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Rosa Rita
Martins é geneticista e expositora espírita.
P: – Por
que é importante para todos e para os espíritas, em particular,
saber sobre o genoma?
R:
– A frase escrita na entrada do templo de Delphos, relembrada
por Santo Agostinho na sua mensagem em O Livro dos Espíritos,
deveria ser, por nós espíritas, vista de um modo mais amplo –
conhecermo-nos não apenas no sentido psíquico-moral, mas também
no nosso corpo fisicogenético. Conhecer os genes – unidades de
hereditariedade – significa entender o processo de transmissão
de características genéticas, como estes genes interagem entre
si, como codificam a síntese de proteínas e como a função dessas
proteínas sofre interferência do meio ambiente, durante todo o
ciclo vital de um individuo. Interferência essa que pode ativar
susceptibilidade genética a doenças crônicas como diabetes
mellitus, hipertensão arterial, a infecções, ao câncer, assim
como resistência a medicamentos ou alergia a eles. Mutações nos
genes ou nos cromossomos que os carreiam podem causar
malformações congênitas associadas ou não à deficiência mental.
É muito mais simples compreender os mecanismos da Reencarnação
quando se conhece o modo pelo qual ocorrem mutações genéticas, e
como estas interferem na formação e na função do organismo de um
ser vivo.
P: – Qual é
o sequenciamento do genoma humano e por que tantos países se
propuseram a conhecê-lo?
R:
- Genoma significa seqüência completa de DNA – ácido
desoxirribonucléico. Essa seqüência inclui os genes e outras
regiões de bases nitrogenadas como repetições de tamanhos
variados transmitidas como herança dominante de pais para
filhos, conhecidas como polimorfismos genéticos e muitas outras
seqüências, a maioria delas ainda de função desconhecida para
nós. O sequenciamento do genoma humano permitiu conhecer a
seqüência de bases nitrogenadas de cada um dos 25.000 genes de
um individuo. O interesse mundial por esse conhecimento se dá
pelo campo aberto na ciência em geral e pela “Medicina
Personalizada”. Além de permitir a identificação dos genes,
permitiu também estudar suas variações e o processo através do
qual essas variações contribuem para a saúde e as doenças,
melhorando não só o diagnóstico assim como a prevenção e
tratamento das doenças. Por exemplo, mutação do gene BRCA1 dá
maior suscetibilidade ao desenvolvimento de câncer de mama,
ovário, próstata e cólon; outro exemplo são os testes genéticos
que permitem identificar resistência individual a antibióticos,
medicamentos antivirais e quimioterápicos, o que pode significar
grande economia em saúde pública, tanto na prevenção de doenças
como no uso do medicamento específico para o paciente.
P: – Quais
as decorrências éticas, legais, sociais e financeiras do Projeto
Genoma humano?
R:
– O Projeto Genoma tem objetivos que visam ao bem-estar, à
saúde, e ao desenvolvimento do homem. A tecnologia do DNA
recombinante vem revolucionando a indústria farmacêutica e
construindo uma nova imagem do paciente e da medicina preditiva.
A identificação de uma mutação genética permitirá prevenir uma
doença ou um câncer, atrasar seu aparecimento ou limitar seus
efeitos e uma cura mais rápida pelo uso do medicamento
específico para aquele tumor e para aquele paciente. Entretanto,
pela própria história da humanidade, sabemos que nem sempre o
homem fez uso correto do avanço da ciência. Assim, o
conhecimento do Genoma humano trouxe consigo o risco da
discriminação de indivíduos por causas advindas de suas
características genéticas, inclusive contra os que têm
susceptibilidade para doenças de etiologia genética e câncer.
Não é desconhecido
que a busca de um filho perfeito e inteligente leva muitos
casais à interrupção da gestação de fetos com mutações genéticas
ou com anomalias cromossômicas compatíveis com boa sobrevida
como a síndrome de Down. Portanto, o fantasma da “eugenia
genética”, infelizmente, para a evolução moral atual do nosso
planeta ainda nos acompanhará por muito tempo. Outros aspectos
éticos envolvidos são o direito individual de ser submetido ou
não a um exame que poderá indicar que terá, a partir da idade
adulta, uma doença degenerativa. A Seguradora de Saúde dessa
pessoa poderá exigir o exame como pré-requisito para conceder o
benefício ou estipular um valor mais elevado para concedê-lo.
Não é desconhecido também que as empresas, para contratar um
funcionário, exigem atestado médico de saúde física e mental.
Corremos o risco de que acrescentem a essa exigência um exame
genético que exclua a predisposição genética para anemia,
diabetes, doenças cardíacas e doenças do sistema nervoso. E, por
último, as indústrias farmacêuticas ainda são voltadas para as
terapias mais lucrativas, medicamentos para doenças raras são
extremamente caros e de difícil aquisição.
Assim, não é
difícil compreender a amplitude das conseqüências sociais e
financeiras que poderão surgir, principalmente para aquelas de
menor poder aquisitivo, que não poderão arcar com honorários de
advogados e mandatos judiciais para garantir seu emprego e/ou
seu tratamento com antibióticos e quimioterápicos mais caros,
por serem específicos para suas patologias.
