O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Entrevista com Francisco Cândido Xavier

Autor:
Salvador Gentile e Hércio Marcos Cintra Arantes

Fonte:
A Terra e o Semeador
publicação do Instituto de Difusão Espírita ( IDE )
publicado em 1975

ENTREVISTAS

 

A nossa entrevista do mês é com Francisco Cândido Xavier que dispensa apresentação. A entrevista é uma compilação de perguntas e respostas com o médium que apresentamos abaixo.

P: - Quando é que você experimentou pela primeira vez contato com o mundo espiritual?
Chico Xavier: - O assunto pede que a minha memória regresse no tempo. Eu tinha quatro anos de idade, quando voltei da cidade de Matozinhos, perto de Pedro Leopoldo, onde nasci, em companhia de meus pais e de meus irmãos. Meus pais haviam assistido às cerimônias religiosas que naquele tempo eram consideradas de praxe para todas as famílias católicas. Havíamos caminhado onze quilômetros. Chegamos em casa, numa noite bastante fria, com chuva. Meus irmãos se dirigiram logo para o descanso do sono. Minha mãe, naturalmente preocupada com problemas de saúde, trocou-me a roupa e, como eu estava fatigado, levou-me à cozinha, onde fora para fazer um café para o meu pai.

Enquanto esperava o café que se fazia, meu pai começou a falar a respeito de um problema de aborto que havia ocorrido com uma de nossas vizinhas. Uma criança havia nascido fora de tempo e meu pai, discutia com minha mãe a respeito. Nesse instante, eu ouvi uma voz e então transmiti para meu pai:
 -“O senhor naturalmente não está muito bem informado com respeito ao caso. O que houve foi um problema de nidação inadequada do ovo, de modo que a criança adquiriu posição ectópica”.
Meu pai arregalou os olhos e disse para minha mãe:
 - “O que é isso, Maria? Esse menino não é o nosso. Trocaram essa criança na igreja, enquanto estávamos na confissão!”, e me perguntou o que vinha a ser nidação, o que vinha a ser ectópico; eu não sabia explicar coisa nenhuma porque falei o que uma voz me dissera.

P: - Quantos anos tinha você, Chico? 
Chico Xavier: - Quatro anos de idade, eu me recordo perfeitamente.

P: - Depois desse primeiro contato, como é que aconteceu a continuidade do fato?
Chico Xavier: - Passados alguns meses, minha mãe adoeceu gravemente, e como meu pai estava desempregado, ela se preocupou com a nossa sorte, no caso de ocorrer o falecimento dela. Passou a perguntar às amigas, quais delas poderiam se incumbir do zelo de que nós necessitávamos. Às vésperas de sua partida, sentindo-se muito mal, começou a chamar as amigas e a entregar os filhos, que eram oito e dos quais eu era o penúltimo. Quando chegou a minha vez –eu estava com cinco anos – perguntei a ela:
- “Mas minha mãe, a senhora está me entregando para os outros?”

“Então, ela me disse:
- Meu filho, eu não estou entregando você para os outros. Quero que você saiba que vou me ausentar daqui” – naturalmente ela dizia isso prevendo a morte próxima – “e seu pai está em dificuldade. Estou confiando seus irmãos para as amigas zelarem por eles, porque seu pai, no momento, não pode dispensar a atenção que vocês precisam. Você vai ficar com a nossa amiga dona Ritinha e vai gostar muito dela. Ela será muito boa e eu volto para buscar você”. Naturalmente, sentindo que meu pai, muito moço ainda, necessitaria, provavelmente, de um segundo casamento, como , realmente aconteceu, ela acrescentou:
- “Se eu não puder vir mais depressa, enviarei uma moça que possa ajudar vocês. Mas se alguém disser que eu não volto mais, que eu estou morta, não acredite porque eu voltarei”.

P: - Maria João de Deus, um nome adequado para uma pessoa que encaminha um filho para suportar a perda de uma mãe. Continue Chico.
Chico Xavier: - Acompanhei dona Ritinha para a residência dela. Ela possuía um sobrinho, um rapazinho de treze anos, e passei a conviver com a família. O casal não tinha filhos, além desse sobrinho e filho adotivo. Essa senhora era muito bondosa, mas, no meu caso, ela sentia uma certa necessidade de me surrar. Então, uma tarde, minha mãe me apareceu e começou a conversar comigo. 

P: - Quanto anos tinha?
Chico Xavier: - Cinco anos. Não havia dificuldades no meu cérebro, não havia dúvida filosófica, não havia discussão religiosa, e admitia o fato de minha mãe estar vivendo porque ela me dissera que voltaria. Então, falei com ela:

-“A senhora não sabe como estamos lutando!..."Minha mãe prosseguiu: -“Meu filho, no local onde estou, uma enfermeira me informou que você está querendo se queixar das surras, mas você deve apanhar com calma, porque isso vai lhe fazer muito bem”.
- “Leve-me com a senhora mamãe! Não me deixe mais aqui!...” foi o que roguei.
- “Agora não posso, porque vou para o hospital”.

