O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Pastor Prega o Espiritismo

Entrevistado:
Nehemias Marien

Fonte:
Tribuna Espírita
08/2000

ENTREVISTAS

          

Nehemias Marien é um pastor sensível, que transmite carisma e afirma ter mentalidade holística. Assume sua mediunidade, fala sobre as evidências da reencarnação em várias passagens bíblicas, e abre espaço para pregação da doutrina espírita em sua igreja. É que, para ele, “o Espiritismo é o mais caudaloso afluente do Cristianismo”, a Bíblia o mais antigo livro de psicografia e mediunidade e o Cristo o médium perfeito. Diz, também, que a mentalidade Kardecista todos nós a temos.

Marien demonstra grande respeito por Chico Xavier, com quem já esteve duas vezes, e por Dom Helder Câmara. Apesar de todos esses pontos de vista, com independência ideológica, ainda consegue o respeito de sua comunidade, onde é pastor da Igreja Presbiteriana Bethesda, em Copacabana, há 26 anos. É autor do livro “Transcendência e Espiritualidade” e uma das estrelas, com cadeira e público cativos, desde 1992, no Encontro para a Nova Consciência, que se realiza todos os anos no período carnavalesco em Campina Grande, PB. É nome conhecido nacionalmente, pois já participou do programa Jota Silvestre, respondendo sobre sagradas escrituras, dos quais é um profundo conhecedor.

P: – Pastor, qual é a sua Igreja e onde fica?
R: – Minha igreja é uma betel. Vamos dizer, na palavra hebraica, todo lugar onde o ser humano está presente em Deus, o eterno, na imensurável transcendência. Eu tenho até constrangimento de dizer qual é a igreja, porque minha igreja é você, é estarmos juntos, é a “ecclésia”, no pensamento de Jesus, lá na Cesaréia, quando pela primeira vez disse “eu vou edificar a Igreja”. É a vida, é o trabalho, é a família, é a caminhada. Quando as pessoas estão juntas, mesmo que não pensem da mesma maneira, é uma igreja, é uma comunidade holística. Sou de formação Calvinista, pastor presbiteriano, em Copacabana, Rio de Janeiro, há 43 anos, sem sair da igreja. Meus pais eram missionários em Mato Grosso, onde nasci. Morei na Inglaterra, na França e estou no Rio de Janeiro há 26 anos, pastoreando a Igreja Presbiteriana Bethesda.

P: – É verdade que senhor acredita em reencarnação?
R: – Muito grato pela pergunta. Olhe só. Até o ano 546, no Concilio de Calcedônia, o “Espiritismo” fazia parte dos cânones da Igreja. Depois, por discussões mais administrativas e menos teológicas, foi banido do cânone oficial e hoje é a doutrina espírita que tudo explica. Não é aceita pela maioria dos pressupostos evangélicos, porque é uma confusão chamar de evangélicos só os crentes entre aspas, não é? Evangélico é quem anuncia a Boa Nova. Então, eu sou professor de Teologia Bíblica e de Ciências Bíblicas. É meu livro de cabeceira. No estudo da Bíblia, as evidências da reencarnação são clamorosas e eu acho que o Espiritismo é a mais caudalosa vertente do Cristianismo, pelas suas idéias. Você encontra, tanto no Antigo como no novo Testamento evidências claras da reencarnação, isto é, do prosseguir da vida. Tanto Pedro, o pressuposto grande apóstolo Pedro, fala na sua segunda encíclica, no final da Bíblia, sobre a existência do espírito após a morte e nesta evolução do ser humano. E também São Judas, o apóstolo do Cristo, na sua epístola final, também fala sobre o mesmo tema. Então, sou uma pessoa estudiosa, aberta. Eu não tenho muros de espécie alguma. Eu tenho uma visão holística e aprendo muito com meus amados irmãos espíritas. Eu tenho um livro, Transcendência e Espiritualidade, onde abordo mais diretamente o assunto. Estou crescendo assim, nesta área e num certo diálogo. Tem algumas coisas que eu não entendo, pelos meus limites bíblicos e culturais, como também não entendo o próprio Cristo. Como vou compreender plenamente Kardec?

P: – O senhor já manifestou este ponto de vista reencarnacionista na sua igreja?
R: – Ah, sim, sim. A minha comunidade é uma igreja grande. Somos cerca de 350 congregados, tem cinco pastores, é um colegiado pastoral, além do livro. O livro é público, editado aí. Eu tenho participado de revistas. Por exemplo, no começo do ano a Revista Espírita Allan Kardec publicou uma síntese do pensamento meu, a respeito. A igreja ouve-me, aceita. Eu sou o pastor titular. Somos cinco pastores, mas estou ali, orientando a Igreja, neste sentido. Eu não tenho nada secreto na minha vida pastoral.

P: – Qual a receptividade do público de sua igreja, em relação ao seu conceito reencarnacionista?
R: – Bem, a igreja me aceita plenamente, mas eu tenho a impressão que não só sobre o meu aspecto filosófico, teológico, doutrinário sobre o Espiritismo, mas em outros também. Porque eu pessoalmente, Nehemias Marien, sou uma espécie de espinha de peixe na garganta de minha própria igreja, mas aceitam e vão atrás. Como diz o Mestre: “o pastor vai à frente do rebanho e o rebanho segue, porque conhece a voz do seu pastor”. Não segue em frente, mas segue a mim, mesmo que me engulam, vamos dizer assim, goela abaixo, por não entenderem bem minhas nuanças teológicas e espirituais, eles me aceitam. A gente vive num amor perfeito. Lá na minha igreja já pregou Libório Siqueira, que é desembargador e grande espírita, e o Gerson Azevedo, ex-presidente da Federação Espírita do Rio de Janeiro. Vários espíritas pregando na Igreja. Não vão lá visitar, não. É subindo ao púlpito. É um púlpito bonito, mais alto. Usam até toga e se não quiser usar fardamento, ficam como estão, elegantemente vestidos e pregam lá. Então é uma igreja aberta.

