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“O espírita não
pode ser conservador por natureza, de maneira nenhuma. Se todos
nós admitimos o princípio da liberdade, ao qual está ligado o da
igualdade, devemos incluir também o da justiça. E como um fator
unindo estes três princípios, está a idéia da fraternidade.”
Esta afirmação, dentre outras, demonstra que mesmo depois de
mais de 20 anos, o pensamento social espírita de José Rodrigues
permanece atual, vivo, como se fosse hoje. A presente entrevista
que o PENSE republica, foi concedida pelo jornalista, economista
e cofundador deste site ao jornalista Itacir Luchtemberg, para o
periódico espírita “O Imortal”, de Cambé-PR. Ela é parte
integrante da edição de dezembro de 1986, ano 34, nº 396. Veja a
seguir a íntegra da entrevista:
Jornalista há
muitos anos — tendo trabalhado como redator econômico e editor
de Economia em jornais santistas — José Rodrigues,
além de redator do jornal “Espiritismo e Unificação”, é também
dirigente da Dicesp - Difusão Cultural Espírita, editora que tem
auxiliado a ampliação do debate em nosso meio, graças ao
pioneirismo e a coragem de colocar ao público espírita títulos
de grande atualidade, como “Espiritismo e Política”, de Aylton
Paiva, “O Poder no Movimento Espírita”, de Jaci Regis, e tantos
outros. Nesta entrevista, concedida ao “O Imortal”, José
Rodrigues mostra-se polêmico, mais uma vez, mas não deixa de
transmitir a simpatia daqueles que se sabem movidos pelo amor à
verdade, pelo respeito ao pensamento adversário, pelo desejo de
contribuir para o engrandecimento de todos.
P: - Como
você vê a questão da representatividade do movimento espírita no
meio social?
R:
- Qualquer grupo ou movimento organizado que emita sua opinião,
deve deixar bem claro que tipo de representatividade possui,
quais as pessoas que participam daquele grupo, nunca ninguém
falando em nome do outro. Nós aqui, por exemplo, vamos falar em
nosso nome. Acho bom, no Espiritismo, a gente não ter uma
representatividade muito organizada, pois isso è perigoso. Quase
todos os grupos que pretendem ter representatividade acabam
falando em seu nome daquilo com que você não concorda. Assim,
devemos deixar bem claro que os grupos que se organizam — as
entidades ou movimentos dentro do movimento espírita — falam em
seu nome. É preciso que isso fique bem caracterizado.
P: - Na
época da campanha pelas Diretas-já, o jornal "Folha Espírita",
de São Paulo, dirigido pelo deputado Freitas Nobre, fez uma
pesquisa para saber a opinião dos espíritas sobre o assunto. A
constatação foi, até certo ponto surpreendente, pois a imensa
maioria dos espíritas se declarava favorável às eleições
diretas. Isto, no seu entender, revela um avanço político dos
espíritas, acabando com aquela idéia, que geralmente se tem, de
que o espírita é, essencialmente, conservador?
R:
- O movimento espírita passou, também, por uma fase de repressão
às idéias. Houve, nesses últimos 20 anos, muita contenção e, no
início, pode-se mesmo dizer que muita repressão. O Movimento
Universitário Espírita de Campinas-SP, por exemplo, foi
praticamente reprimido pelo movimento espírita. O Jacob
Hollzmann Neto se afastou do movimento e resolveu desenvolver
suas próprias idéias noutro ambiente, pois não encontrava campo
no meio espírita.
Agora, com esse
processo de abertura no Brasil, o movimento espírita também foi
atingido. O espírita não pode ser conservador por natureza, de
maneira nenhuma. Se todos nós admitimos o princípio da
liberdade, ao qual está ligado o da igualdade, devemos incluir
também o da justiça. E, como um fator unindo estes três
princípios, está a idéia da fraternidade. Veja que já estamos
entrando, aí, no campo doutriná¬rio, pois a liberdade, a
igualdade e a justiça, unidas pelo sentimento de fraternidade,
que vem com a compreensão de uma vida superior, segundo as
informações que a gente tem da imortalidade da alma, de
reencarnação etc., ganham uma realidade muito mais concreta do
que a de muitos movimentos idealistas. Isso nos dá uma outra
compreensão da própria vida e da participação social, porque nos
ajuda a evitar os partidarismos, a formulação de fronteiras, de
nacionalismos extremados, pois passamos a ver a Terra toda como
uma família.
