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O Espiritismo
Na Grã-Bretanha
Médico
sanitarista, professor universitário e mestre em Saúde Coletiva
(Unicamp), Ademar Arthur Chioro dos Reis, 3º
vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (Cepa),
defende que "As pesquisas biomédicas não são contrárias às leis
naturais. O homem é que tem que valorar seus atos pela
solidariedade, fraternidade, igualdade, pelo respeito às
diferenças, afastando-se do orgulho de querer ‘brincar de Deus’,
sem consideração ao ser humano, e do egoísmo, que o leva a visar
lucros, antes do bem-estar da sociedade”. Com exclusividade para
o Pense, Ademar, que faz doutorado na Unifesp e reside em Santos
(SP), responde a 13 questões, sobre biotecnologia, uso de
patentes, racismo científico, utilização de células-tronco,
embrião e processo reencarnatório, bio-ética e influenciação
social do espiritismo. Conferencista e autor de livros
espíritas, Ademar afirma que “do ponto de vista espírita, não se
pode admitir que a manipulação genética seja efetuada para mera
satisfação da vaidade ou da mercantilização da investigação
científica. Não há justificativa ética que sustente tais
finalidades. Mas não se pode obstaculizar o avanço de
tecnologias que sejam colocadas a serviço da humanidade, como,
por exemplo, a utilização da replicagem genética para a produção
de órgãos destinados a transplantes ou produção de terapias que
recuperem a saúde de milhões de seres desenganados."
P: - A
biotecnologia, com suas experiências, pode vir a alterar a
natureza humana, conduzindo-nos ao estágio pós-humano, citado
por Francis Fukuyama?
R:
- Constato,
inicialmente, que esse instigante pensador não tem obtido êxito
em suas projeções sociológicas. Por outro lado, no campo das
hipóteses, constata-se que as próteses, a clonagem, bactérias e
outros seres vivos mais complexos, geneticamente modificados, os
robôs e outros artifícios estão em vias de colocar em cheque a
identidade baseada no corpo físico de individuação.
A hipótese de um
cidadão clonado ou ciborgue já se coloca em nosso horizonte (e
não mais da ficção científica, embora às vezes elas se
confundam). Se isso significa um novo estágio, pós-humano, não
tenho como avaliar. Os diferentes estágios evolutivos da espécie
humana vêm ocorrendo numa dimensão temporal de milhões de anos.
A transição, caso ocorra, dificilmente será percebida num curto
intervalo de tempo e nem será fruto apenas da incorporação de
novas tecnologias, embora tenham sido decisivas na mudança dos
meios de produção e no desenrolar de muitos acontecimentos
históricos, da primeira ferramenta utilizada para arar a terra,
passando pela máquina a vapor, até as transformações advindas da
informática, apenas para citar alguns exemplos. A incorporação
tecnológica se dá numa velocidade impressionante, sem
precedentes na história da nossa civilização.
São evidentes os
ganhos obtidos com a crescente incorporação de diversas
tecnologias na atenção à saúde e outros campos. Vários estudos
têm demonstrado que o extraordinário aumento do número de
tecnologias produzidas e incorporadas nas últimas duas décadas
associaram-se à queda da mortalidade, claramente evidenciada em
áreas como a perinatal e a cardiovascular e ao envelhecimento da
população.
Contudo, o
processo de incorporação tecnológica vem sendo, em geral,
acrítico, veloz e desregulado, respondendo aos anseios de um
mercado cada vez mais competitivo e ávido por lucros.
Além dos novos
problemas trazidos pelos avanços da biotecnologia, outros vêm
sendo observados na utilização das tecnologias no setor saúde:
estudos que não encontraram evidência científica para
procedimentos largamente utilizados; tecnologias comprovadamente
sem efeito permaneciam em amplo uso; outras, comprovadamente
eficazes, apresentam baixa utilização, e utilização de
tecnologias fora das condições nas quais se mostraram eficazes.
Cabe ressaltar que o universo disponível de tecnologias em saúde
excede, consideravelmente, a capacidade de oferta por parte da
sociedade, tornando necessária a adoção de escolhas difíceis
quanto ao uso de recursos mais ou menos escassos. Ainda mais
quando as regras de decisão são inadequadas para guiar a escolha
das intervenções que ofereçam maiores benefícios à população.
Somente a
retomada, pelos estados nacionais, do papel de regulação deste
processo de avaliação e incorporação tecnológica, com forte
participação da sociedade, por meio de mecanismos efetivos de
controle social, será capaz de reverter essa irracional
tendência e colocar os interesses coletivos acima dos
corporativos ou de qualquer outra espécie.
P: – Com o
domínio de patentes por grandes corporações, o que se pode
prever como efeitos para a indústria farmacêutica e para as
diferentes classes sociais, ante os avanços da biotecnologia?
R:
- Os avanços da biotecnologia ocorrem em diferentes campos, com
distintas implicações. No que tange ao campo das pesquisas
genéticas, neste momento, a perspectiva de diagnóstico das
doenças é enorme, mas a de obtenção de cura e/ou tratamento das
doenças identificadas são mínimas. A maioria das doenças
(câncer, diabetes, arteriosclerose, hipertensão arterial,
obesidade etc.) são multifatoriais, dependendo de uma interação
complexa de múltiplos genes de pequeno efeito (doenças
poligênicas) com o ambiente. A corrida na área da pesquisa
genética volta-se para atribuir aos genes e às variações nos
genes um papel na iniciação e progressão da doença, na reação às
drogas e na descoberta de novas terapias. Algo como 5% das
doenças são genuinamente genéticas (cerca de 6 mil doenças) e se
constituem na grande aposta da indústria farmacêutica, movida
pelos lucros advindos das patentes. Destas, apenas 1.000 têm
seus genes localizados, e exames diagnósticos estão disponíveis
para apenas 800 doenças. E há tratamento para algumas poucas.
Vislumbra-se uma nova era na qual os indivíduos serão
diagnosticados e tratados com base em seu genoma e não nos seus
sintomas. Os genes envolvidos na patogênese de inúmeras doenças
multifatoriais poderão ser descobertos nos próximos anos (asma,
enxaqueca, hipertensão arterial etc.). Infelizmente, as empresas
de biotecnologia estão mantendo silêncio sobre as descobertas de
genes medicamente significativos, pondo os lucros à frente da
vida humana. O grande alvo do complexo médico-industrial, neste
momento, é descobrir e sistematizar a estrutura das proteínas
codificadas pelo DNA, para compreender a função das proteínas e
como estas podem ser modificadas para tratar doenças. Daí
esperam desenvolver vacinas específicas para cada paciente e
outras formas de medicamentos.
Outros cientistas
já começam a trabalhar sobre uma perspectiva muito mais radical:
a evolução do código genético universal a uma velocidade
estonteante para criar novas formas de vida. Procura-se, assim,
por exemplo, criar bactérias que possam fabricar proteínas
totalmente não-naturais, com aplicações práticas potenciais,
tais como a criação de microorganismos para remover o lixo
tóxico.
É inegável que
nessa área do conhecimento humano os interesses econômicos –
cuja face mais evidente está no patenteamento das descobertas -
é que movem decisivamente as pesquisas, como ficou evidenciado
na disputa entre os consórcios que seqüenciaram o genoma humano.
