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A
entrevista do mês é com a funcionária
Pública Municipal aposentada, residente em Campinas(SP), onde
atua no Centro Espírita “Allan Kardec”, ocupando o cargo de
vice-presidente e responsável pela área doutrinária.
Oradora, jornalista e escritora, autora dos livros
“Estamos Unidos” e “Em Busca do Homem Novo”, ambos em
parceria, além de diversos outros publicados pela EME Editora,
de Capivari.
P:
– As religiões, de um modo geral, apregoam a continuidade do
ser espiritual que sobrevive à matéria.
Apesar disso, as pessoas temem a morte.
Por que isso acontece?
R:
– De fato, a morte, ou desencarnação, como dizemos nós espíritas,
é um fenômeno natural. Ocorre
inclusive diariamente sob nossos olhos.
Dela, entretanto, guarda ainda a Humanidade como que um
pavor. O instinto
de sobrevivência é natural.
Natural a resistência ante a destruição do corpo físico.
É até providencial.
Deus deixou em nós esse instinto de sobrevivência, mas
o pavor que temos é criação nossa. Vem do nosso desconhecimento do que seja a morte e ao que ela
pode conduzir. Diante
do desconhecido a nossa imaginação é muito fértil, e essa
imaginação é que faz o pavor, o medo, o susto e a insegurança.
Portanto, embora a morte seja um fenômeno natural –
faz parte das leis divinas -, a humanidade ainda se apavora
muito. É como a
criança que, por ignorar muito da vida, apavora-se em
determinadas circunstâncias, sem razão real.
O medo da morte é uma questão de falta de conhecimento
espiritual.
P:
– Se a morte ou a desencarnação apenas aniquila o corpo físico,
que tipo de vida encontraremos no mundo espiritual?
Melhor, igual ou pior do que a que deixamos?
R:
– Ela será sempre de acordo com aquilo que produzimos, pois,
“a cada um segundo as suas obras”.
Vai variar de pessoa para pessoa.
Criaturas haverá que, apesar de terem tido uma vida
materialmente boa, acomodadas, ricas, amoedadas, aparentemente
felizes, encontrarão conseqüências desastrosas, tristes,
depressivas. Outros
encontrarão uma vida mediana, de momento sem maiores
perspectivas, em face de ter sido bem pouco o que semearam.
Outros, ainda, encontrarão belezas, maravilhas,
oportunidades novas, sensações sublimes, de acordo com aquilo
que desenvolveram dentro de si. O Céu e o Inferno não correspondem a um local, e sim, muito
mais, um estado de alma. Por
isso, as criaturas enfrentarão essas situações no Além.
Mas, graças à misericórdia de Deus, que é sábio e
justo, não há condenação eterna.
Todas as criaturas, no lado de lá, prosseguirão a
viver, podendo reajustarem-se, recuperarem-se.
Inclusive, reencarnarão.
A grande maioria das criaturas que vivem na Terra vai
precisar de muitas encarnações ainda. E tais encarnações serão uma bênção para elas.
Como Deus não condena ninguém, seja como for que
tenhamos vivido, teremos oportunidades para nos recuperarmos.
Mas fica a grande pergunta: por que semearemos
sofrimentos para o nosso futuro, se podemos semear desde já a
paz e o amor?
P:
– Diante dos fatos, é impossível negar-se a continuidade da
vida após a morte. Como
devemos agir, enquanto vivos, para não nos decepcionarmos ao
chegar ao mundo dos espíritos?
R:
– Há muito tempo ouço dizer que, quando se sabe que uma
pessoa querida vai morrer, costumamos desejar, de coração
sincero, que ela tenha uma boa morte.
Isso não significa que estejamos desejando a sua morte,
mas que Deus lhe proporcione uma boa morte, ou seja, desejamos
que ela não sofra, que tudo lhe corra bem, que tenha amparo
espiritual. Em
outros grupos religiosos, eles dizem: “Que os anjos a
recebam”. Essas são
maneiras de expressarmos o desejo de que a pessoa tenha,
realmente, uma boa morte. Acredito
que, com a sua pergunta, de certa maneira você quer saber
“como será que nós podemos morrer bem”, não é?
A resposta é que, para morrer bem, é preciso ter vivido
bem. Vivido de
acordo com as leis divinas.
