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Nehemias Marien
é um pastor sensível, que transmite carisma e afirma ter
mentalidade holística. Assume sua mediunidade, fala sobre as
evidências da reencarnação em várias passagens bíblicas, e abre
espaço para pregação da doutrina espírita em sua igreja. É que,
para ele, “o Espiritismo é o mais caudaloso afluente do
Cristianismo”, a Bíblia o mais antigo livro de psicografia e
mediunidade e o Cristo o médium perfeito. Diz, também, que a
mentalidade Kardecista todos nós a temos.
Marien demonstra
grande respeito por Chico Xavier, com quem já esteve duas vezes,
e por Dom Helder Câmara. Apesar de todos esses pontos de vista,
com independência ideológica, ainda consegue o respeito de sua
comunidade, onde é pastor da Igreja Presbiteriana Bethesda, em
Copacabana, há 26 anos. É autor do livro “Transcendência e
Espiritualidade” e uma das estrelas, com cadeira e público
cativos, desde 1992, no Encontro para a Nova Consciência, que se
realiza todos os anos no período carnavalesco em Campina Grande,
PB. É nome conhecido nacionalmente, pois já participou do
programa Jota Silvestre, respondendo sobre sagradas escrituras,
dos quais é um profundo conhecedor.
P: –
Pastor, qual é a sua Igreja e onde fica?
R:
– Minha igreja é uma betel. Vamos dizer, na palavra hebraica,
todo lugar onde o ser humano está presente em Deus, o eterno, na
imensurável transcendência. Eu tenho até constrangimento de
dizer qual é a igreja, porque minha igreja é você, é estarmos
juntos, é a “ecclésia”, no pensamento de Jesus, lá na Cesaréia,
quando pela primeira vez disse “eu vou edificar a Igreja”. É a
vida, é o trabalho, é a família, é a caminhada. Quando as
pessoas estão juntas, mesmo que não pensem da mesma maneira, é
uma igreja, é uma comunidade holística. Sou de formação
Calvinista, pastor presbiteriano, em Copacabana, Rio de Janeiro,
há 43 anos, sem sair da igreja. Meus pais eram missionários em
Mato Grosso, onde nasci. Morei na Inglaterra, na França e estou
no Rio de Janeiro há 26 anos, pastoreando a Igreja Presbiteriana
Bethesda.
P: – É
verdade que senhor acredita em reencarnação?
R:
– Muito grato pela pergunta. Olhe só. Até o ano 546, no Concilio
de Calcedônia, o “Espiritismo” fazia parte dos cânones da
Igreja. Depois, por discussões mais administrativas e menos
teológicas, foi banido do cânone oficial e hoje é a doutrina
espírita que tudo explica. Não é aceita pela maioria dos
pressupostos evangélicos, porque é uma confusão chamar de
evangélicos só os crentes entre aspas, não é? Evangélico é quem
anuncia a Boa Nova. Então, eu sou professor de Teologia Bíblica
e de Ciências Bíblicas. É meu livro de cabeceira. No estudo da
Bíblia, as evidências da reencarnação são clamorosas e eu acho
que o Espiritismo é a mais caudalosa vertente do Cristianismo,
pelas suas idéias. Você encontra, tanto no Antigo como no novo
Testamento evidências claras da reencarnação, isto é, do
prosseguir da vida. Tanto Pedro, o pressuposto grande apóstolo
Pedro, fala na sua segunda encíclica, no final da Bíblia, sobre
a existência do espírito após a morte e nesta evolução do ser
humano. E também São Judas, o apóstolo do Cristo, na sua
epístola final, também fala sobre o mesmo tema. Então, sou uma
pessoa estudiosa, aberta. Eu não tenho muros de espécie alguma.
Eu tenho uma visão holística e aprendo muito com meus amados
irmãos espíritas. Eu tenho um livro, Transcendência e
Espiritualidade, onde abordo mais diretamente o assunto. Estou
crescendo assim, nesta área e num certo diálogo. Tem algumas
coisas que eu não entendo, pelos meus limites bíblicos e
culturais, como também não entendo o próprio Cristo. Como vou
compreender plenamente Kardec?
P: – O
senhor já manifestou este ponto de vista reencarnacionista na
sua igreja?
R:
– Ah, sim, sim. A minha comunidade é uma igreja grande. Somos
cerca de 350 congregados, tem cinco pastores, é um colegiado
pastoral, além do livro. O livro é público, editado aí. Eu tenho
participado de revistas. Por exemplo, no começo do ano a Revista
Espírita Allan Kardec publicou uma síntese do pensamento meu, a
respeito. A igreja ouve-me, aceita. Eu sou o pastor titular.
Somos cinco pastores, mas estou ali, orientando a Igreja, neste
sentido. Eu não tenho nada secreto na minha vida pastoral.
P: – Qual a
receptividade do público de sua igreja, em relação ao seu
conceito reencarnacionista?
R:
– Bem, a igreja me aceita plenamente, mas eu tenho a impressão
que não só sobre o meu aspecto filosófico, teológico,
doutrinário sobre o Espiritismo, mas em outros também. Porque eu
pessoalmente, Nehemias Marien, sou uma espécie de espinha de
peixe na garganta de minha própria igreja, mas aceitam e vão
atrás. Como diz o Mestre: “o pastor vai à frente do rebanho e o
rebanho segue, porque conhece a voz do seu pastor”. Não segue em
frente, mas segue a mim, mesmo que me engulam, vamos dizer
assim, goela abaixo, por não entenderem bem minhas nuanças
teológicas e espirituais, eles me aceitam. A gente vive num amor
perfeito. Lá na minha igreja já pregou Libório Siqueira, que é
desembargador e grande espírita, e o Gerson Azevedo,
ex-presidente da Federação Espírita do Rio de Janeiro. Vários
espíritas pregando na Igreja. Não vão lá visitar, não. É subindo
ao púlpito. É um púlpito bonito, mais alto. Usam até toga e se
não quiser usar fardamento, ficam como estão, elegantemente
vestidos e pregam lá. Então é uma igreja aberta.
