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A história do
Espiritismo é escrita, por homens e mulheres que trabalham,
muitos, no mais completo anonimato, praticando o Bem, enxugando
lágrimas e ensinando as leis universais do Espírito. Isabel
Saraiva é uma dessas desbravadoras que arregaça as mangas,
agarra o arado e vai de encontro ao trabalho. Entrevista
realizada por ocasião da sua passagem pela capital do Estado de
São Paulo, com destino à cidade de Salvador, BA, para participar
da Conferência Espírita Brasil-Portugal. É dirigente da
Associação Espírita de Leiria, em Portugal, fundada em
11/09/1981, que mantém cursos de estudo sistematizado da
Doutrina Espírita, educação mediúnica, passes, evangelização
infanto-juvenil, realiza reuniões públicas com cerca de 300
pessoas, promove assistência social e conta com a colaboração de
100 voluntários.
Maria Isabel
do Carmo Pedrosa Saraiva, 56 anos, natural de Leiria,
Portugal, Bacharel e contabilidade e administração de empresas,
casada com Joaquim Marques Saraiva, mãe de 2 filhos e uma filha
que lhe deram 4 netos. Aos 21 anos conheceu o Espiritismo na
época em que a Doutrina Espírita era proibida por despacho do
secretário do Estado do Ministério da Educação, e os Centros
Espíritas haviam sido fechados e os bens confiscados. Essa
situação durou até 25/04/1974. Nessa ocasião, conta Isabel que,
de portas fechadas continuavam a estudar o Espiritismo e o
médium e tribuno brasileiro Divaldo Pereira Franco era convidado
para fazer palestras ao ar livre com o nome de “piqueniques”,
para não ter problemas legais. (Revista Internacional de
Espiritismo).
P: – Como
conheceu o Espiritismo?
R:
Aos 21 anos de
idade, durante a gravidez do meu segundo filho. Havia casado aos
19 anos e logo fiquei grávida de um bebê que desencarnou ao
nascer. E na segunda gravidez passava muito mal, quando uma
amiga indicou-me para que fosse consultar uma médium de nome
Adelaide, em Angola, que recebia o Espírito do Dr. Antônio Souza
Martins. Esse Espírito é muito conhecido em Portugal, entre os
espíritas, como o médico dos pobres, como o Dr. Bezerra de
Menezes é conhecido entre os brasileiros. Depois dessa visita à
médium Adelaide passei bem durante a gravidez e o bebê nasceu
bem, mas chorava muito e por isso retornei à médium com meu
filho. Nessa época morava em Angola, em condições difíceis,
trabalhando na agricultura.
Numa sessão
privativa em que o Espírito do Dr. Antônio estava dando
comunicação, fiz perguntas mentalmente e ele me respondeu, sem
que ninguém soubesse do teor das minhas perguntas. Não tive
medos e nem receios, pois achava muito normal a vida após a
morte. Algum tempo depois o Espírito orientou-me para estudar a
Doutrina Espírita e foi o que fiz.
P: – Como
era professar uma Doutrina proibida pelas leis do país?
R:
– Não era fácil, mas continuamos estudando a Doutrina de portas
fechadas. Todos os Centros Espíritas foram fechados e os bens
confiscados por despacho do Secretário do Estado do Ministério
de Educação. Alguns periódicos continuavam circulando
veladamente, tanto que em Leiria tem uma fábrica de papel que
realizou uma exposição sobre a imprensa na península e
descobriu-se um jornal espírita denominado “Sol do Porvir” que
circulava nessa época de proibição. Havia encontros ao ar livre
com o nome sugestivo de “piqueniques”. O médium e tribuno
brasileiro Divaldo Pereira Franco participou desses encontros.
P: – Quais
as suas atuações no movimento espírita de Portugal?
R:
– Quando retornei
de Angola, onde residi de 1954 até 1975, o Espiritismo havia
conquistado a liberdade de ser professado no país. Iniciamos num
pequeno grupo de estudos em Leiria, que se reunia semanalmente
para estudo. Nessa época, o dirigente era o Delfim Luís Pires
que fazia a ponte entre esse Centro Espírita e a Associação
Espírita, ambos de Leiria. As pessoas iam para a Associação
estudar a “Filosofia da Alma”. Quando fui convidada a assumir a
direção da Associação, estabeleci que a entidade deveria ser
constituída juridicamente, seguir a codificação de Allan Kardec
e filiar-se à Federação Espírita Portuguesa.