-      Quando a minha madrinha chegou, contei que a minha mãe tinha vindo.  Ela achou que eu havia enlouquecido e, então, apanhei mais ainda.  No outro dia, minha mãe tornou a aparecer e disse:
- “Eu não quero que você minta, mas não precisas dizer que eu estou lhe aparecendo”.

-      De  minha parte respondi: 
-“Mas estou apanhando muito! Olhe a minha pele como está!”.

-      - “A sua madrinha é sua instrutora” – disse ela
– “você deve gostar muito dela”. 

P: - E você, conseguia gostar dela?
Chico Xavier: - Quando criança temia a madrinha, ao invés de estima-la.  Mas, quando a idade foi chegando, compreendi o bem que ela me fez. Ela era muito boa pessoa, mas seria talvez nervosa ou muito doente, em certas horas...

P: - Chico, você, em algum tempo, sofreu hostilidade por parte das autoridades católicas ou evangélicas?
Chico Xavier: - Nunca sofri hostilidade alguma.  O padre que me confessou durante oito anos foi para mim um verdadeiro apóstolo.  Auxiliou-me em tudo, amparou-me em tudo, aconselhou-me, abençoou-me, trouxe diretrizes para mim e quando a minha situação se tornou mais difícil, ele foi sempre um dos melhores amigos de minha vida.  Deixou em mim recordações inesquecíveis. 

P: - E o primeiro livro, quando foi publicado?
Chico Xavier: - O primeiro livro de nossa mediunidade psicográfica, “Parnaso de Além-Túmulo”, saiu no Rio, em 9 de julho de 1932. 

P: - Poderá nos dizer como é que procede com os livros recebidos mediunicamente por você, quanto aos direitos autorais?
Chico Xavier: - Cada livro recebido mediunicamente por nós, é entregue à Federação Espírita Brasileira ou a instituições outras de nossa Doutrina, com a doação integral e incondicional de todos os direitos autorais que nos possam caber.

P: - E você poderá nos dizer como ocorre o fenômeno mediúnico, durante o seu trabalho de psicografia?
Chico Xavier: - Quando escrevi o prefácio “Palavras Minhas”, a pedido da Federação Espírita Brasileira, para o primeiro livro de nossas humildes faculdades, tentei descrever o fenômeno da psicografia na intimidade de minhas próprias observações.  Mas, o fenômeno evoluiu com o tempo, e, hoje, observo que as minhas faculdades se acentuaram em todos os aspectos, e, atualmente, em verdade, sinto-me na companhia dos nossos amigos desencarnados, quando eles permitem, com tanta espontaneidade como se fossem pessoas deste mundo mesmo, que nós vemos e ouvimos naturalmente. 

P: - Como médium, em suas tarefas específicas, você está livre do assédio dos espíritos perseguidores?
Chico Xavier: - De modo algum.  Conheço espíritos perseguidores, comigo associados, naturalmente desde o pretérito, que me seguem os passos desde a meninice de minha existência atual.  Naturalmente, devo contar com esses credores, pela natureza de minhas dívidas do passado, mas a verdade é que com a graça de Deus, até hoje, nunca me poupam as fraquezas e imperfeições, nas brechas de minha ignorância e de minha vaidade. 

P: - Desejaríamos saber a sua opinião sobre a melhor maneira de nos isolarmos contra os espíritos perseguidores.
Chico Xavier: - Nosso querido Emmanuel habituou-me a dois métodos de libertação gradativa – o primeiro é a oração, pela qual nos lembramos de Deus; e o segundo é o serviço, pelo qual nos esquecemos de nós.

P: - Poderia nos dizer qual a melhor maneira, segundo o seu ponto de vista, para que a criatura se torne um verdadeiro espírita?
Chico Xavier: - Os Benfeitores Espirituais sempre me dizem que temos espíritas de variados matizes e acrescentam que o espírita ideal é sempre aquele que conjuga a sua fé com o trabalho ativo no bem incessante, tomando por base o próprio aperfeiçoamento.  Emmanuel costuma afirmar que o espírita genuíno é sempre alguém que caminha no mundo aprendendo e servindo, porque aprendendo estaremos na educação, e servindo viveremos na caridade.  Nesse sentido, nosso orientador sempre recorda a palavra de Allan Kardec quando assevera que o verdadeiro espírita é conhecido pelo esforço que realiza na própria sublimação de ordem moral.  Assim, peçamos a Jesus que nos inspire e proteja, porque, segundo os nossos Orientadores da Vida Maior, estamos em nossas casas doutrinárias com o Espiritismo prático e que, fora delas, os nossos irmãos da Humanidade estão procurando em nós todos o Espiritismo praticado. 

P: - Que dizem os amigos espirituais sobre o problema da delinqüência e terrorismo em nossos tempos?
Chico Xavier: - Emmanuel, que tem estado sempre em contato intensivo conosco, sempre afirma que esse quadro de perturbações de nosso tempo é, em grande parte, devido à ausência da influência religiosa nas novas gerações.  Precisamos encontrar um caminho de ajustamento da nossa alma à idéia de Deus e aos preceitos da Religião, quaisquer que sejam esses preceitos, que nos conduzem para o bem, a fim de que venhamos a encontrar o reequilíbrio de que estamos necessitando.  A falta de idéia de Deus e a ausência da religião no pensamento da criatura, geram tendências à criminalidade, à violência, à subversão, à dificuldades que chegam, às vezes, até a loucura. 