Se tivermos feito isso, se estivermos com a consciência
tranqüila, se tivermos os merecimentos naturais e a compreensão,
não nos debateremos excessivamente, não prejudicaremos o
momento. Guardaremos
a fé e conseguiremos uma entrada muito natural no mundo
espiritual. Como
tudo o que Deus cria é sempre para a vida, o bem, e sempre
pleno de amor, de misericórdia, e força, também a nossa
entrada no plano espiritual, ao deixarmos o mundo material, será
muito feliz, será muito bela, se soubermos compreender.
P:
– Qual a melhor maneira de homenagear aqueles que conviveram
conosco e que, pelo comboio da morte, transferiram-se para a Pátria
Espiritual?
R:
– Amar é ajudar. Ajudar
é amar. Do que
precisa a pessoa, a criatura, o ser espiritual que se desligou
do corpo? Precisa
ajustar-se ao novo plano, ao meio espiritual ao qual regressou.
Precisa de carinho, de oração, de nossa vibração
amiga, de esperança e de fé.
É isso que devemos proporcionar àqueles que partiram.
Como disse Jesus: “deveis fazer aos outros o que
quereis para vós”. Então,
controlando as nossas emoções, equilibrando a nossa saudade,
recordaremos sempre, com carinho, dos seres queridos,
enviando-lhes pensamentos positivos de paz, de amor, de luz,
aceitando a vontade divina, porque, se amamos essas criaturas,
Deus, que é cheio de bondade, ama-as mais e melhor.
Não seríamos nós, retendo essas criaturas, que poderíamos
proporcionar a elas a melhor felicidade, o maior progresso.
Deus, na sua sabedoria, pai amoroso, é que pode oferecer
a elas o melhor. De
nossa parte, como irmãos espirituais que somos – embora
possamos ter sido marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs,
a verdade é que somos espíritos irmãos -, devemos respeitar a
lei divina, entendê-la e emitir sentimentos puros na direção
daqueles que partiram antes de nós, aguardando com calma e
resignação o momento feliz do reencontro.
Isso se não pudermos contar, desde já, com as manifestações
espirituais, através de sonhos especiais que nos permitem
encontros no plano do além, ou por meio de visões, aparições
de seres queridos que nos confortam e nos alentam, ou mesmo de
mensagens que nos venham por via mediúnica. E se isso tudo não for possível, resignemo-nos e aguardemos
confiantes, porque o reencontro um dia se fará.
P:
– Seria exagero de nossa parte, colocarmos a morte como
assunto de meditação e estudos?
Ou, em outras palavras, devemos nos preocupar com a
morte?
R:
– Devemos, sem dúvida. Mas
não em aspecto mórbido. Porque
há pessoas que se preocupam tão doentiamente com a morte que
nem vivem direito, de tão preocupadas com o momento da
desencarnação. Creio
que devemos nos preocupar com a morte como fazemos com tudo que
nos diz respeito, especialmente no que se refere às situações
que iremos enfrentar, como deveremos estar preparados, e assim
por diante. Uma
imagem linda é a da viagem, a grande viagem.
Um dia fizemos uma grande viagem, recebendo um corpo para
trabalharmos neste mundo. Agora,
sabemos que retornaremos ao Plano Espiritual e não queremos ser
apanhados desprevenidos. Então,
meditemos a respeito para entender como é essa viagem, quais os
valores que precisamos levar.
E aí nos lembraremos de que os valores não são nada
materiais, mas sim morais, espirituais, no campo do sentimento.
Preparemo-nos para nos equilibrar, para aceitar, a fim de
que a nossa vida fique bem valorizada.
Se o nosso tempo é limitado, que ele seja bem vivido.
De acordo com a Lei Divina, é claro.
Isso porque algumas pessoas dizem: “Vou aproveitar, então,
a vida”. Mas que
aproveitar é esse que nos complica o futuro?
Se, como seres espirituais que somos, vamos viver para
sempre, temos de nos preocupar com a nossa condição de sempre
e não apenas com a de um momento.
Vamos procurar viver bem, viver de acordo com os
ensinamentos morais, espirituais.
Claro que somos seres que vivem aqui neste mundo, de modo
que temos direito aos prazeres sadios que Deus, inclusive,
programou para nós nesta existência. Temos direito às alegrias do afeto, às alegrias do serviço,
da realização, do triunfo.
