O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Entrevista com Therezinha Oliveira

Entrevistado:
Therezinha Oliveira - Oradora, jornalista e escritora espírita

Fonte:
Livro: Perguntando e Aprendendo
Autor: Waldenir Cuin

ENTREVISTAS

       

A entrevista do mês é com a funcionária Pública Municipal aposentada, residente em Campinas(SP), onde atua no Centro Espírita “Allan Kardec”, ocupando o cargo de vice-presidente e responsável pela área doutrinária.  Oradora, jornalista e escritora, autora dos livros “Estamos Unidos” e “Em Busca do Homem Novo”, ambos em parceria, além de diversos outros publicados pela EME Editora, de Capivari.

P: – As religiões, de um modo geral, apregoam a continuidade do ser espiritual que sobrevive à matéria.  Apesar disso, as pessoas temem a morte.  Por que isso acontece?
R: – De fato, a morte, ou desencarnação, como dizemos nós espíritas, é um fenômeno natural.  Ocorre inclusive diariamente sob nossos olhos.  Dela, entretanto, guarda ainda a Humanidade como que um pavor.  O instinto de sobrevivência é natural.  Natural a resistência ante a destruição do corpo físico.  É até providencial.  Deus deixou em nós esse instinto de sobrevivência, mas o pavor que temos é criação nossa.  Vem do nosso desconhecimento do que seja a morte e ao que ela pode conduzir.  Diante do desconhecido a nossa imaginação é muito fértil, e essa imaginação é que faz o pavor, o medo, o susto e a insegurança.  Portanto, embora a morte seja um fenômeno natural – faz parte das leis divinas -, a humanidade ainda se apavora muito.  É como a criança que, por ignorar muito da vida, apavora-se em determinadas circunstâncias, sem razão real.  O medo da morte é uma questão de falta de conhecimento espiritual.

P: – Se a morte ou a desencarnação apenas aniquila o corpo físico, que tipo de vida encontraremos no mundo espiritual?  Melhor, igual ou pior do que a que deixamos?
R: – Ela será sempre de acordo com aquilo que produzimos, pois, “a cada um segundo as suas obras”.  Vai variar de pessoa para pessoa.  Criaturas haverá que, apesar de terem tido uma vida materialmente boa, acomodadas, ricas, amoedadas, aparentemente felizes, encontrarão conseqüências desastrosas, tristes, depressivas.  Outros encontrarão uma vida mediana, de momento sem maiores perspectivas, em face de ter sido bem pouco o que semearam.  Outros, ainda, encontrarão belezas, maravilhas, oportunidades novas, sensações sublimes, de acordo com aquilo que desenvolveram dentro de si.  O Céu e o Inferno não correspondem a um local, e sim, muito mais, um estado de alma.  Por isso, as criaturas enfrentarão essas situações no Além.  Mas, graças à misericórdia de Deus, que é sábio e justo, não há condenação eterna.  Todas as criaturas, no lado de lá, prosseguirão a viver, podendo reajustarem-se, recuperarem-se.  Inclusive, reencarnarão.  A grande maioria das criaturas que vivem na Terra vai precisar de muitas encarnações ainda.  E tais encarnações serão uma bênção para elas.  Como Deus não condena ninguém, seja como for que tenhamos vivido, teremos oportunidades para nos recuperarmos.  Mas fica a grande pergunta: por que semearemos sofrimentos para o nosso futuro, se podemos semear desde já a paz e o amor?

P: – Diante dos fatos, é impossível negar-se a continuidade da vida após a morte.  Como devemos agir, enquanto vivos, para não nos decepcionarmos ao chegar ao mundo dos espíritos?
R: – Há muito tempo ouço dizer que, quando se sabe que uma pessoa querida vai morrer, costumamos desejar, de coração sincero, que ela tenha uma boa morte.  Isso não significa que estejamos desejando a sua morte, mas que Deus lhe proporcione uma boa morte, ou seja, desejamos que ela não sofra, que tudo lhe corra bem, que tenha amparo espiritual.  Em outros grupos religiosos, eles dizem: “Que os anjos a recebam”.  Essas são maneiras de expressarmos o desejo de que a pessoa tenha, realmente, uma boa morte.  Acredito que, com a sua pergunta, de certa maneira você quer saber “como será que nós podemos morrer bem”, não é?  A resposta é que, para morrer bem, é preciso ter vivido bem.  Vivido de acordo com as leis divinas.  Se tivermos feito isso, se estivermos com a consciência tranqüila, se tivermos os merecimentos naturais e a compreensão, não nos debateremos excessivamente, não prejudicaremos o momento.  Guardaremos a fé e conseguiremos uma entrada muito natural no mundo espiritual.  Como tudo o que Deus cria é sempre para a vida, o bem, e sempre pleno de amor, de misericórdia, e força, também a nossa entrada no plano espiritual, ao deixarmos o mundo material, será muito feliz, será muito bela, se soubermos compreender.

