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A nossa entrevista do
mês é com Francisco Cândido Xavier que dispensa
apresentação. A entrevista é uma compilação de perguntas e
respostas com o médium que apresentamos abaixo.
P:
- Quando é que você experimentou pela primeira vez contato com
o mundo espiritual?
Chico Xavier:
- O assunto pede que a minha memória regresse no tempo. Eu
tinha quatro anos de idade, quando voltei da cidade de
Matozinhos, perto de Pedro Leopoldo, onde nasci, em companhia de
meus pais e de meus irmãos. Meus pais haviam assistido às
cerimônias religiosas que naquele tempo eram consideradas de
praxe para todas as famílias católicas. Havíamos caminhado
onze quilômetros. Chegamos em casa, numa noite bastante fria,
com chuva. Meus irmãos se dirigiram logo para o descanso do
sono. Minha mãe, naturalmente preocupada com problemas de
saúde, trocou-me a roupa e, como eu estava fatigado, levou-me
à cozinha, onde fora para fazer um café para o meu pai.
Enquanto esperava o
café que se fazia, meu pai começou a falar a respeito de um
problema de aborto que havia ocorrido com uma de nossas
vizinhas. Uma criança havia nascido fora de tempo e meu pai,
discutia com minha mãe a respeito. Nesse instante, eu ouvi uma
voz e então transmiti para meu pai:
-“O senhor naturalmente não está muito bem informado
com respeito ao caso. O que houve foi um problema de nidação
inadequada do ovo, de modo que a criança adquiriu posição
ectópica”.
Meu pai arregalou os olhos e disse para minha mãe:
- “O que é isso, Maria? Esse menino não é o nosso.
Trocaram essa criança na igreja, enquanto estávamos na
confissão!”, e me perguntou o que vinha a ser nidação, o
que vinha a ser ectópico; eu não sabia explicar coisa nenhuma
porque falei o que uma voz me dissera.
P:
- Quantos anos tinha você, Chico?
Chico Xavier:
- Quatro anos de idade, eu me recordo perfeitamente.
P:
- Depois desse primeiro contato, como é que aconteceu a
continuidade do fato?
Chico Xavier:
- Passados alguns meses, minha mãe adoeceu gravemente, e como
meu pai estava desempregado, ela se preocupou com a nossa sorte,
no caso de ocorrer o falecimento dela. Passou a perguntar às
amigas, quais delas poderiam se incumbir do zelo de que nós
necessitávamos. Às vésperas de sua partida, sentindo-se muito
mal, começou a chamar as amigas e a entregar os filhos, que
eram oito e dos quais eu era o penúltimo. Quando chegou a minha
vez –eu estava com cinco anos – perguntei a ela:
- “Mas minha mãe, a senhora está me entregando para os
outros?”
“Então, ela me disse:
- Meu filho, eu não estou entregando você para os outros.
Quero que você saiba que vou me ausentar daqui” –
naturalmente ela dizia isso prevendo a morte próxima – “e
seu pai está em dificuldade. Estou confiando seus irmãos para
as amigas zelarem por eles, porque seu pai, no momento, não
pode dispensar a atenção que vocês precisam. Você vai ficar
com a nossa amiga dona Ritinha e vai gostar muito dela. Ela
será muito boa e eu volto para buscar você”. Naturalmente,
sentindo que meu pai, muito moço ainda, necessitaria,
provavelmente, de um segundo casamento, como , realmente
aconteceu, ela acrescentou:
- “Se eu não puder vir mais depressa, enviarei uma moça que
possa ajudar vocês. Mas se alguém disser que eu não volto
mais, que eu estou morta, não acredite porque eu voltarei”.
P:
- Maria João de Deus, um nome adequado para uma pessoa que
encaminha um filho para suportar a perda de uma mãe. Continue
Chico.