Enfim, podemos usar de tudo o que o mundo nos concede,
usufruir os bens que estejam ao nosso alcance.
Mas sem esquecermos de que nosso objetivo primordial é o
patrimônio da alma, aquele tesouro do qual Jesus disse que a
ferrugem não corrompe, a traça não destrói e também o ladrão
não pode nos roubar.
Ricos desse patrimônio espiritual, seremos felizes para
a vida eterna.
P:
– Como entender a justiça divina, observando a morte, ou a
desencarnação, retirando do nosso convívio criaturas tão
jovens, criando um clima de desolação e de saudade aos que
ficam?
R:
– Temos um receio muito grande da morte, uma incompreensão
enorme a respeito. Quando
alguém parte, seja criança, jovem, ou adulto, mesmo bem idoso,
sempre experimentamos essa sensação de perda.
Isso vem da nossa ignorância sobre a realidade
espiritual, sobre a continuidade da vida, e da falta de exercício
da nossa sensibilidade espiritual, que nos possibilitaria o
intercâmbio, a comunicação telepática ou vibratória com os
nossos seres queridos, quer se encontrem ao nosso lado, ou à
distância, do outro lado da vida.
Penso, então, não haver nenhuma falha da justiça
divina, porque as pessoas estão sendo colocadas deste ou do
outro lado da vida, sempre objetivando o seu trabalho, o seu
progresso, o seu aprendizado, para suas realizações, enfim, de
acordo com os desígnios de Deus.
Ele não é injusto, absolutamente, nem quando nos envia
as criaturas, nem quando as retira, porque está sempre visando
ao progresso e o bem-estar de cada ser humano naquilo que ele
precisa, naquilo que lhe é mais útil.
Nós é que não compreendemos a necessidade da movimentação
dos seres e nos desesperamos diante da morte, simplesmente
porque ela nos parece o fim de tudo, quando, em verdade, é
somente uma modificação do ambiente de vida.
P:
- É mais fácil aceitar a morte na velhice do que na infância
ou na juventude. Por
que morrem jovens e crianças que tinham toda uma existência
pela frente?
R:
– Os jovens costumam pensar que é mais fácil aceitar a morte
dos idosos. Mas se
conversarmos com estes, notaremos que muitos deles não estão
nem um pouco desejosos de morrer.
Ao contrário, mostram-se preocupados, não achando nem
muito fácil nem muito natural morrer.
Eles gostariam de continuar a viver, como as pessoas de
qualquer idade. Nós
é que, como a pessoa já está idosa(talvez não produza mais o
que esperamos dela), achamos, egoisticamente, que ela já pode
partir. Mas, em
verdade, todos amam a vida e querem viver.
É fato, porém, que ficamos chocados quando o jovem ou a
criança desencarnam, porque o normal é que as pessoas vivam até
aos sessenta anos, em média.
Assim, o desencarne prematuro é inesperado, de modo que
ficamos pensando: “a pessoa não cumpriu a sua tarefa, a sua
existência... Então, o que representou tal vida?
Foi tão curta! E
poderia ter propiciado a realização de tantas coisas!
Não estávamos preparados para isso!”
Entretanto, a vida do Espírito não se mede pela duração
da existência terrena, que é uma pequena etapa entre as muitas
e sucessivas existências que o Espírito já teve e terá
ainda. Do ponto de
vista espírita, não julgamos que aquela vida ficou incompleta.
Foi uma tarefa, um reajuste, um aprendizado muito útil e
eficiente. Apenas não
foi uma existência corpórea tão longa quanto o comum. Mas, muitas vezes, poucos anos de vida podem ser muito mais
produtivos. E se me
permitem comentar, sem querer julgar a ninguém, às vezes o
recolhimento de uma criatura mais cedo – prematuramente, como
nós achamos -, foi uma bênção divina para que a pessoa não
se desorientasse ainda mais.
Da mesma forma que, ao vermos uma plantinha entortando-se
à medida em que cresce, tomamos cuidados, inclusive
replantando-a, para que não continue a desenvolver-se de forma
prejudicial, mas possa progredir na sua existência de um modo
melhor. Em certos
casos, é manifestação da misericórdia divina, porque que
morre é o corpo e não o Espírito.
Este continuará vivendo, e em melhores condições para
acertar mais e errar menos, e ser mais feliz espiritualmente.
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