O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 

Título :
Pinga-Fogo

Entrevistado:
Francisco Cândido Xavier

Fonte:
TV Tupi

ENTREVISTAS

          

No dia 20 de dezembro de 1971, Francisco Cândido Xavier retornou ao Programa “Pinga-Fogo”, na TV Tupi de São Paulo, Canal 4, às 22 horas. O programa que teve a duração de 4 horas e 25 minutos, foi transmitido para vários Estados via EMBRATEL, e o auditório do Sumaré foi pequeno para abrigar tanta gente. Centenas de pessoas que não conseguiram lugares nos estúdios, o aguardavam à entrada do edifício, ávidos de manter, com o médium, um contato ainda que rápido. A entrevista foi encerrada com uma mensagem psicográfica de Castro Alves, poeta condoreiro, concitando os aflitos de todos os lugares da Terra, ansiosos por calor humano, a virem ao Brasil recebê-lo em largas proporções.

Almir Guimarães – Cumprindo promessa feita há cinco meses atrás, a alta direção dos “Diários e Emissoras Associados”, a divisão de telejornalismo do Canal 4, São Paulo, TV Tupi, dá início a mais um programa da série “Pinga-Fogo”. Nosso convidado desta noite dispensa apresentações. Por dois motivos: primeiro, por ser conhecido de Norte a Sul, de Leste a Oeste, pela posição de excepcional destaque que ocupa em todos os quadros da doutrina espírita em nosso País, apontado pelos mestres como um dos maiores psicógrafos do mundo; segundo, porque esse Pinga-Fogo é um prolongamento de um primeiro acontecido na noite de 28 de julho passado. Aqui está um dos maiores médiuns psicógrafos do mundo: 112 obras, de autores diversos, até o momento. Aí está Francisco Cândido Xavier, Chico Xavier.

Chico Xavier, são seus os instantes iniciais para a abertura dos nossos trabalhos e o seu primeiro contato com milhares e milhares de telespectadores que nos honram com sua audiência.
Chico Xavier – Sinceramente, devemos confessar que estamos aqui numa posição imerecida. Emprestou-se tamanha solenidade a este programa que, sinceramente, nos surpreendemos sobremaneira. Mas, era impossível recusar um convite tão gentil da parte da TV Tupi Canal 4, do nosso grande São Paulo, quando recebemos aqui tantos testemunhos de respeito e de apreço, já que fomos convidados para um encontro de Natal, de modo a comentarmos a doutrina cristã, diante da vida contemporânea, razão porque solicitei de todos os companheiros espíritas cristãos uma prece em meu favor para que eu possa cumprir o dever a que fomos chamados. Devo também declarar de público que, pessoalmente, não estou representando o pensamento de nenhuma instituição espírita evangélica do nosso País. A TV Tupi, por seus dignos representantes neste programa, convidou-nos em caráter pessoal, a fim de conversarmos do ponto de vista das nossas impressões mediúnicas, em contato com os nossos amigos espirituais já desencarnados, experiência essa na qual estamos desde o ano de 1927. Por último, pedimos licença para dizer que rogamos aos nossos benfeitores espirituais que nos assistissem, que nos inspirassem para que a palavra que eu possa dizer não venha a ofender os nossos governantes, as nossas leis, as nossas autoridades, porque nós sabemos que sem lei rolaríamos no caos. Portanto, quaisquer enunciados verbais dos pensamentos que venhamos a expor são filhos de nosso coração, de nossa fé, de nossa profunda fé cristã. Pedimos tanto, que sentimos ao nosso lado o nosso grande benfeitor, para mim, especialmente, grande benfeitor Emmanuel, que me pede transmitir as palavras do apóstolo São Paulo, na epístola a Tito, no capítulo 3, versículos 1 e 2: “Lembra-lhes para que se sujeitem aos que governam, às autoridades, sejam obedientes, sempre prontos para as boas obras. Não difamem ninguém, não sejam altercadores, mas cordatos, dando prova de cortesia para com todos os homens”.

Vicente Leporace – Sr. Francisco Cândido Xavier, na qualidade de jornalista bisbilhoteiro, responsável por um jornal radiofônico de grande penetração, eu gostaria de saber de V. Excia. Qual o tratamento que quer que lhe seja dispensado. De Chico, de Francisco Cândido, de Excelência, ou vamos nos tratar como dois amigos mineiros de longa data?
Chico Xavier – Apenas Chico já é demais.

Leporace – De mineiro para mineiro?
Chico – De mineiro para mineiro, de irmão para irmão.

Leporace – Então, Chico, quero saber até onde a sua religião, o Espiritismo, admite, tolera ou contesta o Umbandismo?
Chico Xavier – Respeitamos, no Umbandismo, uma grande legião de companheiros muito respeitáveis, consagrados à caridade, que Jesus nos legou, grandes expositores da mediunidade, da mediunidade que auxilia, alivia o próximo, credores do nosso maior carinho, da nossa maior veneração, conquanto estejamos vinculados aos princípios codificados por Allan Kardec, de nossa parte.

Leporace – Muito obrigado. Na condição de praticante, ou militante, ou simpatizante do Umbandismo, é que eu quero lhe fazer a primeira pergunta, porque isto foi apenas prolegômeno. Admitamos, Chico Xavier, que um médico ilustre, professor estudioso, uma espécie assim de nosso convidado aqui do meio da mesa, Dr. Ernani, se especialize em determinada matéria, chegue à cátedra, e depois, sem que se espere, morra. A sua obra é truncada com a morte, ou ele, depois de morto, pode continuar na evolução do espírito?
Chico Xavier – Perfeitamente. Conheço diversos médicos desencarnados que prosseguem em tarefas edificantes, profundamente veneráveis para nós todos e todos eles. Esses amigos nos informam que continuam em seus apostolados, dentro da ciência, para lá da vida física, não só cooperando no campo da assistência religiosa, propriamente dita, mas inspirando os seus companheiros de ministério dentro da ciência, amparando-os e promovendo meios para retornarem ao nosso plano físico, a fim de executarem programas imensos a benefício da Humanidade, já que uma existência de 60 a 100 anos no corpo físico é muito curta, principalmente para os grandes médicos, senhores de alevantados idéias.

Freitas Nobre – Desejo, antes de tudo, transmitir uma série de apelos e de considerações que nos foram trazidos através do telefone durante todo o dia de hoje, inclusive do Recife, de onde falou o deputado Fernando Lira. Em primeiro lugar, para dizer aos companheiros da TV-4 o entusiasmo pelo nível do programa. Em segundo lugar, para homenagear não a Chico Xavier, mas àqueles milhares de adeptos de Chico Xavier que, através do Brasil, instalaram creches, asilos, sanatórios, hospitais e que dão pelas suas mãos, com seus corações, aquela assistência que deve muito ao estímulo deste grande coração que é Chico Xavier. E vai, então, a primeira pergunta: estamos na semana do Natal. Todos falam do Natal. Todos tentam interpretar o Natal. Para a doutrina espírita e para Chico Xavier, que apresentação especial, que significação especial tem o Natal?
Chico Xavier – Os espíritos amigos nos têm ensinado, por muitas vezes, que, ante o Natal, reformulamos os nossos votos de cristianização da nossa vida pessoal e coletiva, diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem nossas vidas estão entregues em nome de Deus, Aquele que, em sua infinita misericórdia, nos conserva junto de Seu coração infinitamente amoroso, como tutelados no planeta terrestre, abençoando-nos, orientando-nos, tolerando-nos as fraquezas e encaminhando-nos para uma vida melhor. Devemos, com toda a sinceridade, asseverar que, sem Jesus Cristo em nossas vidas (seja qual for a interpretação que venhamos a dar aos seus ensinamentos), não estaremos muito longe de uma regressão para as selvas. Por isso mesmo, o Natal é importante; continuará a ser importante. Embora muitas vezes cercado de incompreensões humanas, o Natal há de ser o coração de Nosso Senhor Jesus Cristo forçando no mundo, assim como estamos vendo o coração maravilhoso de nosso Divino Mestre palpitando na alegria de toda São Paulo, em festiva comemoração para a passagem do natalício d´Aquele que é o maior amor das nossas vidas.

Dr. Ernani Guimarães Andrade – Antes de formular a minha pergunta, quero justificá-la. Eu pertenço ao Instituto Brasileiro de Pesquisa Psicobiofísicas, uma entidade de natureza estritamente científica. Todavia, eu, como parapsicólogo, reconheço na extensa obra do Sr. Francisco Cândido Xavier um manancial profundo, em que podem encontrar-se muitas informações de natureza científica pertencentes ao ramo-campo da parapsicologia. Em particular, eu aponto como a mais importante contribuição nesse campo, aquilo que tange à natureza do homem. Dentro da obra de Francisco Cândido Xavier, em particular a sua série “Nosso Lar”, encontra-se abundante material que servirá, no futuro, e num futuro muito próximo, aos parapsicólogos do mundo todo, como meio de informação segura e bastante científica. É por isso que eu dirijo ao Sr. Francisco Cândido Xavier várias perguntas de caráter científico. A primeira pergunta é a seguinte: Vários parapsicólogos, como o Dr. Stevenson, da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, e o Professor Banerjee, da Universidade de Varanessi, na Índia, estão estudando seriamente o problema de reencarnação. Já se catalogaram mais de 2 mil casos que sugerem, fortemente, ser a reencarnação uma lei biológica natural. Inclusive, na Universidade de Virgínia, já estão sendo analisados em computador eletrônico mais de 1000 casos sugestivos de reencarnação ali catalogados. Em vista disso, solicito a gentileza de um pronunciamento de Vossa Senhoria, Sr. Francisco Cândido Xavier, sobre tão importante matéria, particularmente quanto às conseqüências da eventual aceitação da lei da reencarnação por parte da ciência oficial, fato esse que pessoalmente eu acredito será para muito breve.
Chico Xavier – Agradecendo as palavras do nosso entrevistador, pedimos a ele para que o tratamento a mim dirigido seja apenas o de Chico, conforme sugeriu o nosso querido amigo e caro jornalista Vicente Leporace. Emmanuel e outros amigos espirituais nossos, entre os quais André Luiz e outros, são unânimes em afirmar que semelhantes pesquisas são da mais alta importância para os destinos da humanidade, porque apenas será interessante que os nossos cientistas acrescentem ao sentido geral dessas verificações o lado moral da reencarnação, ligando o fenômeno biológico da reencarnação do espírito no planeta terrestre àquela divina lei anunciada nos evangelhos. Porque nos princípios cármicos colhemos sempre os efeitos de nossas próprias realizações e de nossos próprios atos. Então, teremos os estudos da reencarnação cada vez mais ricos de substâncias, se conseguirmos aliar semelhantes constatações com o efeito moral que elas encerram em si mesmas.

Durval Monteiro – Nós estamos vivendo a era dos computadores. A cibernética ilumina o mundo. Mais e mais, o homem vai sendo escravizado pela máquina. A par disso, o recolhimento do homem para as coisas do espírito me parece cada vez menor. Chico, honestamente, será que a máquina fria, calculista, violenta, vai conseguir estrangular o homem?
Chico Xavier – A pergunta do nosso caro amigo que nos entrevista é muito válida e devemos reconhecer que hoje precisamos estudar até mesmo nos nossos lazeres e que a nossa mente não tem estado tão eficientemente preparada para o descanso que a máquina nos trouxe e que, muitas vezes, nos impõe. A automação nos faz viver, hoje, na presença do futuro. Por isso mesmo, os espíritos amigos nos pedem para que sejamos cultores da chamada prospectiva. Com a ciência da prospecção, precisamos compreender que, dentro de uma estrada nebulosa, necessitamos de luz que nos mostre à frente; necessitamos de reuniões de técnicos, de religiosos, de cientistas, de pais de família, irmãs de família, para não confundir o papel essencial da mulher na sensibilização. Precisamos ouvir as pessoas amadurecidas na experiência e os mais jovens, para compreendermos o que será de nós, no dia de amanhã, se abandonarmos os nossos propósitos espirituais de vidência na construção de um mundo melhor. Precisamos compreender Cristianismo como sendo uma doutrina de vivência humana, para que nós não venhamos a perder o calor da fraternidade de uns para com os outros, para que não sejamos transformados em simples números na vida econômica ou em meros robôs em nossa vida social. Para isto, não basta ouvir os adivinhadores da futurologia, conquanto respeitemos todos eles. Mas, realizarmos, por nós, dentro do país, sob a custódia das nossas autoridades, mesas-redondas, para compreendermos a importância da família com as áreas de compreensão que a família é hoje chamada a descerrar seus núcleos para nos adaptarmos à era nova. Precisamos compreender a importância do lar como célula da vida social, para que não venhamos a despencar num caos do qual não saberemos, amanhã, como nos levantar. A pergunta do nosso caro amigo Sr. Durval é muito válida e sugere a nós todos um vasto movimento de meditação com respeito aos nossos próprios destinos, porque as máquinas estão impondo, a nós todos, um repouso para o qual muitos de nós não estão preparados. Precisamos estudar intensivamente, compreendendo que o estudo não é apenas uma obrigação para a mente infanto-juvenil. Nós todos, aqueles que amadureceram na experiência da vida, precisamos estudar os nossos próprios caminhos de amanhã, para que não venhamos a entrar nas trevas do espírito, porque isto seria o nosso regresso à desordem, e nós não podemos pensar nisso, pois nos referimos ao Brasil. Nós somos cristãos em nossa formação, devemos preservar este título e respeitá-lo. Temos, nos ensinamentos de Jesus, bastante material para superar a influência surpreendente da máquina. Diz o nosso Emmanuel, que está presente: nós, como cristãos, vencemos 300 anos de martírio nos primeiros séculos do Cristianismo. Será possível que, agora, não saibamos vencer o nosso próprio excesso de conforto para sermos cristãos? É uma pergunta para nós também.