Esses interesses se expressam claramente na corrida desenfreada
pelo patenteamento de genes, seqüências e mutações, que
objetivem assegurar a exploração econômica e permitir o
desenvolvimento de kits de diagnósticos genéticos (medicina
preditiva) e o patenteamento de exames genéticos e novos
medicamentos.
Em outra
perspectiva, no tocante à produção de fármacos, observa-se que a
indústria farmacêutica move bilhões de dólares anualmente no
desenvolvimento de pesquisas e novos produtos condicionados por
“necessidades de mercado”. Desta forma, drogas contra a
impotência sexual e a calvície, produtos dermatológicos
anti-envelhecimento facial, entre outros, impõem-se na ordem de
prioridade em relação a vacinas ou fármacos que possam
erradicar, prevenir ou curar doenças que afetam milhões de
pessoas em todo o planeta – e, em particular entre os países
pobres – como a malária, a tuberculose, a hanseníase, a
filariose, leishmaniose e a anemia falciforme, que a despeito de
ser a doença genética de maior prevalência no mundo, não recebe
o mesmo tratamento da indústria farmacêutica, provavelmente por
se tratar de uma enfermidade predominantemente da população
negra.
Esse padrão de
iniqüidade e injustiça social só é enfrentado quando estados
nacionais, pressionados pelos movimentos sociais, colocam o
interesse coletivo acima dos dividendos auferidos nas bolsas de
valores pelas grandes corporações transnacionais.
A patente é um dos
mecanismos legais de proteção à propriedade intelectual que visa
garantir os direitos de reprodução e comercialização do invento.
Sua lógica é que os lucros proporcionados pela licença de
produção de um produto patenteado garantem ao detentor da
patente o reinvestimento em pesquisa e desenvolvimento de novos
produtos. Entretanto, o interesse social pode – e deve -
eventualmente prevalecer sobre esse aspecto econômico, colocando
em discussão a possibilidade de quebra de patente. Isso pode ser
motivado pela defasagem tecnológica dos países periféricos em
relação aos países desenvolvidos ou o seu baixo poder de compra
para adquirir os produtos de última geração fabricados pelos
grandes centros econômicos, ainda mais quando há o risco de
dizimação de um povo que não tem recurso financeiro para arcar
com os custos da medicação, como é o caso dos medicamentos
anti-retrovirais para a epidemia de Aids na África e na América
Latina. É interessante notar que o imbróglio tem sido tratado no
âmbito da Organização Mundial do Comércio, ao invés de na
Organização Mundial de Saúde, seguindo os interesses econômicos
das nações do G-8.
Nesse sentido,
torna-se necessário destacar positivamente algumas ações do
Governo Federal (Lula). O licenciamento compulsório (quebra de
patente) do Efavirenz, anti-retroviral produzido pelo
Laboratório Merck para combater o HIV/AIDS; a criação da Empresa
Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobras); a Rede
Nacional de Bancos Públicos de Sangue de Cordão Umbilical e
Placentário para Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas; o
incentivo para o desenvolvimento e aplicação terapêutica das
pesquisas com células-tronco, coordenadas pelo Instituto
Nacional de Cardiologia; as parcerias com o governo de São Paulo
e de Cuba para produção de vacinas e imunobiológicos, como
exemplos de que é possível desenvolver importante papel de
regulação, em segmentos estratégicos sem arrefecer o interesse
da iniciativa privada, das universidades públicas e dos centros
de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
P: – O
papel centralizador do estado tem-se reduzido no mundo. Diante
dos interesses corporativos, quais funções lhe caberiam
relativamente à clonagem de seres humanos?
R:
- A pressão imposta por diferentes segmentos da sociedade, a
começar pela própria comunidade científica, tem feito com que a
maioria dos países desenvolvidos ou que dominam a tecnologia de
replicagem gênica imponham restrições legais à clonagem de seres
humanos, como é o caso do Brasil. O interesse corporativo, na
verdade, dirige-se ao patenteamento e à exploração econômica de
outras linhas de investigação no campo da genética.
Quero expressar
que sou contra a realização, no momento, da clonagem de seres
humanos, por motivos éticos e de consciência. As críticas dos
cientistas que se opõem à clonagem são bem fundamentadas. Não se
trata de um procedimento corriqueiro e a sociedade tem o direito
de contar com um grau de certeza maior sobre as suas
conseqüências técnicas e éticas (o que vale para qualquer nova
incorporação tecnológica e científica que extrapole os limites
do que convencionamos – ou contratamos – socialmente como
ético).
Creio, entretanto,
que do ponto de vista hipotético, a clonagem de seres humanos,
que tanta celeuma tem trazido, na perspectiva do Espírito, não
seria um problema. Sob a ótica espírita, à semelhança do que
ocorre em gêmeos idênticos, a individualidade espiritual que
presidirá a criatura concebida a partir da manipulação genética
é absolutamente distinta da que lhe fornece o patrimônio
genético. Existia antes, independentemente, e assim continuará
existindo, apesar da absoluta semelhança do ponto de vista
corpóreo.
Seria, sem dúvida,
mais uma demonstração de que o genótipo é extremamente
importante para explicar o que somos (e como somos), mas incapaz
de produzir um clone que pense, sinta, aja e viva, reproduzindo
os padrões complexos de existência de seu pai ou mãe biológicos,
consolidando a percepção de que aquilo que nos efetivamente
individualiza é o princípio inteligente, o Espírito imortal.
P: – Com o
mapeamento do genoma humano podem ser identificadas
vulnerabilidades potenciais na saúde das pessoas. Quais
conseqüências sociais podem derivar desse conhecimento e como
dirigi-lo na direção das igualdades de direitos?
R:
- Os avanços tecnológicos nesse campo trazem verdadeiras
inquietações porque manipulam a própria vida. Avançam numa
velocidade surpreendente e provocam muitas dúvidas e novos
dilemas éticos, mobilizando interesses econômicos, trazendo o
risco de estigmatização e nos obrigam a enfrentar situações
ainda sem normas legais formadas.
Além do
diagnóstico e tratamento de doenças, muitas finalidades práticas
são possíveis a partir dos avanços científicos no campo da
genética. A seqüência de DNA, através da impressão digital de
DNA, tem sido utilizada como árbitro máximo da identidade
humana, empregada nas modernas investigações criminais, ajudando
a desvendar crimes hediondos (do passado e do presente),
reunindo famílias divididas por raptos (a exemplo de crianças
raptadas pela ditadura Argentina), identificando corpos de
pessoas desaparecidas, resolvendo pendengas que envolvem
disputas por paternidade, descobrindo as raízes de civilizações
antigas e fornecendo evidências inequívocas das origens humanas.
O uso da genética tem sido importante aliada para condenar
culpados ou perdoar inocentes que foram erroneamente condenados,
inclusive à pena de morte (o chamado “padrão-ouro da
inocência”). Com isso, têm sido estruturados bancos de impressão
digital de DNA no Reino Unido e nos EUA. Permite ainda a
compreensão da origem e do padrão de migração global das
populações humanas ao longo de centenas de milhares de anos,
através da utilização do DNA mitocondrial, empreendendo toda uma
arqueologia da espécie humana, retomando a sua origem.
