O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Entrevista com Divaldo Pereira Franco

Entrevistado:
Divaldo Pereira Franco
Médium, conferencista e escritor espírita

Fonte:
Revista Espírita Allan Kardec

ENTREVISTAS

       

P: O Gênesis, na Bíblia, diz: O Homem foi feito à imagem de Deus.  Como entender esse aforismo?
R: Primeiro, devemos considerar a linguagem bíblica, como de natureza figurativa.  Ademais, as revelações orais, passando de boca-a-boca através dos milênios, foram adaptadas ao pensamento de todos que as transmitiram e, no processo de traduções de um para outro dialeto, ou outra língua, sofreram alterações de profundidade no conteúdo como na forma.  Assim mesmo, podemos examinar a questão, considerando-se Deus, não como um ser antropomórfico, como é apresentado, ao sabor das religiões dogmáticas, porém, como a “Inteligência Suprema e Causa Primária de todas as coisas”, conforme conceituação dos Espíritos.

Assim, o Homem, sendo Espírito, foi “feito à imagem de Deus” e a Ele é semelhante.  Não é, portanto, na forma que a criatura se identifica com o seu criador, mas na essência.

P: Se o Homem foi feito à imagem de Deus, porque ele comete erros, possui defeitos, procurando mais a “porta larga” dos prazeres, à “porta estreita” dos valores espirituais?
R: Ainda aí, observemos o que disseram os Mentores da Humanidade, a respeito dos Espíritos, “que são o principio inteligente do Universo” e são criados “simples e ignorantes”.

O que chamamos erros, são experiências negativas, que ensinam a corrigir a ótica dos interesses e buscar os valores que não proporcionem aflição nem dor.  São, portanto, maneiras de adquirirem experiência e sabedoria, desenvolvendo os germes divinos neles latentes.  O que se considera defeito, é ausência de perfeição que, não obstante, está ínsita, embrionária em todos os seres do Universo, que a buscam e a lograrão, relativa, conforme a promessa de Jesus.  Somente quando a criatura desperta para as realidades transcendentes, no seu processo de conquistas interiores, é que os valores espirituais passam a ter significado, quando sai da sensação para a emoção e dessa para a intuição.  Processo lento, porém, alcançável desde que se empenhe por conseguí-la.

P: No grau evolutivo em que nos encontramos, qual é a melhor imagem que podemos fazer de Deus?
R: É muito difícil limitar o ilimitado, entender o Absoluto.  Buda ensinava que somente Deus, o Infinito e o Espaço, podem entender o Espaço, o Infinito e Deus... Kardec, na definição a que nos referimos acima apresenta-nos uma definição, que não limita.  A melhor maneira de entender a imagem de Deus, é a conceituada pelos Espíritos, conforme citada.

P: A Teologia de várias religiões, com denominações diferentes, nos fala sobre o dogma da Santíssima Trindade.  Como o Espiritismo vê esse dogma?
R: Historicamente, segundo os melhores pesquisadores teológicos, ele tem origem na Trindade da Índia ou na concepção caldáica da própria Divindade.  De origem humana, o conceito caduca por falta de sustentação intrínseca.

O próprio Jesus demonstrou não ser Deus, sempre que afirmou: “Filho do Homem, vou para o meu Pai” ou quando se refere “fazer a vontade do Pai” ou “voltar para o Pai”... Sucessivamente: e “ninguém vai ao Pai senão por mim”.  Não há alicerce científico, senão crença cega para adotar-se o dogma a Santíssima Trindade.

P: O Espírito de Jesus alcançou a Sua evolução, sujeitando-se às mesmas Leis a que se sujeitaram os demais Espíritos?  Há espiritualistas que afirmam que Jesus evoluiu em linha reta. Como entender essa afirmativa?
R: Estudar Jesus e Sua personalidade para defini-los em breves linhas parece-me uma ousadia sem limite a que não me atrevo.  Podemos, no entanto, apresentar algumas considerações, dentro do espírito de liberdade de pensar, defendido pelo Codificador em “O Livro dos Espíritos” como em toda a Obra Espírita.

Acredito que todos os Espíritos foram criados em igualdade de condições, convidados a crescer de forma equivalente.  Se Jesus evoluiu em linha reta é porque, certamente, as Suas foram sempre opções corretas, não necessitando  de re-aprender, reparar ou reencarnar, pelo menos, na Terra.

Acredito que Ele é o Guia Espiritual do Planeta como bem acentua Leon Denis e confesso que, para mim, a Sua foi uma evolução em outra Esfera que me escapa, porquanto, Ele o disse, e aceito-o sem discussão:  “E antes que vós fosseis, Eu já era.”  O certo é que, ao vir ter conosco, no mundo, Ele já sintetizava a perfeição relativa que nos é dado contemplar, sendo, por isso mesmo, o Espírito mais perfeito que Deus ofereceu aos homens para servir-lhes de modelo e guia, conforme questão 625, de O Livro dos Espíritos.

P: Por que o enorme contingente de pessoas que não aceitam a existência de Deus?  Essa aceitação virá através das conquistas da Ciência ou da evolução do sentimento?
R: Se considerarmos as propostas teológicas do passado, o Deus que nos era apresentado, não resistia á mínima investigação da lógica nem da cultura de cada época.  Para o período medieval Ele representava o absolutismo do poder dominante na ocasião, e assim, sucessivamente.

Hoje, diante da Física Quântica, da Biologia Molecular, da Astrofísica e de outras Ciências que devassam o macro e o microcosmo, a existência de Deus sai dos limites religiosos para os arquipélagos universais.

David Bhom, o grande físico quântico, dizia: “Acredito em uma Ordem Intrínseca, que gerou a ordem Extrínseca”.  Interrogado que teria feito a Ordem Intrínseca, redargüiu: “Uma Ordem Super Intrínseca”... e assim por diante.  Einstein afirmava: “... há no Universo um Poder Pensante e Atuante que independe dele”.  Logo, as pessoas que negam a Sua existência apenas reagem contra a apresentação tradicional, qual ocorreu com Voltaire, ao declarar, na Loja Maçônica Nove Irmãs, em Paris, ao receber o Grau 33: “Eu não creio no Deus que os homens fizeram, mas creio no Deus que fez os homens”, o que é bem diferente porque os homens O fizeram à própria imagem e semelhança...

Acredito que a evolução – sabedoria será o resultado do conhecimento conjugado com o sentimento. Naquele momento, os que relutam em aceitar-Lhe a existência, curvar-se-ão nobremente ante ela e a adotarão.

P: Em que ponto as religiões tradicionais falharam ao tentar provar-lhes esta existência?
R: Na petulância dos homens que se consideravam únicos em revelar-lhe a Realidade, qual ocorre hoje em muitos outros arraiais, nos quais predominam aqueles que se acreditam “donos da verdade”, da sua verdade que, no entanto, não os torna melhores, nem mais honrados.

Parece-me que as religiões tradicionais se equivocaram em tentarem submeter os códigos divinos às suas paixões devido aos homens que nelas se movimentavam, grande número, dos quais, hoje reencarnados, parecem querer repetir os mesmos erros em outras Doutrinas nobres, que suas condutas irregulares salpicam de sombras...