Saulo Gomes – Chico, que pensam os chamados benfeitores espirituais quanto à posição do Brasil atual, seja no terreno político ou social?
Chico Xavier – Vamos responder com muito respeito, segundo o que temos ouvido de nossos benfeitores espirituais. A noite é consagrada ao Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, em cujos ensinamentos empreendemos a nossa formação como povo organizado. Por várias vezes, Nosso Senhor Jesus Cristo se referiu à nossa necessidade da oração e da vigilância. Nós sabemos que, segundo os nossos léxicos, orar não é apenas endereçar a nossa palavra ou nosso pensamento a Deus, em súplica ou louvor. Orar significa, também, discursar, expor os nossos pontos de vista e, por isto mesmo, a oração é uma das expressões mais vivas do espírito democrático do Cristianismo, porque cada um de nós ora segundo as suas possibilidades de crer ou de interpretar o fenômeno da fé. Então, sem qualquer expressão eufemística, declaramos que a posição atual do Brasil é das mais dignas e das mais encorajadoras para nós, porque a nossa democracia está guardada por forças que nos defendem contra a intromissão de quaisquer ideologias vinculadas à desagregação.

Precisamos honorificar a posição atual daqueles que nos governam, que vigiam sobre os nossos destinos. A oração e a vigilância, preconizadas por Nosso Senhor Jesus Cristo, se estampam, com muita clareza, em nosso Governo atual. E nós todos vamos dizer com os nossos benfeitores espirituais: devemos crer muito, pedir muito a Deus e unir os nossos pensamentos para que a união seja preservada, dentro das nossas Forças Armadas, para que nós tenhamos o direito de orar, isto é, discursar, permutar livremente os nossos pontos de vista, dar os nossos pareceres, emitir as nossas opiniões em matéria de vivência particular e coletiva. Portanto, com todo o respeito, sem nenhuma idéia de bajulação, falo pessoalmente de minhas pequeninas confabulações com os espíritos amigos e profundamente amigos do Brasil cristão, em Nosso Senhor Jesus Cristo. Digo que nós devemos pedir para que tenhamos a custódia das Forças Armadas, até que possamos encontrar um caminho em que elas continuem nos auxiliando como sempre, para que nós não venhamos a descambar para qualquer desfiladeiro de desordem. Nós não podemos ignorar – abramos um parêntesis – que, muitas vezes, muitos de nós acreditam que as Forças Armadas devem apenas funcionar nas ocasiões de beligerância, nas ocasiões de guerra, diante do mundo civil. Mas, a verdade é que, espiritualmente, estamos em grande conflito com idéias, trazidas ao nosso meio pelas comunicações de massa, pelas impressões de nosso tempo, em que o problema de massas tem que ser considerado. Nós precisamos resguardar o nosso coração para que essas idéias não se infiltrem em nossa vida pública, em nossa vida coletiva, para que não venhamos a perder o dom da liberdade em Jesus Cristo. Nós sabemos que a persuasão química, a própria chamada felicidade química, podem ser trazidas com nosso povo, através de governos que possamos aceitar, com invigilância. Essas ocorrências eliminariam de nossa vida a possibilidade de vivermos como povo livre. Essas ocorrências eliminariam a nossa resistência psicológica, e acabaríamos, talvez, num povo, talvez fantoche. Vamos agradecer a situação atual do Brasil, porque o Brasil desfruta de ordem. O Brasil está sob o império da lei e se a Terra está equilibrada no campo cósmico, é porque a Terra obedece a leis. Se o homem está agora deslanchando para outros mundos, através do nosso satélite, não foi desordenadamente que os nossos grandes astronautas conseguiram semelhante realização. Eles atenderam a leis, obedecem a leis. Os foguetes da astronáutica obedecem a leis. Nós estamos sob o império da lei e devemos ser gratos a Deus e cooperar para que não venhamos a perder a ordem, porque a ordem é como a luz do Sol. De recebermos tanto a lu\z do Sol, nós, muitas vezes, nos esquecemos de agradecer esse dom da providência divina. \muitas vezes, só compreendemos a ordem quando a desordem aparece. Nós, como brasileiros, não devemos proceder em moldes de insensatez. Reverenciemos aqueles que estão guardando o sentido da ordem em nosso País e fazendo com que cada um de nós possa desfrutar esse beneficio da ordem em nossa vida particular, em nossos lares, em nossos grupos sociais, em nossas empresas de trabalho, dentro da liberdade que estamos desfrutando. Porque só não estamos desfrutando uma espécie de liberdade: aquela liberdade de prejudicar a comunidade. E nós estamos no tempo das massas e não devemos prejudicar a ninguém, muito menos à coletividade.

Almir Guimarães – Tenho uma pergunta, que vem de Uberlândia. Quem formula esta pergunta é o Dr. Domingos Pimentel de Ulhoa, reitor da Universidade de Uberlândia. Ele, antes, faz um preâmbulo, uma observação, que é a seguinte, referendo-se a uma entrevista que você deu à revista “Realidade”: “Minha tarefa é livro, não é a cura”. Apesar da afirmativa, o Sr., pelos seus guias, receita dezenas ou centenas de vezes em cada sessão, muitas somente exaltações inspiradas na moral, na fé e na esperança. Na maioria, homeopatia e dinamização suave. Pergunta: “Qual o objetivo: o sofrimento que a doutrina, julgo, considera como processo de expiação e aprimoramento? A caridade de curar algumas vezes e consolar sempre, com perdão da irreverência, é simplesmente proselitismo?”.
Chico Xavier – A informação da revista “Realidade” é autêntica. Nós, desde o princípio, temos estado convocados por nossos amigos espirituais à manutenção do livro. E o livro, por nosso intermédio, vem sendo produzido desde o ano de 1931, quatro anos depois de nosso ingresso na doutrina espírita, explicada por Allan Kardec, com base nos Evangelhos de Jesus Cristo. Compreendemos que as nossas respostas – as respostas dos amigos espirituais por nosso intermédio, aos amigos que nos visitam, em sua maioria quase que esmagadora são sempre respostas baseadas na própria doutrina, em nossa necessidade de paciência, de compreensão, de calma, de humanidade, diante dos outros, e há um pequeno setor em que os amigos espirituais a pedido de amigos que nos é liberado, nos Estados Unidos da América do Norte e até, mesmo, em países da Europa, como a Alemanha Ocidental, com plena aprovação do mundo médico. Além da quinta dinamização, somente os nossos amigos diplomados em Medicina têm autoridade para apresentar os requisitos necessários ao tratamento ou cura dos enfermos. Quanto ao problema do auxílio, nós nos recordamos daquela palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando, dirigindo-se aos sofredores, afiançou: “Vinde a mim, vós os que sofreis, que eu vos aliviarei”. O próprio Senhor, não prometeu cura: Ele prometeu alívio. Não estamos fazendo absolutamente qualquer comparação. Conhecemos a nossa posição de subvermes em minha condição pessoal. Quanto ao proselitismo, devemos informar ao nosso caro consulente de Uberlândia que começamos nosso grupo orando, a bem dizer, em família, um pequeno grupo. Se houvesse da nossa parte qualquer impulso de proselitismo, nós estaríamos recrutando os que sofrem nas cidades de que eles procedem, em Pedro Leopoldo ou Uberaba. Nós estamos em nosso grupo muito humilde de orações. Os amigos nos visitam. É impossível recusar acolhimento, porque aqueles que nos visitam nos conferem uma honra. Orar conosco, vir ao nosso encontro para uma prece: isto é uma bênção para nós. Isto, para nós, é calor humano, fraternidade, amor em Jesus, aproximação humana, vontade de nos compreendermos uns aos outros, vontade de nos aquecermos de coração para coração, mas não proselitismo, porque, em nossa vida de 45 anos de doutrina espírita-cristã, ainda não fomos a cidade alguma recrutar os nosso amigos para as nossas reuniões.

Saulo Gomes – Dentre as inúmeras pessoas que já se propõem a fazer perguntas,: seu nome, por gentileza?
- Maria Arruda Carvalho.
Saulo – Pode fazer a sua pergunta.
Maria Arruda Carvalho – Chico, nós sabemos que tudo tende a se aperfeiçoar. Seria possível saber se há algum inconveniente para as pessoas que fazem operações plásticas, do nariz, do queixo, de rugas, no plano espiritual para o perispírito dessas pessoas que se submetem a essas operações. Porque, às vezes, elas trazem benefícios para a personalidade da pessoa, que se sente melhor. Nós queremos saber a opinião de nossos irmãos espirituais. É possível?
Almir Guimarães – Você entendeu a pergunta, Chico?
Chico Xavier – Cremos que sim.

Almir Guimarães – De um modo geral, parece que ela quer saber se é pecado, no plano espírita, fazer operação plástica.
Chico Xavier – Seria o caso de perguntarmos à rosa ou ao lírio, porque é que eles são tão belos, perguntar à luz, porque a luz brilha tanto. Se a providência divina nos concedeu a plástica regeneradora, naturalmente será para que venhamos a valorizar, cada vez mais, o veículo físico pelo qual nos externamos na Terra. A plástica regeneradora, com orientação médica, é um fator a grandes estímulos psicológicos para que a alegria de viver não feneça em nossos corações e para que possamos trabalhar com mais interesse, com mais estímulo, no rendimento de nossa vida para o bem de todos. A plástica regeneradora é muito legítima, tanto quanto à geriatria e à gerontologia, que chegaram no mundo pelas mãos da ciência, para que, depois dos 40 anos, também saibamos facear o período de madureza com a saúde de que possamos desfrutar. Porque, nós não devemos ambicionar o suicídio prematuro, através da inércia ou do descaso pela nossa apresentação pessoal.

Vicente Leporace – Meu amigo Chico Xavier, eu gostaria que, depois de consultar o espírito de luz de Emmanuel, me respondesse a uma pergunta que vem absorvendo a minha atenção desde há muito. O Zé Arigó, falecido Zé Arigó, notabilizou-se, no Brasil e no exterior, através de suas intervenções cirúrgicas. Ele era o médium de um médico alemão, Fritz, Dr. Fritz. Eu pergunto se há possibilidade, dentro da doutrina espírita, de que a incorporação do espírito do Dr. Fritz continue se reproduzindo no Brasil. Aqui em São Paulo, em 5 ou 6 locais, diferentes e sabidos, tudo isso simultaneamente ao mesmo tempo, no mesmo dia, na mesma hora e em locais diferentes. Isso é possível, Chico Xavier?
Chico Xavier – Cremos que este caso merece estudos e considerações especiais. Não duvidamos de que o espírito do Dr. Fritz, que realizou tantas empresas de benemerência entre nós, através do médium José Arigó, possa encontrar um outro veículo. Se bem que, no gabarito da mediunidade de José Pedro de Freitas, o nosso Arigó, essa integração dele com o médium seja um tanto ou quanto difícil, porque a integração de um espírito, pelo menos notável na beneficência ou bastante elevado, requer tempo.

Não podendo apreciar pessoalmente, isto é, não sendo lícito a mim promover o julgamento dos companheiros da mediunidade, estimaria, de minha parte, um estudo “in loco”, com tempo suficiente para manifestar uma opinião consentânea com a razão.

Freitas Nobre – Os cientistas da NASA estudaram recentemente, este ano, dois meteoritos e, nestes dois meteoritos, apuraram que 6 dos 18 aminoácidos do mesmo tipo dos encontrados nas células vivas, aqui, no nosso mundo terráqueo, estavam presentes nesses meteoritos. Ora, que forma, admitindo a existência de vida em outros planetas, que forma poderiam ter os habitantes, os seres viventes desses planetas? Podem os amigos espirituais responder através de Chico Xavier essas indagações, que são de tantos e tantos espectadores?
Chico Xavier – A pergunta de S.Exa., o nosso caro deputado federal Dr. Freitas Nobre, é uma indagação muitíssimo atual. Dentro das minhas pequenas possibilidades mediúnicas, tenho visto criaturas humanas desencarnadas, carregando fenômenos semelhantes àqueles que presidem a vida em nosso corpo físico. Allan Kardec, em determinado tópico do livro dos médiuns, fala sobre a diversidade da forma em outros planetas. E nosso Emmanuel, no livro “O Consolador”, respondendo a uma pergunta nesse sentido, há 32 anos, afirmou que não podemos esperar de outros planetas formas físicas absolutamente iguais às do nosso mundo terrestre. Mas, estamos numa época de indagações oportunas, de maravilhosas pesquisas do gênero humano, das quais o nosso Camille Flamarion, na França, foi um grande e inesquecível pioneiro. Esperemos que a ciência se pronuncie e que nós possamos, do ponto de vista espiritual, pesquisar, de nossa parte, e estudar, tanto quanto possível, as ocorrências da sobrevivência humana para lá da morte física, com os resultados, as conseqüências da vida que tenhamos empreendido neste mundo.

Dr. Ernani – Na União Soviética, os parapsicólogos estão desenvolvendo intensamente a técnica da efluviografia, que foi descoberta pelo casal Semion e Valentina Kerlian. Refinados métodos usados pelos investigadores soviéticos permitiram a obtenção de fotografias da aura dos seres vivos. Os espantosos resultados obtidos, através desta técnica, levaram os cientistas soviéticos a admitir a existência real de um corpo fluídico intimamente relacionado com o soma físico. Deram a esse duplo somático o nome de corpo bioplasmático. Consulto a você, Chico, acerca das relações existentes entre tais descobertas e as afirmações da doutrina espírita, concernentes ao corpo espiritual ou perispírito.
Chico Xavier – Uma questão muito importante. Num dos últimos números de um jornal de Londres, o nosso amigo espiritualista da Inglaterra, Mr. Maurice Barbanel apresentou fotografias muito expressivas do fenômeno que vem sendo estudado por nossos irmãos no norte da Europa. Esperamos que, com o amparo da Divina Providência, através dos grandes beneméritos da humanidade, os cientistas desencarnados, estudiosos que continuam interessados no auxílio ao gênero humano, possam amparar, inspirar a nossa ciência na positivação da existência do corpo espiritual, como modelador do nosso corpo físico. Só por intermédio do corpo espiritual poderemos compreender ocorrências orgânicas, como sejam a produção da adrenalina, através da medular, da supra-renal. Com a distribuição no mundo orgânico pelo simpático, poderíamos compreender a produção do acetilcolina no parassimpático. Ambos, acetilcolina e adrenalina, a se frenarem um ao outro para equilíbrio da nossa vida física e o padrão de robustez e de equilíbrio desejáveis. Só pelo corpo espiritual poderemos compreender a existência da bradicilina no mecanismo da dor e tantos fenômenos neste mundo prodigioso que é o nosso próprio cérebro, cabina maravilhosa, dentro da qual, ou por intermédio da qual, a nossa mente pode viver e se manifestar. Alguns cientistas disseram que a mente não tem existência sem a organização física, mas estamos absolutamente certos de que, sem a mente, não temos a existência na organização física, e que a mente não depende da organização física para se manifestar em seu pleno equilíbrio, porque, cessadas certas possibilidades do cérebro, é natural que a mente esteja na condição do artista que encontrou um violino desafinado ou sem cordas ou apenas com algumas cordas para execução de uma partitura, em determinado concerto.