Por outro lado,
diversos interesses e riscos estão em jogo. Algumas indústrias
apostam no desenvolvimento de kits para diagnóstico preditivo de
enfermidades, o desenvolvimento da medicina preditiva. A
disseminação de testes genéticos trás uma grande preocupação em
relação à privacidade. Há um grande risco de imposição de
restrições pelas empresas de seguros e operadoras de planos de
saúde a clientes, a partir da identificação de riscos ou padrões
genéticos por meio de chips de DNA, novas tecnologias poderosas,
e a divulgação de dados individuais para seguradoras e
empregadoras, levando à estigmatização dos seres humanos. Será
ético penalizar as pessoas por sua herança genética, por
exemplo, cobrando uma mensalidade maior do que uma pessoa sem
falhas genéticas? Será ético utilizar um kit genético para
selecionar o empregado mais saudável, o marido “perfeito”, mesmo
que a doença em tela possa se manifestar décadas após a
realização do exame, ainda assim no campo das probabilidades?
Nos próximos anos
teremos testes para doenças cardíacas, hipertensão, mal de
Alzheimer, de Parkinson, trombose venosa, osteoporose, glaucoma
e muitos cânceres (mama, ovário, cólon e pulmão). Em 2010,
prevê-se que os testes para as 25 doenças mais comuns estarão
disponíveis, permitindo que as pessoas tomem medidas preventivas
e mudem estilos de vida (ou que sejam submetidas a restrições e
à estigmatização).
Além disso, é
importante destacar que a despeito da capacidade diagnóstica, as
perspectivas de terapia genética não são tão promissoras.
O diagnóstico
genético pré-natal, que não é considerado ético e é proibido em
muitos países, induz, como alternativa quase que exclusiva, à
aceitação da doença ou à realização de aborto (eugênico,
terapêutico ou piedoso). A anemia falciforme, por exemplo, é a
doença genética mais comum na população negra e de maior
incidência no Brasil, mas não tem cura.
Por outro lado, a
utilização de kits devassa nossa intimidade (passado, presente e
futuro). Estima-se que em poucos anos os bebês sairão das
maternidades com todo o seu repertório genômico determinado,
provavelmente num DVD (ou similar disponível à época).
Seremos capazes de
fazer previsões sobre as doenças que correremos o risco de
contrair e desenvolver estratégias de suas prevenção e controle,
incluindo o tratamento individualizado a partir do perfil
genômico (farmacogenômica). Essas previsões chegarão aos ainda
não-nascidos, por meio de diagnóstico genético pré-implantação,
que permite mapear a constituição genética do embrião três dias
depois da fertilização.
O diagnóstico
genético pré-implantação custa nos EUA 20 mil dólares e já
resultou no nascimento de milhares de crianças em todo o mundo,
ajudando a gerar “bebês sob medida”. A possibilidade de intervir
sobre o destino (até então marcado pelo determinismo) é cada vez
maior. Pais que tiveram filhos com doença genética grave podem,
com essa técnica, gerar filhos saudáveis. Podem gerar filhos,
escolhendo um embrião com tecido compatível, aptos a propiciar
um transplante de medula ou de outro órgão para um irmão
afetado. Destaco que a decisão de ter um filho para salvar a
vida de outro é muito controversa.
O passo seguinte é
a procura do referido teste para outros fins, como doenças
poligênicas. Mas há um enorme risco de oferecer o exame a casais
ricos que pretendam selecionar embriões saudáveis, com
características físicas e/ou comportamentais desejadas. Mas
ainda são necessários muitos avanços tecnológicos para uma
possível seleção mercadológica de embriões.
A discussão ética
que se coloca é a seguinte: é lícito alguma empresa ou cientista
pleitear patente sobre o ser humano? Ou o genoma é um patrimônio
da humanidade? Esse debate é cercado de incertezas éticas,
legais e sociais, relativas à privacidade da informação
genética, à segurança e eficácia da medicina genética e à
justiça no uso da informação genética. Depende, entretanto, da
interação entre a comunidade científica (que gera o novo
conhecimento), os empresários (que transformam conhecimento em
produto) e a sociedade em geral (beneficiária).
A Unesco,
procurando estabelecer princípios para nortear a pesquisa com
genoma humano, promulgou a Declaração Universal sobre o Genoma
Humano e os Direitos Humanos (Unesco-1997), reconhecendo que o
genoma humano é um patrimônio da humanidade; a necessidade de
garantir aderência a normas internacionais de direitos humanos;
o respeito pelos “valores, tradições, cultura e integridade” e a
aceitação e defesa da dignidade humana e da liberdade.
Entretanto,
inexistem legislações específicas (e não há perspectiva próxima)
na maioria dos países.
P: –
Primeiro o Prozac, depois o Ritalin (para controlar o
comportamento indisciplinado das crianças) surgiram como
‘soluções’ químicas para deficiências humanas, no campo da
neurofarmacologia. Como conciliar esse método com tendências do
espírito?
R:
- Não nutro preconceitos em relação à utilização de
neuropsicofármacos no processo de tratamento da dor e de
enfermidades e sofrimentos psíquicos, desde que criteriosamente
indicados, dentro de um projeto terapêutico que permita uma vida
com qualidade, uma maneira melhor de andar no mundo, que muitas
vezes não é necessariamente a melhor ou mais cômoda para a
família (que tende a solicitar o “apassivamento” e isolamento do
parente “diferente”). Daí a importância de conviver e respeitar
as diferenças, sem estabelecer um padrão rígido de normalidade
que tanto sofrimento, estigmatização e isolamento social, por
meio da institucionalização em manicômios, têm trazido a milhões
de criaturas.
Segundo a
OMS-Organização Mundial da Saúde, mais de 20% da população
humana apresentam algum tipo de sofrimento psíquico e cerca de
3% em proporções graves. Nos países desenvolvidos observa-se
aumento significativo da prevalência dos sofrimentos psíquicos.
Imagine o lucro potencial que a indústria farmacêutica espera
ter com a síntese de novos neuropsicofármacos? Há também uma
imensa expectativa entre os cientistas quanto à identificação,
nas próximas décadas, de fatores genéticos que causam a
depressão, o distúrbio do déficit de atenção, os vícios, a
esquizofrenia, comportamentos violentos e outras condições
complexas (por parte das empresas a expectativa é, na verdade,
quanto ao desenvolvimento de remédios e os lucros envolvidos).
A aposta é
encontrar a solução no âmbito da biologia molecular, do DNA. Uma
das questões mais intrigantes é estabelecer qual a relação entre
o genoma e as características físicas e mentais de uma pessoa.
