O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Espiritismo na Europa

Entrevistado:
Suzana Maia

Fonte:
RIE
Julho de 2001
 

ENTREVISTAS

          

Espírita há quase 30 anos e com experiência profissional na área internacional, nossa entrevistada relata as atividades espíritas na Suíça e Europa. Entre elas o desafio de lançar um boletim num país que usa quatro línguas oficiais. Com destaque para o pioneirismo da Senhora Terezinha Rey, que fundou o primeiro grupo espírita na Suíça contemporânea, os leitores encontrarão farto material no texto da entrevista concedida à RIE.

A influência de brasileiros no movimento espírita em outros continentes tem sido expressiva. Levando a experiência vivenciada no Brasil, Suzana Maia fundou em 1991 a Associação Filosófica Espírita Francisco de Assis – Zurique -, que secretaria atualmente. Também preside a União de Centros de Estudos Espíritas na Suíça e tem participação no movimento espírita europeu.

 

P: – Acaba de ser lançado na Suíça o Boletim Bimestral Quo Vadis, da União Dos Centros de Estudos Espíritas na Suíça. Observamos a edição em 4 idiomas. Qual a experiência a relatar?
R: – Lançar o Quo Vadis foi um desafio a começar pela escolha do nome. A Suíça é um país onde há quatro línguas oficiais: alemão, Frances, italiano e o reto-românico, este último falado por pouquíssimas pessoas em uma pequena região alpina. Além disso, em se tratando de Espiritismo, não se pode deixar de lado o português, uma vez que a maioria dos espíritas na Suíça ainda é de brasileiros. Assim, era necessário escolher um nome que fosse agradável a toda essa babel. O nome Quo Vadis nos veio por inspiração e o adotamos imediatamente. Trata-se de expressão latina significando “Aonde Vais?, que evoca o episodio belíssimo e marcante do cristianismo nascente, relembrando o encontro de Pedro com Jesus, às portas de Roma, quando o velho Apóstolo fugia das perseguições contra cristãos. Nesta fase inicial do boletim iremos dedicar algumas páginas para cada língua, tentando tornar a leitura o mais agradável e variada possível para a comunidade espírita na Suíça. Eliminamos o reto-românico, por ser pouco usado, e assim teremos artigos nas outras línguas. Em uma fase posterior a intenção é fazer edições separadas em cada língua. Há sempre muitas traduções a serem feitas, além das conseqüentes revisões, o que no final triplica o trabalho, mas nos sentimos muito contentes e gratificados, pois o primeiro número saiu dentro do cronograma estabelecido.

P: – Como está hoje o Espiritismo na Suíça e qual a influência dos grupos espíritas na Europa?
R: – O Espiritismo se encontra em expansão na Suíça. Nos últimos seis anos tivemos a fundação de 6 novos grupos, que se transformaram em florescentes Centros Espíritas. Devemos nos recordar que no tempo de Kardec a Doutrina florescia por aqui, com nomes de destaque, como Antoinette Bourdin, que publicou inúmeros livros, em Genebra, no final do século, mas em determinado momento houve um esvaziamento da Doutrina. A partir da década de 70, entretanto, começou o renascimento da Doutrina na Suíça, graças ao pioneirismo da Dra. Terezinha Rey, que deu início à formação do primeiro grupo espírita na Suíça contemporânea. A Dra. Terezinha sempre teve atuação marcante no Movimento Espírita Europeu, tendo sido a fundadora da União dos Centros de Estudos Espíritas na Suíça, em 1998, da qual foi sua primeira Presidente. Temos procurado participar ativamente das reuniões efetuadas na Europa, dando sempre a nossa contribuição sob a forma de opiniões e sugestões.

P: – Há quanto tempo a senhora mora na Suíça? E quando e como tornou-se espírita? No Brasil ou na Suíça?
R: – Este é o meu segundo período na Suíça, pois já havia morado aqui de 1991 a 1995. Entretanto, por razões profissionais, mudei-me e retornei em outubro de 2000. Tornei-me espírita em 1972, em Brasília, onde freqüentava a comunhão espírita.

P: – Qual sua profissão na Suíça?
R: – Sou funcionária do Ministério das Relações Exteriores e exerço minhas funções no Consulado-Geral do Brasil, em Zurique.

P: – E quais suas atribuições no movimento espírita suíço?
R: – Participamos ativamente do Movimento Espírita na Suíça, tendo as funções de Secretária da Associação Filosófica Espírita Francisco de Assis, em Zurique, a qual fundamos em 1991 e que está agora comemorando os seus 10 anos de existência e onde, entre outras coisas, somos palestrante e dirigente de grupo. Somos também a Presidente da União de Centros de Estudos Espíritas, na Suíça, cargo para o qual fomos eleita recentemente, em março de 2001.

P: – Brasileiros não espíritas na Suíça chegam a procurar os grupos espíritas, atraídos pela presença e atuação dos brasileiros aí envolvidos com a Doutrina Espírita?
R: – Na verdade a maioria dos freqüentadores dos Centros Espíritas, na Suíça, é de brasileiros que não eram espíritas no Brasil e que conheceram a Doutrina já na Suíça. Eles vêm aos Centros atraídos pelas palestras ou então em busca de consolo e tratamento espiritual.