Durval Monteiro – Chico, e apenas Chico, com uma condição: você retira o doutor da resposta anterior. A inquietação da juventude é uma constante desde muitos séculos. O homem, numa faixa que geralmente vão dos 16 aos 23 anos, é um rebelde. Depois, quase sempre, ele acaba se adaptando, se integrando na sociedade. No exato instante em que o homem se adapta, seu espírito evoluiu ou se acomodou?
Chico Xavier – Quando nós nos adaptamos para o bem, e o bem, essencialmente, é sempre o bem dos outros, porque é do bem dos outros que nasce o nosso próprio bem. Hoje, muitas vezes, queremos tratar os nossos jovens como se eles fossem inimigos, e isso é um erro. Os nossos jovens são os nossos continuadores. Trazem consigo uma vida diferente da nossa. Impulsos originais que nós não podemos auscultar em toda a sua extensão. Os nossos jovens de ambos os sexos necessitam, principalmente hoje, de nossa compreensão. Naturalmente, que não podemos empurrá-los para a libertinagem, mas não devemos frenar neles o impulso à libertação, para que eles se realizem, para que eles se desvinculem da nossa vida pessoal. Todos nós na condição de criaturas amadurecidas na experiência física, podemos, igualmente, e temos independência deles e não devemos escravizá-los aos nossos pontos de vista. Falamos numa experiência de mais de quatro decênios, em que temos visto centenas, talvez milhares de jovens e adultos chorando sobre os nossos ombros em vista do amor possessivo, que tantas vezes nos retarda o progresso individual e ocasiona tantos distúrbios em nossa vida familiar e coletiva. Tantos jovens que se doparam em drogas. Tantos que se refugiaram em casa de saúde. Tantos que abandonaram os seus próprios deveres e fugiram para a indisciplina, que desertaram de tudo, muitas vezes por causa de uma influência opressiva daqueles que foram chamados a orientá-los na vida prática. E, ao mesmo tempo, vemos tantos pais, tantas mães e tantos orientadores e tutores chorando porque não podem escravizá-los à sua própria vida. Por que é que nós não podemos amar uns aos outros, na condição de jovens e adultos, cada qual vivendo dentro da sua época de experiência física? Por que nós, como adultos, não podemos resguardar a nossa independência, dando independência àqueles jovens que são a esperança da humanidade, que são nossos filhos, nossos continuadores, para que eles realizem as empresas a que foram chamados pela reencarnação? Allan Kardec, através da questão n. 385, no Livro dos Espíritos, trata disso com muita propriedade, e isto há mais de cem anos. Nossos filhos são espíritos que vieram de outras condições, diferentes das nossas. São credores do nosso maior respeito. Nós falamos em diálogo e precisamos do diálogo. Falamos em comunicação e precisamos da comunicação, não apenas no dia dos desastres sentimentais. Conversar com os nossos jovens, conversar com os nossos pais como grandes amigos que se interligam através das suas experiências.

O diálogo nunca foi pancadaria verbal. A comunicação nunca foi uma oficina de censura sistemática. Não estamos, de maneira nenhuma, reprovando adultos, nem censurando jovens. Estamos atentos à lição de nosso Emmanuel, que nos pede considerar que, dentro da civilização do Ocidente é que nasceu a Psicanálise, com Sigmund Freud, para que nós sejamos tratados especificamente, individualmente, para nos ajustarmos ao amor que Jesus nos ensinou. Jesus nos ensinou: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Esse enunciado não veio de nenhuma decretação humana. Veio daquele que nós temos como Nosso Senhor. Por que não podemos amar os nossos jovens, auxiliá-los, para que eles sejam eles mesmos? E por que é que nós não podemos receber deles o auxílio, não para que vivamos, como muitas pessoas maduras estão vivendo em países da Europa, em grandes palácios dourados, nomeados como cemitérios dos elefantes, em que pessoas, amadurecidas na experiência humana, se recolhem como pessoas inúteis e vivem uma vida de entretenimentos, como se fossem marginalizadas pela idade física? Não. Como adultos, podemos tratar de nossa saúde, ser independentes, amparar os nossos filhos e eles também ampararem a nós outros, para que cada um de nós tenha a sua casa, tenha as suas afinidades, as suas relações, os seus afetos, a sua vida. Ao mesmo tempo, eles também podem ter as suas famílias independentes, com muito amor de nós uns para com os outros. Pedimos perdão ao nosso mediador, Dr. Almir Guimarães, e ao nosso distinto entrevistador, Dr. Durval Monteiro, para nos estendermos tanto nas respostas. Mas, a pergunta é válida e nós não podemos tratar-nos uns aos outros como se fossemos inimigos. Nós somos irmãos, somos pais, filhos, parentes, amigos, esposos, esposas, tios, tias, companheiros, mas, acima de tudo, somos espíritos imortais, filhos de Deus. Cada qual sendo um mundo original criado por Deus. Aconselhemos os nossos jovens. Amparemos os nossos jovens com as nossas experiências e que eles nos amparem com a sua força e nos amem, que nós todos precisamos de amor. Mas, que haja aquela fronteira, que nós chamamos de respeito, para que cada um seja ele mesmo e para que nós possamos viver em paz uns com os outros, sem necessidade de cairmos em neuroses e depois em psicoses e recorrermos aos nossos amigos da Medicina, como doentes graves, arredados da vida e arredados do trabalho, porque a vida para nós deve ser uma escola sem férias, com as pausas de descanso, mas todos fomos chamados a trabalhar.

Almir Guimarães – Muito bem. Eu não fico zangado com você pelo fato de você se alongar nas suas respostas, mas, se me chamar de doutor eu fico.

Saulo Gomes – Em pelo menos dez estados dos Estados Unidos da América do Norte, ainda no Oriente Médio, em execuções recentes, produtos das guerras, e aqui no Brasil, em conseqüência de problemas políticos, nós temos um dos mais debatidos temas do mundo jurídico universal: a pena de morte. Como vêem os espíritos que o iluminam e o acompanham, como vê você, Chico Xavier, com a sua autoridade e responsabilidade a aplicação da pena de morte, por qualquer que seja o motivo, em qualquer parte do mundo?
Chico Xavier – Nosso Emmanuel, que está presente, nos pede considerarmos – já que a personalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo está recebendo o enfoque de nossos pensamentos e de nossas palavras – nos convida a recordarmos com a máxima veneração pelas nossas leis e pelas autoridades que as expõem, ele nos solicita recordarmos, na condição de cristãos, a parábola do Bom Samaritano, um ensinamento considerado antigo, mas que há dentro dele uma nota de profunda significação. É que, dentro da parábola, existem todas as qualificações, menos uma: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder de malfeitores que o feriram e o deixaram sem nenhuma comiseração. Em seguida, passou um religioso, que o viu e seguiu adiante, Em seguida, veio um levita, que o viu também e passou adiante. Em seguida, veio um samaritano, considerado homem até mesmo sem nenhuma qualificação religiosa, mas era um samaritano e fez ali o papel da caridade, do amor que devemos uns aos outros. Em seguida, aparece um hospedeiro”. Todos os que apareceram foram qualificados pelo Senhor, menos a vítima: era um homem. E o homem, seja quem seja, merece o nosso respeito. Os últimos, que estão nas prisões, por crimes catalogados em nosso Código Penal, são doentes; naturalmente que a Justiça exerce a função de Medicina espiritual. Cada sentença é uma cirurgia no corpo espiritual daquele que necessitou da segregação para ser convenientemente tratado. Mas, nós somos cristãos. Não podemos censurar ninguém, mas devemos pedir a Deus para que os nossos magistrados, os responsáveis pelos nossos tribunais de Justiça se compadeçam de nós e que ninguém morra em nome da Justiça. Porque nós todos somos irmãos. O cárcere evoluiu tanto depois de Jesus! Nós temos penitenciárias que são verdadeiras escolas. Conheço, pessoalmente, a penitenciária de Neves, a 18 quilômetros da terra em que eu nasci, que honra o Governo do Estado de Minas Gerais. Nós devemos acreditar que a Justiça terá recursos para criar sentenças de tratamento espiritual, para segregar a nós outros quando nós estivermos em desacordo com os princípios da fraternidade e de respeito, que nos regem uns diante dos outros. Mas, a pena de morte é alguma coisa que merece a nossa oração, pelos nossos magistrados, para que eles não percam a alma cristã, o coração cristão, que lutamos tanto para edificar. Dizemos isto respeitando as determinações da Justiça em nossos tribunais. Mas, a vítima era um homem, um homem que, na parábola, não se sabia quem era, se ele era abastado ou menos abastado, se ele era amadurecido, se era jovem, se ele era um elemento da sexualidade dita normal ou uma criatura filiada a conflitos sexuais muito grandes – nós não sabemos a que classe pertencia aquele homem, de onde é que ele vinha, a que família pertencia, o que ele buscava. A vítima era um homem. E aqueles que estão considerados fora da lei são doentes que a Justiça saberá tratar, para os devolver ao equilíbrio e à normalidade. Mas, a vítima, na parábola, podia ser um de nós...

Almir Guimarães – Chico, enquanto o Saulo se prepara para formular a segunda pergunta do telespectador do auditório, formulo duas perguntas de telespectadores que endereçaram cartas e outro que telefonou há instantes. Américo Bastos diz que você repetiu duas vezes já, que Emmanuel, o chefe dos seus guias espirituais, está presente. Ele quer que você confirme ou desminta se é exato que Emmanuel foi em vida o, padre Manuel da Nóbrega.
Chico Xavier – Ele sempre confirmou isso. E dou disso testemunho. Creio mesmo que a minha presença junto deste auditório, dentro da minha pequenez, se deve a ele e à missão apostólica que sempre desempenhou no Brasil, desde os primórdios da nossa formação como nacionalidade e desde as primeiras fundações de São Paulo. Devo a ele a minha presença aqui, a ele que tanto tem amado o nosso País e cujo coração está sempre voltado para São Paulo, de onde ele recebe tanto amor e tanta oração, a que consagra, igualmente, tanto carinho. Aceito plenamente, convictamente a revelação dele mesmo, de que foi o padre Manuel da Nóbrega, companheiro do grande Anchieta.

Almir Guimarães – E Anchieta, onde estará? E o padre José de Anchieta, onde estará?
Chico Xavier – Ao que sabemos, no mundo espiritual.

Freitas Nobre – Permita uma observação rápida e histórica. Eu escrevi um livro sobre Anchieta, que obteve inclusive um prêmio nas comemorações nacionais de Anchieta e tive a oportunidade de encontrar e fotografar uma assinatura de Manuel da Nóbrega, aquelas assinaturas antigas, Ermano Manuel ou E. Manuel e tive ocasião inclusive de xerocopiar essa assinatura e encaminhá-la a Chico Xavier, dada a identidade que se apresentava entre Manuel da Nóbrega, que se assinava Emmanuel.

Almir Guimarães – E eu pergunto a você, Chico, ainda falando em Manuel da Nóbrega. É exato que, certa ocasião, há muitos anos, ele o conduziu ao pátio do Colégio e dali mostrou, então, a você, assim, uma visão panorâmica do que seria o São Paulo de hoje?
Chico Xavier – Sim, é verdade. Ele nos convidou a irmos até o pátio do Colégio, onde ele, muitas vezes, orou – afirma ele – pedindo a Deus abençoasse o chamado Planalto Piratiningano, esperando que, naquelas campinas que se alongavam aos olhos dele, nascesse a grande metrópole que é hoje a Grande São Paulo.

Almir Guimarães – Muito bem. Chico, Valter de Matos Correia pergunta: a ciência biológica tem cogitado da possibilidade de se congelar o ser vivo, humano ou animal, e, depois de passado algum tempo, fazê-lo voltar à vida. Considerando a intrincada rede de ligações existentes entre o perispírito e o corpo físico, perguntou: se, a luz do Espiritismo, isto seria possível. O espírito ficaria adormecido durante o congelamento ou este determinaria a imediata ruptura dos laços fluídicos vitais?
Chico Xavier – Segundo as instruções dos nossos benfeitores espirituais, se essa criatura está com a sua vida orgânica assegurada por métodos científicos, naturalmente que o espírito está mais ou menos relativamente ligado ao corpo em atividade, ou mais ou menos em posição de inércia, conforme o grau de relação de que esse espírito seja portador.

Almir Guimarães – Fica mais ou menos assim de plantão, aguardando o desfecho.
Chico Xavier – Aguardando, e como num desdobramento, em que a criatura trabalha muitas vezes fora do corpo, esse espírito poderá, também, estar desempenhando alguma tarefa se ele está, realmente, ligado ao corpo congelado.