Um gene é a unidade funcional que geralmente corresponde a um
segmento de DNA que codifica a seqüência de aminoácidos de uma
determinada proteína. Os produtos gênicos (as proteínas)
integram, coordenam e participam dos processos complexos do
nosso desenvolvimento embrionário e do nosso metabolismo. O ser
humano é o produto final do processo de desenvolvimento e do
metabolismo. As características observáveis e variáveis
(aparência física, estado de saúde e emoções) constituem seu
fenótipo. Já o genoma (genótipo) permanece constante por toda a
vida e não determina o fenótipo; determina uma gama de fenótipos
possíveis, uma norma de reações, alternativas de desenvolvimento
e de metabolismo que podem ocorrer nos portadores de um dado
genótipo em todos os ambientes possíveis. Qual fenótipo vai se
concretizar, dependerá do ambiente, de suas interações com o
genótipo e, numa abordagem espírita, da dimensão espiritual que
compõe o complexo unitário e energético (matéria-Espírito) que
compreende os seres encarnados.
Como tudo é muito
complexo, não é possível identificar fenótipos com o mero
conhecimento do seqüenciamento de bases do genoma humano, exceto
os mais simples, ou pela resposta à ação de neuropsicofármacos.
Sabe-se, hoje, que não existem genes bons e genes maus.
Permanece intensa polêmica que divide, de um lado, aqueles que
acreditam que o comportamento é geneticamente programado e, de
outro, os que o consideram produto da educação, e não da
natureza.
Nos últimos cinco
anos, porém, houve um aumento constante nas evidências de que
muitas características comportamentais humanas são pelo menos
parcialmente influenciadas por variações no DNA, com estudos
sugerindo que comportamentos humanos complexos podem ser
moldados por alterações num único gene. Alguns cientistas
extrapolam, ao pretender correlacionar um gene da inteligência,
da felicidade, da homossexualidade, da promiscuidade, da
religiosidade, da infidelidade (o gene Viagra) e da procura de
novidades, por exemplo, dando campo para o surgimento de uma
psiquiatria genética. Corremos o risco de assistir à
absolutização da genética, com a tentativa de identificar um
DNA-ditador, o gene-egoísta etc.
A pergunta que se
impõe é: as características humanas complexas são regidas
primariamente pela natureza ou pela cultura?
Quanto à
expectativa entre os cientistas de identificar e explicar
através de neuropsicofármacos ou fatores genéticos
comportamentos humanos e outras condições complexas de vida,
consolidando a tese que defende a programação genotípica da
dimensão intelectual e cognitiva do ser, creio que o avanço das
pesquisas tenderão, em parte, a corroborar a concepção que
admite uma dimensão não-material da existência. Não acredito que
a ciência (nos moldes atuais) provará a existência do Espírito.
Não é seu papel, muito menos o objeto de preocupação da
psicobiologia ou da genética. Entretanto, na medida em que se
aprofunda o conhecimento do homem e que novas e antigas
indagações se impõem, não há como fugir da necessidade de
aprofundar a investigação sobre a perspectiva psíquica das
criaturas humanas.
A complexidade do
psiquismo humano ainda não encontrou na ciência teoria
suficientemente ampla para abranger toda a extensão de suas
propriedades. À medida em que avança o conhecimento e
formulam-se novas teorias sobre as funções do cérebro, cada vez
mais a ciência acredita que seus conhecimentos são suficientes
para explicar toda a complexidade envolvida. Processos
fisiológicos mais simples, efetivamente foram explicados, mas os
fenômenos de maior complexidade permanecem obscuros. Os
neuropsicologistas de hoje só procuram investigar aqueles
fenômenos que objetivamente se pode observar e que permitem
aplicações imediatas (como patentes e artigos científicos),
ignorando as características essenciais da mente. Para eles, os
fenômenos são causados por processos neurofisiológicos no
cérebro e são eles próprios características do cérebro.
Ao contrário do
que defendem ou imaginam muitos espíritas, essa contaminação com
ramos do conhecimento humano que se destinam a estudar a
dimensão material da vida é profundamente benéfica para as teses
espiritualistas e imortalistas. É que nos esquecemos, quase
sempre, que somos um complexo existencial muito mais unitário do
que o dualismo classificatório com o qual denominamos o ser
(Espírito-matéria), e de uma maneira geral acreditamos (e
esperamos passivamente) que seja desenvolvida uma tecnologia ou
metodologia “pura” para a comprovação do Espírito, o que nos
parece cada vez mais impossível.
Ao contrário,
perceberemos cada vez mais que a dimensão energética que se
estrutura mentalmente após a desencarnação e com a qual o
Espírito se apresenta e produz sua forma, obedece a padrões
fenotípicos muito evidentes.
P: –
Chegaremos ao ponto do “racismo científico”, seleção de embriões
e uso da biotecnologia não para fins terapêuticos, mas de
melhoramentos de pessoas mais bem situadas na escala social?
R:
- Uma descoberta científica não é ética ou antiética. Torna-se
antiética quando é utilizada de forma atentatória aos valores
que cultivamos, como respeito à vida, à individualidade, à
diferença, compreensão e solidariedade. Não foi a descoberta do
cianeto que causou a morte de milhões de seres humanos, mas sua
deliberada utilização em campos de concentração nazistas. Vale
lembrar que mais de 10 países detêm hoje tecnologia para
produzir a bomba atômica. Entretanto, depois do genocídio em
Hiroshima e Nagasaki, não se lançaram mais petardos atômicos
contra populações humanas e pudemos observar, indubitavelmente,
a incorporação de incontáveis benefícios indiretos e diretos
advindos da tecnologia nuclear.
As pesquisas
genéticas devem ser estimuladas, principalmente se tiverem
objetivos que tragam benefícios futuros à sociedade e ao meio
ambiente. Com que base podemos nos insurgir contra o acesso às
tecnologias que possam, por exemplo, duplicar um fígado de um
candidato a transplante hepático, a partir de uma célula sadia
isolada num órgão doente, usando como matriz uma placenta
artificial, sem riscos de rejeição? Ao mesmo tempo, como se
calar diante da clonagem de um milionário excêntrico que, por
razões absolutamente egoísticas, sem qualquer fundamentação
humanitária, opte por esse procedimento? Já há seitas exóticas,
como as dos raelianos, sediada nas Bahamas que, por motivos
esotéricos e religiosos, passam a perseguir a clonagem de seres
humanos como forma de transcendência da raça humana (pela
bagatela de duzentos mil dólares!).
É impressionante
que os cientistas tenham conseguido clonar uma ovelha antes de
curar uma doença com terapia genética. Estima-se que ainda serão
necessários 20 anos para que as primeiras doenças possam ser
tratadas geneticamente. Se a terapia genética tiver sucesso, já
há os que advogam a tese de usá-la para modificar os genes de
linhagem germinativa (espermatozóides e óvulos) para impedir a
transmissão do gene defeituoso para as gerações futuras. Outros
vão além, vislumbrando a possibilidade de melhorar a memória ou
adiar a velhice. Quais os limites para o patenteamento de genes
e exploração econômica do patrimônio genético da humanidade? São
temas que a sociedade terá de resolver.
As pesquisas
biomédicas não são contrárias às leis naturais. O homem é que
tem que valorar seus atos pela solidariedade, fraternidade,
igualdade, pelo respeito às diferenças, afastando-se do orgulho
de querer "brincar de Deus", sem consideração ao ser humano, e
do egoísmo, que o leva a visar lucros, antes do bem-estar da
sociedade.
