico-Espírita
de Minas Gerais (AME-MG).
P: – O que é fundamental na relação médico–paciente e que
possibilidades ela traz?
R:
- Existe um arsenal acadêmico importantíssimo que é
complementado pela Doutrina e fundamental nessa relação. O canal
por onde flui o Evangelho é de alma para alma. Só aí, então,
pode atingir o coração. Os caminhos do Evangelho são os caminhos
do coração. É algo para ser sentido. E o que toca a alma é o
sentimento. Então, é nesse canal que trabalhamos com o paciente.
P: – A
Associação Médico-Espírita segue alguma diretriz, algum projeto
nesse sentido?
R:
- Na AME-MG temos um projeto, biopsicossocioespiritual. Este é
estruturado para um ano de atendimento intensivo em regime de
grupo fechado, em que os pacientes são selecionados de acordo
com a patologia, que passa, então, a representar o tema-desafio
daquele grupo. Ao tratamento espiritual de desobsessão
articulamos o grupo terapêutico, tanto para a família quanto
para o paciente, que chamamos de “Higiene Mental”. É nesse
encontro que construímos juntos, terapeuta e paciente, novas
reflexões a respeito do significado da vida, de onde viemos e
para onde vamos, sob a orientação espírita-cristã. Construindo
juntos, crescemos juntos, plantando e colhendo esperança e muito
entusiasmo. Vamos assim aprendendo, não só com a dor, mas também
com alegria, a humildade de reconhecer os enganos sem perder a
auto-aceitação e a auto-estima, condição indispensável para
prosseguirmos em busca de nossa saúde integral.
P: - Como é
essa abordagem com o paciente?
R:
– Ela é veiculada na relação. Então, é muito importante que o
terapeuta esteja pronto, disponível, com boa vontade para essa
abordagem. Ele deve estar envolvido com todo respeito e aberto
para construir uma relação assim com seu paciente. Ela deve
fluir num clima que vai além das paredes do consultório,
atingindo as dimensões que são do coração. Construímos uma
relação de afeto, muito diferente da que se estabelece entre um
profissional da área da Saúde e seu paciente, em que o primeiro
contém os recursos da cura. A alma do terapeuta deve inspirar a
do paciente, tocando-a, para que o próprio paciente possa
inspirar seu caminho de cura. Os recursos evangélicos são muito
importantes para que possamos seguir esse caminho.
P: – Quais
são esses recursos?
R:
– São do próprio Evangelho. Trabalhamos com temas que possam
sensibilizar nossos pacientes. Os anos de experiência no
trabalho trouxeram-nos a inspiração da “Mandala dos Temas”,
representando todo o arsenal de recursos espírita-cristão,
essencial, que será veiculado no tratamento, não só através da
informação, mas também através de uma relação respeitosa e
afetiva, que chamamos de atitude terapêutica cristã. As técnicas
simplesmente auxiliam. Utilizamos estas, como estratégia, para
nos aproximarmos do paciente, mobilizando-o, e para construir um
encontro terapêutico. Agora, a energia que é construída na
relação médico–paciente não dá para apalpar. Usamos recursos
fundamentais, acadêmicos, mas deve haver “algo mais” do
terapeuta. Tem a ver com a sua fé. A fé de que a cura está no
caminho de volta ao Criador, na “real conexão da criatura com o
Criador”, como diz nosso mentor Homero. Desta forma, vamos
ajudar o paciente a encontrar esse caminho de cura. Abordamos
essencialmente a ética cristã. Todo ser compreende a ética
cristã, de fazer ao outro aquilo que você gostaria de receber.
Passamos, assim, a ter uma vivência amorosa com o paciente,
construindo um circuito de “dar” e “receber”.
P: – Vocês
têm tido retorno nesse procedimento?
R:
– Sim, muito, e o retorno maior que nos importa não é
necessariamente a cura psíquica, a cura orgânica, mas a
abertura, o novo olhar que o ser passa a ter para a vida, a nova
forma de se relacionar consigo mesmo e com o outro. As
possibilidades que ele tem, respeitando seus limites, buscando
sempre auto-referência e respeito a si mesmo como filho do
Criador, aprendendo a amar a si mesmo, podendo, então, amar
melhor o outro. Tentamos incluí-lo como um ser da criação, como
um co-criador. E isso não pode ser só com informação, só com
palestras, com palavras. Isso se inspira na relação. Juntos,
paciente e terapeuta constroem esse caminho. Utilizamos muitas
técnicas de vivência. Elas não só atuam no consciente do
paciente, mas no inconsciente também. Auxiliam o ser a acessar
recursos que são internos, sua parte sábia. Muitas vezes ele não
faz contato com seu Deus interior e esses recursos de vivência o
ajudam nesse encontro, no silêncio da sua alma, bebendo na fonte
que está dentro dele mesmo. O terapeuta inspira esse processo no
paciente. Por isso, é um processo de alma para alma. Mas, claro,
o conhecimento acadêmico e da Doutrina Espírita é fundamental.
P: – Seus
pacientes são espíritas?
R:
– Nem sempre. Muitos nos procuram porque sabem do nosso
trabalho, mas outros são encaminhados por colegas profissionais.
P: – Esse
procedimento faz parte de uma pesquisa?
R:
– A AME-MG tem esse objetivo, mas acho que ainda não temos isso
bem organizado. Nós temos alguns profissionais que trabalham
muito dentro da área mais científica, tentando traduzir isso
dentro da linguagem da ciência. Mas ainda somos mais
trabalhadores, mais terapeutas do que propriamente cientistas.
Estamos vivendo um compromisso com ênfase na pessoa. É
importante para o terapeuta incluir isso na sua formação. Quando
a gente entra nesse processo, terapeuta e paciente se tratam.
Nessa relação encontramos o caminho de cura junto com nosso
paciente. Quando terminamos um processo terapêutico como esse e
nos despedimos do nosso paciente, ele vai com novos recursos
para a própria vida.
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