P: – Qual a melhor maneira de homenagear aqueles que conviveram conosco e que, pelo comboio da morte, transferiram-se para a Pátria Espiritual?
R: – Amar é ajudar.  Ajudar é amar.  Do que precisa a pessoa, a criatura, o ser espiritual que se desligou do corpo?  Precisa ajustar-se ao novo plano, ao meio espiritual ao qual regressou.  Precisa de carinho, de oração, de nossa vibração amiga, de esperança e de fé.  É isso que devemos proporcionar àqueles que partiram.  Como disse Jesus: “deveis fazer aos outros o que quereis para vós”.  Então, controlando as nossas emoções, equilibrando a nossa saudade, recordaremos sempre, com carinho, dos seres queridos, enviando-lhes pensamentos positivos de paz, de amor, de luz, aceitando a vontade divina, porque, se amamos essas criaturas, Deus, que é cheio de bondade, ama-as mais e melhor.  Não seríamos nós, retendo essas criaturas, que poderíamos proporcionar a elas a melhor felicidade, o maior progresso.  Deus, na sua sabedoria, pai amoroso, é que pode oferecer a elas o melhor.  De nossa parte, como irmãos espirituais que somos – embora possamos ter sido marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs, a verdade é que somos espíritos irmãos -, devemos respeitar a lei divina, entendê-la e emitir sentimentos puros na direção daqueles que partiram antes de nós, aguardando com calma e resignação o momento feliz do reencontro.  Isso se não pudermos contar, desde já, com as manifestações espirituais, através de sonhos especiais que nos permitem encontros no plano do além, ou por meio de visões, aparições de seres queridos que nos confortam e nos alentam, ou mesmo de mensagens que nos venham por via mediúnica.  E se isso tudo não for possível, resignemo-nos e aguardemos confiantes, porque o reencontro um dia se fará.

P: – Seria exagero de nossa parte, colocarmos a morte como assunto de meditação e estudos?  Ou, em outras palavras, devemos nos preocupar com a morte?
R: – Devemos, sem dúvida.  Mas não em aspecto mórbido.  Porque há pessoas que se preocupam tão doentiamente com a morte que nem vivem direito, de tão preocupadas com o momento da desencarnação.  Creio que devemos nos preocupar com a morte como fazemos com tudo que nos diz respeito, especialmente no que se refere às situações que iremos enfrentar, como deveremos estar preparados, e assim por diante.  Uma imagem linda é a da viagem, a grande viagem.  Um dia fizemos uma grande viagem, recebendo um corpo para trabalharmos neste mundo.  Agora, sabemos que retornaremos ao Plano Espiritual e não queremos ser apanhados desprevenidos.  Então, meditemos a respeito para entender como é essa viagem, quais os valores que precisamos levar.  E aí nos lembraremos de que os valores não são nada materiais, mas sim morais, espirituais, no campo do sentimento.  Preparemo-nos para nos equilibrar, para aceitar, a fim de que a nossa vida fique bem valorizada.  Se o nosso tempo é limitado, que ele seja bem vivido.  De acordo com a Lei Divina, é claro.  Isso porque algumas pessoas dizem: “Vou aproveitar, então, a vida”.  Mas que aproveitar é esse que nos complica o futuro?  Se, como seres espirituais que somos, vamos viver para sempre, temos de nos preocupar com a nossa condição de sempre e não apenas com a de um momento.  Vamos procurar viver bem, viver de acordo com os ensinamentos morais, espirituais.  Claro que somos seres que vivem aqui neste mundo, de modo que temos direito aos prazeres sadios que Deus, inclusive, programou para nós nesta existência.  Temos direito às alegrias do afeto, às alegrias do serviço, da realização, do triunfo.  Enfim, podemos usar de tudo o que o mundo nos concede, usufruir os bens que estejam ao nosso alcance.  Mas sem esquecermos de que nosso objetivo primordial é o patrimônio da alma, aquele tesouro do qual Jesus disse que a ferrugem não corrompe, a traça não destrói e também o ladrão  não pode nos roubar.  Ricos desse patrimônio espiritual, seremos felizes para a vida eterna.

