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Luiz Gonzaga
Pinheiro é natural de Fortaleza (CE), onde exerce a
profissão de professor de Ciências e de Matemática, na rede
pública do Estado. Engenheiro pela Universidade Federal do Ceará
e licenciado em Ciências pela Universidade Federal do Ceará, tem
mais de uma dezena de livros publicados, entre os quais os
conhecidos Terapia das Obsessões, Mediunidade - Tire suas
Dúvidas, Desobsessão - A Terapia dos Imortais, Diário de um
Doutrinador, Doutrinação: A arte do Convencimento, Mediunidade -
Temas Indispensáveis para Espíritas, Mediunidade - Aprendizado
Fundamental sobre Desobsessão e O Perispírito e suas Modelações.
P: - De
onde lhe veio a idéia da campanha pró-atualização da Doutrina
Espírita?
R:
- A idéia não é nova. É do próprio codificador do Espiritismo,
Allan Kardec, que em “Obras Póstumas” deixou bem clara a opinião
de que a Doutrina deveria ser atualizada a determinados períodos
de tempo, através de congressos, sempre se posicionando ao lado
da ciência, sob pena de suicidar-se. Como a ciência caminha
atualmente a uma velocidade alarmante, daqui a vinte anos
corremos o risco de contarmos apenas com a parte
filosófica-moral do Espiritismo, pois atualmente boa parte do
conhecimento científico lá exposto está errada.
P: - Você
considera a Doutrina codificada por Kardec ultrapassada?
P:
- De maneira alguma. A Doutrina em sua essência é inatacável. A
parte científica é que necessita de reparos, através de notas de
rodapé, esclarecimentos e aprofundamentos em outra obra ou de
outra maneira que uma comissão multidisciplinar julgar mais
conveniente.
P: - Há
confrades que já manifestaram o ponto de vista de que o livro "A
Gênese" estaria superado, enquanto diversos confrades ligados à
Física, especialmente à mecânica quântica, entendem o contrário,
ou seja, que essa obra está além – não aquém – da própria
Ciência. Que você pensa a respeito?
R:
- Acho temeroso afirmar que a Gênese está além da ciência.
Quando vejo lá escrito que o planeta Marte não tem luas e que as
crianças das escolas primárias sabem que ele tem duas, Fobos e
Deimos; a defesa da abiogênese, teoria enterrada por Pasteur e
já entendida como errada á época de Kardec; a afirmativa de que
Saturno tem apenas um anel sólido, quando hoje sabemos sem
sombra de dúvidas que são muitos, e não sólidos; que a lua tem
duas naturezas distintas e que por isso se assemelha a um “João-teimoso”,
quando a NASA já provou o contrário, penso que a Doutrina perde
muitos admiradores por erros tão primários.
P: - Anos
atrás alguns confrades escreveram artigos propondo a
substituição do vocábulo "fluido" por outro mais de acordo com o
conhecimento científico atual. Um dos motivos é que fluido tem
sentido bem diferente do que tinha à época de Kardec. Outros
confrades, porém, diretamente ligados à área da Física, pensam
que tal substituição é indevida, dado o dinamismo próprio da
Ciência, que muitas vezes adota no presente posições que eram
verdadeiras heresias no passado. Qual sua posição a esse
respeito?
R:
- Penso que fluido é um bom termo e passa a idéia correta de
algo que “escorre” sem obrigatoriamente ser líquido, podendo ser
impalpável, intangível. Não é aspecto tão pequeno que me
preocupa, mas apresentar para novos adeptos erros científicos,
prestando um desserviço à aprendizagem humana.
P: - Você
pode especificar expressamente os pontos em que a Doutrina
Espírita necessita de uma atualização, bem como os argumentos
que justificam tal medida?
R:
- A Doutrina Espírita necessita de ajuste na área científica. A
sua moral é a moral do Cristo, portanto, corretíssima. Como
Kardec enfatizou que a Doutrina é ciência, filosofia e religião,
não podemos deixar o lado científico capenga. Citar detalhes
levaria muito espaço e é assunto do livro “Apelos do Tempo” que
escrevi e ora se encontra na editora EME, em análise. Nesse
livro comento mais de cem questões de “O Livro dos Espíritos”
que necessitam de ajustes, sobretudo científicos.
