O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Movimento Espírita Espanhol

Entrevistado:
Salvador Martin

Fonte:
Reformador

ENTREVISTAS

          

Entrevista com Salvador Martin, presidente da Federação Espírita Espanhola (FEE), com destaque à divulgação espírita pela Internet e às novas perspectivas do Movimento Espírita na Espanha.

P: – Como está se desenvolvendo o Movimento Espírita na Espanha?
R: – O Movimento Espírita na Espanha se encontra atualmente em uma situação muito promissora. Herdeiro de espíritas legendários e de um Movimento Espírita dos mais ativos em nível internacional até 1936, quando sofreu as conseqüências das proibições do regime franquista, que não conseguiu eliminá-lo, pois, nos anos 80 voltou a legalizar-se. A realização, em Barcelona, do 1º. Congresso Espiritista Internacional, em 1889, e a de outro, em 1934, dão a idéia até onde havia chegado o Movimento Espírita naqueles tempos. Na atualidade, embora sendo o Espiritismo desconhecido para o cidadão em geral, surgem novos espíritas dia a dia, aparecendo novos centros pouco a pouco, além disso, conta com grande divulgação através da página eletrônica da Federação Espírita Espanhola. Temos a sensação ou a intuição de que é o momento de nos estruturarmos, de que os centros espíritas se organizem cada vez melhor e sejam mais numerosos em face de uma divulgação maior e um atendimento mais eficaz dos que buscam consolo ou esclarecimento, e acreditamos que colocarão o Espiritismo, no futuro, no seu verdadeiro lugar, oferecendo as respostas mais acertadas ante os grandes enigmas do homem.

P: – E o funcionamento da Federação Espírita Espanhola?
R: – Formada por centros espíritas das diversas regiões espanholas, temos muitas limitações no plano material e humano. Pensamos, com Leon Denis, que o Espiritismo será o que os espíritas fizerem dele, e se ele não chega mais distante será por nossas limitações e até por falta de vontade. O campo de trabalho é imenso e há muita “terra” para trabalhar com o arado e semeá-lo, pois, com certeza, já estão chegando os tempos para a frutificação. A Federação trata de diversas frentes de trabalho para otimizar a divulgação, promover a criação de novos centros, contribuir com a melhoria dos existentes, e, através de eventos como o Congresso Nacional de Espiritismo, que realizamos sempre em dezembro, abrir as portas da Federação e do Espiritismo de forma mais transparente.

P:  – O Movimento Espírita se espalha pelo interior do país?
R: – Embora o número de centros e de espíritas pudesse ser maior nas grandes cidades, por uma mera questão matemática e de proporcionalidade, às vezes ficamos surpreendidos com os núcleos de estudo que surgem em povoações mais humildes e, sobretudo, quando, repassando a história, encontramos informações de que geralmente nesses mesmos lugares já existiram centros espíritas há cem anos. Porém, não nos surpreende o conhecimento de que seja uma tarefa em conjunção com os dois planos, que o mundo espiritual está trabalhando muito, e que os espíritos-espíritas continuam a tarefa de onde a deixaram. É de se destacar também a situação social que estamos vivendo na atualidade devido à imigração. A Espanha tem o segundo maior fluxo de imigração, depois dos Estados Unidos, e esta diversidade cultural pode ter certas vantagens em relação ao arraigado materialismo europeu. Tem havido também a imigração de espíritas brasileiros; e é muito comum, antes de virem, nos contatar para saberem se há centros espíritas na cidade em que viverão. Assim, não estão aportando apenas novos espíritas aos centros espíritas espanhóis, mas, às vezes, eles mesmos têm sido os promotores na criação de algum centro novo.

P: – No Movimento Espírita espanhol há algum programa mais difundido junto aos centros espíritas?
R: – Os centros adotam diversos programas de estudo de cursos ou sobre os próprios livros, porém, se tivermos que destacar um programa de estudo, o mais difundido e com excelentes resultados é o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE) que, como previa Kardec a respeito dos cursos espíritas, prepara espíritas mais esclarecidos. Em geral, os centros espíritas na Espanha se caracterizam por esta preocupação e envolvimento constante no estudo dos espíritas que deles participam. Se bem que as conferências cumprem seu papel de divulgação, é nas reuniões, nos debates e nos estudos que estamos formando realmente espíritas esclarecidos e seguramente trabalhadores.