Os avanços nos
últimos 30 anos colocam situações inimagináveis. Alguns apontam
para evidente melhoria da qualidade de vida por meio da
utilização de novos métodos de investigação, medicamentos
descobertos e o controle de doenças. Outros, uma série de
contradições para a espécie humana e o futuro do planeta.
Estamos mais próximos de dominar a tecnologia da criação da
vida, mas em par com a destruição cotidiana do meio ambiente e
suas funestas conseqüências. Dominamos tecnologias de ponta, mas
a humanidade tem se demonstrado incapaz de enfrentar a fome, as
epidemias e a miséria generalizadas. Contra o “racismo
científico” chamo a atenção, ainda, para o fato de que as
pesquisas genéticas consolidaram a constatação de que
geneticamente não há raças humanas: uma arma sem precedentes
contra o racismo. A espécie humana (Homo sapiens) é uma só e
dentro da espécie a variabilidade genética impõe, como padrão de
normalidade da natureza, a realidade que cada ser humano é
geneticamente único. O Projeto Genoma Humana demonstrou que os
homens constituem uma única raça, a humana, sem distinção de
credo, cor, origem étnica, geográfica ou de classe. Temos a
mesma natureza material. E o espiritismo acrescenta que temos
também a mesma natureza espiritual. Compartilhamos um complexo
espiritual/material que provém da mesma natureza, mas que se
individualiza para cada criatura, de tal forma que somos todos
iguais e, ao mesmo tempo, cada um constitui uma individualidade
(genética e espiritualmente).
P: – As
experimentações científicas costumam enfrentar obstáculos de
ordem dogmática e política. Qual o ponto de ruptura no sentido
de garantir o avanço do conhecimento e sua aplicação em
beneficio de todos?
R:
- Um problema central no debate que envolve os temas relativos
às experimentações científicas é o endeusamento versus a
demonização da ciência. A liberdade científica é moralmente
justificada na medida em que as conseqüências do seu uso, além
de serem benéficas para a humanidade, estejam dentro das
fronteiras da ética. A ciência não deve se conduzir por
sentimentos apaixonados que podem cegá-la pela ausência de
crítica ou por temores que possam impedir seu avanço.
O papel da
sociedade civil e dos espíritas, enquanto um movimento social
(nela contido) é o de manter vigilância que garanta a manutenção
da inquietude e da liberdade científicas sem, contudo, provocar
a emergência de um terror que impeça a reflexão e a ponderação
cuidadosas frente às novas descobertas.
Einstein já nos
advertia que “devemos evitar superestimar a ciência e os métodos
científicos quando se trata de problemas humanos. Não devemos
presumir que os especialistas sejam os únicos que têm direito de
opinar sobre questões que dizem respeito à organização e o
futuro da sociedade”.
As questões
ligadas à bioética têm que ser objeto de educação da população,
serem introduzidas nas escolas, para formação de consciências e
tomada de posição. Será preciso, ainda, desenvolver legislações
específicas. A sociedade não pode assistir pacificamente aos
acontecimentos, sem ter plena consciência de como a sua vida
pode ser afetada pelos avanços da ciência. Esta é, pois, uma
discussão de todos. Inclusive dos espíritas.
Há uma terceira
vertente ainda mais poderosa que os interesses dogmáticos e
políticos, que na historia da humanidade (e de suas grandes e
pequenas tragédias) tem prevalecido: os interesses econômicos.
O ponto de ruptura
no sentido de garantir o avanço do conhecimento e sua aplicação
em beneficio de todos seria o predomínio da ética da
solidariedade e da democracia. Infelizmente, parece que não
haverá tão cedo o respaldo dos estados nacionais, ainda
capturados ou intermediários dos interesses dos grupos
econômicos (no Ocidente) e religiosos (em parte considerável do
Oriente). Resta, portanto, como aposta, a insurgência de um
movimento com potencial surpreendentemente transformador, que se
impõe a partir da ação de milhões de cidadãos espalhados por
todo o planeta, que se mobilizam em torno de organizações
não-governamentais e que fazem da ação local, da micropolítica,
uma maneira de transformar o mundo e criar um processo de
pressão que se contraponha aos interesses dogmáticos, políticos
e corporativos.
P: – Os
espíritos disseram (questão 693 de O LE) que “Tudo que entrava a
marcha da natureza é contrário à lei geral”. A utilização de
células-tronco embrionárias de seres humanos para fins
terapêuticos representa alguma violação da marcha da natureza?
R:
A utilização de células-tronco embrionárias é uma questão
bio-técnico-científica colocada para a sociedade. Deve-se levar
em consideração os usos terapêuticos potenciais. Esperança para
um portador de deficiência que enfrenta as limitações e
discriminação, por um lado, e patenteamento e busca desenfreada
pelo lucro, por outro, são exemplos que se contrapõem
objetivamente para a sociedade. Mas é também um instigante
dilema de ordem ético-espiritual.
Entendo que do
ponto de vista espírita, não se pode admitir que a manipulação
genética seja efetuada para mera satisfação da vaidade ou da
mercantilização da investigação científica. Não há justificativa
ética que sustente tais finalidades. Mas não se pode
obstaculizar o avanço de tecnologias que sejam colocadas a
serviço da humanidade, como, por exemplo, a utilização da
replicagem genética para a produção de órgãos destinados a
transplantes ou produção de terapias que recuperem a saúde de
milhões de seres desenganados. A alegação de que não se pode
impedir provas e expiações determinadas por Deus para as
criaturas é absurda e dogmática, uma inaceitável perspectiva
fundamentalista de que o destino é traçado e que o homem não
possui livre-arbítrio para lutar, com todos os recursos e
energia disponíveis, para superar os limites que a vida lhe
impõe (o que não significa deixar de se resignar e viver com
dignidade quando esses limites não puderem ser ultrapassados ou
vencidos).
A visão espírita,
se colocada numa perspectiva mais ampla, sem o sectarismo
religioso e o imediatismo de quem não consegue perceber a
amplitude do processo existencial do Espírito (imortal), pode
trazer uma perspectiva esperançosa da vida.
Quando Kardec
perguntou aos Espíritos se o aperfeiçoamento das raças animais e
vegetais pela ciência era contrário à lei natural, por não
permitir que as coisas sigam seu curso natural, obteve como
resposta que tudo deveria ser feito para alcançar a perfeição, e
que o próprio homem seria um instrumento do qual Deus se
serviria para alcançar seus fins.
Estou firmemente
convencido de que todo e qualquer benefício efetivo, fruto da
intervenção do homem sobre a natureza, que possa ser incorporado
pela humanidade e que possibilite a satisfação de nossas
necessidades, a melhoria da qualidade de vida, o alívio dos
nossos sofrimentos, a busca do prazer e da felicidade, desde que
pautado pela serenidade, bom senso, equilíbrio, desejo de fazer
o bem e de não praticar o mal, sem danos efetivos para os demais
indivíduos, para a natureza (e, no caso das pesquisas genéticas,
para as gerações futuras) e que permita a universalização desses
benefícios para todas as pessoas, independentemente de classes
sociais ou outras variáveis excludentes, devem ser
obstinadamente perseguidos pela ciência e colocados à disposição
da sociedade.