Veja, por exemplo,
a questão do pacifismo. Os maiores obstáculos que ele enfrenta
dizem respeito a concepções estreitas, sectárias de pátria, de
povos etc., o que pode ser extirpado quando os homens
compreenderem o mecanismo da reencarnação, pois passarão a
entender que todos são iguais em essência, separados por
necessidades evolutivas, mas ligados por necessidades comuns da
própria evolução. Isso mostra perfeitamente que o conteúdo da
Doutrina não nos pode tornar nem tradicionalistas, nem
reacionários. Nós temos princípios renovadores que nos balizam.
P: -
Ironizando os resultados da pesquisa da "Folha Espírita", o
jornal "Folha de S. Paulo" comentou que os espíritas
mostravam-se, assim, um pouco mais preocupados com as coisas da
Terra, deixando um pouco de lado as coisas do céu. Você acha que
hoje os espíritas estão mais preocupados com as coisas da Terra?
R:
- Eu acho essa preocupação extremamente necessária. Nós passamos
aí um período em que o plano espiritual foi o mais valorizado,
em detrimento do plano material, do nosso planeta Terra.
Fazendo-se um estudo sobre os fluidos, vamos ver que eles se
encontram em todos os espaços do planeta. O chamado plano
espiritual não deixa de ser também um plano material, porque ele
é constituído também de fluidos, que os espíritos manipulam. Os
espíritos trabalham com eles, materializando-os ou tornando-os
etéreos, de modo que o futuro fica assim antecipado para nós
todos.
A matéria é um
elemento de um valor imprescindível à evolução do espírito. Ela
não é, todos nós sabemos, um fim em si mesma, mas sim um
instrumento de realização, de desenvolvimento das
potencialidades do espírito. É fundamental, por isso, que
expliquemos porque estamos preocupados com uma ação social. É
porque o espírito encarnado tem a mesma missão do espírito
desencarnado. Não há um corte nesta trajetória do espírito. A
vida é uma só, um constante existir. O espírito encarnado está
com os mesmos desafios do espírito desencarnado, é um processo
de evolução. Assim, nós temos mesmo que nos preocupar com o
nosso momento.
Ainda há pouco
vimos um trabalho, na revista Visão, sobre a aplicação da
informática na recuperação de doentes. Este trabalho vem bem a
propósito porque nós temos a tendência de achar que a humanidade
não evoluiu, que ela é egoísta. Esta é uma visão parcial do
mundo. Eu acho que a humanidade de hoje é bem melhor do que a de
ontem e a de amanhã será bem melhor do que a de hoje. Se a
humanidade não tivesse evoluído, certamente já teria se
autodestruído. Eu acho que nós estamos caminhando para uma vida
melhor, não para a destruição. Esse trabalho, eu dizia, mostrava
como os doentes, que se encontram praticamente imobilizados,
podem se comunicar com os médicos através do computador. Isso é
um avanço extraordinário. E muito fácil a gente falar no amanhã,
no plano espiritual e condenar o homem. Devemos é valorizar o
momento presente, acabando com esse clima místico que ainda
existe entre nós.
P : - Esse
misticismo que impregna o movimento espírita no Brasil não teria
sido estimulado, manipulado pelas classes dominantes, no sentido
de — à maneira do que se fez com quase todas as religiões —
fazer do Espiritismo um ópio para o povo?
R:
- Honestamente, eu não chego a tanto, de acreditar que isso
tenha sido algo pensado, no sentido de subjugação. A força do
tradicionalismo é muito forte. O religiosismo está nas nossas
vísceras. E é claro que todas as idéias que instabilizam os
conceitos tradicionais causam muita perturbação, muita reação.
