|
Em 1968 a “Revue
Spirite”, fundada por Allan Kardec em 1858, passa a ser
propriedade pessoal de Hubert Forestier, que a registrou no
Instituto Nacional de Proteção Industrial. Com a desencarnação
de Forestier, em 1971, os herdeiros transferem os direitos para
André Dumas, então redator da revista, pelo valor simbólico de
um franco. Em dezembro de 1976, Dumas anuncia o abandono do
título da revista e a incorpora numa publicação nova, não
espírita, “Renaitre 2000”. A União Espírita Francesa e
Francophone, fundada em 1985 por Roger Perez, finalmente, em
1989, obtém, após uma batalha judicial que durou dois anos, os
direitos sobre o título “Revue Spirite” e, após 12 anos de
interrupção, começa a circular no 4º. Trimestre de 1989 o
histórico n. 1, ano 132.
*
Anita
Becquerel, 54 anos, nascida na cidade do Rio de Janeiro,
RJ, engenheira, assistente de pesquisa no Laboratório de
Pesquisa e Urbanismo na Universidade de Paris – Val de Marne, em
Paris, na França, é membro da comissão de redação de “Revue
Spirite”, fundada em 1858 por Allan Kardec, Presidente da
Associação Parisiense de Estudos Espíritas e Coordenadora do
Departamento de Pesquisa e Estudos da União Espírita Francesa e
Francophone.
O seu projeto
inicial era ir para os Estados Unidos, mas houve mudança no
Núcleo de Pesquisa da Universidade da Bahia e foi encaminhada
para fazer o doutorado e Urbanismo na França. Não chegou a
terminar o doutorado, casou-se com um francês que em 96 veio a
desencarnar e em conseqüência desse matrimonio, possui cidadania
francesa. Hoje, vive na França há 11 anos, juntamente com seus
dois filhos.
Realizamos esta
entrevista com Anita, em São Paulo, por ocasião da sua
participação no encontro promovido pela ADELER – Associação das
Editoras, Distribuidoras e Divulgadores do Livro Espírita, na
sede da distribuidora da USE-SP – União das Sociedades Espíritas
do Estado de São Paulo, acontecido no dia 22 de julho de 2000,
com a participação de representantes de editoras e
distribuidoras integrantes da ADELER e representantes de
instituições espíritas.
P: – Como
vão as religiões na França?
R:
– A igreja católica anda vazia, mas está havendo um movimento de
retorno dos mais idosos. Dos 60 milhões de habitantes na França,
5 milhões são muçulmanos, com forte influência das colônias
francesas do norte da África. O Budismo tibetano também possui
um segmento forte e assenta bem com o pensamento francês. Há,
também, movimentos sectários de seitas e esotéricos que realizam
curas espirituais, além do chamado “New Age”.
P: – E o
Espiritismo como vai?
R:
– Somos mais ou menos 50 espíritas, participantes ativos, nos 18
centros espíritas existentes na França e há mais 3 ou 4 centros
que estão ainda em vias de formação. Em 1990 havia 6 ou 7
centros espíritas, portanto, em 10 anos os centros triplicaram.
No início os centros eram mais fechados; hoje estão mais
voltados para o atendimento do público. Há muitos médiuns
videntes esotéricos que cobram consultas e a nossa preocupação é
separar o Espiritismo de tudo isso. Também, quando falamos de
Jesus, logo as pessoas nos associam com a igreja católica e,
ainda, lutamos contra o entendimento de que fazer Espiritismo é
contatar os mortos para as consultas pessoais e materiais.
Estamos realizando campanhas de divulgação do Espiritismo e do
que é o Espiritismo, campanhas essas que tem o respaldo do CEI –
Conselho Espírita Internacional do qual a França faz parte.
Estamos realizando, também, uma campanha de divulgação do
Evangelho no Lar.
A colaboração de
brasileiros em Congressos e palestras, como o Divaldo Pereira
Franco, Marlene Nobre, Nestor Masotti, Miguel de Jesus Sardano e
tantos outros, tem sido de uma importante contribuição para a
difusão do Espiritismo na França e na Europa.
P: – Quais
são as atividades dos centros espíritas na França?
R:
– A maioria dos
centros espíritas realiza reuniões públicas com palestras,
passes e água fluidificada e reunião mediúnica de assistência
espiritual. Na Associação Parisiense de Estudos Espíritas, na
qual sou a Presidente, realizamos às 6ª. Feiras à noite,
reuniões públicas com palestras, prece, leitura do Evangelho,
passe e água fluidificada, além do atendimento fraterno.
Freqüentam 60/70 pessoas as reuniões, sendo que 60 a 70 por
cento são franceses, 20 a 25 por cento brasileiros e o restante
são portugueses, muçulmanos, judeus, vietnamitas e há uma
libanesa.
Às 2ª.s feiras,
também, no período noturno, temos a reunião do estudo metódico
da Doutrina, baseado nas apostilas da FEB – Federação Espírita
Brasileira, traduzidas para o francês. Às 3ª.s Feiras,
realizamos reunião mediúnica de desobsessão, a cada 25 dias.
P: – Tem
trabalho com os jovens?
R:
– Sim. Há um ano e meio iniciamos um trabalho com jovens e
percebemos que alguns vinham com experiências esotéricas e
“satânicas”, como são denominadas na França, e formamos um grupo
de estudos para responder os questionamentos deles e assim
outros jovens foram comparecendo. Hoje, estudam na nossa
instituição 12 jovens, de 18 a 26 anos, pois na legislação
francesa, até essa idade são considerados jovens.
P: – Se o
Espiritismo surgiu na França, porque não expandiu?