Nelson Mancuso (do Auditório) – Irmão Chico, gostaria que me esclarecesse sobre a alimentação de carne, assunto dos mais controvertidos, quando sabemos que, segundo alguns, esse sacrifício dos nossos irmãos inferiores faz parte da evolução dos mesmos. Há muito tempo queria ouvir o esclarecimento do nosso querido irmão Chico, com a assistência do nosso Emmanuel.
Chico Xavier – Essa questão é uma questão antiga no mundo espiritualista. Nós temos nos apropriado da cooperação compulsória dos animais há muitos, muitos milênios. O nosso corpo espiritual está condicionado, em grande maioria de nós outros, à absorção das proteínas do reino animal. Então, se nós estamos ainda subordinados à necessidade de valores protéicos que recebemos da carne, não devemos entrar em regimes vegetarianos, de um dia para o outro, e sim educar o nosso organismo para realizarmos essa adaptação. Nesse sentido, muitas vezes, quando a nossa vontade já não mais se dirige para a alimentação com base na carne, precisamos considerar o nosso problema de saúde, ouvir um médico amigo, que possa nos aconselhar quanto ao problema de nossa alimentação, para que os nossos problemas de nutrição sejam resolvidos com harmonia e segurança, para não cairmos na perda de memória e em determinados desastres orgânicos, por falta de valores protéicos intensivos em nosso campo celular. Vamos pensar nisto e muitos de nós precisamos ainda da alimentação com base na carne, embora essa alimentação tenha para nós um valor de terapêutica. Isso parece uma racionalização, em Psiquiatria. Parece que nós estamos criando uma desculpa para comer a carne. Mas, não é bem isso. A maioria de nós ainda necessita da carne e para dispensarmos esse tipo de concurso dos animais precisamos tempo, para que a nossa reencarnação possa produzir os valores a que somos chamados. Nós todos somos chamados a produzir algo de bem e precisamos saúde, vida saudável, vida robusta. A pecuária ainda é um dos fatores da economia humana. Nós podemos tratar estes casos com ingenuidade, conquanto os animais nos mereçam o máximo respeito e não devemos criar situações de extermínio desnecessário para eles. Nós precisamos ainda da carne, precisamos de leite, dos laticínios, precisamos de muitos modos da cooperação dos animais, na farmacologia, na nossa vida comum. Por enquanto não podemos dispensar, mas, também, não devemos estar como senhores absolutos da natureza. Querendo bife de filé, carne de cabrito e peixe e carneiro, tudo de uma vez. Um pedacinho de carne...

Vitório Micheletti (Telespectador) – O nosso irmão Chico Xavier, do qual eu sou grande admirador, afirmou que a única salvação, a nossa salvação, é Jesus Cristo. Eu sou cristão. No entanto, eu perguntaria a ele – e aqui presente mesmo eu reconheço a presença de muitas pessoas que não são cristãs, são de várias religiões – aqueles do mundo, da humanidade, que não são cristãos, então, não alcançarão a salvação? Assim como, por exemplo, 800 milhões de chineses e outros tantos. A salvação está só em Jesus Cristo?
Chico Xavier – Há tempos, uma senhora nos procurou e alegou que o esposo não tinha religião, que era um homem reto e bom, mas, na condição, de companheira dele, ela sentia falta da religião no marido e pedia ao nosso Emmanuel que se externasse com respeito ao assunto, já que ela desejava fosse o marido portador da fé cristã. Então, disse o nosso Emmanuel que a Providência Divina tem pressa de que o homem seja bom, mas acreditar, isso fica para quando o homem possa realizar em si mesmo o campo da sua própria fé. Deus é pai de misericórdia, não deserda filho algum e precisamos adaptar a nossa fé cristã às dimensões do mundo de hoje, em que nós todos nos aceitamos como filhos de Deus, para termos uma vida de respeito recíproco. Temos as nossas idéias dispares, os nossos pontos-de-vista diferentes, mas, no fundo, somos todos filhos de Deus, e o conceito de salvação, também, sem qualquer ofensa aos nossos pontos-de-vista tradicionais em religião, o conceito de salvação sofre no mundo de hoje uma certa diferença. Quando nós dizemos: “O navio foi salvo. Foi socorrido e salvo. A casa foi salva do incêndio pelo Corpo de Bombeiros”. A casa foi salva para ser novamente habitada. O navio foi salvo para trabalhar. A salvação quer dizer reequilíbrio, reestruturação da nossa vida em Cristo Jesus, para que nós possamos servir a Cristo, servindo-nos uns aos outros. Agora, o Senhor, naturalmente, não tem os pensamentos de crítica nem de vingança contra nós, quando não possamos ter uma fé. Se nós nos amarmos teremos realizado o prodígio da felicidade humana, com a bênção dele. E amando-nos, vamos descobri-lo em nós mesmos.

Vicente Leporace – Meu prezado Chico Xavier, vou lhe fazer uma pergunta que precisa primeiro de uma preparação. O seu benfeitor principal, o espírito de luz Emmanuel, já teve possibilidade de se manifestar diversas vezes, corporificando-se, como acaba de dizer, em Manuel da Nóbrega, o padre Manuel da Nóbrega, e anteriormente corporificou-se no senador Públio Lêntulos, que foi contemporâneo de Jesus Cristo. Ele, através da figura de Emmanuel, seu guia, seu benfeitor, tem produzido milagres. Então, em sucessivas incorporações, ele adquiriu luz, a luz que se tem como ideal no espiritualismo. Então, é lugar-comum dizer-se que estamos de passagem sobre a face da Terra. Cada um de nós tem uma missão a cumprir. Chico Xavier, você tem a sua, de abnegado pastor e paciente ouvinte desses que fazem as perguntas mais disparatadas, e a todas dá uma resposta exata, dentro daquilo que se convencionou chamar, e você faz questão que se diga que nada mais é que o instrumento do espírito de luz, evoluído, de Emmanuel. Então, se cada um de nós vem cumprir, na terra, uma missão, depois dessa missão cada um de nós, então, acrescenta pontos às suas vidas pregressas, para disputar uma auréola, eu gostaria de perguntar, Chico Xavier, que espécie de missão vêm cumprir essas crianças que lotam aqui, em São Paulo, a Casa de Saúde André Luiz. São crianças que nascem cegas, surdas, mudas, aleijadas e a gente só sabe que vivem porque respiram. Então, eu pergunto, onde, dentro dos fenômenos cármicos, onde, dentro da evolução espiritualista, nós podemos condicionar essas crianças, essas criaturas de Deus? Que fazem elas sobre a face da terra, além de sofrer e de inspirar piedade aos que as cercam, aos que as abrigam, aos que as asilam, aos que as protegem e aos que as mantêm? Eu gostaria de uma resposta sua a essa pergunta, Chico.
Chico Xavier – Algumas vezes, temos sido orientados quanto à instrução a que se refere o nosso querido entrevistador, nosso amigo, Sr. Vicente Leporace. Quando cometemos o suicídio, quando perpetramos o homicídio, conscientemente, dilapidamos, em nós mesmos, determinadas estruturas do nosso corpo espiritual. Passamos, então, à condição de criaturas claramente alienadas, do ponto-de-vista do equilíbrio mental, na vida próxima. Sem o corpo, somos hospitalizados em cidades e colônias do mundo espiritual, pela benemerência de Nosso Senhor Jesus Cristo, através dos seus mensageiros, como verdadeiros doentes mentais em estado grave. E tão-somente o regresso ao corpo físico pode operar em nós, isto é, facultar-nos a possibilidade da reestruturação daqueles mesmos implementos do corpo espiritual que nós destruímos. Muitas vezes, a idiotia não é senão o processo de internação que solicitamos, por nós mesmos, de acordo com as nossas necessidades, para que venhamos a entrar num período de autotratamento intensivo. E nada dói tanto, e nada nos suscita tanto amor quanto uma criança doente. Pais, mães, conselheiros, orientadores, amigos, uma criança doente nos enternece! Uma criança doente é uma obra de Deus mutilada em nossas mãos! Mas, isso não vem de Deus, porque Deus nos criou para a harmonia, para a felicidade. Agora, nós criamos os mecanismos do sofrimento, da expiação, nós mesmos. O inferno reside em nossa própria mente quando nós infernizamos a nossa vida; quando entramos num processo de culpa intensiva, absoluta, conscientemente, nós estragamos a mossa vida cerebral, o nosso mundo mental. Nós obstruímos os canais do equilíbrio, perdemos a conexão com aqueles que são os benfeitores máximos da nossa vida, e eles mesmos, por amor a nós, nos ajudam, nos colocando em braços de mães maravilhosas, de pais abnegadíssimos, que nos ajudam em nossa própria reestruturação. Nada dói tanto como uma criança doente. Muitas vezes, ouvi amigos, com muita experiência da vida, indicando a eutanásia para os casos de idiotia. Mas, em nome de Jesus, nunca devemos fazer isto! Amar sempre os nossos filhos, os nossos descendentes que estejam nessa condição e, tanto quanto possível, ampará-los quando eles estejam desprovidos de lar. É uma bênção amparar alguém; amparar alguém como esses nossos irmãos, que estão em condições assim tão dolorosas, porque, amanhã, eles serão, também, nossos benfeitores. Bem-aventurados aqueles que puderem estender o coração e as mãos para as criancinhas que nascem nessa condição.

Freitas Nobre – Estando em vista a alta oportunidade da pergunta que foi formulada pelo nosso companheiro Ernani Guimarães Andrade, desejo apenas lembrar algumas anotações de atualidade sobre esta pergunta: os soviéticos fotografaram uma aura, ou como dizem eles, um corpo bioplasmático, interpenetrando o organismo físico, segundo revela a publicação americana “Notícias Psíquicas”, de setembro último. Esta informação vem complementada por outra, que certas doenças, antes de se manifestarem no corpo físico, se manifestam neste corpo bioplasmático. Não seria este corpo bioplasmático dos soviéticos a aura que envolve os grandes vultos da igreja católica, e o que os espíritas denominam perispírito? Teria esta constituição bioplasmática uma composição mais ou menos ectoplasmática? Ora, a pergunta foi plenamente respondida por Chico Xavier, e eu só li as observações dada a sua atualidade, em publicação recentíssima que foi acompanhada pelo eminente professor Ernani Guimarães Andrade. Então, a minha pergunta, agora, é com referência ao planejamento familiar: entendem os espíritos que o assistem, Chico Xavier, que o casal deve ter filhos à vontade, ou deve ou pode planejar a sua vida de acordo com as possibilidades do casal?
Almir Guimarães – Há, pelo menos, 10 perguntas no mesmo sentido, de telespectadores.
Chico Xavier – Allan Kardec, em “O Livro dos Espíritos”, afirma que não devemos – cremos estar traduzindo pensamentos do Codificador – não devemos controlar as ocorrências da natalidade enquanto estas ocorrências não perturbam os mecanismos da natureza. Diante da vida de hoje, a pergunta de Sua Excelência, o deputado Dr. Freitas Nobre, é muito válida, porquanto nós nos empenhamos, cada vez mais, para uma participação sempre mais ampla do Estado na assistência à Família, e, muito particularmente à criança, em vista dos problemas que a criação de alguém, que chega à terra, envolve, na atualidade. Precisamos solucionar muitas questões de assistência, instrução, de manutenção, de orientação, no lar e no grupo social, e, portanto, um casal tem o direito, perante as leis divinas, a considerar as suas possibilidades; é muito melhor considerar estas possibilidades do que entrarmos pela perpetração do delito do aborto, de vez que o aborto traz conseqüências ruinosas, claramente deploráveis, ao corpo espiritual da criatura. Sua Excelência, nosso deputado, Dr. Freitas Nobre, se refere à aureola dos santos que, sem dúvida, é constituída por emanações sublimes do estado de elevação em que o espírito dos heróis santificados do Cristianismo se encontra, mas, em contraposição, temos as criaturas que, no mundo espiritual inferior, se encontram num campo de sombras, às vezes quase que absolutas. Em 1936, conhecemos uma senhora amiga que praticou diversas vezes o aborto. Não era uma criatura perversa, mas entendia que estava agindo bem. Depois da sua desencarnação, depois de seis abortos, vimo-la no mundo espiritual, e ela estava em condições muito lamentáveis, e se lastimava da situação de irresponsabilidade a que se entregara nos domínios do aborto inconseqüente, do aborto sem orientação médica, do aborto terapêutico. Em companhia de amigos espirituais, então, perguntei pelo caso dela, e eles nos disseram que ela se reencarnaria, dentro de pouco tempo. Realmente, logo depois de 1942, ela reencarna, e, ultimamente, encontramos essa mesma senhora reencarnada no campo de nossas relações, e, com grande surpresa, mas com grande motivo para meditação, encontramo-la numa angústia muito grande, querendo se descartar de uma esterilidade que, para ela, nesta encarnação, é irreversível. Perguntei ao nosso amigo André Luiz, e ele, então, me disse que, de fato, nesta vida, ela, pelo anseio de ser mãe, vai reconstituir os seus órgãos genésicos para ser mãe em vida próxima. E ouvindo, também, um amigo médico, a quem eu perguntei sobre o assunto, ele me disse que esta criatura podia receber um diagnóstico claramente identificável na patologia comum, e amigos espirituais nos disseram que ela era portadora, segundo conceitos médicos, de hiperplazia glandular cística do endométrio. Além do mais, com resultados, com derivações muito lamentáveis em seus órgãos femininos. De modo que a vida no lar, nas grandes cidades de hoje, na vida de hoje, dentro de uma vida consciente, se podemos ser pais e mães, devemos emprestar as nossas possibilidades aos nossos amigos que precisam e desejam voltar à terra, mas, naturalmente subordinando isto ao nosso critério de administração da família.