P: – Há edições de livros e revistas espíritas na Espanha?
R: – Atualmente há duas editoras espíritas e um Centro Espírita que edita livros para distribuição gratuita. Também há revistas espíritas que são editadas por alguns centros, mas com distribuição limitada a outros centros ou espíritas sem chegar a ser todavia a cumprir um grande papel de divulgação. Porém, têm surgido recentemente diversos projetos de “reencarnar” antigas revistas como Revelación, que foi editada durante mais de 30 anos, de periodicidade quinzenal, no final do século XIX e principio do século XX.

P: – Na Espanha há difusão espírita por rádios, TV e Internet?
R: – Pelo radio, ocasionalmente têm-se realizado alguns programas que são um meio mais sério para entrevistas que a TV. Até agora, ao menos pela Federação, temos aceitado essas intervenções radiofônicas ao mesmo tempo que rechaçamos as televisivas, que buscam mais o ridículo e as distorções sobre aspectos mediúnicos. Enquanto isso, pela Internet a página eletrônica www.espiritismo.es da Federação Espírita Espanhola recebe mais de 100 mil acessos e comentários por mês de usuários de diferentes partes do mundo, e graças ao mecanismo de busca da Google, a situa em primeiro lugar, ante diversas buscas de palavras relacionadas com o Espiritismo. O que está trazendo muitas pessoas novas para o conhecimento da Doutrina ou de livros espíritas, e na página eletrônica há mais de 100 livros para cópias diretas e gratuitas. Também na página eletrônica se realizam estudos semanais, utilizando-se um “Chat” como centro virtual que reúne participantes de diversos países às segundas e quartas-feiras.

P: – Como conheceu o Espiritismo?
R: – Graças à minha família, tenho sido dos espíritas que quando lêem pela primeira vez O Livro dos Espíritos têm a estranha sensação de que o estão relendo. Assim, não tenho nenhuma história sobre a hora em que me encontrei com o Espiritismo, como a de Leon Denis ou a do capitão Lagier (o primeiro espanhol que leu O Livro dos Espíritos). Sempre tive livros em casa e escutava falar destes assuntos, sendo ainda o único da classe da escola que participava das aulas de religião. Nunca me senti bem na Igreja e se por algum motivo meus pais tinha que participar de algum “ato social” como o batismo de um vizinho, sabiam que teriam que me deixar no pátio, porque nas várias ocasiões em que cruzei os umbrais de um templo católico entrava em estado de choque e desmaiava.

Meu pai e quatro irmãos ficaram enfermos e a Medicina não encontrava a causa, então minha avó, atendendo ao conselho de uma vizinha, levou-os a “um homem que curava”. Tratava-se de um médium que, sem nunca tê-los visto, disse que ao lado deles havia outro irmão desencarnado, que morrera recentemente de leucemia, com 25 anos. Disse-lhes também que se restabeleceriam rapidamente porque a enfermidade teve o único objetivo de lavá-los até ali para terem uma prova da verdade espírita. Porém, em realidade, a prova se achava em sua própria casa, escondida, já que o irmão desencarnado lhes contara que havia sido médium psicógrafo e que nunca comentara nada e agora o demonstraria, indicando-lhes, através do médium, onde se encontrava um velho baú, no qual teria guardado, à chave, seus escritos mediúnicos. Ao chegar a casa e encontrando o baú escondido, toda a minha família se tornou espírita, convencida ante a evidência; posteriormente, surgiram faculdades mediúnicas em meu pai e em uma de suas irmãs.

P: – Vocês mantêm relacionamento com outros países e com o CEI?
R: – Como representante da Espanha em eventos e reuniões internacionais do Conselho Espírita Internacional (CEI), mantenho necessariamente relações com outros países. E, graças a ser o espanhol o idioma oficial de mais de 20 países, diariamente atendemos a numerosa correspondência, dirigida à página eletrônica, que é a espírita em espanhol mais visitada do mundo. Creio, com Kardec, na necessidade de um órgão internacional, no comitê central que explica com clareza em “Constituição do Espiritismo”, e este órgão é, hoje em dia, com toda certeza, o CEI, que através de suas atividades vem cumprindo com muita propriedade e acerto o seu papel no concerto internacional. Prova disso é ser ele formado pelas federações mais representativas dos países, como a CEE.

P: – Há algum evento realizado ou planejado em comemoração aos 150 anos da Doutrina Espírita?
R: – No dia 18 de abril e naquela semana, desenvolveram-se na maioria dos centros espíritas da Espanha diversas atividades, conferências, encontros, comercialização e oferta de livros, etc. para homenagear os 150 anos da publicação de O Livro dos Espíritos.