O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Administração e Paradigma

Entrevistado:
Edinólia Pinto Peixinho

Fonte:
RIE
Abril de 2002
 

ENTREVISTAS

          

Depois de 82 anos de liderança masculina na FEEB – Federação Espírita do Estado da Bahia foi eleita presidente da diretoria executiva e procurou implementar uma forma de administração “centrada na pessoa”, alertando para uma revisão do paradigma vigente, no sentido de que cada componente do grupo de trabalho se conscientizasse do seu papel como espírito em evolução, para não se perder na questão do “fazer”, mas realizando-se na busca do Ser.

Edinólia Pinto Peixinho, 52 anos, Pedagoga, Orientadora Educacional, natural de Consanção, Estado da Bahia, atual presidente da Federação Espírita do Estado da Bahia.

Iniciou as atividades espíritas nos anos 70, participando do grupo da Juventude Espírita Serrinhense, no interior do Estado. Aos 25 anos exerceu a função de Vice-presidente do Centro Espírita “Deus, Cristo e Caridade”, na cidade de Serrinha, durante duas gestões.

Mais tarde, em Salvador, trabalhou durante 15 anos como evangelizadora de infância no Centro Espírita “Caminho da Redenção” e por 6 anos foi diretora do Departamento de Infância e Juventude da FEEB – Federação Espírita do Estado da Bahia, acumulando as atividades; passou três anos na secretaria da FEEB e depois mãos 3 anos como Presidenta. Foi reeleita para a gestão 2000-2003.

 

P: – Quando e como a Federação foi fundada e quais as suas atividades?
R: – O Movimento de Unificação da Bahia nasceu em 1915 por iniciativa de José Petitinga que fundou a União Espírita Baiana – UEB. Com o advento do Pacto Áureo, em 1949, e a visita da “Caravana da Fraternidade”, foi fundada pelos dirigentes da União e Centros Espíritas de Salvador a União Social Espírita da Bahia (USEB) que tinha trabalhos exclusivamente federativos.

Um acordo institucional em 1972 fundiu a UEB e a USEB em um novo organismo que é a atual Federação Espírita do Estado da Bahia.

Suas atividades se dividem em dois núcleos: a “Casa de Petitinga”, no centro histórico da cidade onde funcionam as antigas atividades do Centro Espírita da União Espírita Baiana, e a FEEB – Iguatemi, onde se desenvolvem periodicamente as chamadas atividades federativas sob a forma de treinamentos, seminários, encontros de dirigentes, etc.

Neste ano, já realizamos a XX Confraternização de Juventudes Espíritas da Bahia, em Itabuna, com cerca de 1000 participantes e a Conferência Espírita Brasil Portugal.

P: – Tem encontrado problemas ou barreiras no exercício de sua função, pelo fato de ser uma líder espírita mulher? Quais?
R: – Levantando a bandeira do “Amai-vos” e “Instruí-vos”, conseguimos sensibilizar os companheiros para a prática mais acentuada de vivência evangélica, convidando-os à reflexão do que temos feito em coerência com o que já adquirimos em nível intelectual.

Assim, embora os desafios existam, o esforço empregado no exercício das empresas da amorosidade, acredito, tenha minimizado as barreiras de denominação masculina. Não tenho detectado nenhum sinal de resistência pelo fato de ser mulher. Os desafios do trabalho são mais vinculados à dificuldade de uma “visão sistemática” do processo federativo.

P: – Como é a convivência das religiões afro-brasileiras, de forte influência na sociedade baiana e a Doutrina Espírita? Poder-se-ia dizer que as religiões afro-brasileiras, mais notadamente a Umbanda, estariam se aproximando do Espiritismo?
R: – Na Bahia, do ponto de vista da convivência, há sempre algumas facilidades decorrentes da antropologia do seu povo. Não há aproximação entre as religiões Afro-Brasileiras e o Espiritismo, pois as práticas são muito diferentes. Entretanto, a convivência é fraterna, como se pode verificar nos convites trocados para atos ecumênicos.