Ernani Guimarães Andrade – Chico Xavier, alguns cientistas europeus, como o Dr. Constantin Reudvar, estão logrando obter, por processos eletrônicos, comunicações verbais com seres inteligentes de um outro mundo. Suspeita-se que tal mundo seja aquele habitado pelos que já viveram aqui e estão desencarnados. Pedimos a gentileza de nos informar se, realmente, já se está conseguindo tal intercomunicação eletrônica entre os vivos e os desencarnados, e, em caso afirmativo, perguntamos, também, se futuramente irá a humanidade conseguir ver desencarnados, usando aparelhos eletrônicos como, por exemplo, uma câmara espiritoscópica?
Chico Xavier – Emmanuel nos informa que cabe a nós todos formular os mais ardentes votos para que a ciência do mundo atinja esta realização. Até agora, o problema da comunicação entre os vivos, no plano físico, e os vivos, além da Terra, tem-se verificado através de processos mediúnicos, com emprego da própria criatura humana, na condição de veículo mediunêmico, mas esperemos que, coletivamente, sejamos merecedores de uma realização tal alta, porque, quando pudermos espraiar a convicção da imortalidade da alma sem o concurso deficiente de criaturas humanas – como eu mesmo, que tenho tido a tarefa de entrar em comunicação com amigos desencarnados, com profundo demérito de minha parte – quando nós chegarmos a esta condição de conquistar este processo de comunicação com fatores da ciência, naturalmente que a sobrevivência do espírito trará um novo sentido à civilização cristã no mundo, compreendendo-se que o nosso Divino Mestre nos deu a lição da imortalidade, com a sua própria ressurreição.

Durval Monteiro – Antes, eu queria fazer mais um protesto pelo recente “doutor”. Sabe, Chico, a velha mania de repórter fez com que seu amigo passasse uns três dias consultando livros, buscando a melhor fórmula para fazer as perguntas, tentando encontrar maneira para levantar polêmica, buscando incoerências nas idéias que você defende. De repente, a velha mania cai por terra, e o repórter se sente muito pequeno, ante um homem que, em meio ao caos do século, em meio a tanto desamor, estaria humildemente se balançando numa cadeira e falando do amor das cadeiras, do amor das coisas, do amor. Um homem que está aí exalando paz e amor. Foi exatamente aí que ocorreu a próxima pergunta: paz e amor. Estas duas palavras encerram a filosofia de um movimento jovem, que está tomando conta do mundo, o movimento “hippie”, eu acho que todos conhecem. Como é que você, Chico Xavier, vê o movimento “hippie”? Eles não seriam espíritos privilegiados?
Chico Xavier – Etnologicamente, eu vou informar ao nosso caro entrevistador, Dr. Durval Monteiro, que não conhecemos a significação da palavra. Tivemos oportunidade de conhecer irmãos nossos, filiados ao movimento “hippie” no Exterior. Ficamos a meditar se seria um protesto válido deixar o estudo e o trabalho, ou as disciplinas construtivas da vida, para edificarmos uma vida nova. Não pude, naturalmente, dentro da minha insignificância, formular qualquer julgamento, mas, sinceramente, tenho visitado, por várias vezes, a praça da República, na Grande São Paulo e visitado a chamada “Comunidade do Embu”, dentro da Grande São Paulo, e vejo que os “hippies” do Brasil apresentam trabalho, e onde há trabalho humano, há dignidade humana. Creio que seria válida uma pesquisa das autoridades competentes, ouvindo os nossos jovens, procurando conhecer quase as aspirações deles, como é que se estrutura o movimento “hippie” no Brasil, de que maneira este movimento pode ajudar a comunidade, porque sempre o espírito de Emmanuel me ensinou a filiar os meus impulsos a este princípio: respeitar a criatura humana pelo trabalho que ela oferece à comunidade, nunca escogitar, vascolejar o coração dos nossos irmãos, nem a consciência dos nossos irmãos, sejam elas quais sejam, mas respeitá-las pelo trabalho que nos ofereçam, e os nossos irmãos, dentro do movimento “hippie” no Brasil, mostram um trabalho artístico, artesanato admirável. Gostaria, de minha parte, de ouvi-los, saber deles como é que se organiza o movimento “hippie” e em que ponto poderíamos – o Senhor Durval Monteiro, que é um técnico de comunicações – como é que podemos dialogar, comunicar-nos uns com os outros, para sabermos qual é o nosso comportamento para com eles., que merecem o respeito e o apreço pelo trabalho que nos oferecem.

Almir Guimarães – Mas, aí eu acrescentaria à pergunta do Durval, com a sua permissão, Chico: então, o que diz você dos “hippies” dos Estados Unidos, que têm comportamento inteiramente diverso deste a que você se refere, no Brasil?
Chico Xavier – Não pude formular um juízo porque os nossos companheiros de humanidade na Grande São Paulo, que eu tenho conhecido mais intimamente, ultimamente, por espetáculo brilhante de trabalho que eles apresentam. Eles nos apresentam tarefas edificantes, concursos artísticos e realizações artísticas, às vezes admiráveis no lance a que eles conseguem atingir. Nos Estados Unidos e na Inglaterra não pude penetrar assim no movimento “hippie”. Estimaria vê-los trabalhando, para que eu pudesse ajuizar com mais segurança sobre o movimento, já que toda criatura humana é digna do nosso maior respeito. Refiro-me a “hippies” em Nova York e Londres.

Saulo Gomes – Como repórter privilegiado que fui durante 14 anos, há três anos e meio, recordo que trouxe para estas mesmas câmaras uma das mais sérias e importantes mensagens suas. No momento em que o mundo assistia ao início sério do transplante de coração, e que Barnard e Zerbini, nas respectivas posições, davam os seus grandes pacientes como quase inteiramente recuperados, produtos daqueles transplantes, trouxemos, em “tape”, o produto da mensagem psicografada por você, do professor Bezerra de Menezes, e que tecnicamente desaconselhava, àquela época, estes transplantes. Realmente, todos os transplantes se foram. Nenhum deles no dá, nesse momento, a certeza de que aquela mensagem não dizia a verdade. Em que termos você colocaria hoje o mesmo assunto, a mesma mensagem? Os transplantes ainda estariam em termos de 3 anos e meio, ou há uma posição diferente, já, para você dizer a todos?

Almir Guimarães – Sobre a pergunta do Saulo, tenho aqui, Chico, várias perguntas de telespectadores.

Durval Monteiro – Eu queria aproveitar e complementar, Almir, a mesma pergunta, só que com um adendo a mais: há alguma imposição espiritual, no fenômeno da rejeição, muito comum nos transplantes?
Chico Xavier – O assunto tem sido objeto de vários estudos, e nesta parte, com Emmanuel, com nosso amigo espiritual André Luiz, e outros benfeitores desencarnados. O problema da rejeição é nitidamente um problema de incompatibilidade dos tecidos do doador com os tecidos do receptor, mas o nosso André Luiz afirma, muitas vezes – e isso, respondendo ao nosso caro entrevistador, o nosso amigo e jornalista, Sr. Saulo Gomes – nosso André Luiz, que foi médico no plano físico, assevera que os transplantes devem merecer continuar merecendo o máximo cuidado, a máxima atenção da ciência, e que não podemos esquecer que, quando se verificou o transplante de córnea, com absoluto sucesso, em uma nação do norte da Europa, experimentou-se muitas vezes, até que se verificou que o transplante da córnea era possível conservando-se o tecido em câmara fria. O problema dos transplantes deve merecer o nosso respeito, e vamos pedir para que a nossa ciência médica continue para frente, conquanto não devem desprezar os órgãos chamados plásticos, tanto quanto possível, na substituição de órgãos no veículo físico, mas os transplantes merecem a nossa consideração, e devemos prosseguir.

Almir Guimarães – Chico, a jornalista Vilma, da revista Intervalo, presente ao auditório, está muito preocupada com as mortes coletivas. Ela quer saber, dentro da Doutrina Espírita, como se explicam as mortes assim aos milhares, em guerras, enchentes, em toda espécie de catástrofe. Justamente esta última aí, da Índia, da guerra com o Paquistão.
Chico Xavier – São estas provações coletivas que coletivamente adquirimos do ponto de vista de débitos cármicos. Às vezes, empreendemos determinados movimentos destrutivos, em desfavor da comunidade ou do individuo; às vezes, operamos em grupo; às vezes, em vastíssimos grupos, e, no tempo devido, os princípios cármicos amadurecem e nós resgatamos as nossas dívidas, reunindo-nos uns com os outros, quando estamos cumpliciados nas mesmas culpas, porque a lei de Deus é a lei de Deus: formada de justiça e de misericórdia.

Almir Guimarães – Muito bem. Dona Olga, Chico, pergunta: o plano espiritual admite a cremação de corpos?
Chico Xavier – Emmanuel, no livro “O Consolador”, afirma que a cremação é um processo legítimo de liberação do espírito desencarnado, apenas aconselhando que o tempo de expectativa deve ser mais longo nos climas tropicais e subtropicais, nada menos de 72 horas de câmara fria para o nosso veículo carnal, quando nos desvencilhamos dele, no caso de optarmos pela cremação.

Almir Guimarães – Desta pergunta até eu estou interessado na resposta. Ela vem de Uberlândia, e quem a traz é a doutora Ruth de Assis, professora de Direito Internacional Público, da Faculdade de Direito da Universidade daquela cidade, Uberlândia, e a faz por intermédio da TV Triângulo Mineiro, Canal 8, que está em rede com o Canal 4 apresentando este programa. Pergunta ela: o homem teme a morte porque a julga o fim de tudo, mas, para o Espiritismo, a morte é o renascimento. Como devemos agir para conseguir uma morte suave e tranqüila? É difícil, não é, Chico?
Chico Xavier – O Espiritismo não oferece a solução do problema como novidade, porque o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é u m hino à imortalidade da alma, e ele próprio nos deu o quadro inesquecível da sua própria ressurreição. A morte suave, do ponto de vista de continuidade de paz, para além desta vida, se deve à consciência tranqüila. Cumpramos os nossos deveres, compreendendo que a nossa responsabilidade tem o tamanho do nosso conhecimento. Cumpramos as nossas obrigações, e a morte será sempre uma passagem para uma vida melhor. Mas, se adquirirmos complexos de culpa, nós estaremos criando cadeias que nos aprisionam a processos de vida inferior, e vamos emitir, de nós mesmo, irradiações perturbadoras, suscetíveis de criar muita luta, muito conflito, naqueles de quem nos aproximamos, porque criamos estes conflitos em nós mesmos.

Anselmo Duarte – Ao nosso caro irmão Chico Xavier é para mim uma honra poder dirigir a palavra e fazer uma pergunta que tenho a impressão seria uma pergunta que muita gente gostaria de fazer. O que pensa você, como analisa os chamados milagres da Igreja Católica, ou seja, o aparecimento, a aparição de Nossa Senhora mãe de Cristo, em Lourdes, em Fátima, e, no caso de tratar-se de uma materialização espiritual, queria saber se, em algumas oportunidades, os chamados santos da Igreja Católica têm deixado mensagens através da religião espírita?
Chico Xavier – Nós nos sentimos muito honrados com pergunta do nosso grande líder de arte no Brasil, que é nosso querido e festejado Anselmo Duarte. Em nossa infância, e na primeira juventude, freqüentamos a Igreja Católica com o mesmo respeito com que nos dirigimos, hoje, a uma reunião espírita cristã, e sempre sentimos e reconhecemos, dentro da Igreja Católica, prodígios de espiritualidade inimagináveis. Muitas vezes, principalmente nas missas da manhã, quando era possível a comunhão de vibrações espirituais de todos os crentes numa só faixa de espiritualidade e de fé em Jesus, tivemos oportunidade de ver espíritos santificados que abençoavam as hóstias, e elas se transformavam como se fossem flores de luz, que o sacerdote oferecia na mesa da comunhão. Muitas vezes, principalmente no altar daquela que nós veneramos como sendo nossa mãe santíssima, vimos irradiações de luz que alcançavam toda a assembléia. Do altar consagrado a Santa Terezinha de Lisier, muitas vezes, vimos partirem rosas trazidas por criaturas desencarnadas, amigos e amigas católicos da cidade de Pedro Leopoldo, sem que eu pudesse explicar o fenômeno. Tivemos ocasião de, por misericórdia de Deus, e com amparo da comunidade espírita cristã, e sobretudo com a assistência de dois amigos extremamente queridos para nós, um de Uberaba e outro de São Paulo, tivemos oportunidade de visitar, pessoalmente, a cidade de Lourdes, e vimos, ali, demonstrações extraordinárias de fé, sentimos a espiritualidade do Evangelho, como se o Cristianismo estivesse renascendo na procissão em toda a sua pureza. Portanto, todos os fenômenos de bondade divina, através da Igreja Católica, que nós consideramos como mãe de nossa civilização, todos são legítimos, credores de nossa veneração. Nós não estamos separados, os evangélicos reformistas e os espíritas cristãos, por diferenças fundamentais. Os espíritos nos ensinam que nós estamos em faixas diferentes de interpretação, mas somos uma família só, diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que reverenciamos em sua santidade, o Papa, em nossos eminentes cardeais do Brasil, os protetores da nossa fé. Nós não podemos esquecer isto, e amamos a religião tradicional em tudo o que ela tem de belo, em tudo o que ela tem de divino, embora estejamos, pessoalmente, na faixa de um Espiritismo cristão, dentro das conceituações de Allan Kardec, porque a mediunidade nos chamava para este campo de trabalho, que também é profundamente cristão, e para ele, um dia, partimos de nossas atividades da Igreja Católica, com a bênção do sacerdote a quem nós amávamos como se ama a um pai.

Freitas Nobre – Pode-se dizer, então, ecumenicamente que religião boa é a que melhora o homem?
Chico Xavier – A religião é sempre boa, e toda religião é boa, isto é, quando fundada nos princípios do bem, que tornam os homens bons. Esta religião é o processo de ligação, processo de comunicação, vamos dizer assim, nos conceitos modernos de nossa vida nos tempos de hoje; é um processo de comunicação com as nossas forças divinas, que emanam de Deus. Todas as religiões que objetivam o burilamento da criatura humana, toda religião que nos traz esta legenda de paz e de amor autênticos, mas profundamente autênticos, sem nenhuma ofensa para ninguém, sem nenhuma desconsideração para ninguém, a que se referiu o nosso querido entrevistador, Dr. Durval Monteiro, a religião baseada nestes princípios é um caminho santo, que nós, como espíritas cristãos, respeitamos e devemos respeitar cada vez mais.

