O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Pedagogia Espírita na Universidade

Entrevistado:
Dora Incontri

Fonte:
RIE
Maio de 1999
 

ENTREVISTAS

          

A convivência com Herculano Pires e a leitura constante de suas obras, despertaram-na para a idéia da Pedagogia Espírita. Foi, ainda, ao influxo de Herculano que enveredou por uma visão critica do movimento espírita, procurando sempre manter fidelidade ao pensamento de Kardec. Estudando na Europa teve acesso a um dos maiores pedagogos de todos os tempos, Pestalozzi, não por acaso, mestre de Kardec.

De profissão jornalista, escritora de nascença, educadora por vocação, mestre e doutorada em Educação pela USP, Dora Incontri está fazendo tese sobre Pedagogia espírita. Espírita desde criança, de família, médium psicografa desde os 11 e de psicofonia desde os 15. É poeta nas horas vagas.

Obras já publicadas:
-  Chamas de Paz – Poesias minhas, 1982.
- Imortais da Poesia – Poesias psicografadas, 1983 – Correio Fraterno.
- Educação da Nova Era – Ensaio, 1984, reedição revisada e rescrita, 1998, Editora Comenius.
- Estação Terra – comunicação no Tempo e no Espaço – Paradidático, 1991, Editora Moderna.
- Pestalozzi, Educação e Érica, 1996, Editora Scipione.
- A Educação segundo o Espiritismo, 1997, Edições Feesp.
- Textos Pedagógicos – Tradução de textos inéditos de Kardec, em português, 1997, Editora Comenius.
- Conforto Espírita – Mensagens Psicografadas 1997, IDEBA.
- Francisco, o pobre rico de Assis – Infantil, 1998, Editora Comenius.

P: – O seu envolvimento com a Educação teve a influência de Herculano Pires? Você o conheceu?
R: – O envolvimento com a Educação teve várias origens: a primeira, provavelmente reencarnatória, deve ser um assunto com que já mexi em outras vidas, mas, agora, tive influência de minha mãe, a quem acompanhava desde pequena em seu trabalho pedagógico numa favela de São Paulo. Foi também minha mãe que me deu uma educação libertária, diferente, com ampla liberdade de expressão e igualdade de relações na família. Depois, a convivência, desde 2 anos de idade com Herculano Pires e a leitura constante de suas obras, despertaram-me para a idéia da Pedagogia Espírita. As estadias de vários anos na Alemanha também foram determinantes. Lá, tive a oportunidade de estudar nas 5ª. E 6ª. Série e depois no 1º. Ano do ensino médio, em escolas avançadas pedagogicamente, o que me sensibilizou para a necessidade de uma mudança radical na Pedagogia. O aprendizado da língua alemã, além do francês, inglês, italiano, foi providencial, pois me abriu o acesso para um dos maiores pedagogos de todos os tempos, Pestalozzi, não por acaso, mestre de Kardec e inspiração de meus trabalhos atuais.

Herculano Pires exerceu influência decisiva em minha vida, não só pela afinidade afetiva que sempre tivemos, mas pelas idéias espíritas e filosóficas. Foi ao seu influxo que enveredei por uma visão crítica do movimento espírita, procurando sempre manter fidelidade ao pensamento de Kardec. Também a proposta em que estamos trabalhando no Instituto Espírita de Estudo Pedagógico e na Editora Comenius tem inspiração em Herculano, pois trata-se de resgatar o Espiritismo em seu aspecto cultural e pedagógico.

P: – O que é Educação Espírita? Por que Pedagogia Espírita?
R: – A resposta a essa pergunta cabe em livros e cursos inteiros. Mas tentando resumir algumas idéias, posso dizer que a Educação Espírita deve ser uma nova forma de educar o homem, encarando-o como um ser reencarnado, herdeiro de si mesmo, um ser integral e divino, pleno de potencialidades. Essa educação não pode ser coercitiva, modeladora, impositiva de fora para dentro, mas promover um despertar do Espírito, para que ele construa a si mesmo, num processo de auto-educação permanente. A Pedagogia Espírita é a formulação teórica e a aplicação prática desta Educação. É a disciplina que estuda e orienta um processo educacional que leve em conta os dados fornecidos pela Doutrina Espírita.

É bom frisar que a Educação Espírita, como desenvolvi no meu livro “A Educação segundo o Espiritismo” não é mera catequese de Espiritismo. Aliás, pode-se praticar esta Educação com alunos espíritas e não-Espíritas, pois trata-se de uma postura pedagógica e não de uma doutrinação. O ensino do conteúdo espírita deve ser feito para aqueles que assim o desejarem, porque já dizia Kardec devemos respeitar a liberdade de consciência e o Espiritismo não faz proselitismo.

P: – Como se pode levar a Pedagogia Espírita às Universidades? Conte-nos a sua experiência profissional no campo da Educação.
R: – Em parte, já estou realizando este trabalho, com minha tese na USP (Universidade de São Paulo), cujo título é “A Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes históricas”. Mas também como atual coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade Ítalo-Brasileira, estou praticando – sem fazer proselitismo – uma pedagogia espírita. Acho que mais à frente poderemos estabelecer em várias faculdades – e já tenho propostas neste sentido – cursos de extensão universitária e pós-graduação, que constituam uma especialização na área da Pedagogia Espírita.

P: – Qual é a proposta do Instituto Espírita de Estudos Pedagógicos, do qual você é uma das fundadoras e coordenadoras?
R: – A proposta é justamente pesquisar, debater e propagar a idéia da Pedagogia Espírita, congregando pedagogos, pesquisadores, interessados em geral, espíritas ou não-espíritas. Promovemos cursos, grupos de estudos e também estamos começando a atuar na prática, em trabalhos experimentais, como o projeto FEPASA, num bairro carente em Jundiaí. Outra proposta nossa em andamento é a formulação de um grande projeto pedagógico chamado Colônia Pestalozzi.

P: – Poderia adiantar para os leitores sobre este projeto?
R: - Pouco, para não perdermos a impacto da surpresa e porque ainda estamos no meio da discussão. Posso dizer que se trata de um projeto ousado, com escola para crianças, adolescentes e um curso superior de Educação. Temos um grupo com cerca de 30 pessoas, de diversas profissões e estamos formulando minuciosamente o projeto desde setembro de 98. Deve ficar pronto nos próximos meses. Queremos fazer algo com bastante planejamento e consistência, pois já passou a época dos projetos nascidos ao acaso, sem previsão ou fundamento.

P: - Considerando que o Espiritismo desemboca no social, devem as sociedades espíritas incentivar, apoiar e participar de eventos promovidos por políticos, por exemplo, a instituição e posterior comemoração do Dia dos Espíritos, do Dia de Allan Kardec, etc.?
R: - O Espírita deve atuar espiritamente no lar, na escola, no trabalho, sem necessidade de fazer proselitismo. Todos deveriam perceber à sua volta a qualidade ética e cultural de suas produções individuais e coletivas, o que indicaria claramente a influência do Espiritismo. Mas é preciso tomar certo cuidado em relação a eventos promovidos por políticos para que o centro ou a instituição espírita não se tornem joguetes de manipulação na busca desenfreada de votos. Infelizmente, ainda no plano político, as boas intenções aparecem muito obscurecidas por interesses escusos e ambições pessoais. Não podemos cair na armadilha em que caem certas denominações religiosas, de angarias partidários e votos através das próprias instituições. A política, como ramos do conhecimento humano, pode e deve ser discutida nas instituições espíritas. Mas as instituições devem ficar acima da politicagem, dos jogos partidários e das disputas mesquinhas de poder.