P: - Poderíamos saber, através de você, de algum modo, a causa profunda dos conflitos da nossa época?
Chico Xavier: - Emmanuel costuma dizer que a era tecnológica pretende, na essência, construir uma civilização sem as mães e isso é um erro muito grande, de modo que, criando dificuldades para a mulher e, especialmente, para a maternidade, estamos condenando a nós mesmos a muitas perturbações, porque a mulher sem apoio entra, naturalmente, em desespero, dando origem a determinadas teorias que não são aquelas do feminismo autêntico, aquele feminismo correto que prepara a mulher para a independência construtiva.  Dizendo isso, cremos que será justo esquecer as teorias enfermas que levam a mulher às ilusões destrutivas, com as quais se compromete o equilíbrio do grupo social.

Precisamos realmente não reprovar o comportamento da mulher, e sim estudar por que meios conseguiremos auxiliar as nossas irmãs de humanidade, para que se sintam conscientizadas na responsabilidade de serem mulheres com encargos muito mais importantes do que os encargos atribuídos ao homem, porque o homem é a administração e a mulher é o lar, e sem o lar não sustentamos a cúpula com a segurança desejada. 

P: - Hoje se fala e se propala o “amor livre”.  Como você vê o futuro assim tão liberto?
Chico Xavier: - Temos ouvido de nossos Amigos Espirituais, que deveríamos educar os nossos filhos e descendentes, para que eles se conscientizem nas responsabilidades do amor, com mais educação para a vida afetiva, de modo a se sentirem mais seguros, principalmente quanto ao relacionamento sexual.

Com respeito ao amor livre em si, estou recordando uma trova que nos foi transmitida, mediunicamente, pelo grande poeta brasileiro Adelmar Tavares: 

                          Amor livre, uma expressão,
                          Que vive a se contrapor;
                          Amor em si não é livre,
                          Se é livre, não é amor!

P: - Você acha que o mundo conseguiria viver sem a família organizada?
Chico Xavier: - Não acreditamos, porque sem a família organizada caminharíamos para a selva. 

Admitimos que a família terá de fazer grandes aberturas, porque estamos aí com os anticoncepcionais, com os problemas psicológicos, com os conflitos da mente, com as exigências afetivas de várias nuances.  Os assuntos familiares assemelham-se hoje aos viajantes que transitam em determinadas estradas.  Com exagerado acúmulo de veículos construímos mais pistas, para que haja menos desastres.  A família precisa abrir novas pistas de compreensão para que os componentes dela possam viver em regime de respeito recíproco, com os problemas de que são portadores, sem a agressão que tantas vezes se verifica, contra criaturas que sofrem aflitivos problemas dentro da constituição psicológica diferente da maioria.

Cremos que esses assuntos estarão presentes em simpósios da ciência, e aqueles que nos orientam, nos ajudarão a encontrar os caminhos necessários à paz, com o apoio da religião, em tempos muito próximos.

Recordamos aquela afirmação de São Paulo, no versículo 1, do Capítulo 2, da 1a. Epístola a Timóteo.  Ele pede para que todos nós, cristãos, façamos preces pelos dirigentes e pelos nossos pastores, e por todos aqueles que administram os interesses do mundo, para que estejamos em paz.  Roguemos a Deus para que as cúpulas das nossas comunidades estejam seguras, para que os nossos dirigentes, e os nossos pastores, seja em política, religião, ciência ou cultura, estejam afinados com as necessidades de atendimento da comunidade e que eles contem também, com o nosso respeito e colaboração para que possamos, pouco a pouco, resolver nossos problemas. 

P: - Como o senhor entende a afirmativa que fazem de que os tempos estão chegados?  Quais os sinais que o senhor pode nos mencionar a este respeito?
Chico Xavier: - Segundo Emmanuel, os tempos são, naturalmente chegados, para que nós, por dentro de nós, façamos um compromisso real, efetivo, de renovação íntima, valorizando o tempo, na pauta dos conhecimentos superiores que já possuímos.  Se aproveitássemos dez ou vinte por cento em trabalho, dos conhecimentos elevados de que já somos detentores, principalmente nós outros, os espíritas-cristãos, certamente que os tempos estariam chegados, para muita felicidade na Terra, começando, esta felicidade, em nós mesmos.

Isso, porém, não é fácil.  Construir por fora foi sempre algo fácil, mas edificar por dentro de nós as qualidades superiores que nos converterão em espíritos realmente enobrecidos, é muito difícil.

Os tempos são chegados para que venhamos a perceber isto com mais clareza.  Trabalhar e trabalhar pelo bem de todos, é o programa da criatura, em todos os tempos, de modo a penetrar no entendimento e na execução das Leis de Deus.