Almir Guimarães – Chico, estamos nos aproximando de três horas de programa. Tenho certeza que nem o público presente a este auditório, nem os telespectadores estão cansados, mas acredito que você já comece a sentir um certo cansaço.
Chico Xavier – Não.

Almir Guimarães – Vou pedir ao Saulo que formule mais uma pergunta a um espectador do auditório, ou telespectadora, para que possamos, então, passar a penúltima rodada da noite, porque a última você mais ou menos sabe de que forma irá se desenvolver.

Saulo Gomes – Pois, parece podemos dizer ao telespectador, que uma etapa do mundo israelita aqui está presente. É o professor Beni, que, em nome deste grupo de São Paulo, formula a sua pergunta. Ele tem um pouco de sotaque, porque não se trata de brasileiro.

Professor Beni – Tenho grande prazer de estar aqui, porque me interesso muito pelo estudo do Espiritismo. Gostaria de saber: eu fui convidado por umas pessoas do professor Herculano para assistir um trabalho de materialização, e eu cumpri as recomendações que me foram concedidas previamente. Eu presenciei alguma coisa, vi algo lá, não me lembro, aqui num bairro de São Paulo. A pessoa que foi comigo, outra pessoa israelita, eu vi tudo isto lá e ela me disse que não viu, absolutamente, e me acusou de mistificador. Eu gostaria de saber porque que eu vi esta manifestação e esta pessoa não viu?

Almir Guimarães – Entendeu, Chico? Ele participou de uma sessão de fenômenos de materialização, assistiu, viu as pessoas, viu os espíritos se materializarem, e o amigo não viu, e o amigo, então, o tachou de embusteiro, de mistificador. Ele quer saber porque, em sessões desta natureza, algumas pessoas podem observar a verificação destes fenômenos e outras não?
Chico Xavier – Cremos que o problema estará filiado à sensibilidade visual do ponto de vista psíquico, de nosso amigo, porque muitas vezes temos ido pessoalmente a reuniões, verificamos a presença de determinadas entidades, que nossos amigos não vêem. Acreditamos que o nosso amigo é portador do que nós chamamos clarividência mediúnica, talvez não muito desenvolvida, por enquanto, mas suscetível de encontrar um grau muito elevado de evolução, propiciando a ele mesmo ensinamentos muito grandes e lições que serão, para ele, verdadeiras bênção da espiritualidade superior.

Almir Guimarães – O Chico faz questão que se saiba que ele é de família muito humilde. O pai dele era vendedor de bilhetes, e, quando estava se aproximando o fim, estava próximo a deixar a Terra, ele disse ao Chico: “Olha, meu filho, por ocasião do Natal, Ano Bom, destes grandes prêmios da Loteria Federal, você não deixe de comprar um bilhetinho, porque eu vou tentar parar a roda”. Esta é uma história engraçada.
Chico Xavier – De fato, é um caso tocado de humor. De início, devo explicar que isto não significa qualquer desdouro à memória de meu pai, porque ele foi para mim meu melhor amigo. Ele era pai de 15 filhos, duas famílias: 9 da primeira família, seis da segunda, e nos tratava a todos na condição de um grande companheiro, que nos queria ver muito alegres e muito animados para viver e para trabalhar. Então, podemos rir, pois eu sei que ele, tendo conhecimento no mundo espiritual do que eu vou contar, ficará satisfeito, e se rirá muito conosco, porque meu pai era muito alegre neste mundo, e continua, também, muito contente e muito otimista no outro. Mas, em 1939, atravessávamos um período de muita dificuldade em nossa família. Muitas lutas, morte de irmão, que nos deixava a viúva, com 2 órfãos, 6 crianças menores, 3 não muito menores, mas, também, ocupando a nossa atenção, e meu pai e eu trabalhando. Meu pai, que era um homem muito arrojado para saciar os tropeços da vida, mas não tendo muitas letras, teve muita dificuldade em prosseguir no emprego que ocupava, no ano de 1925. Então, desde essa data, sentindo muita dificuldade para sobreviver como trabalhador, ele se entregou à profissão de cambista, vendia bilhetes de loteria, e vendeu bilhetes de loteria por mais de trinta anos consecutivos. Mas, enfim, tão logo meu pai caiu em estado grave, com um reumatismo muito renitente, este reumatismo impôs a ele uma certa paralisia durante algum tempo. Nesta ocasião, as duas pessoas que trabalhavam em casa éramos ele e eu. Mas, não conseguíamos muita coisa além dos duzentos mil reis. De modo que os médicos aconselharam que ele usasse um tipo de injeções que, naquele tempo, eram chamadas de injeções de ouro. Eu não classificaria do ponto de vista de farmacologia, o termo exato, mas cada injeção custava, naquele tempo, 150 mil réis. Ele era obrigado a usar duas por mês. Então, o nosso numerário dava mais ou menos para as duas injeções, e ficamos atrasados com as despesas da família durante quase um ano, porque as injeções restituíram a ele a saúde, ainda por muito tempo. No ápice da moléstia, saiu a lume a obra “Brasil, coração do mundo, Pátria do Evangelho”, de autoria de um dos nossos maiores escritores desencarnados no Brasil, e amigos de Belo Horizonte chegavam em nossa casa comentando o êxito do livro, porque o livro estava sendo muito bem aceito. Meu pai ouvia tudo aquilo com muita curiosidade. Então, um dia, quando ele estava ainda sem poder manejar as mãos nem as pernas – até que as injeções de ouro o restabelecessem, os banhos, aquele movimento de arranjo no leito eram feitos por nós, ele e eu, a sós – então, ele me disse: “Chico, eu soube que este livro que saiu de você foi entregue a beneficio das almas, e nós também somos almas, e dizem que você também entregou este livro a benefício da pobreza, e eu creio que não existem pobres mais pobres do que nós, agora. E você podia, agora, arranjar um livro para nós ganharmos algum dinheiro, porque nós estamos muito atrasados no armazém”. Eu disse: “Papai, o senhor não deve pensar nisto, porque o senhor sabe, nós temos muitos amigos, todos nos ajudam; mas, como paga, vender o trabalho dos bons espíritos, isto não é possível, eles não permitem isto. Nós estamos na mediunidade com absoluto desinteresse. Os livros são deles, não são nossos, e eu peço ao senhor não pensar nisso, não. O senhor não fique preocupado com isto, não, porque suas filhas, minhas irmãs, os filhos, os pequenos vão crescer, isto tudo vai melhorar, nós todos vamos trabalhar, e, na hora da dificuldade, nós todos devemos, mas depois pagamos, e os nossos amigos de Pedro Leopoldo são sempre boníssimos, eles vão nos ajudar, os nossos credores”. Ele disse: “Mas, meu filho, você não pode receber um tostão destes livros?” Eu falei: “Como paga, meu pai, não posso receber”. Ele disse: “Meu filho, então seus espíritos estão muito atrasados. Isto é gente que já morreu há muitos mil anos, no tempo que nada tinha preço”. E meu pai, que não entendia bem de literatura, nem deste mundo nem do outro, me disse assim: “Imagine que eles são bem antigos, que em vez de assinarem Manuel, assinem Emmanuel. É gente do Egito, gente que não conheceu rádio, que não conheceu preço do feijão, porque eu acho que estes espíritos, se são caridosos, deviam ter dó de nós”. Eu fiquei, assim, constrangido, porque, de fato, era meu pai. Aquela queixa dele era a queixa de um doente, que eu não podia transmitir a ninguém, então foi um dia que eu fiquei muito triste, com os olhos cheios de água, pois ele era muito bom. Então, ele falou comigo assim: “Olha, eu não vou te acariciar, porque minhas mãos não estão funcionando, mas não fica triste com o que eu falei, segue para frente com teus livros, com teus espíritos, porque eu vendo bilhetes de loteria, e, naturalmente, breve eu vou partir para o outro mundo, e eu, lá, à hora que morrer, meu filho, vou parar a roda para você. Quando for o mês de junho, mês de dezembro, você compra bilhete da Loteria Federal, que eu vou parar a roda e as bolas para você ganhar”. Então, até hoje eu compro, não é?... A Loteria Federal é a felizarda... Eu continuo comprando... Mas, eu, em junho e dezembro, continuo comprando.

Almir Guimarães – Chico, depois de amanhã correm os nove milhões de cruzeiros. Você já comprou o seu bilhete?

Chico Xavier – Comprei cinco tiras.

Almir Guimarães – De números diferentes?
Chico Xavier – Estão nas mãos de um amigo nosso, chamado Sr. Wicker Batista, de Uberaba. Ele fez a compra para mim, a meu pedido, para que depois eu fizesse o pagamento a ele. Guardei as cinco tiras, porque ele me entregou para guardar. Agora, sinceramente, eu não sei o dia que corre.

Almir Guimarães – Quarta-Feira, depois de amanhã.
Chico Xavier -... Muito caro, mas cinco tiras eu tenho.

Almir Guimarães – Chico, um telespectador quer saber de você, antes de passarmos à penúltima pergunta, com a equipe interna, se nas suas comunicações com seus guias do além, no espaço, existe também censura. Eu explico: censura de que maneira: se eles comunicam um fato a você que possa acontecer, ou qualquer coisa de maior importância, e impedem você de transmitir aos seus adeptos, aos seus fieis, esta comunicação.
Chico Xavier – Desde muito tempo o espírito de Emmanuel nos orienta que nós somos responsáveis pelas imagens que criamos na mente dos nossos irmãos. Portanto, ele nos ajuda a censurar tudo aquilo que possa vir por nosso intermédio. Até hoje tem sido assim, conquanto essa censura não impeça o auxílio que ele e outros amigos espirituais vão dar às pessoas necessitadas de socorro. Do ponto de vista literário, muitas vezes tenho tido a visita de poetas e escritores que desejam escrever nos temas que os sensibilizaram neste mundo, mas sem maior proveito para a fé. Eles, às vezes, querem escrever, conversam, falam de páginas maravilhosas se fossem escritas. Emmanuel corrige o assunto e não permite que as páginas venham por nosso intermédio, porque ele considera que, do mundo espiritual, para nós, deve vir àquilo que for construtivo, que possa nos ajudar.

Vicente Leporace – Apenas para esclarecer, Chico, que o seu pai, quando desencarnou, o sistema da Loteria Federal era diferente. Agora, não adianta que ele insista em parar a roda porque não é mais no sistema fichê. Agora, são esferas com o número completo. Cada esfera tem cinco algarismos. É uma roda como, por exemplo, essa que a gente vê em programa de televisão; são os números completos; são, 56 mil bolinhas enterradas numa urna e numa outra urna, posterior, na outra urna ligada, e se os prêmios, primeiro prêmio, segundo prêmio, etc., quer dizer que o seu pai estiver preocupado em parar a roda...
Chico Xavier (interrompendo) – Ah, eu acho que ele não consegue nem a guarda nem a dona. E eu devo estar muito feliz, porque não me falta nada e todas as dívidas foram muito bem pagas. Estamos muito bem, as meninas cresceram, se casaram, os rapazes, também, têm outras vidas. Estamos muito bem, eles e eu. Damião furou na loteria.

Vicente Leporace – E, depois, há mais a acrescentar o seguinte, Chico Xavier: acontece que os nossos números, o seu e o meu, estão sempre escritos em esferas bem maiores que aquela do buraco onde elas possam atravessar. Não vai sair nunca o prêmio para nós.
Chico Xavier – E, nosso caro amigo Vicente Leporace, falando...

Vicente Leporace – Eu quero falar justamente sobre meu pai, Chico Xavier. Aquele que lê, como eu leio, as coisas que dizem respeito ao Espiritismo, que praticam, que o evitam, também, num ramo do Espiritismo, eu estranho, Chico Xavier, e não acho quem o explique. Meu pai desencarnou em 1938, há 33 anos, portanto, e até hoje não chegou ao meu conhecimento, nem a ninguém da minha família, que, em qualquer circunstância, o espírito de meu pai tivesse se manifestado através de um médium, não só nas nossas relações como extra-relações, nunca soube que o espírito tivesse baixado. Então, eu lhe pergunto, Chico, meu pai tinha espírito gaiato, galhofeiro e transmitiu este espírito ao filho. Eu pergunto se um espírito, para se tornar superior e baixar à terra e ser pindocado, precisa passar por um crivo especial, se subordinar a um tratamento especial, como se opera esse fenômeno do espírito que baixa, vem à terra e se manifesta?
Chico Xavier – É, o assunto, devemos dizer, não é novo na Humanidade e a ausência aparente do senhor seu pai não implica numa falta d elevação. Ele estará continuando a dispensar aos familiares a mesma ternura de sempre e ter-se-á naturalmente subido, ter-se-á elevado muito. Mas, provavelmente, ele não terá encontrado ainda, os recursos à manifestação no plano físico: a ausência de um médium, condições adequadas para que ele se faça claramente reconhecido. Muitas vezes, os nossos queridos familiares encontram oportunidade para se expressarem em nosso benefício, mas, às vezes, o médium está em condições deficientes, e eles desistem de se comunicar conosco de modo imperfeito, porque provavelmente sairíamos numa surpresa menos construtiva e a perplexidade agiria em nosso desfavor. Acredito que o senhor seu pai estará auxiliando muito ao nosso amigo e a todos aqueles que ele deixou na terra. Estará esperando oportunidade.