P : - Você
pode mencionar alguns pontos de seu livro, como fechamento desta
entrevista?
R:
- Na última parte do livro Obras Póstumas, Constituição do
Espiritismo – Exposição de motivos, Kardec mostra as razões
pelas quais a Doutrina Espírita deveria ser continuamente
atualizada. Eis, sinteticamente, alguns pontos do seu
pensamento:
A. Para se
assegurar da unidade no futuro, uma condição é indispensável, é
que todas as partes do conjunto da Doutrina sejam determinadas
com precisão e clareza, sem nada deixar de vago; para isso
fizemos de modo que os nossos escritos não possam dar lugar a
nenhuma interpretação contraditória, e trataremos que isso seja
sempre assim.
B. O caráter da
Doutrina deve ser essencialmente progressivo. Ela não deve ficar
imobilizada sob pena de suicidar-se. Se uma nova lei é
descoberta, deve a ela ligar-se; não deve fechar a porta a
nenhum progresso, assimilando todas as idéias justas, de
qualquer ordem que sejam, físicas ou metafísicas, não será
jamais ultrapassada, e aí está uma das principais garantias de
sua perpetuidade.
C. O programa da
Doutrina não será, pois, invariável senão sobre os princípios
passados ao estado de verdades constatadas; para os outros, não
os admitirá, como sempre fez, senão a título de hipóteses, até a
sua confirmação. Se lhe for demonstrado que está em erro sobre
um ponto, modificar-se-á nesse ponto.
D. A verdade
absoluta é eterna, e por isso mesmo, invariável. No estado de
imperfeição de nossos conhecimentos, o que nos parece falso
hoje, pode ser reconhecido como verdadeiro amanhã, em
conseqüência da descoberta de novas leis. É contra essa
eventualidade que a Doutrina não deve jamais se encontrar
desguarnecida. O princípio progressivo, que ela inscreveu em seu
código, será a salvaguarda de sua perpetuidade, e sua unidade
será mantida precisamente porque ela não repousa sobre o
princípio da imobilidade. Esta, em lugar de ser uma força, se
torna uma causa de fraqueza e de ruína para quem não segue o
movimento geral; rompe a unidade porque aqueles que querem ir
adiante se separam daqueles que se obstinam em permanecer
atrasados.
E. Em lugar de um
chefe único será criada uma comissão central composta por doze
membros, sendo dentre outras atribuições, o estudo dos
princípios novos, suscetíveis de entrar no corpo da Doutrina e a
convocação dos congressos e das assembléias gerais.
F. O congresso
procederá a cada 25 anos a uma revisão da constituição orgânica
do Espiritismo com a finalidade de apreciar as novas
necessidades e não levar perturbações com modificações muito
freqüentes.
O livro que
escrevi analisa questões, faz comentários e sugere uma forma
atualizada, segundo o panorama científico atual. Como
ilustração, eis abaixo três perguntas nele existentes:
Pergunta 34: As
moléculas têm uma forma determinada? - Sem dúvida, as moléculas
têm uma forma determinada, mas que não é para vós apreciável.
Atualmente, a Química, através da geometria molecular, já
consegue determinar a forma das moléculas. Através de técnicas
especiais poderosos microscópios já fotografam várias moléculas,
notadamente, de proteínas. As moléculas diatômicas, ou seja,
aquelas que possuem somente dois átomos são sempre lineares.
Observando-se uma molécula do dióxido de carbono (CO2), notamos
que a distribuição espacial dos seus pares eletrônicos é O = C =
O, o que implica dizer que sua geometria molecular é linear. Da
mesma maneira, determinou-se a geometria molecular angular, com
a distribuição dos pares eletrônicos obedecendo aos limites de
um triângulo eqüilátero, em forma de tetraedro, dentre outras.
Lembramos aqui o ocorrido com o cientista Kalkulé, que exausto
em sua luta para descobrir como os átomos de carbono e de
hidrogênio se arrumavam no espaço formando a molécula do
benzeno, sonhou com duas cobras, uma devorando a outra, formando
uma espécie de balão fechado (hexágono) e ao acordar notou que
aquela forma se adaptava de maneira admirável à estrutura que
buscava. Teve em sonho a visão da forma geométrica que
procurava, antecipando-se aos certeiros estudos possibilitados
hoje pela ação dos computadores.