Na verdade, duas
questões centrais se impuseram nesse debate: o que é um
indivíduo? Quando/onde começa a vida? Nós, espíritas laicos,
organizados em torno da CEPA (Confederação Espírita
Pan-Americana), tomamos publicamente posição a favor das
pesquisas embrionárias. Entendemos que a grande contribuição do
espiritismo, nesse debate, é apontar para a existência do
Espírito, a imortalidade da alma e a evolução infinita. Sinto
orgulho de ser espírita ao ver o posicionamento público que a
CEPA tem assumido frente aos problemas da bioética. Nossa
participação no Conselho Nacional de Saúde, em defesa da vida,
aprovando a pesquisa com células tronco-embrionárias, o
posicionamento público expresso pelo nosso ex-presidente Milton
Medran na grande imprensa brasileira, demarcam uma postura
progressista, humanista, laica e genuinamente kardecista.
P: -
Oponentes desse procedimento sustentam que o embrião, ainda que
descartado ou em vias de o ser, contém vida. Sob o ponto de
vista espírita, quando começa a vida?
R:
- Para o
espiritismo a vida é um continuum entre planos interexistenciais
absolutamente integrados. Não começa na fecundação, na nidação
ou no momento da concepção. A geração de um embrião, o
desenvolvimento fetal e a concepção de um recém-nato são etapas
naturais do processo evolutivo de um Espírito, assim como o
crescimento da criança, a puberdade, o envelhecimento e a morte.
A vida transcende esses momentos, pois o que efetivamente somos
(princípio intelectual) sobrevive inclusive à desintegração do
corpo material utilizado em nossa existência corpórea. Portanto,
toda discussão ética que se estabelece sobre as pesquisas
científicas, que parte (e por vezes se fecha) na definição do
“momento” onde a vida se inicia ou termina é feita de forma
infrutífera e dogmática.
Infelizmente, há
uma tendência entre os espíritas do segmento religioso em
discutir a questão a partir da imputação de acusação de
assassinato a qualquer movimento voluntário (consciente ou
inconsciente) que tenha como conseqüência a interrupção da
gravidez e do nascimento, assim como da manutenção e
prolongamento artificial e doloroso da vida, independentemente
das variáveis e do grau de complexidade envolvidos nas situações
particulares que se colocam frente aos acontecimentos.
Espíritas
conservadores argumentam, ainda, que os espíritos ficariam
presos aos embriões congelados em tanques de nitrogênio, em
temperaturas inferiores a -150º C, uma “moderna” concepção de
purgatório que se associa ao velho “fogo do inferno”
judaico-cristão. No site da Associação Médico-Espírita do
Brasil, sua presidente, Marlene Nobre, expõe uma tese baseada em
informações espirituais, segundo a qual “as células-tronco
embrionárias (CTEs) são selvagens e indóceis, porque muitas
delas não têm perispírito ou modelo organizador biológico
acoplado” Segundo ela, “há embriões congelados que têm e outros
que não têm espíritos ligados. Os que não têm formam-se pelo
poder mental dos pais, sobretudo da mãe, e não conseguem
sustentá-los por muito tempo. Daí a demonstração de falta de
orientação”. Estranha tese, que se pauta na predestinação, uma
repaginação do calvinismo.
Em minha opinião,
trata-se de um pensamento estreito e inaceitável, que ofende o
bom senso e atrapalha a esperança de milhões de enfermos e seus
familiares em obter da ciência benefícios concretos para uma
vida mais saudável e feliz.
P: - Se
esse embrião contiver vida, no conceito reencarnatório, como se
situaria o espírito no intervalo entre a fecundação e o
nascimento da criança?
R:
- A ligação energético-mental do Espírito que vai reencarnar, na
concepção espírita, inicia-se desde o momento da fecundação
(pelo que se sabe, afetiva e energeticamente, muitas vezes antes
mesmo da fecundação). Essa ligação, entretanto, só se completa,
efetivamente, no momento do nascimento.
O período entre a
fecundação e o nascimento é variável para cada espírito, em
função de seu desenvolvimento intelecto-moral e das suas
condições psíquicas. Esse é um campo que merece melhor
investigação.
Sem querer
desenvolver aqui uma tipologia, é possível afirmar que, tal qual
o que acontece com as gestantes, há espíritos que continuam
envolvidos em suas atividades de trabalho e estudo até momentos
antes do nascimento, a ponto de até mesmo participarem de
reuniões mediúnicas. Outros não têm consciência do que se passa
e, desde a fecundação, vão se submetendo a um processo natural
de adormecimento e perda progressiva da consciência, a que cedo
ou tarde, todos os espíritos reencarnantes sofrerão.
Por vezes,
entretanto, por diferentes mecanismos, pode não haver
viabilidade para o desenvolvimento fetal, resultando em
abortamentos naturais/espontâneos, num processo de seleção
natural da espécie. Nessas circunstâncias, o Espírito que se
preparava para retornar ao mundo material aguardará nova
oportunidade, que não deixará de ocorrer, cedo ou tarde, dando
continuidade ao processo evolutivo.
Por outro lado,
vale salientar, até mesmo porque a partir de exceções podemos
fundamentar hipóteses, aprendemos com os espíritos e com Kardec
que há fetos que jamais tiveram um Espírito designado para os
seus corpos.
P: - Kardec
previu que o espiritismo se desenvolveria em várias fases, sendo
a última, e mais importante, a que ele denominou período de
influência sobre a ordem social. Você concorda com essa idéia ou
é uma utopia?
R:
- Na Revista Espírita (1863), um espírito que se autodenomina
“Um filósofo do outro mundo”, entre outras coisas, prevê que o
espiritismo ocuparia no futuro não só um lugar, ele encheria o
mundo inteiro, porque seria “a chave da abóbada do edifício
social”. Profetizou que “todos os povos serão espíritas, porque
aí está a universalidade de todas as crenças”. Mais, que o
espiritismo, naquele momento, avançaria para aplainar todas as
heresias. E na medida em que seria conduzido pela simpatia,
seguido pela concórdia, o amor e a fraternidade, avançaria sem
abalos e sem revolução. Na sua lógica, por se tornarem melhores,
os homens aspirariam leis melhores e todos cresceriam fecundados
pela onda do espiritismo, que exerceria enorme influência sobre
as massas. Segundo ele, a “parcela de maus deverá
progressivamente diminuir e nossa legislação abrandar-se-á na
proporção do melhoramento moral...”. Creio que é suficiente para
expressar o clima de triunfalismo que cercava Kardec e os
espíritos que com ele produziram o arcabouço doutrinário do
espiritismo.
Torna-se
fundamental compreender também o contexto da Europa – e da
França, em particular – em meados do século 19, marcado por
profundas transformações econômicas, sociais, políticas,
científicas e culturais. A expectativa geral era superar o caos
social que imperava, uma nova ordem social. As correntes de
pensamento, contemporâneas ao surgimento do espiritismo, cada
uma de sua forma, de alguma maneira, traziam em seu bojo essa
promessa.