R:
– Para falar do Espiritismo na França faz-se necessário
retroagir um pouco no tempo, o qual floresceu no início do
século XX, quando multidões se reuniam nas salas de Paris para
ouvir Conan Doyle, Léon Denis, Gabriel Delanne e tantos outros.
A 1ª. Grande Guerra deixou seqüelas nos corações dos familiares
que perderam entes queridos na guerra e essa dor fez com que
muitos buscassem no Espiritismo um meio de comunicação com os
parentes desencarnados, ao invés de buscar o caráter renovador
da Doutrina. Os anos 20 foram difíceis para a Doutrina Espírita
na França porque desencarnaram os mestres Léon Denis, Camille
Flammarion, Sir William Barrett, na Inglaterra, Gabriel Delanne,
Alfred Benézech, este último, escritor espírita de renome e
companheiro de Léon Denis e alguns outros. Depois, a França em
1939 se acha implicada na 2ª. Grande Guerra com a ocupação do
norte pelos alemães até 46, quando foi assinado o acordo de paz.
Depois disso, por 30 anos, a França conquistou um grande
progresso material, com pleno emprego, avanço sem par na
instrução escolar, etc., e isso fez com que a população não se
interessasse na busca do transcendente e do divino.
P: – E a
“Revue Spirite”, nessa época, continuou circulando?
R:
– Sim, mas o movimento espírita francês, com a desencarnação dos
membros de peso e com o progresso pós-guerra, tornou-se uma
sombra muito pálida, quase invisível, do que fora, e justamente
nessa época, também, a revista sofreu desvios doutrinários no
seu conteúdo e deixou de ser um patrimônio dos espíritas e
passou a ser patrimônio pessoal de Hubert Forestier, presidente
da então União Espírita Francesa, registrado em nome pessoal no
Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI.
Após a
desencarnação de Hubert Forestier, em 1971, a revista teve como
redator-chefe André Dumas e este é eleito, no ano seguinte,
Secretário Geral da UEF – União Espírita Francesa, fundada por
Gabriel Delanne em 1883. Os herdeiros de Forestier cedem os
direitos de publicação da “Revue Spirite”, nos termos de um
“testamento espiritual” do desencarnado Forestier e aquisição
por André Dumas pelo valor simbólico de um franco.
A União Espírita
Francesa deixa de existir em abril de 1976 para dar lugar a
“Union Scientifique Francophone pour L´Investigation Psychique
et L´Etude de la Survivance de l´Ame”, uma associação não
espírita. E com isso, a revista deixou de existir e integrou uma
nova publicação, não espírita, “Renaitre 2000”, também de
propriedade de André Dumas.
P: – E como
a Revista Espírita passou a pertencer à atual entidade União
Espírita Francesa e Francophone?
R:
– Primeiro devo dizer que essa entidade foi criada em 1985 por
Roger Perez e outros companheiros de fé e de raça, a “Union
Spirite Française et Francophone”, com sede em Tours. Com a
independência das colônias francesas do norte da África, muitos
franceses retornaram à pátria materna e entre eles alguns
espíritas que freqüentavam centros espíritas nessas colônias,
onde um intenso trabalho mediúnico e de ajuda era realizado,
principalmente por aqueles oriundos do centro espírita de
Casablanca que estudavam a codificação de Kardec. Entre eles se
destaca a figura ativa de Roger Perez que procurou num primeiro
momento reunir os espíritas franceses espalhados pelo país. Foi
então que Claudia Bonmartin, brasileira radicada em Paris, que
mantinha já à época um centro espírita, respondeu ao apelo.
Foi aí que a União
Espírita Francesa e Francophone, numa batalha judicial que durou
dois anos, em 1989, obteve em sentença judicial a recuperação do
direito de utilização do título “Revue Spirite”, por não ter
André Dumas renovado os direitos de propriedade do título da
revista, em tempo hábil.
Depois de 12 anos
de interrupção, finalmente, como a fênix que renasce de suas
próprias cinzas, “Revue Spirite” ressurge no 4º. Trimestre de
1989, sob o número 1, ano 132, representando uma nova era para o
Espiritismo na França.
P: – Qual é
a tiragem atual da revista?
R:
– Imprimimos 600 exemplares e temos 250 assinantes. Quando ela
ressurgiu, na cidade de Paris, com 10 milhões de habitantes,
foram conseguidos 5 assinantes. Hoje estamos com 250 assinantes.
P: – Há
projeto da revista para ser editada em português?
R:
– Sim, não só em português, mas em outros idiomas. Numa primeira
fase pretendemos vertê-la para os idiomas português, inglês e
espanhol e numa segunda fase para o esperanto, russo, alemão e
outros idiomas. Esse trabalho será realizado em parceria com o
CEI, que congrega o movimento espírita internacional e poderá
garantir a perenidade da revista que é um patrimônio legado por
Kardec a todos os espíritas do mundo.
P: – Suas
considerações finais.
R:
– Agradeço a
Revista Internacional de Espiritismo e a todos pela
receptividade que tive no Brasil, que me trataram como uma filha
pródiga que retornou à casa.
Gostaria que todos
me olhassem, não como uma pessoa importante, mas como uma irmã
que foi designada para exercer em outro país uma tarefa e está
tentando exercê-la com muito esforço, mas com as naturais
limitações, tentando levar o Consolador Prometido aos corações
sofridos do território francês, que só as mensagens de Jesus e
da Doutrina Espírita podem aliviar. Por fim, em nome do
presidente da União Espírita Francesa e Francophone, Roger
Perez, agradeço a RIE a oportunidade de relatar sobre o
Espiritismo na França.
|