Freitas Nobre – Vou usar de um recurso, mas muito legitimo, porque vou fazer duas perguntas dada a premência do tempo e a necessidade de fazê-las. A primeira é a seguinte: o texto evangélico lembra que não devemos separar o que Deus uniu. Argumenta-se, de um lado, que o casamento, portanto, é indissolúvel, e, de outro lado, que aquilo que Deus não uniu pode ser separado, porque não foi Deus que uniu. Pergunto, então, como os mentores espirituais de Chico Xavier interpretariam o texto bíblico e, em segundo lugar, há uma preocupação, ainda hoje os nossos companheiros de rádio me pediram: “Pergunte ao Chico Xavier, já que você vai ser um dos perguntadores, pergunta como é que a população deste mundo cresce desta maneira, se com o problema da reencarnação a fonte de vida para toda essa população teria origem exatamente onde?”. Essa pergunta dos companheiros de rádio é uma pergunta que ainda, anda, às vezes, nas preocupações gerais de muitas pessoas. É evidente que muitos de nós aqui podemos ter o nosso entendimento, a propósito do assunto, mas os nossos companheiros de rádio, que hoje estão tão interessados nesta matéria de espírito, me pedem para formular a pergunta e aí ficam as duas interrogações, pedindo a você desculpas pelo expediente que usei para formulá-las.
Chico Xavier – A primeira questão apresentada pelo nosso digno amigo, Sr. Deputado federal, Dr. Freitas Nobre, envolve o problema do divórcio no Brasil. Isso traz uma outra questão, que é a do desquite. Sem nenhum desrespeito às nossas leis, com absoluta veneração aos nossos magistrados, que são zeladores da nossa dignidade como povo cristão, mas os nossos amigos espirituais consideram que o desquite, facultado pelo artigo 316, de algum modo, sem qualquer irreverência, pode ser comparado, com todo o respeito nosso à dignidade dos nossos governantes e dos nossos legisladores, o desquite no Brasil pode ser comparado ao presente de um carro de luxo, que é doado sem o motor. O carro não pode funcionar porque o motor está de um lado e a estrutura do veículo de outro. No artigo número 323, do nosso Código Civil, existe a possibilidade da reconciliação dos cônjuges, seja de que modo for, e a lei, então, aprova a reaproximação dos cônjuges que não puderam viver juntos. Então, é o trazimento do motor ao carro, para que o carro venha a funcionar, da mesma forma pela qual o mesmo foi considerado em dificuldade antes do reajuste. Por isso mesmo, nós hoje vivemos em dimensões econômicas diferentes, em dimensões de intercâmbio diferentes, dimensões comerciais, dimensões diplomáticas muito diferentes daquelas que nos caracterizavam até 1916, quando o nosso Código era herdeiro de muitas das idiossincrasias do Código de Napoleão, e já diferente da lei 4.121, de 27 de agosto de 1962, considerada como sendo o estatuto da mulher casada. Nós, que vivemos hoje em dimensões tão grandes de compreensão humana, consideramos o divórcio como medida humana, medida legitima, porquanto dói ao nosso coração quando ouvimos, nas palavras públicas de nossos grandes magistrados, a palavra – desculpem-me – a palavra concubina para designar senhoras distintíssimas, grandes mães de família que estão em segunda, terceira ou quarta união, com absoluto respeito ao regime monogâmico que impera em nossas relações. Peçamos a Deus que as nossas autoridades possam ouvir os nossos sentimentos, mas não apressadamente, porque as leis não devem se alterar de um dia para outro, para que determinadas alas de criaturas, ainda não matriculadas na escola da compreensão humana, da ternura humana, venham a usar da magnanimidade de nossos preceitos legais. Nós vamos esperar que dias melhores venham para a família brasileira, e que o divórcio possa ser consagrado, como nós todos, como medida humana, porque do ponto de vista espírita-cristão, muitos, talvez, afirmem: mas, e a dívida de outras reencarnações? Muito bem, mas os nossos bancos fornecem moratórias, fornecem reformas, será que o banco da providência divina está em penúria tal que não possa dar tempo para depois resgatarmos as nossas dívidas, com determinados companheiros ou companheiras, para que nós não venhamos a cair, muitas vezes, em delinqüência, para salvaguardar os nossos interesses, a nossa integridade mental, mesmo? O divórcio é uma medida humana, mas nós devemos considerar – e isso torna digna a condição de espírita – nós, os espíritas, precisamos e sabemos respeitar a maioria católica da Nação brasileira. Por isso mesmo, fazemos votos para que o Soberano Pontífice, que nós tratamos com a máxima veneração, e que suas eminências, os cardeais do Brasil, e suas excelências, os senhores arcebispos e bispos do Brasil possam também obedecer esses nossos ideais, para que o divorcio venha tranqüilizar tantos adultos e legalizar tantos adultos e jovens que necessitam de semelhante medida, para que a paz e o amor – na fala do nosso entrevistador, Dr. Durval Monteiro – para que a paz e o amor reinem dentro do lar pátrio, do território brasílio, isto sem desconsiderar os princípios monogâmicos, os princípios de fidelidade que os cônjuges devem entre si, dentro das novas dimensões psicológicas em que os nossos grupos sociais são chamados a viver. Nós temos dois fantasmas que precisamos abolir do campo de nossas vidas, que são a promiscuidade e a prostituição. Nós podemos vencer a prostituição com a dignidade do trabalho, porque, pelo trabalho, cada criatura se faz respeitada pelo rendimento de sua própria vida no grupo social, e a promiscuidade pela orientação médica que vai liberar a nossa mente de aventuras suscetíveis de comprometer o futuro de nossos descendentes. Mas, o divórcio sem nenhum respeito à família brasileira, que é profundamente cristã, é medida humana, pelo que devemos esperar que os nossos magistrados reconsiderem os pontos de vista em andamento, e quem processos novos de vivência possam inspirar essa lei de libertação, que é uma lei justa em favor da paz de nossos lares, com emancipação para o homem e para a mulher, sem as ilusões e fantasias do amor possessivo, do amor egoístico, de um lado ou de outro, porque cada um é senhor do próprio destino. Quanto à população, nós podemos dizer, podemos esclarecer ao nosso caro informante, que a população, vamos dizer, flutuante do globo terrestre é muito grande, e que os orientadores de economia na Europa são quase unânimes em asseverar, a maioria deles, que o nosso planeta ainda comporta, talvez, mais de 30 bilhões de habitantes, desde que, venhamos a explorar, também, as possibilidades no mar, porque há toda uma flora e toda uma fauna a esperarem por nós no mar. Conversando a esse respeito, há algum tempo, com alguns jovens, quando falávamos a respeito da pecuária com base na produção, um deles me disse, com muita propriedade, em seu sentimento cristão: “Mas, Chico Xavier, será possível, que vamos viver até à morte matando para comer?”. Sinceramente, eu me envergonhei, porque é verdade: matarmos, matarmos para comer. Mas, com base na pecuária justa, com base na economia bem dirigida, nós precisamos viver, ainda, talvez milênios necessitando dos valores protéicos, adquiríveis na carne.

Ernani Guimarães Andrade – Chico, nós sabemos, atualmente, pelos estudos que se fazem no tocante à reencarnação, estudos esses levados a efeito por cientistas de grande gabarito, como o professor Ian Stevenson, que é professor de psiquiatria e neurologia na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos – sabemos, hoje, com base em observação experimental, que o espírito pode, de uma encarnação para outra, mudar de sexo, e poderíamos até dar um nome a esse fenômeno de transexualidade. Eu pergunto a você: haveria alguma relação entre o homossexualismo e transexualidade no sentido encarnatório?
Chico Xavier – Na maioria dos casos, sim, conquanto o serralho, na antiguidade, e as guerras de longo curso tenham estimulado determinando tipo de costumes menos construtivos; mas não devemos desconsiderar, de maneira nenhuma, a maioria de nossos irmãos que vieram e que estão na terra em condições inversivas, do ponto de vista de sexo, realizando tarefas muito edificantes em caminho de redenção de seus próprios valores íntimos. Consideramos isso com muito respeito e acreditamos que a legislação do futuro, em suas novas faixas de entendimento humano, saberá criar, dentro da família, sem abalar as bases da família, a legislação humana saberá incorporar à família humana todos os filhos da humanidade, todos os filhos da terra, sem que a frustração afetiva venha a continuar sendo um flagelo para milhões de pessoas. Num congresso de neurologia, realizado há muito pouco tempo, se deu especial destaque ao problema da fome. É verdade que o problema da fome é removível com a redistribuição do trabalho, com a administração criteriosa do trabalho para a criatura humana em todas as idades de sua posição válida no plano físico. Mas, a frustração afetiva é um tipo de fome capaz de superlotar os nossos sanatórios e engendrar os mais obscuros processos de obsessão e, por isso mesmo, devemos ter esperança de que todos os filhos de Deus, na Terra, serão amparados por leis magnânimas, com base na família humana, para que o caráter impere acima dos sinais morfológicos e haja compreensão bastante para que os problemas afetivos sejam resolvidos com o máximo respeito às nossas leis e sem abalar, de um milímetro, o monumento da família que é base do Estado.

Durval Monteiro – Minha pergunta é rápida, Chico. Em que instante da gestação ocorre a reencarnação e o espírito tem consciência disso?
Chico Xavier – O nosso André Luiz costuma dizer que a consciência disso é um fenômeno raríssimo. Na maior parte, talvez 99% dos casos de reencarnação, a criatura está na posição de quem dorme, no claustro materno, para o renascimento dentro de um processo um tanto ou quanto semelhante à anestesia para as cirurgias no terreno humano: um certo torpor, e a criatura vão acordando aos poucos; aos poucos, a ciência vai verificar que a recapitulação do processo evolutivo não se verifica tão somente na fase embrionária da nossa vida fetal, mas, alguns anos depois do nascimento, a criança está repetindo, na sua feição de criaturinha impulsionada por movimentos saltuários, determinados tipos de impulsos que ficaram na retaguarda. E o próprio complexo de Édipo, que muitos dos nossos psicoanalistas consideram como sendo um período que vai de depôs dos três, dos seis meses de nascimento até 6 ou 8 anos, com as eliminações desse mesmo complexo às derivações edipianas – esses complexos todos são plenamente compreensíveis com o fenômeno da reencarnação e do nascimento da criatura em estado de reajuste gradativo.

Saulo Gomes – Acho que é importante e necessária uma sua mensagem sobre o tema: Amor Livre.
Chico Xavier – Diz o nosso irmão que o amor, como fonte divina de manifestação de Deus, é o oceano de força em que nós todos vivemos, porque nós todos vivemos num oceano de amor, mas que p sexo é responsável quando instrumento do amor. Portanto, as nossas ligações de natureza sexual devem obedecer ao critério da lei, da palavra empenhada, do compromisso, da monogamia, enfim, embora nos amemos infinitamente uns aos outros; mas, no terreno do sexo, o amor precisa de represa para que ele não faça uma inundação destrutiva, criando calamidades sentimentais suscetíveis de arrasar com a família, com a nossa organização social. O amor, vindo de Deus, é livre, mas, no sexo, ele, o amor, é responsável.

Almir Guimarães – Chico, o nosso irmão D´Angelo Neto – você deve conhecer – já desencarnado, preocupado com a questão da legalização do jogo no Brasil, cuja tese já ganhava o apoio de espíritas, comandado na Câmara Federal ou no Senado da República, pediu a opinião do Dr. Bezerra de Menezes, e, por seu intermédio, obteve resposta: legalizado ou não, o jogo é imoral. Que pensa você à respeito? Dr.Bezerra estava certo ou errado?
Chico Xavier – Gostaria de futuramente reconsiderar o assunto, num estudo mais pormenorizado, porque o assunto é dependente de deliberações legais daqueles que nos governam e que nós precisamos tratar com o máximo respeito. Futuramente, espero que o Dr. Bezerra de Menezes confirme ou não, guardadas as dimensões, as finalidades, os objetivos, as diretrizes do assunto.

Almir Guimarães – Tem aqui uma outra pergunta feita, também, pelo Dr. Domingos Pimentel de Ulhoa, que é o reitor da Universidade de Uberlândia. Ele pergunta: “O senhor, com segura obstinação, afirma não ser o autor das 111 obras psicografadas, já editadas. Entretanto, o senhor, em entrevistas, pronunciamentos, escritos vários, em estado não mediúnico, demonstra excelentes qualidades intelectuais. Pergunta: está ou esteve em suas cogitações escrever e editar uma obra não psicografada? Não seria a mesma de uma utilidade, quando menos para um estudo de literatura comparada, capaz de dirimir algumas dúvidas residuais ainda presentes na análise do seu trabalho?”.
Chico Xavier – Quando vimos à televisão estimamos falar com nosso coração dentro de toda a nossa autenticidade, enquanto nos reconheçamos uma criatura microscópica ao estarmos na presença de um auditório assim tão seleto. Mas, aos 12 anos de idade, compreendi que a minha vida estava em conflito, grande conflito de sentimentos. O sacerdote católico que me orientava me auxiliou muito, até que os amigos espirituais chegassem à minha vida e me trouxessem o benefício da doutrina espírita, com a orientação para os pequenos recursos mediúnicos de que sou portador. Quando ouvimos o espírito de Emmanuel pela primeira vez, e que ele nos fez compreender a importância do assunto, nós nos informamos com ele de que, em outras vidas, abusamos muito da inteligência, nós, em pessoa, e que nesta consagraríamos as nossas forças para estar com ele na mediunidade, nos serviços de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Espiritismo e, por isso mesmo, coloquei minha vida nas mãos de Jesus e nas mãos dos bons espíritos. Creio que, se fosse escrever, conseguiria escrever alguma coisa, mesmo porque, depois de 40 anos de livros mediúnicos, seria impossível que eu não pudesse traçar algumas páginas. Mas, renuncio a isto, porque considero a imensa significação dos trabalhos dos bons espíritos por nosso intermédio. Não vemos nenhum proveito com a nossa intromissão na obra deles, respeitamo-la como todos aqueles que se beneficiam dos livros deles. Sabemos que os livros não são nossos. Quanto mais avança o nosso tempo de idade física na terra, mais reconhecemos que a nossa pequenez é cada vez mais reconhecível, mais identificável e que a bondade dos bons espíritos é sempre mais ampla em se tratando do meu caso pessoal, que não mereço, absolutamente, a consideração deles. Então, eu devo declarar de público que, embora eu nada tenha para dar, como um animal, que vai a uma carroça para cooperar na distribuição, vamos dizer, de cartas ou de medicamentos ou de certos benefícios ou de algumas utilidades, eu aceitei o serviço com os bons espíritos e peço a Deus que me dê a felicidade de desencarnar nesta função.