Neste texto e
contexto é que Kardec concebeu os períodos que o espiritismo
atravessaria: de curiosidade, filosófico, de luta, religioso,
intermediário e, por fim, o de regeneração social. Este último,
para Kardec, abriria a era do século 20. Todos os obstáculos à
nova ordem de coisas para a transformação da Terra teriam
desaparecido. Uma nova geração, novas idéias, preparariam o
caminho da que deveria inaugurar a vitória definitiva da união,
da paz e da fraternidade entre os homens.
Reconhecemos que
esse estágio ainda não se efetivou. Mais do que isso, é preciso
analisar qual a herança do espiritismo para o conhecimento
humano, de 1857 até o presente. Qual efetivamente a sua
influência do ponto de vista da evolução do conhecimento e do
comportamento humano? O que representa para a sociedade humana
contemporânea? São pontos para reflexão.
Não tenho dúvidas
da atualidade da concepção filosófica espírita e de sua
capacidade em produzir respostas aos problemas do homem e o
mundo atual, vislumbrando-se a sociedade do século 21.
É difícil (e
talvez desnecessário) fazer um prognóstico do que teria ocorrido
com o espiritismo se não tivessem ocorrido as duas grandes
guerras mundiais. Ou se não houvesse a Revolução Russa de 1917,
com a conseqüente polarização do mundo em capitalismo e
comunismo durante tanto tempo. Teria sido diferente sua evolução
na Europa e em todo o mundo?
Prefiro
reconhecer, antes de mais nada, nossa incapacidade de definir o
futuro das coisas. O futuro se constrói no presente. O resto é
ficção. Nossa capacidade de alterar o destino das coisas é
diretamente proporcional ao quanto nos esforçamos e trabalhamos
para que isto de fato ocorra.
Kardec acertou? Em
relação ao futuro do espiritismo, é necessário reconhecer que do
ponto de vista daquilo que imaginava Kardec e os espíritos que
com ele fundaram a Doutrina Espírita, houve um grande fracasso.
Talvez tenha apenas se equivocado em relação ao tempo e
estejamos ainda em pleno Período Religioso. Prefiro tratar esse
tema de maneira secundária, como mera “profecia”. Nesse sentido
fico com Léon Denis que nos disse: “O espiritismo será no futuro
o que dele os espíritas fizerem”.
P: – O
socialismo se esgotou enquanto proposta social e humanista?
Podemos estabelecer relações entre o espiritismo e o socialismo,
sem que esse confronto seja marcado por uma visão retrógrada e
conservadora?
R:
- A crise teórica que a esquerda em âmbito mundial vive há
décadas é profunda. A crítica do capitalismo, de enorme vigor no
século 19 e começo do 20, estiolou-se e parece que a burguesia
tirou mais lições das crises econômicas do que os
revolucionários. O Marxismo Soviético, para usar uma expressão
de Marcuse, transformou o que havia sido um pensamento
eminentemente crítico em uma ideologia conservadora de
justificação de um regime de opressão e em muitos lugares de
barbárie. As correntes dissidentes no campo do marxismo não
produziram uma alternativa teórica capaz de fundir-se com os
múltiplos movimentos sociais que fizeram a história avançar nas
últimas décadas.
Como apontei em
meu texto intitulado Neoliberalismo e Espiritismo, anos atrás,
penso que aqueles que acreditam numa sociedade estruturada em
valores éticos têm o dever de pensar o país e o mundo
existentes, ousar encarar de frente as profundas mudanças, ainda
que abalem dogmas e convicções, colocar a reflexão à altura da
generosidade dos que suportam a exploração e lutam contra ela.
Este é o preâmbulo da agenda desta nova sociedade. As razões,
entretanto, para ser de esquerda estão intocadas. Seguramente se
aprofundaram.
A “modernidade”
capitalista, que tanto fascina a muitos, assumiu em toda a parte
caráter de barbárie. A política foi banida pela gestão
“racional” de um mundo onde não parecem existir homens e
mulheres reais. É o movimento de capitais que comanda a adoção
de políticas macroeconômicas em quase todo o mundo condicionando
crescentemente governos aos imperativos da globalização que
aparece como “dado objetivo” e nunca como construção política. É
um mundo, entretanto, também com enormes oportunidades para o
progresso e bem-estar humanos, que não se realizam nos marcos de
uma sociedade capitalista, ainda que reformada.
Creio que nossos
esforços devem se concentrar na reflexão sobre os meios de
enfrentar a barbárie capitalista na sua versão neoliberal e de
construir os instrumentos de sua superação. Desde a Revolução
Francesa (burguesa, popular ou humanista) deseja-se a felicidade
na terra e não só no céu: igualdade, liberdade e fraternidade. O
resgate destes princípios exige que enfrentemos uma das forças,
o mercado, que faz de sua liberdade absoluta o esmagamento de
todas as outras dimensões da vida civilizada, ameaçando a
própria natureza e o planeta.
Que modelos
econômicos construir para dar conta das exigências de um
desenvolvimento ambientalmente sustentado? Como radicalizar a
democracia, indo além do Estado de direito, construindo espaços
públicos onde se gestem permanentemente novos direitos, fundindo
exigências de liberdade política com os imperativos da igualdade
e da justiça social? Como identificar os sujeitos desta
transformação? À sociedade, em profunda mutação, e aos
trabalhadores em geral (o proletariado), mesmo que despojados da
missão histórica de ser a classe redentora que a teologia
marxista lhe havia atribuído no passado, cabem um papel central
na retomada da mobilização pela construção de um novo mundo.
As promessas de
emancipação humana trazidas pela “modernidade” neoliberal
exigem, para sua plena realização, a superação do próprio
capitalismo. É preciso resgatar, como sonhou Marx, a idéia de
“uma organização social na qual o livre desenvolvimento de cada
um é a condição do livre desenvolvimento de todos”. Uma frase
densa de significados, que fornece aos homens de hoje, ao mesmo
tempo, critérios para criticar os efeitos do neoliberalismo e os
motivos do fracasso do “socialismo real” (que demonstrou ter
problemas maiores, em muitos aspectos, do que o capitalismo)
permitindo-nos recolher o que de melhor existe na tradição
liberal e democrática e, sobretudo, para sugerir um dos traços
essenciais do socialismo, que continua sendo - e talvez mais do
que nunca - a alternativa racional e sensata à crescente
barbárie capitalista. Um novo pensamento crítico, portanto, não
negará o passado, aprenderá com seus erros, mas, sobretudo
saberá resgatar nas experiências das revoluções e reformas
desses últimos séculos, as esperanças, a generosidade e o brilho
que iluminou mesmo as noites mais escuras.
Creio que é
possível encontrar uma maneira melhor de organizar a vida
social. Uma sociedade onde a liberdade não seja expressão do
individualismo e nem do corporativismo, mas em que impere o
pluralismo (religioso, político, sindical, cultural, racial, de
expressão). Torna-se fundamental, para tanto, que seja garantido
o controle social permanente sobre o estado e as empresas, a
democracia direta, a alternância de governos, voto secreto e
universal, a valorização da democracia representativa. Uma
sociedade onde a igualdade seja entendida como a persistente e
criativa busca das compensações que permitam a homens e mulheres
desiguais terem acesso a condições igualitárias de vida,
superando os extremos da desigualdade pela instituição de
políticas públicas de seguridade social, educação, habitação
etc., como base para a solidariedade. Onde a fraternidade seja
expressão da não-violência, da paz que recusa a força militar
como método político, sem racionalizações, superadas pelas
mobilizações pacíficas muito mais poderosas, profundas e
perenes. Em que a desmilitarização possa produzir a liberação de
recursos para enfrentar problemas fundamentais do gênero humano
em todo o mundo, como a fome, a doença, as drogas e a pobreza.