Chico Xavier:
- Acompanhei dona Ritinha para a residência dela. Ela possuía
um sobrinho, um rapazinho de treze anos, e passei a conviver com
a família. O casal não tinha filhos, além desse sobrinho e
filho adotivo. Essa senhora era muito bondosa, mas, no meu caso,
ela sentia uma certa necessidade de me surrar. Então, uma
tarde, minha mãe me apareceu e começou a conversar
comigo.
P:
- Quanto anos tinha?
Chico Xavier:
- Cinco anos. Não havia dificuldades no meu cérebro, não
havia dúvida filosófica, não havia discussão religiosa, e
admitia o fato de minha mãe estar vivendo porque ela me dissera
que voltaria. Então, falei com ela:
-“A senhora não sabe
como estamos lutando!..."Minha mãe prosseguiu: -“Meu
filho, no local onde estou, uma enfermeira me informou que você
está querendo se queixar das surras, mas você deve apanhar com
calma, porque isso vai lhe fazer muito bem”.
- “Leve-me com a senhora mamãe! Não me deixe mais aqui!...”
foi o que roguei.
- “Agora não posso, porque vou para o hospital”.
-
Quando a minha madrinha chegou, contei que a minha mãe
tinha vindo. Ela
achou que eu havia enlouquecido e, então, apanhei mais ainda.
No outro dia, minha mãe tornou a aparecer e disse:
-
“Eu não quero que você minta, mas não precisas dizer que eu
estou lhe aparecendo”.
- De minha parte respondi:
-“Mas estou apanhando muito!
Olhe a minha pele como está!”.
-
- “A sua madrinha é sua instrutora” – disse ela
– “você deve gostar muito dela”.
P:
- E
você, conseguia gostar dela?
Chico Xavier:
- Quando
criança temia a madrinha, ao invés de estima-la.
Mas, quando a idade foi chegando, compreendi o bem que
ela me fez. Ela era muito boa pessoa, mas seria talvez nervosa
ou muito doente, em certas horas...
P:
- Chico, você, em algum tempo, sofreu hostilidade por parte das
autoridades católicas ou evangélicas?
Chico Xavier:
- Nunca sofri hostilidade alguma.
O padre que me confessou durante oito anos foi para mim
um verdadeiro apóstolo. Auxiliou-me
em tudo, amparou-me em tudo, aconselhou-me, abençoou-me, trouxe
diretrizes para mim e quando a minha situação se tornou mais
difícil, ele foi sempre um dos melhores amigos de minha vida.
Deixou em mim recordações inesquecíveis.
P:
-
E
o primeiro livro, quando foi publicado?
Chico Xavier:
- O
primeiro livro de nossa mediunidade psicográfica, “Parnaso de
Além-Túmulo”, saiu no Rio, em 9 de julho de 1932.
P:
-
Poderá
nos dizer como é que procede com os livros recebidos
mediunicamente por você, quanto aos direitos autorais?
Chico Xavier:
-
Cada
livro recebido mediunicamente por nós, é entregue à Federação
Espírita Brasileira ou a instituições outras de nossa
Doutrina, com a doação integral e incondicional de todos os
direitos autorais que nos possam caber.
P:
-
E você poderá nos dizer como ocorre o fenômeno mediúnico,
durante o seu trabalho de psicografia?
Chico Xavier:
- Quando
escrevi o prefácio “Palavras Minhas”, a pedido da Federação
Espírita Brasileira, para o primeiro livro de nossas humildes
faculdades, tentei descrever o fenômeno da psicografia na
intimidade de minhas próprias observações.
Mas, o fenômeno evoluiu com o tempo, e, hoje, observo
que as minhas faculdades se acentuaram em todos os aspectos, e,
atualmente, em verdade, sinto-me na companhia dos nossos amigos
desencarnados, quando eles permitem, com tanta espontaneidade
como se fossem pessoas deste mundo mesmo, que nós vemos e
ouvimos naturalmente.