Há uma tendência à reação se você, de uma maneira ou de outra,
vê uma perspectiva de mudança naquilo em que você crê, em que
você deposita tudo, todo o seu ser. Mas não há outro caminho,
ele é irreversível. A própria juventude que se aproxima do
Espiritismo encontrou nessas idéias, nesse processo de abertura,
uma verdadeira tábua de salvação. É o último trem que saiu da
estação e esta juventude tomou, senão ficaria a pé na estação e
desistiria da viagem.
P: - Dizem
alguns filósofos do social que a sociedade ideal seria aquela
formada pelos homens de Marx e Kardec, pois se falta à doutrina
marxista substância espiritual, faltaria ao Espiritismo
substância social. Uma síntese das duas doutrinas seria o ideal.
Você concorda com isso?
R:
- Eu simpatizo muito com esta idéia. Marx veio valorizar
fundamentalmente o papel da mão-de-obra. Esse desafio que nós
falamos dos elementos materiais, este processo dialético da
história fundamentado na matéria, é científico. Não é uma
elaboração vazia, um idealismo fora da nossa realidade. Mas,
evidentemente, Marx não teria a força suficiente, sozinho, de
mobilizar as consciências, justamente porque o homem de Marx e
um homem finito, ao passo que o homem de Kardec, como diz
Humberto Mariotti, é um homem infinito. Isso é uma verdade, como
são verdadeiras as relações da matéria. Mas existe uma extensão
da vida, que Kardec complementa. Realmente, os dois se
complementam. Claro que não há nisso uma conclusão única,
pré-determinada. Não quer dizer que nenhum sistema que esteja aí
seja o sistema ideal. A dialética espírita é que vai descobrir
os caminhos dentro desta realidade do homem , do ser biológico e
do ser espiritual. Só um processo de discussão, de liberdade, de
debates, é que vai apontar o que é melhor em cada momento. Esses
princípios são, sem dúvida nenhuma, uma grande contribuição para
o homem.
P: - Certo
autor escreveu que o Espiritismo — assim como todas as por ele
chamadas de religiões racionalistas, objetivas — apareceu como
uma reação da burguesia ao desprestígio das religiões
tradicionais que viam seus dogmas irracionais contestados peto
desenvolvimento das ciências. Assim, perdidas as ilusões da vida
eterna e desacreditadas as concepções nebulosas da religião
tradicional, tenderia a haver um crescimento das reivindicações
sociais, o que ameaçaria o domínio da burguesia. O Espiritismo
apareceu, então, como uma mão-na-roda, pois pretendia provar,
quase que materialmente, cientificamente, a existência da vida
no além, o que acabou servindo novamente à burguesia no seu
intento de adiar as reformas, pois voltava a dar ao homem a
ilusão de que tudo seria melhor numa vida posterior.
R:
- Se houve esta intenção, desta vez eles tomaram o bonde errado.
Porque o Espiritismo não é um movimento religioso, mas sim um
movimento de ideias. O Espiritismo, conforme Kardec cansou de
mostrar, está na natureza e aquilo que está na natureza será,
cedo ou tarde, descoberto e reconhecido como verdade. O
Espiritismo não criou as leis de Deus, ele está nos ajudando a
descobri-las. Se assim entendermos o Espiritismo, veremos que as
leis que ele revela poderão ser objeto de aprofundamento, mas
servirão para todas as pessoas. Elas não são contra o rico e a
favor do pobre. Elas são a favor do homem. E o homem, esteja
onde estiver, em qualquer situação social em que se encontre,
vai se reconhecer nesta natureza mais profunda que o Espiritismo
revela e as repercussões práticas disso só poderão ser a favor
de uma melhoria nas relações humanas.
Não há nenhum
movimento que possa se antepor ao movimento científico do
Espiritismo, porque ele não é um carimbo, uma marca registrada
que se põe nas pessoas, mas um conhecimento adquirido. Dentro
das leis do espírito, nós vamos chegando a certos conhecimentos
que são irreversíveis, que passam a se incorporar às nossas
vidas. O Espiritismo é um movimento cultural, de idéias, que vai
servir para todos.
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