Em alguns centros (não adesos à FEEB) se verificam práticas sincretistas, o que compreendemos, dentro do exercício da liberdade e respeito que devemos ter pelo outro.

P: – Como vai o trabalho de Unificação no seu Estado?
R: – O trabalho de unificação é progressivo e talvez lento em relação aos nossos anseios. Entretanto, podemos contabilizar vários sucessos na agregação da família espírita baiana, como a maciça participação de dirigentes e trabalhadores espíritas na definição das diretrizes do trabalho federativo, a capacidade de integração dos Congressos Estaduais em 2002 (já vamos realizar o XI), a mobilização provocada pelos encontros macro-regionais, agregando lideranças de regiões distantes do interior da Bahia e o trabalho departamental na área mediúnica, infanto-juvenil, divulgação doutrinária, estudo sistematizado, arte espírita, que também tem permitido esta aproximação.

Mais importante, entretanto, é o emprego do fazer administração em que a pessoa e o seu desenvolvimento espiritual e afetivo estão em primeiro lugar. Tem sido gratificante verificar o decréscimo das resistências ao modelo federativo, pela atuação persistente através de laços de fraternidade.

P: – Quantos Centros Espíritas existem no Estado e quantos são unidos ou filiados à FEEB?
R: - Temos cadastrados: centros filiados – 218 e centros não filiados – 275. Total de 493.

Importante ressaltar que os não adesos, reconhecidamente com atividades espíritas, também são convidados e comparecem aos nossos encontros.

P: – Quais são os problemas e dificuldades encontrados no movimento espírita que devem se r observados pelos líderes espíritas e que devam ser sanados?
R: - Acreditamos que as dificuldades do movimento espírita são fruto das nossas próprias limitações. Podem ser sanadas fazendo-se o diagnóstico do movimento e assumindo a responsabilidade que é nossa.

Seria importante perguntarmos: O que há em nós, que só conseguimos fazer este movimento? Vamos refletir.

P: – Como a FEEB conseguiu construir a nova sede? Possui editora, distribuidora, clube do livro ou outras atividades comerciais?
R: - A sede foi construída graças a abnegação de diferentes companheiros utilizando-se de recursos doados e campanhas. A FEEB possui duas livrarias e distribuidoras de livros como atividades comerciais.

P: – Há alguma atividade interna da FEEB, além da federativa? Há posicionamento no movimento espírita de que a federativa deve ser meramente uma entidade coordenadora do movimento espírita e que não deve ter atividades que são atribuições dos Centros Espíritas. O que você pensa sobre esse aspecto de uma federativa?
R: - Já foi dito que temos atividades de Centro Espírita na sede antiga da Federação. Também na sede nova existem algumas atividades como a Assistencial, em função de uma necessidade circunstancial relativa a região em que estamos inseridos, com uma favela bem próxima.

Ainda não há um posicionamento efetivo quanto existir outras atividades neste novo espaço. Pessoalmente sou favorável em que a Federação seja o espaço dos Centros Espíritas. Entretanto, a experiência anterior, em outro momento histórico, não foi favorável. Estamos atualmente levantando esta questão para decidirmos pela identidade da sede nova desta Federação.

P: – Quais foram os pontos altos da Conferencia Espírita Brasil-Portugal, recentemente realizada em Salvador, nos dias 16 a 19 de março, realizada sob a responsabilidade da FEEB?
R: – A convivência fraterna entre povos, o nível de organização, a qualidade das conferências em presença espiritual e participação do movimento espírita internacional.

P: - Há algum outro evento de repercussão estadual ou nacional programada?
R: - Em julho realizaremos eventos macro-regionais de trabalhadores espíritas em 7 cidades-pólo e em dezembro faremos o Encontro Estadual de Espiritismo.

P: – Suas considerações finais.
R: - Há uma expectativa de crescimento cada vez mais abrangente na divulgação da Doutrina Espírita, apontando para sua prática, minimizando deste modo as dificuldades nossas em relação ao movimento espírita. No limiar do terceiro milênio, há de se avaliar paradigma cartesiano para que possamos conseguir dar passos largos no sentido evolutivo.