P:
-
Como
médium, em suas tarefas específicas, você está livre do assédio
dos espíritos perseguidores?
Chico Xavier:
-
De
modo algum.
Conheço espíritos perseguidores, comigo associados,
naturalmente desde o pretérito, que me seguem os passos desde a
meninice de minha existência atual.
Naturalmente, devo contar com esses credores, pela
natureza de minhas dívidas do passado, mas a verdade é que com
a graça de Deus, até hoje, nunca me poupam as fraquezas e
imperfeições, nas brechas de minha ignorância e de minha
vaidade.
P:
-
Desejaríamos
saber a sua opinião sobre a melhor maneira de nos isolarmos
contra os espíritos perseguidores.
Chico Xavier:
-
Nosso
querido Emmanuel habituou-me a dois métodos de libertação
gradativa – o primeiro é a oração, pela qual nos lembramos
de Deus; e o segundo é o serviço, pelo qual nos esquecemos de
nós.
P:
-
Poderia
nos dizer qual a melhor maneira, segundo o seu ponto de vista,
para que a criatura se torne um verdadeiro espírita?
Chico Xavier:
- Os
Benfeitores Espirituais sempre me dizem que temos espíritas de
variados matizes e acrescentam que o espírita ideal é sempre
aquele que conjuga a sua fé com o trabalho ativo no bem
incessante, tomando por base o próprio aperfeiçoamento.
Emmanuel costuma afirmar que o espírita genuíno é
sempre alguém que caminha no mundo aprendendo e servindo,
porque aprendendo estaremos na educação, e servindo viveremos
na caridade.
Nesse sentido, nosso orientador sempre recorda a palavra
de Allan Kardec quando assevera que o verdadeiro espírita é
conhecido pelo esforço que realiza na própria sublimação de
ordem moral.
Assim, peçamos a Jesus que nos inspire e proteja,
porque, segundo os nossos Orientadores da Vida Maior, estamos em
nossas casas doutrinárias com o Espiritismo prático e que,
fora delas, os nossos irmãos da Humanidade estão procurando em
nós todos o Espiritismo praticado.
P:
- Que dizem os amigos espirituais sobre o problema
da delinqüência e terrorismo em nossos tempos?
Chico Xavier:
- Emmanuel,
que tem estado sempre em contato intensivo conosco, sempre
afirma que esse quadro de perturbações de nosso tempo é, em
grande parte, devido à ausência da influência religiosa nas
novas gerações. Precisamos
encontrar um caminho de ajustamento da nossa alma à idéia de
Deus e aos preceitos da Religião, quaisquer que sejam esses
preceitos, que nos conduzem para o bem, a fim de que venhamos a
encontrar o reequilíbrio de que estamos necessitando.
A falta de idéia de Deus e a ausência da religião no
pensamento da criatura, geram tendências à criminalidade, à
violência, à subversão, à dificuldades que chegam, às
vezes, até a loucura.
P:
- Poderíamos saber, através de você, de algum
modo, a causa profunda dos conflitos da nossa época?
Chico Xavier:
- Emmanuel costuma
dizer que a era tecnológica pretende, na essência, construir
uma civilização sem as mães e isso é um erro muito grande,
de modo que, criando dificuldades para a mulher e,
especialmente, para a maternidade, estamos condenando a nós
mesmos a muitas perturbações, porque a mulher sem apoio entra,
naturalmente, em desespero, dando origem a determinadas teorias
que não são aquelas do feminismo autêntico, aquele feminismo
correto que prepara a mulher para a independência construtiva.
Dizendo isso, cremos que será justo esquecer as teorias
enfermas que levam a mulher às ilusões destrutivas, com as
quais se compromete o equilíbrio do grupo social.
Precisamos
realmente não reprovar o comportamento da mulher, e sim estudar
por que meios conseguiremos auxiliar as nossas irmãs de
humanidade, para que se sintam conscientizadas na
responsabilidade de serem mulheres com encargos muito mais
importantes do que os encargos atribuídos ao homem, porque o
homem é a administração e a mulher é o lar, e sem o lar não
sustentamos a cúpula com a segurança desejada.