P: – Já que o senhor acredita na reencarnação, o que o faz continuar professando a teoria presbiteriana?
R: – Olha, eu estou presbiteriano. Eu até não gosto muito desta palavra presbiteriano porque Calvino, João Calvino, quem estruturou o pensamento teológico protestante, muito la na Idade Média. Mandou crucificar, crucificar na maneira de falar, mandou queimar vivo Serventus, um médico, porque discordava dele. Criou uma doutrina chamada doutrina da predestinação. Eu bato de frente contra isso. Agora eu estou lá porque acho que estamos num “pool” de idéias e a minha cabeça é holística. Assim, vamos dizer, Nehemias Marien, teológica e pastoralmente é um caleidoscópio. A beleza do caleidoscópio é exatamente é ter vidros quebradinhos, bonitos e funcionais, como figuras geométricas de grande dimensão espiritual.

P: – O senhor já estudou a doutrina espírita?
R: – Eu tenho o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo e vários livros de Allan Kardec.

P:  – E qual a sua opinião sobre a doutrina espírita?
R:  – Eu acho que o Espiritismo é o mais caudaloso afluente do Cristianismo. Considero a Bíblia como o mais antigo livro de psicografia e mediunidade. Eu acho que Jesus era o médium perfeito e que a mentalidade Kardecista todos nós a temos.

P: – Sobre a mediunidade, Pastor, o que o senhor diz?
R: – Olha, nós todos somos médiuns. Queremos ou não. É uma questão de reconhecer, constatar e disciplinadamente desenvolver. Agora, há muitos preconceitos. Nossa cabeça é cheia de preconceitos, conceitos não, mas preconceitos temos demais. Então, eu penso o seguinte: eu, a respeito da mediunidade... até agora estou sentindo... (emociona-se). Eu penso que o verdadeiro servo de Deus é um médium. Ele não fala de si. Vamos dizer, entre aspas, traduzindo sentimentos, é uma incorporação espiritual. Ele não é dono dele, é um veículo, um canal. O importante é a mensagem que transmite.

P: – E quanto à comunicabilidade com os espíritos, o que o senhor diz?
R: – É isso que eu estava tentando passar. Eu tenho, até não entendo bem este espírito meu, mas eu tenho a impressão que é uma índia. Nhambiquara, mãe de minha mãe, minha avó Joana. Eu sinto assim, uma certa colocação, uma certa energia dela para mim. Todas as vezes que eu abro o texto sagrado, para as homilias, as pregações, os sermões, sinto que estou fora de mim. Eu admito esta transcendência da espiritualidade, esta invasão do céu no coração humano, através da mediunidade.

P: – Como o senhor encara os sucessivos ataques ao Espiritismo?
R: – Bem, como eu diria, nossos amados irmãos são aliados. Estamos todos no mesmo barco, mas eles fazem parte da artilharia. O artilheiro é o soldado que vem lá atrás. A infantaria somos nós, a doutrina espírita, aqueles que vão lá para frente. A artilharia, ao abrir espaço à frente, soltam as bombas, mas são muito ruins de cálculos matemáticos, erram e acabam dizimando os próprios aliados. É o que acontece, criticando o Espiritismo, que está na mesma dimensão espiritual. Eu os chamo, vamos dizer assim, de “bonsais” espirituais, aquela plantinha que não cresce. Lá em Tóquio vi todo um horto só de “bonsais”, bonitos, mas não se desenvolveram espiritualmente. Esses que atacam nossos irmãos espíritas e outras tradições, com as quais não concordam, são uma espécie de pitimbus. Eu acho que os ventos contrários firmam raízes de árvore e o avião sobe mais alto. Acho que é mesmo burilando um diamante, que vira brilhante.

P: – Na sua opinião, qual seria o caminho mais eficiente para a Humanidade seguir em direção ao Ecumenismo?
R: – Eu penso como Melânquico, o grande reformador do século XVI. Ele tem uma fórmula e diz assim: “Unidade absoluta, naquilo que é essencial, o amor, por exemplo. Liberdade absoluta em tudo que é duvidoso e caridade em todas as coisas”. Acho que este é o caminho do ecumenismo.

P: – O que o senhor pensa de Chico Xavier?
R: – Chico Xavier é um nome-legenda da Espiritualidade nacional e mundial. Eu tive o privilégio de estar com ele duas vezes. Fui fazer uma serie de conferencias, quando viajei do Rio a Brasília. Viajei de carro e propus ao meu amigo levar-me até Uberaba. Oramos juntos. Chico Xavier e Dom Helder Câmara são pessoas que me fizeram muito bem pela prece em meu favor. Rogo a Deus que este ícone da Espiritualidade, que o Mundo todo respeita, tenha assim muitos, muitos e muitos privilégios desta bênção inaudita de transbordar a espiritualidade como ela vem fazendo pelo Santo Chico Xavier.

P: – Espaço aberto para sua mensagem final.
R: – Rogo a Deus que haja uma nova consciência no ser humano e que é difícil abrir ao espírito. Ele, como vento, sopra onde quer, já que aqui a vida é um grande Pentecostes. Que Deus abençoe os irmãos e irmãs, grandes e pequenas, que participam desta festa eucarística do Programa Nova Consciência.