Sugestão: Sem
dúvida, as moléculas têm uma forma determinada, mas para vós
ainda não apreciável.
Pergunta 56: A
constituição física dos diferentes globos é a mesma?- Não, eles
não se assemelham de modo algum.
Chamamos a atenção
para o comentário de Kardec feito à resposta da pergunta 55 onde
ele finaliza da seguinte maneira: “... com exclusão de tantos
milhares de mundos semelhantes”. A palavra semelhante significa,
parecido, ou seja, mundos que se identificam em um ou múltiplos
aspectos. Quanto a este tema, vejamos como se reporta Joanna de
Ângelis, com base em estudos do astrônomo Sir James Jeans, em
seu livro No Limiar do Infinito, psicografado por Divaldo
Franco: “cálculos pessimistas, examinando o Sol, estrela de
quinta grandeza a sustentar 9 (Já não temos 9 planetas, pois
Plutão é hoje considerado um grande asteróide) planetas
conhecidos por enquanto, e que os mantêm com a sua energia,
fazem crer que neste universo de sóis mais poderosos, se lhes
fossem dados 2 planetas apenas para cada um, teríamos 200
bilhões em movimentação em nossa galáxia. Atribuindo-se por
probabilidade a hipótese de somente 1% deles ter as mesmas
condições e idades correspondentes à Terra, teríamos dois
bilhões de planetas com as mesmas condições que caracterizam o
nosso berço de origem.
Dando-se a
possibilidade remotíssima de que apenas 1% deles tivesse
condições de vida semelhante à nossa e defrontaríamos,
aproximadamente, com cerca de 20 milhões de planetas iguais ao
nosso com vida inteligente”.
Por que astrônomos da Terra têm tanto interesse em Marte? Porque
ele é semelhante a Terra em muitas características: há calotas
de gelo polares, nuvens brancas flutuando, tempestades de areia
e até um dia de 24 horas.
Podemos ler em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III, Há
Muitas Moradas na Casa de Meu Pai: Nos mundos que chegaram a um
grau superior, a forma do corpo é, como em toda parte, a forma
humana, mais embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo, purificada.
Não bastaria esse importantíssimo detalhe, a forma humana ser
padrão em todos os mundos, para torná-los semelhantes em pelo
menos um aspecto? Se a destinação da humanidade é a beleza e a
bondade podemos igualmente dizer que os mundos se assemelham
cada vez mais pelas virtudes, à proporção que se elevam na
hierarquia espiritual. Logo, há algo em comum entre os mundos,
pelo menos alguns, que os tornam semelhantes, fisicamente e
espiritualmente, em um ou mais aspectos.
Sugestão: De
alguma maneira, física ou espiritualmente, pode haver traços
comuns na maioria deles, pois as leis de Deus são as mesmas para
todo o universo. Mas existem aqueles que, fisicamente, em nada
se assemelham.
Pergunta 71: A
inteligência é um atributo do princípio vital? - Não, pois as
plantas vivem e não pensam; têm apenas vida orgânica. A
inteligência e a matéria são independentes, pois um corpo pode
viver sem inteligência; mas a inteligência não pode se
manifestar senão por meio de órgãos materiais; é necessária a
união com o Espírito para intelectualizar a matéria animalizada.
Comentário de
Kardec: Podem distinguir-se assim: os seres inanimados,
constituídos de matéria, sem vitalidade nem inteligência, que
são os corpos brutos; os seres animados não pensantes, formados
de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de
inteligência; os seres animados pensantes, formados de matéria,
dotados de vitalidade e tendo a mais, um princípio inteligente
que lhes dá a faculdade de pensar.