Em nome da fraternidade é preciso ainda superar o materialismo
desenvolvimentista e o “direito” do homem dispor da natureza e
que se transforma numa ameaça à vida na Terra (e que é
compartilhado pelo capitalismo e pelo socialismo ortodoxo). É
preciso uma nova relação com o nosso planeta e não apenas a
democratização do consumo, desenvolvendo um outro padrão de
consumo.
Uma nova forma de
organização social, superior, que contextualiza o dilema entre
estatização versus privatização em novos patamares, de forma que
a produção possa ser privada ou estatal, desde que submetida ao
controle social. O mercado é uma força que deve ser usada,
porém, desde que submetido a controles que minimizem seus
excessos. A estatização total dos meios de produção se mostrou
fonte de autoritarismo e estagnação cultural e tecnológica.
Alternativamente, pode-se imaginar a economia alavancada por uma
forma de produção social pública (privada ou estatal, gerida sem
fins lucrativos com representação majoritária da sociedade
civil).
O modelo
socialista de desenvolvimento e organização social é compatível
com a visão de homem e de mundo proporcionada pela Filosofia
Espírita, que permite conceber um novo homem (moral), resultado
e ao mesmo tempo construtor de uma nova humanidade. Para o
espiritismo, a harmonia que rege o universo material e o
universo moral está fundamentada sobre leis naturais, escritas
em nossas consciências e que não são as regras de livre mercado
e da competição desenfreada, a qualquer custo. Estão contidas na
máxima de amor ensinada por Jesus, baseados nos preceitos de
justiça, de amor e de caridade. O trabalho, para o espiritismo,
é uma lei natural, uma necessidade para o aperfeiçoamento da
sociedade e do próprio espírito. O forte deve trabalhar pelo
fraco e na falta da família, a sociedade deve tomar-lhe o lugar:
é a lei da caridade. O Estado, portanto, assume um papel
essencial de proteção e regulação das relações sociais.
Para o espiritismo
os homens não podem ser felizes enquanto não viverem em paz e
enquanto procurarem esmagar uns aos outros. Segundo Kardec, a
causa do orgulho está na crença, que o homem tem, da sua
superioridade individual e a igualdade é um fato e não uma
teoria filosófica. São verdades que derivam da preexistência da
alma e da reencarnação. A visão espírita, fundamentada nos
princípios da caridade, igualdade e fraternidade vai além,
descortinando novos horizontes e leis, provando que não se trata
apenas de doutrina moral, mas de uma lei natural que está no
interesse dos homens cultivar e praticar. Alarga o campo da
solidariedade, que se assenta numa lei universal da natureza,
que liga todos os seres ao passado, ao presente e ao futuro, e a
cujas consequências ninguém pode subtrair-se.
O espiritismo é,
por excelência, agente da solidariedade humana. Ao mostrar as
provas da vida atual como consequências lógicas e racionais dos
atos praticados em anteriores existências, fazendo de cada
pessoa autor da felicidade própria, possibilita uma importante
contribuição à elevação do nível moral da sociedade. Na lógica
espírita, a união da inteligência e da moralidade pode produzir
formas de organizações e sistemas – políticos, econômicos e
sociais – mais condizentes com as necessidades e dotados de
maior poder de legitimidade.
Dá, portanto,
sentido e novas bases para o próprio socialismo.
P: – Que
contribuição pode oferecer o espiritismo na construção de uma
bioética capaz de dar conta dos conflitos éticos que possam
surgir com as experiências genéticas?
R:
- Bioética e espiritismo são áreas do conhecimento que se
aproximam, na medida em que questões relativas à bioética lidam
com a expressão material da vida, mas também com as suas
relações com o Espírito. Por isso, acredito que é possível
produzir uma contribuição a partir da filosofia espírita para as
chamadas questões de vida, que têm sido objeto de estudo desta
nova ciência, que surgiu há 30 anos e estuda as dimensões morais
das ciências da vida e do cuidado da saúde, utilizando uma
variedade de metodologias éticas num contexto multidisciplinar.
Os princípios que
fundamentam a concepção da bioética podem ser respaldados a
partir da concepção espírita, por estarem em absoluta
concordância com as leis naturais que regem o universo e que
indicam o que o homem deve fazer para ser feliz. Essa lei
(divina ou natural, segundo Kardec) está escrita em nossa
consciência. O instrumento para distinguir o bem e o mal,
segundo a visão espírita, é o uso da inteligência, que permite o
discernimento, mediada pela vontade que se mobiliza no sentido
de fazer o bem, a máxima de amor capaz de estabelecer novos
patamares de relação entre os seres humanos e impor um novo
status evolutivo para a humanidade.
Se efetivamente
praticados e perseguidos obstinadamente, a liberdade, a
fraternidade, a solidariedade e a justiça social podem propiciar
uma existência profícua, que coloque todo o potencial
intelectivo do homem e o direcionamento de suas ações a serviço
do progresso.
A grande
contribuição do espiritismo nesse debate é a afirmação da
existência do Espírito, a imortalidade da alma e a evolução
infinita, ao agregar a dimensão extracorpórea das criaturas: o
princípio espiritual. O espiritismo demonstra, a partir dos
fatos pela via da experimentação, a preexistência, a existência
e a sobrevivência da alma, que conserva todas as faculdades
intelectuais, morais e espirituais depois da desencarnação. A
visão de mundo a partir da filosofia espírita delega ao homem o
papel de sujeito, de protagonista de sua própria história,
responsável pelo que é e pelas circunstâncias em que se
encontra. Mais: delega ao próprio homem o papel de construtor de
seu destino e de seu futuro, tanto numa perspectiva individual
como societária.
Ao lidar com temas
como a origem, a dor e o sofrimento, as enfermidades físicas e
psíquicas, a morte e o destino dos seres, procura responder à
seguinte indagação – por que e para que estamos neste planeta? –
sem usar de expedientes sobrenaturais e nem dogmas, num apelo
permanente para o uso daquilo que efetivamente diferencia os
humanos enquanto espécie: a capacidade de pensar. Permite-nos
vislumbrar, a partir da perspectiva imortalista e evolucionista
(não determinística, mas sim dialética), um novo comportamento
pessoal, familiar e social em busca da transformação da
sociedade através de formas mais fraternas e justas de
convivência.
Requer que
estejamos integrados com a vida, para alcançarmos a
transformação que os novos tempos requerem. Como afirma Jon
Aizpúrua: “o espiritismo não se reduz à fria experimentação de
laboratório. O científico e o filosófico se projetam no ético e
no moral...”. Daí a necessidade de estabelecer um permanente e
profícuo diálogo com todas as correntes de expressão do
conhecimento humano.
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