Alugamos uma casa
que tinha uma sala para 50 pessoas que nos serviu por dois anos.
Atualmente estamos num local maior, onde realizamos duas
reuniões semanais com a presença de 300 pessoas de cada vez.
Temos procurado, na medida das possibilidades, levar
personalidades espíritas brasileiras para enriquecer o estudo da
Doutrina Espírita. Por isso, temos contado com a presença do
César Perri, da USE-SP, da Marlene Nobre, da Associação
Médico-Espírita Brasileira, do Sergio Thiessen, da FEB, da
Heloisa Pires, de São Paulo, da Cecília Rocha e companheiros da
FEB, entre outros. Hoje a associação possui um terreno e está
preparando-se para dar entrada no projeto de construção. De 1981
até 94, portanto, durante 8 anos, participei da Federação
Espírita Portuguesa, representando a Associação Espírita de
Leiria.
P: – Qual é
a sua ligação com o Brasil?
R:
– Estive pela primeira vez no Brasil em 1995, para participar do
1º. Congresso Mundial, promovido pela Federação Espírita
Brasileira, em Brasília, evento muito importante para o
movimento espírita nacional e internacional. Daí para cá, esta é
a 4ª. Vez que visito o Brasil e retornarei em julho, ainda este
ano, a convite do Econluz – Encontro com os Cavalheiros da Luz,
dirigido por José Medrado, da Bahia. Tenho um sentimento
profundo pelo Brasil, talvez até pela lembrança que me traz de
Luanda, onde também vivi, além de Angola, por ser um país
tropical. Na verdade, recebi o convite da FEB – Federação
Espírita Brasileira, em 1985, para participar de um curso de
preparação de Evangelizadores para a Infância, mas não pude
comparecer porque não tínhamos condições financeiras de arcar
com as despesas, nem eu pessoalmente, nem a Associação – fato
que me lembro, até hoje, com mágoa porque o meu desejo era de
ter vindo ao Brasil e à FEB.
Mais tarde,
tivemos a grata satisfação de receber a Cecília Rocha,
vice-presidente da FEB e responsável por esse curso em Leiria,
proporcionando aos Centros Espíritas de Portugal, a
oportunidade, também, de participar do curso.
P: –
Acontecerá algum importante evento em Portugal este ano?
R:
– Sim. Primeiro, vai realizar-se o 3º. Congresso Nacional de
Espiritismo, em Vizeu, no mês de outubro, promovido pela
Federação Espírita Portuguesa. Há um encontro anual,
interessante, denominado “Convívio Nacional da Criança
Espírita”, com crianças de 3 a 14 anos, no Dia das Crianças. O
encontro reúne crianças que participam da Evangelização
infanto-juvenil. As crianças, nesse encontro, apresentam um
trabalho dentro do tema, seguindo os trabalhos da Evangelização,
em forma de poema, canto, cartaz, etc. O Hino das Crianças, hoje
cantado por todo o país, foi recebido pela médium Madalena
Tavares e musicado por João Paulo, que também é médium. Este
último já musicou mais de 20 letras, sem nunca ter conhecido
música.
P: –
Qual é a influência de Chico Xavier em Portugal?
R:
– O Chico é muito respeitado, admirado e querido em Portugal.
Ele é um exemplo de vida para todos nós. Os livros dele, após os
da Codificação de Allan Kardec, são os mais conhecidos. Todas as
instituições espíritas que possuem livraria têm os livros do
Chico Xavier.
P: – E o
Divaldo Pereira Franco?
R:
– É o orador espírita brasileiro mais conhecido em Portugal,
desde a época em que o Espiritismo era proibido no país. Divaldo
sempre fez palestras em Portugal em locais não divulgados
publicamente, no mínimo duas vezes ao ano. Foi com muita alegria
que ele esteve nas terras portuguesas em abril e retornará no
segundo semestre, em outubro, por ocasião do 3º. Congresso
Nacional de Espiritismo (28 a 31 de outubro de 2000).
P: – Suas
considerações finais.
R:
– Desejo que os laços de amizade entre Portugal e Brasil se
fortaleçam cada vez mais, transformando-se num grande buquê de
flores de aprendizado entre os dois países.
A Doutrina
Espírita ainda precisa ser muito divulgada em Portugal.
(A Associação
Espírita de Leiria fica na Rua dos Costas, 9, 3º. Drto. Planalto
– 2400-445 Leiria – Portugal. Fone: 244831524 e fax 244801784 e
e-mail: isabelsaraiva@clix.pt e ael-antp@ip.pt)
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