Nesse comentário
Kardec afirma a existência de seres vivos que têm a mais que
outros um princípio inteligente, admitindo assim que alguns não
o possuem. Léon Denis, André Luiz, Gabriel Delanne e os próprios
Espíritos que auxiliaram na codificação pensam de maneira
diferente:
O homem é, pois,
ao mesmo tempo, Espírito e matéria, alma e corpo; mas, talvez
que Espírito e matéria não sejam mais do que simples palavras,
exprimindo de maneira imperfeita as duas formas de vida eterna,
a qual dormita na matéria bruta, acorda na matéria orgânica,
adquire vitalidade, se expande e se eleva no Espírito” (Léon
Denis – O Problema do Ser do Destino e da Dor). Poeticamente,
esse raciocínio foi absorvido pelos espíritas da seguinte
maneira: A alma dorme nos minerais, sonha nos vegetais, agita-se
nos animais e acorda no homem.
“Através de mil
modelos inferiores, nos labirintos de uma escalada ininterrupta;
através das mais bizarras formas; sob a pressão dos instintos e
da sevícia de forças inverossímeis, a cega psique vai tendendo
para a luz, para a consciência esclarecida, para a liberdade”
(Gabriel Delanne – A Evolução Anímica).
“A imensa fornalha
atômica estava habilitada a receber as sementes da vida e, sob o
impulso dos gênios construtores, que operavam no orbe nascituro,
vemos o seio da Terra recoberto de mares mornos, invadido por
gigantesca massa viscosa a espraiar-se no colo da paisagem
primitiva. Dessa geléia cósmica, verte o princípio inteligente,
em suas primeiras manifestações” (André Luiz – Evolução em dois
Mundos).
A alma pareceria,
assim, ter sido o princípio inteligente dos seres inferiores da
criação? – Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende
à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer
totalmente, que o princípio inteligente se elabora, se
individualiza pouco a pouco e ensaia para a vida” ( Allan Kardec
- O Livro dos Espíritos, pergunta 607).
“O Espírito não
chega a receber a iluminação divina, que lhe dá, simultaneamente
com o livre arbítrio e a consciência, a noção dos seus altos
destinos, sem haver passado pela série divinamente fatal dos
seres inferiores, entre os quais se elabora lentamente a obra da
sua individualização” (Allan Kardec – A Gênese).
Acreditamos que o
princípio inteligente contribui na modelação do seu envoltório
astral que dará origem ao futuro perispírito, e participa
ativamente na resolução dos problemas atinentes à sua
sobrevivência e reprodução. A base para tal afirmação é bem
simples: efeitos inteligentes têm origem em causas inteligentes.
Observando-se a atividade de um simples vírus, como ele invade
uma célula, toma seus comandos e injeta seu material genético,
passando a interferir no metabolismo da célula invadida,
percebemos que ele demonstra uma inteligência invulgar. Ele toma
a “fortaleza” (célula) de assalto, passa a comandar a síntese de
novos ácidos nucléicos virais à custa da energia e dos
componentes químicos da célula hospedeira (aproveita a fábrica
para fabricar armas), culminando com a reprodução de novas
cópias suas (clones) num processo de produção por montagem digno
das mais modernas fábricas. Diante de tamanha precisão e
planejamento há de se perguntar: que obra do acaso engendraria
plano tão inteligente?
Alguém poderá
dizer que estamos diante do automatismo da matéria, de reflexos
ou movimentos instintivos. Mas por que isso não ocorre em uma
pedra, já que ela é também matéria? O fato é que existe uma
evolução e uma complexidade claras a partir de determinado ponto
de organização da matéria, caminhando progressivamente até o
homem.
Sugestão: Podem
distinguir-se assim: os seres inanimados, constituídos de
matéria, sem vitalidade nem inteligência, que são os corpos
brutos; os seres animados, constituídos de matéria e com
vitalidade, mas dotados de princípios inteligentes, sendo que
entre estes há aqueles cuja inteligência apenas desabrocha, e
outros cuja inteligência já se manifesta de maneira mais
ostensiva.
Que fique bem
claro que não considero Kardec superado, mal orientado ou
ultrapassado. O mesmo vale para obra que não é sua, mas que,
graças a ele veio a lume. Tudo quanto desejo é ver a Doutrina
limpa, sem erros, atualizada cientificamente, sem motivos de
zombarias nem ataques de seus detratores, devido estar passando
para seus adeptos erros que são facilmente corrigíveis.
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