P:
-
Hoje
se fala e se propala o “amor livre”.
Como você vê o futuro assim tão liberto?
Chico Xavier:
- Temos ouvido de
nossos Amigos Espirituais, que deveríamos educar os nossos
filhos e descendentes, para que eles se conscientizem nas
responsabilidades do amor, com mais educação para a vida
afetiva, de modo a se sentirem mais seguros, principalmente
quanto ao relacionamento sexual.
Com
respeito ao amor livre em si, estou recordando uma trova que nos
foi transmitida, mediunicamente, pelo grande poeta brasileiro
Adelmar Tavares:
Amor
livre, uma expressão,
Que
vive a se contrapor;
Amor
em si não é livre,
Se
é livre, não é amor!
P:
- Você acha que o mundo conseguiria viver sem a
família organizada?
Chico Xavier:
- Não acreditamos,
porque sem a família organizada caminharíamos para a selva.
Admitimos
que a família terá de fazer grandes aberturas, porque estamos
aí com os anticoncepcionais, com os problemas psicológicos,
com os conflitos da mente, com as exigências afetivas de várias
nuances. Os
assuntos familiares assemelham-se hoje aos viajantes que
transitam em determinadas estradas.
Com exagerado acúmulo de veículos construímos mais
pistas, para que haja menos desastres.
A família precisa abrir novas pistas de compreensão
para que os componentes dela possam viver em regime de respeito
recíproco, com os problemas de que são portadores, sem a
agressão que tantas vezes se verifica, contra criaturas que
sofrem aflitivos problemas dentro da constituição psicológica
diferente da maioria.
Cremos
que esses assuntos estarão presentes em simpósios da ciência,
e aqueles que nos orientam, nos ajudarão a encontrar os
caminhos necessários à paz, com o apoio da religião, em
tempos muito próximos.
Recordamos
aquela afirmação de São Paulo, no versículo 1, do Capítulo
2, da 1a. Epístola a Timóteo.
Ele pede para que todos nós, cristãos, façamos preces
pelos dirigentes e pelos nossos pastores, e por todos aqueles
que administram os interesses do mundo, para que estejamos em
paz. Roguemos a
Deus para que as cúpulas das nossas comunidades estejam
seguras, para que os nossos dirigentes, e os nossos pastores,
seja em política, religião, ciência ou cultura, estejam
afinados com as necessidades de atendimento da comunidade e que
eles contem também, com o nosso respeito e colaboração para
que possamos, pouco a pouco,
resolver nossos problemas.
P:
-
Como
o senhor entende a afirmativa que fazem de que os tempos estão
chegados?
Quais os sinais que o senhor pode nos mencionar a este
respeito?
Chico Xavier:
- Segundo Emmanuel,
os tempos são, naturalmente chegados, para que nós, por dentro
de nós, façamos um compromisso real, efetivo, de renovação
íntima, valorizando o tempo, na pauta dos conhecimentos
superiores que já possuímos.
Se aproveitássemos dez ou vinte por cento em trabalho,
dos conhecimentos elevados de que já somos detentores,
principalmente nós outros, os espíritas-cristãos, certamente
que os tempos estariam chegados, para muita felicidade na Terra,
começando, esta felicidade, em nós mesmos.
Isso,
porém, não é fácil. Construir
por fora foi sempre algo fácil, mas edificar por dentro de nós
as qualidades superiores que nos converterão em espíritos
realmente enobrecidos, é muito difícil.
Os
tempos são chegados para que venhamos a perceber isto com mais
clareza. Trabalhar
e trabalhar pelo bem de todos, é o programa da criatura, em
todos os tempos, de modo a penetrar no entendimento e na execução
das Leis de Deus.
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