P: – Como entender a justiça divina, observando a morte, ou a desencarnação, retirando do nosso convívio criaturas tão jovens, criando um clima de desolação e de saudade aos que ficam?
R: – Temos um receio muito grande da morte, uma incompreensão enorme a respeito.  Quando alguém parte, seja criança, jovem, ou adulto, mesmo bem idoso, sempre experimentamos essa sensação de perda.  Isso vem da nossa ignorância sobre a realidade espiritual, sobre a continuidade da vida, e da falta de exercício da nossa sensibilidade espiritual, que nos possibilitaria o intercâmbio, a comunicação telepática ou vibratória com os nossos seres queridos, quer se encontrem ao nosso lado, ou à distância, do outro lado da vida.  Penso, então, não haver nenhuma falha da justiça divina, porque as pessoas estão sendo colocadas deste ou do outro lado da vida, sempre objetivando o seu trabalho, o seu progresso, o seu aprendizado, para suas realizações, enfim, de acordo com os desígnios de Deus.  Ele não é injusto, absolutamente, nem quando nos envia as criaturas, nem quando as retira, porque está sempre visando ao progresso e o bem-estar de cada ser humano naquilo que ele precisa, naquilo que lhe é mais útil.  Nós é que não compreendemos a necessidade da movimentação dos seres e nos desesperamos diante da morte, simplesmente porque ela nos parece o fim de tudo, quando, em verdade, é somente uma modificação do ambiente de vida.

P: - É mais fácil aceitar a morte na velhice do que na infância ou na juventude.  Por que morrem jovens e crianças que tinham toda uma existência pela frente?
R: – Os jovens costumam pensar que é mais fácil aceitar a morte dos idosos.  Mas se conversarmos com estes, notaremos que muitos deles não estão nem um pouco desejosos de morrer.  Ao contrário, mostram-se preocupados, não achando nem muito fácil nem muito natural morrer.  Eles gostariam de continuar a viver, como as pessoas de qualquer idade.  Nós é que, como a pessoa já está idosa(talvez não produza mais o que esperamos dela), achamos, egoisticamente, que ela já pode partir.  Mas, em verdade, todos amam a vida e querem viver.  É fato, porém, que ficamos chocados quando o jovem ou a criança desencarnam, porque o normal é que as pessoas vivam até aos sessenta anos, em média.  Assim, o desencarne prematuro é inesperado, de modo que ficamos pensando: “a pessoa não cumpriu a sua tarefa, a sua existência... Então, o que representou tal vida?  Foi tão curta!  E poderia ter propiciado a realização de tantas coisas!  Não estávamos preparados para isso!”  Entretanto, a vida do Espírito não se mede pela duração da existência terrena, que é uma pequena etapa entre as muitas e sucessivas existências que o Espírito já teve e terá ainda.  Do ponto de vista espírita, não julgamos que aquela vida ficou incompleta.  Foi uma tarefa, um reajuste, um aprendizado muito útil e eficiente.  Apenas não foi uma existência corpórea tão longa quanto o comum.  Mas, muitas vezes, poucos anos de vida podem ser muito mais produtivos.  E se me permitem comentar, sem querer julgar a ninguém, às vezes o recolhimento de uma criatura mais cedo – prematuramente, como nós achamos -, foi uma bênção divina para que a pessoa não se desorientasse ainda mais.  Da mesma forma que, ao vermos uma plantinha entortando-se à medida em que cresce, tomamos cuidados, inclusive replantando-a, para que não continue a desenvolver-se de forma prejudicial, mas possa progredir na sua existência de um modo melhor.  Em certos casos, é manifestação da misericórdia divina, porque que morre é o corpo e não o Espírito.  Este continuará vivendo, e em melhores condições para acertar mais e errar menos, e ser mais feliz espiritualmente.