R: – O
completo conhecimento da seqüência do genoma humano pode nos
levar a minimizar o papel do espírito em sua própria
reencarnação?
R:
- Pelo contrário, quanto mais se conhece sobre o controle
genético e o mecanismo de síntese, secreção, regulação intra e e
extracelular das funções das proteínas, mais se reconhece a
necessidade de uma direção organizada e inteligente de todo o
processo. Podemos dar o exemplo dos gêmeos univitelinos, que
compartilham cerca de 99% do genoma – 1% de diferença está
ligada às mutações que ocorrem espontaneamente desde a
concepção: a semelhança entre eles é física; as diferenças na
forma de se alimentar, na prática de esportes, no modo de se
relacionar consigo mesmo e com os que compartilham de sua vida e
com o meio ambiente onde vivem, os levarão à ter comportamento
psicossocial, estatura, peso, manias, vícios, suscetibilidade a
doenças, grau de envelhecimento diferentes, etc. Portanto, cada
um desses gêmeos, como Espíritos individuais, será o responsável
por todo o seu processo evolutivo.
P: - O
conhecimento do genoma explica todas as doenças passadas, atuais
e futuras do espírito encarnado?
R:
– Dificilmente o conhecimento do genoma poderá explicar toda a
variabilidade genética, não só a humana, mas como de todos os
seres vivos. Hoje estão mapeados 25.000 genes humanos,
distribuídos pelos 46 cromossomos. Cada um desses genes tem suas
proteínas reguladoras, proteínas indutoras do início e da parada
da leitura do DNA além das moléculas dos RNA – ácido
ribonucléico – que agem na síntese protéica; essas moléculas de
RNA também têm sua seqüência gênica no DNA, o que significa que
elas também têm sua regulação específica, ou seja, um processo
tão complexo e interligado que ainda será necessário muito tempo
para ser realmente compreendido. A expressão clínica dos genes,
codificantes de proteínas, é muito variável. Há genes cuja
expressão sempre será de 100%, e o meio ambiente pouco
influenciará, como cor da pele, cabelo e olhos; e há genes em
que o meio ambiente terá um papel importante na modulação de sua
expressão, ou seja, na ação da proteína que foi sintetizada a
partir da sua seqüência de bases nitrogenadas. A essa capacidade
de um fator ambiental afetar a função de um gene é dado o nome
de epigenética. Os fatores epigenéticos têm essa ação por
mecanismos variados, afetando a expressão do gene sem,
entretanto, interferir na seqüência primária do DNA e deixam de
agir se o fator ambiental desencadeador desaparecer. Podemos
especular como “vírus psicológicos” como depressão, raiva, ódio,
ressentimentos, idéias de vingança, que hoje são reconhecidos
como agravantes e/ou desencadeantes de doenças crônicas e com
grande interferência na resposta terapêutica de doenças
infecciosas e câncer, podem interferir na constituição atômica
do perispírito de um encarnado e acompanhá-lo na erraticidade
vindo a interferir na vida futura do individuo, interagindo e
levando a mutações nos genes recebidos dos pais durante a
fecundação, no início do processo reencarnatório.
Na última década
também tem havido muitas pesquisas sobre um grupo de pequenos
segmentos de RNA – microRNAs, que, não agem na codificação de
proteínas, mas atuam na regulação gênica. Acredita-se que haja
cerca de 460 dessas micromoléculas de RNAs atravessando a
membrana nuclear, agindo na ativação e inativação gênica, no
controle do desenvolvimento, na resposta imunológica e na
expressão tecido-específico das proteínas. Pela capacidade de
interferir na leitura do DNA, há muitas pesquisas na área da
Farmacogenética estudando o uso desses microRNAs no tratamento
de células cancerosas. Para alguns autores, os microRNAs podem
ser também os intermediários entre a susceptibilidade genética e
os fatores ambientais. Podemos, novamente, especular se essas
pequenas moléculas não poderiam ser, de algum modo, um elo entra
as células perispirituais e as células físicas.
P: - Há
alguma relação entre o que André Luiz denomina “laboratório do
mundo invisível”, entre a preparação dos processos
reencarnatórios e as questões decorrentes do genoma humano?
R:
– Todo o mecanismo
de interação entre os genes e o meio ambiente, seja aqui no
mundo físico ou no mundo espiritual, mudando a resposta das
células ou até a seqüência de bases de um gene (mutação gênica)
ou o número e/ou a estrutura de um cromossomo (mutação
cromossômica) tornam o individuo mais ou menos susceptível a
determinadas condições clínicas. André Luiz se refere em alguns
de seus livros ao papel do homem no seu processo de adoecimento
físico assim como cita, no livro Missionários da Luz, como
mutações podem ser realizadas no genoma espiritual do espírito
reencarnante para a adaptação do novo corpo físico às suas
necessidades reencarnatórias.
Se alguma
conclusão poderíamos deixar aqui, é a certeza de que o homem é
muito mais do que seu corpo físico; esse “muito mais” que o
homem procura explicar desde a era dos filósofos gregos, ainda
está longe de ser respondido pelo estudo do Genoma Humano e
ainda precisamos das mensagens de André Luiz e de outros médicos
e cientistas do mundo espiritual para nos ajudarem a
compreendê-las.
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