P: – E os suíços, como tem aceito os ensinos da Doutrina Espírita?
R: – O número de suíços freqüentadores dos Centros ainda é muito reduzido. Atraí-los é um trabalho difícil, também porque o Espiritismo não faz proselitismo, e os suíços são muito conservadores em suas escolhas religiosas e têm muita resistência a idéias novas e diferentes, nessa área filosófico-religiosa. Mas quando chegam a compreender o que é a Doutrina, são muito sérios e se tornam bons trabalhadores das casas espíritas.

P: – A recente reunião do CEI, em Berlim, (29 a 31 de março de 2001), bem como o encontro com Grupos Espíritas na Alemanha, trouxe algum resultado direto para o Movimento Espírita na Suíça?
R: – Foi a primeira participação da UCESS como membro do CEI e a minha estréia, pois há apenas um mês e meio havia assumido a presidência da União. Com muita alegria conheci o0s líderes do Movimento Espírita na Europa e a confraternização e troca de experiências foi enriquecedora. Sem dúvida a reunião foi de grande interesse para o Movimento Espírita, na Suíça, e trouxe grande estímulo para que possamos continuar as nossas lutas em prol da difusão da Doutrina Espírita neste belo país.

P: – A UCESS tem tido contato com o Brasil? De que forma?
R: – A UCESS tem tido contato constante com o Brasil, através do CEI e também em contatos diretos com a RIE e com dirigentes de Centros e outras entidades espíritas. O Brasil é sempre uma fonte de inspiração e alento para nós, brasileiros espíritas e trabalhadores da Será divina, que nos encontramos em terras alheias.

P: – Brasileiros no Brasil têm contatado o grupo através de e-mails?
R: – Os contatos ainda são poucos, mas estaremos lançando em breve a nossa página na Internet, que também será em quatro línguas (português, francês, italiano e alemão), o que espero vai facilitar um melhor intercâmbio entre brasileiros e a UCESS. A troca de informações e experiências é sempre válida e alarga horizontes.

P: – As notícias internacionais publicadas pela RIE têm trazido algum resultado na Suíça e Europa?
R: – A RIE é muito conceituada na Suíça e acredito que no resto da Europa. Seus artigos são de excelente nível e têm contribuído bastante para a difusão do Espiritismo por essas bandas do mundo.

P: – Que tipo de intercâmbio seria salutar, neste momento, entre brasileiros e suíços , para o Movimento Espírita nos dois países?
R: – O apoio dos brasileiros espíritas, que têm muita experiência na Doutrina e possuem uma vasta literatura a dispor, é sempre muito bem vindo. Penso que uma grande colaboração pode vir sob a forma de traduções como, evidentemente de Kardec, mas também de Francisco Cândido Xavier e de Divaldo Pereira Franco. Em alemão, por exemplo, há pouquíssimos títulos e mesmo O Evangelho Segundo O Espiritismo ainda não teve a sua tradução concluída, o que dificulta enormemente a compreensão da Doutrina e sua divulgação. Atualmente já recebemos a visita anual de ilustres conferencistas como Divaldo Pereira Franco, Miguel de Jesus Sardano e outros, que vêm enriquecer o nosso conhecimento e enfatizar pontos doutrinários de importância, mas sempre seria bom se pudéssemos contar também com outros palestrantes além dos já citados. Gostaríamos de relembrar aos espíritas do Brasil a bênção que é morar nessa pátria cheia de luz, que é verdadeiramente a Pátria do Evangelho e o Coração do Mundo. O Brasil é o celeiro de onde partimos nós, os espíritas brasileiros que operam pelo mundo, na disseminação da semente bendita do Evangelho.

P: – A Revista Veja, edição de 16/05/2001, editada semanalmente no Brasil, publicou matéria referente ao enorme desinteresse dos europeus pelas religiões tradicionais (católica e protestante). O Espiritismo poderá despertar o interesse entre os europeus? Como?
R: – A Europa está atravessando uma fase de grande prosperidade econômica, o que naturalmente traz junto o materialismo. Com este vem o desencanto pela vida e a perplexidade diante dos problemas do cotidiano, o que justifica o uso de drogas, a defesa da eutanásia e do chamado suicídio assistido, o aborto, etc. São mazelas de uma sociedade culta e rica que não encontra um sentido para a vida. O trabalho de penetração do Espiritismo é muito difícil, dadas as características do pensamento europeu, racional e positivista. O Espiritismo sendo reencarnacionista e com sua mensagem de vida e melhor compreensão da vida, tem um grande papel a desempenhar junto a essa sociedade com características de cultura e materialidade. Cabe a nós, trabalhadores do Movimento Espírita na Europa, encontrarmos os meios de furar essa cortina de indiferença e levarmos a todos eles a mensagem do Consolador, capaz de redimir-nos a todos e transformar nossas vidas. Tudo então poderá mudar para melhor, com as sociedades sendo mais justas e os indivíduos mais harmônicos e felizes.

P: – São suas as palavras finais.
R: – Agradeço imensamente à RIE por esta oportunidade inigualável de poder transmitir aos seis leitores um pouco das nossas experiências de brasileiros espíritas expatriados e trabalhando no Movimento Espírita Europeu. Esperamos que muitos contatos proveitosos possam ser feitos a partir de agora, que venham contribuir para a solidificação da Doutrina na Europa, que afinal foi o seu berço. Peço ainda as orações de todos os espíritas brasileiros, com vistas a amparar e fortificar o implante de novos Centros Espíritas nas terras européias e para que o Movimento Espírita Europeu possa crescer cada vez mais pujante.