P: – Já que
o senhor acredita na reencarnação, o que o faz continuar
professando a teoria presbiteriana?
R:
– Olha, eu estou presbiteriano. Eu até não gosto muito desta
palavra presbiteriano porque Calvino, João Calvino, quem
estruturou o pensamento teológico protestante, muito la na Idade
Média. Mandou crucificar, crucificar na maneira de falar, mandou
queimar vivo Serventus, um médico, porque discordava dele. Criou
uma doutrina chamada doutrina da predestinação. Eu bato de
frente contra isso. Agora eu estou lá porque acho que estamos
num “pool” de idéias e a minha cabeça é holística. Assim, vamos
dizer, Nehemias Marien, teológica e pastoralmente é um
caleidoscópio. A beleza do caleidoscópio é exatamente é ter
vidros quebradinhos, bonitos e funcionais, como figuras
geométricas de grande dimensão espiritual.
P: – O
senhor já estudou a doutrina espírita?
R:
– Eu tenho o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo e vários
livros de Allan Kardec.
P: –
E qual a sua opinião sobre a doutrina espírita?
R:
– Eu acho que o Espiritismo é o mais caudaloso afluente do
Cristianismo. Considero a Bíblia como o mais antigo livro de
psicografia e mediunidade. Eu acho que Jesus era o médium
perfeito e que a mentalidade Kardecista todos nós a temos.
P: – Sobre
a mediunidade, Pastor, o que o senhor diz?
R:
– Olha, nós todos somos médiuns. Queremos ou não. É uma questão
de reconhecer, constatar e disciplinadamente desenvolver. Agora,
há muitos preconceitos. Nossa cabeça é cheia de preconceitos,
conceitos não, mas preconceitos temos demais. Então, eu penso o
seguinte: eu, a respeito da mediunidade... até agora estou
sentindo... (emociona-se). Eu penso que o verdadeiro servo de
Deus é um médium. Ele não fala de si. Vamos dizer, entre aspas,
traduzindo sentimentos, é uma incorporação espiritual. Ele não é
dono dele, é um veículo, um canal. O importante é a mensagem que
transmite.
P: – E
quanto à comunicabilidade com os espíritos, o que o senhor diz?
R:
– É isso que eu estava tentando passar. Eu tenho, até não
entendo bem este espírito meu, mas eu tenho a impressão que é
uma índia. Nhambiquara, mãe de minha mãe, minha avó Joana. Eu
sinto assim, uma certa colocação, uma certa energia dela para
mim. Todas as vezes que eu abro o texto sagrado, para as
homilias, as pregações, os sermões, sinto que estou fora de mim.
Eu admito esta transcendência da espiritualidade, esta invasão
do céu no coração humano, através da mediunidade.
P: – Como o
senhor encara os sucessivos ataques ao Espiritismo?
R:
– Bem, como eu diria, nossos amados irmãos são aliados. Estamos
todos no mesmo barco, mas eles fazem parte da artilharia. O
artilheiro é o soldado que vem lá atrás. A infantaria somos nós,
a doutrina espírita, aqueles que vão lá para frente. A
artilharia, ao abrir espaço à frente, soltam as bombas, mas são
muito ruins de cálculos matemáticos, erram e acabam dizimando os
próprios aliados. É o que acontece, criticando o Espiritismo,
que está na mesma dimensão espiritual. Eu os chamo, vamos dizer
assim, de “bonsais” espirituais, aquela plantinha que não
cresce. Lá em Tóquio vi todo um horto só de “bonsais”, bonitos,
mas não se desenvolveram espiritualmente. Esses que atacam
nossos irmãos espíritas e outras tradições, com as quais não
concordam, são uma espécie de pitimbus. Eu acho que os ventos
contrários firmam raízes de árvore e o avião sobe mais alto.
Acho que é mesmo burilando um diamante, que vira brilhante.
P: – Na sua
opinião, qual seria o caminho mais eficiente para a Humanidade
seguir em direção ao Ecumenismo?
R:
– Eu penso como Melânquico, o grande reformador do século XVI.
Ele tem uma fórmula e diz assim: “Unidade absoluta, naquilo que
é essencial, o amor, por exemplo. Liberdade absoluta em tudo que
é duvidoso e caridade em todas as coisas”. Acho que este é o
caminho do ecumenismo.
P: – O que
o senhor pensa de Chico Xavier?
R:
– Chico Xavier é um nome-legenda da Espiritualidade nacional e
mundial. Eu tive o privilégio de estar com ele duas vezes. Fui
fazer uma serie de conferencias, quando viajei do Rio a
Brasília. Viajei de carro e propus ao meu amigo levar-me até
Uberaba. Oramos juntos. Chico Xavier e Dom Helder Câmara são
pessoas que me fizeram muito bem pela prece em meu favor. Rogo a
Deus que este ícone da Espiritualidade, que o Mundo todo
respeita, tenha assim muitos, muitos e muitos privilégios desta
bênção inaudita de transbordar a espiritualidade como ela vem
fazendo pelo Santo Chico Xavier.
P: – Espaço
aberto para sua mensagem final.
R:
– Rogo a Deus que
haja uma nova consciência no ser humano e que é difícil abrir ao
espírito. Ele, como vento, sopra onde quer, já que aqui a vida é
um grande Pentecostes. Que Deus abençoe os irmãos e irmãs,
grandes e pequenas, que participam desta festa eucarística do
Programa Nova Consciência.
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