Blecaute (cantor) – Senhor Francisco Xavier, a emoção é tão grande que eu não sei se é uma pergunta, não sei se é um conselho. Eu sou pinhalense, sou de Pinhal. Minha mãe foi mãe preta da família Vergueiros, Márcio Porto, e aos 6 anos vim para a Capital, São Paulo, já órfão, me criei nesta cidade e a música fez com que eu entrasse para o meio artístico. Vivo no Rio, tenho uma família linda, tenho quatro filhos, todos os filhos nasceram em São Paulo, sendo que o caçula tem 6 aninhos. Mas, caçula adotiva, minha filha já é professora, meu filho caminha para a eletrônica; o meu desespero é o problema de saúde. Estou desesperado. Estou trabalhando aqui, na TV - Tupi, programa Airton Rodrigues, e sempre fui um homem calmo, um homem tranqüilo, um homem alegra. Agora, enfrento problemas na minha família. Meu irmão Benê está doente., o meu irmão Antonio é um homem cristão, um homem que está na linha de Allan Kardec, porque estuda muito sobre o Espiritismo. Ele é mariano, pertence à Igreja Santa Rosa dos Perdizes e é uma das pessoas de ligação do frei Vicente. Eu estou numa situação difícil. Há bem pouco tempo, tive um problema de coração, fui socorrido no Itaim, no Pronto Socorro Itaim, levado por um colega de imprensa, que é o Otavio (do Jornal da Tarde), que me conduziu no seu próprio carro. Eu gostaria que o senhor me desse um conselho, pois estou desesperado. Minha patroa está no Hospital, no Rio de Janeiro, Ordem da Terceira Penitência, leito 306, chama-se Rosa de Oliveira, também Pinhalense; eu queria que o senhor me desse uma proteção, me desse um caminho...
Chico Xavier – Nós queríamos dizer ao nosso caro amigo, que é credor de tanto carinho e de tanto respeito de nossa parte e no Brasil inteiro, que a sua palavra suscita em nós a máxima simpatia. De minha parte, posso tão pouco, mas, vamos pedir a nossos amigos espirituais que inspirem os nossos médicos, tão humanitários, tão generosos, que nos possam estender as mãos, em benefício de nosso querido companheiro e dos seus familiares. A sua palavra é uma palavra iluminada de amor que nos toca profundamente o coração. E nós todos havemos de vibrar, de orar, de compartilhar da sua luta, tanto quanto nos seja possível, e estejamos convencidos disso que não faltará o apoio necessário ao nosso querido amigo, tanto da nossa comunidade, aqui presente, como também de nossos benfeitores espirituais. A dor tem a sua função em nossa vida, mas o próprio Jesus aceitou o amparo de um cirineu. É muito natural que choremos, muito natural que gemamos, mas, nós temos bons amigos, bons companheiros. Sempre os encontrei. Nunca me faltou a bênção de Deus, e nos dias mais difíceis, quando tudo parecia à minha frente dificuldade insuperável, solidão irremovível, apareceu sempre a luz , no campo da amizade, naturalmente inspirada por Nosso Senhor Jesus Cristo, para me amparar, e nosso amigo também há de receber.

Vicente Leporace – Eu não quero perder a oportunidade que me oferece um cidadão presente aqui, que pediu que não lhe declinasse o nome. Ele quer saber do próprio Chico Xavier a resposta à pergunta que ele formula por meu intermédio: Chico Xavier, por que até determinada data você se negava, peremptoriamente, a conceder entrevistas em público, principalmente na televisão, dizendo-se impedido pelos seus espíritos guias, espíritos benfeitores, espíritos superiores, e, de um certo tempo a esta parte, esses espíritos guias permitiram que você aparecesse em público? Isso quer dizer o que? Que você vai se reunir aos espíritos superiores em futuro bem próximo?
Chico Xavier – Agradeço muito ao nosso querido amigo, entrevistador, Vicente Leporace, porque esta pergunta complementa a questão suscitada por nosso amigo de Uberlândia. O nosso Emmanuel sempre me disse: “Depois que você for o aparelho mediúnico para o lançamento de 100 livros, nós permitiremos que você converse algumas vezes publicamente, com os nossos irmãos. Você não escreverá livros em pessoa, porque você mesmo renunciou a isso. Não é um ponto de vista nosso, seus amigos espirituais, mas de seu espírito fatigado de mitos abusos (Eu me refiro a mim), dentro da intelectualidade, que quis agora ceder as suas possibilidades físicas a nós outros os amigos espirituais”. Então, depois de 100 livros, o que foi completado em 1969, ele permitiu que eu viesse algumas vezes à televisão. Agradeço muito àqueles companheiros, àquelas autoridades que me têm convidado para outros programas. Devo declarar que eu estou impossibilitado de assumir compromissos para vir à televisão, periodicamente, com muita freqüência, porque não posso; não posso porque as tarefas mediúnicas no livro, em nossas reuniões públicas de evangelização, nos tomam a possibilidade. Muitas vezes nos comovemos diante de cartas, de apelos de amigos, que nos viram através da TV e que nos escrevem às vezes, esperando uma carta mais longa. Eu tenho respondido tanto quanto possível a todos, mas aproveitamos esta hora, que o nosso caro amigo, o Sr. Vicente Leporace, nos possibilita com a sua bondade, para rogar perdão a quem ainda não respondemos, porque isto não depende da nossa vontade, é porque o serviço tem que ser feito por nossas próprias mãos e o espírito de Emmanuel nos reclama, e com muita propriedade, que todas as páginas do mundo espiritual saiam da máquina de escrever com revisão deles, embora tenhamos muitos amigos que nos ajudam a datilografar essas páginas. Especialmente, peço perdão a uma grande dama paulistana, a senhora escritora dona Kátia Seeirupe, cujas cartas me sensibilizaram tanto. Eu rogo ao coração de mãe dessa senhora que me perdoe, por eu não ter respondido ainda. Mas, o seu coração de mãe está em meu coração e Deus há de ampará-la e há de abençoá-la em seu apostolado. A fala na televisão é depois dos 100 livros, mas eu não mereço.

Freitas Nobre – No plano da criação, entendendo Deus como criador, o Espiritismo considera o homem como co-criador em ponto menor?
Chico Xavier – Em ponto menor. Diz Emmanuel que era como, guardadas as devidas proporções, numa firma doméstica familiar. O pai tem os filhos. O pai empreende muitas empresas, mas, o filho também pode empreender e aperfeiçoar o trabalho paterno, ou, às vezes, também, complicar para depois vir a ajustar e aperfeiçoar, de acordo com a vontade paterna. Porque a maravilha da criação é que o Senhor nos permite errar para aprendermos, mas o homem é co-criador do criador, cooperador consciente de Deus.

Liba Friedman – Eu queria perguntar ao Chico por que todas as grandes conquistas da humanidade acabam virando armas de extermínio?
Chico Xavier – Há um ponto que nós precisamos considerar, é que nós outros, os religiosos, não temos sido tão fieis quanto deveríamos ser aos postulados, às convicções que aceitamos. Nós vemos que a ciência, supostamente materialista, mas a ciência acreditou na eletrônica e já chegou à Lua. Nós estamos com o amor que Jesus nos legou para colocar em prática, a benefício da fraternidade humana, e ainda não o conseguimos. Pedimos, então, à nossa querida Liba Friedman – que nós admiramos muito em todas as suas páginas, transbordantes de ternura humana – pedimos à nossa querida companheira e distinta jornalista Liba Friedman para considerar que este assunto é pertinente a todos nós que aceitamos o Cristianismo; ou então, como diz um dos nossos amigos que escreveram uma pergunta, aqui: e os outros povos que ainda não conhecem Jesus? Eles também estão sob a tutela do governador espiritual da terra, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, receberam e recebem mensageiros de toda a ordem, e há muitos milênios e muitos séculos para que também se aperfeiçoem; todos eles recebem de Jesus a manifestação de socorro conquanto não o conheçam, como muitos dos brasileiros que não conhecem as autoridades pessoais que nos governam e de cuja atuação nós recebemos os benefícios de cada dia. Então, o dia que colocarmos os preceitos de Jesus em prática, em nossa vida particular e coletiva, nós chegaremos à paz e ao amor.

Almir Guimarães – Vamos, então, para a apresentação da última parte do nosso Pinga-Fogo Especial desta noite, que lhes apresentou uma das figuras de maior projeção no campo espírita do Brasil e do mundo, o médium Chico Xavier. Ele, neste instante, está se concentrando, a fim de que possa atender nosso pedido, psicografando uma mensagem de Ano Bom a todo este auditório que, depois de 4 horas de programa, permanece firme aqui no Canal 4 e aos milhares e milhares de telespectadores da Capital de São Paulo, de todo o Interior de nosso Estado e de demais Estados Brasileiros, que também assistem esta noite com o maior carinho Chico Xavier. Ele se concentra para psicografar esta mensagem solicitada pelo mediador.

(Depois de psicografar durante alguns minutos, lê alto, para todos ouvirem)

Brasil


Brasil, o mundo a escutar-te
Pergunta hoje o que é.
Ah! Terra de minha vida
Responde as Nações de pé.

Das montanhas altaneiras
Dentro das próprias fronteiras
Alonga os braços Sansão

Sem prepotência ou vanglória
Grava no livro da História,
Novo Rumo à evolução.

Contempla a sombra da guerra
Dragão de lodo a rugir
Envenenando a cultura
Ameaçando o porvir.

Fala assembléia de braços
Aos milhões de homens escravos
Sábios, loucos Prometeus.

Do píncaro a que te elevas
Dissolve os grilhões das trevas
Na fé que te induz a Deus.

Brada gigante das gentes
Proclama com destemor
Que o Cristo aguarda na terra
Um novo mundo de amor.

Ante a grandeza que estampas
Os mortos voltam das campas
Sublimando-te a visão.

Ao progresso Fernão Dias,
O dever mostra Caxias,
Deodoro a Renovação.

Dos sonhos de Tiradentes
Que se alteiam sempre mais
Fizeste apóstolos, gênios,
Estadistas, generais.

De todos os teus recantos
Despontam palmas de santos,
Augustos pendões de heróis.

Astros de brilhos tamanhos
Andrada, Feijó, Paranhos,
Em teus céus brilham por sois.

Desde o dia em que nasceste
Ao fórceps de Cabral,
O tempo se iluminou
Na Bahia maternal.

Hoje que mundo te espera
Para as leis da Nova Era
Por Brasília envolta em luz.

Que em ti a vida se integra
De Manaus a Porto Alegre
No espírito de Jesus.

Ao resguardar o Direito
Mantendo a Justiça e o Bem
Luta e rasga o próprio peito
Mas não desprezes ninguém.

Levanta o grande futuro
Ergue tranqüilo e seguro
A Paz nobre e varonil.

A humanidade que chora
Clamando: “Senhor, e agora?”.
O Cristo aponta: Brasil.

Castro Alves.


Almir Guimarães – Chico, a você os nossos melhores agradecimentos, mais uma vez, pela presença no Pinga-Fogo. Digo a você que volte a Uberaba, como disse da outra vez, levando consigo a certeza de que você proporcionou esta noite, a milhares e milhares de brasileiros, horas bem felizes de esperanças no futuro, que, por certo, há de vir. Chico, são seus instantes finais do nosso Pinga-Fogo desta noite, para o seu até breve aos telespectadores e ainda ao público que lota literalmente este auditório.
Chico Xavier – Nós agradecemos à bondade de Jesus, a oportunidade que nos foi concedida nesta noite, pela TV – Tupi Canal 4, e a todos os companheiros que, em São Paulo, nos ampararam tanto com a sua presença e com sua bondade. Nós estamos agradecendo à nossa grande cidade de São Paulo este carinho, esta bondade, que nos seguem todos os dias, sem palavras que possam expressar o nosso reconhecimento. E pedimos, ainda, a oportunidade, ao nosso caro amigo Dr. Almir Guimarães, tanto quanto rogamos aos nossos amigos presentes, nossos queridos companheiros paulistanos e paulistas, permissão para enviar, simbolicamente as flores que nos foram oferecidas aos nossos irmãos e benfeitores da terra de Uberaba, a cidade mansão, a cidade bênção, de cuja bondade imensa tanto temos recebido. Nós pedimos a São Paulo e a Uberaba, permissão para levar o nosso coração reconhecido ainda mais longe. Dizem que os ingratos perdem a memória e que acabam sem identificar eles mesmos. Quero agradecer a Pedro Leopoldo a reencarnação que me deu, a bondade com que me criou e acompanhou todos os passos, em nossa cidade, na colina onde nós reverenciamos os nossos mortos, pedindo-lhes a bênção até os últimos eucaliptais, quando nos ligam à capital de Belo Horizonte. Nós sempre celebramos o Natal, seja nos templos católicos, casas espíritas cristãs, com o espírito de união. Lá, nossos pais nos criaram amando a Jesus, e amando tanto, que a imagem de Jesus nunca se separou de nossa memória nem da nossa lembrança. Fôssemos ou sejamos católicos reformistas, reformistas ou espíritas evangélicos – com permissão de São Paulo e com o consentimento de Uberaba, cidades, comunidades a quem devo tanto, a quem empenho meu coração – meu pensamento vai até Pedro Leopoldo a nos unirmos com os nossos cânticos de Natal e dizer a todos os nossos amigos presentes aqui ou não, em seus lares: Glória a Deus nas Alturas, Paz na Terra r Boa Vontade para com todos os homens. Feliz Natal a São Paulo e a todos! Muito obrigado.