O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Entrevista com José Raul Teixeira

Entrevistado:
José Raul Teixeira - Professor Universitário, médium e orador espírita

Fonte:
Livro: Perguntando e Aprendendo
Autor: Waldenir Cuin

ENTREVISTAS

       

JOSÉ RAUL TEIXEIRA – Professor Universitário, leciona na Universidade Federal Fluminense, residindo em Niterói, RJ.  É médium psicógrafo e orador espírita, além de fundador e atual vice-presidente da Sociedade Espírita Fraternidade.  Entre outros, publicou os seguintes livros: Vereda Familiar, Vozes do Infinito.

P: – A AIDS é um castigo de Deus para os que violam os padrões morais da sociedade?
R: - Não poderia haver concepção mais distorcida e retrógrada quanto às perfeitas Leis de Deus.  Sendo Deus o Pai de amor, jamais castigaria os filhos, postos sobre o solo dos mundos com a missão de aprender, de aprimorar-se, de cooperar na sua obra, de modo soberbo.  A AIDS é resultado das múltiplas realizações do Espírito imortal, ao longo do tempo, favorecendo o aprendizado de que tem necessidade, tanto quanto vem aprendendo com a cólera, com a tuberculose, com a sífilis, com o câncer.  É um desafio ao progresso do ser, uma vez que os corpos tombam, derreados pelo vírus mortal, mas ressurge o ser eterno com bagagem de novas conquistas, para que não seja perturbado, nunca mais, por essas micro vidas, em virtude das mudanças do campo psíquico, que a mazela lhe proporciona.

P: – Sabemos do isolamento social a que eram relegados os portadores da lepra nos primeiros dias do Cristianismo.  Hoje, parece estar acontecendo algo semelhante com os portadores do vírus da AIDS.  Como deveria agir a sociedade em relação a estes?
R: – O medo da lepra, no passado como na atualidade, decorria da ignorância do que fosse a tão implacável moléstia.  Não se conhecia a sua origem, poder de contágio, fórmulas para a sua cura.  No tocante aos casos de AIDS – ou SIDA – o problema não é diferente.  O povo vê uma doença que destrói gradualmente o seu portador, promovendo tormentos não somente em nível físico, mas, e principalmente, os problemas morais e emocionais decorrentes de tudo quanto cerca o aidético.  Assim, tomando-se em conta as desinformações, as contra-indicações, e os altos índices de contágio, atingindo desde recém-nascidos até idosos, numa sanha sempre cruel, não é de estranhar a instalação do regime de pavor e o conseqüente estado de preconceito que insurgem no meio social.  Numa sociedade cristã, porém, a visão do portador do vírus deveria suscitar o oferecimento da mão fraternal, da assistência amiga, da presença confortadora, àquele que marcha inarredavelmente para o decesso corporal.  Tudo isso, então, mostra a fragilidade da nossa fé, a impiedade que ainda nos sujeita, e o alto nível da ignorância que devemos aprender a dissipar.

P: – Qual deve ser o comportamento da família, quando descobrir que um dos seus membros está com AIDS?
R: – O comportamento de toda pessoa lúcida.  Após a constatação, a busca dos cuidados médicos e psicológicos, considerando-se que o portador do vírus necessitará desse apoio; a procura do arrimo da fé, não para choramingas infantis e impertinentes de quem deseja que Deus faça milagres, mas para o sustento moral no testemunho difícil, ante a certeza dos passos terminais a que a síndrome conduz.

P: – Surgirá algumas orientações aos pais, para que eles possam melhor informar os seus filhos, objetivando evitar que sejam contaminados pelo vírus da AIDS?
R: – Todas essas orientações esperadas encontram-se nas bases de uma digna educação moral dos filhos.  Desde novinhos, o hábito do diálogo, das conversas claras e honestas, sem incutir pavores, sem liberalismos perigosos.  Na esfera do uso de drogas injetáveis ou do uso do sexo desorientado e perturbador, chega a educação como elemento profilático de urgência, educação que os pais, muitas vezes, relegam à escola, a professores ou mesmo aos colegas de rua, sem coragem de abordar o problema com a profundidade que lhes seja possível e com a verdade que o amor determina.  Os pais que tenham filhos dependentes do recebimento de sangue, em institutos correspondentes, em razão de enfermidades variadas, ou em virtude de cirurgias diversas, deverão ter o cuidado de verificar se o sangue utilizado passou pelos indispensáveis exames de qualidade, etc.  Há de se pensar que, a medida em que a sociedade seja devidamente educada, de modo amplo e sério, a tendência aos contágios de AIDS diminuirá, como ocorre com tantas outras doenças contagiosas.

P: – Os Espíritos têm dito algo sobre as perspectivas de descoberta de medicamentos para a cura da AIDS?
R: – Os bons espíritos têm sempre acenado com os progressos da farmacologia, da bioquímica, o que, a seu tempo, proporcionaria aos homens a descoberta dos “anti-Aids”, tão logo a Humanidade tenha chegado ao momento de conquistar essa láurea abençoada.

P: – O que o Centro Espírita pode fazer para socorrer os portadores que a ele aportem?
R: – Na esfera dos seus atendimentos, desde os fraternos, por meio da assistência dos diálogos, do envolvimento amigo, até os campos da fluidoterapia, que em muito auxiliaria aos companheiros marcados pela AIDS a superar tormentos morais e mesmo dores físicas.  Entretanto, em nenhum caso, prescindirá o companheiro enfermo dos cuidados médicos mais específicos possíveis.

P: – Raul, diga alguma coisa aos irmãos que são portadores de AIDS.
R: – Aos meus irmãos assinalados pelo vírus da AIDS, em estado de enfermidade insidiosa, gostaria de dizer sobre a necessidade de não se deixarem abater.  Ninguém duvida das marcas dolorosas que lhes carcomem as almas.  Entretanto, é bom saber que Deus vela, que Deus sabe das razões mais profundas de tudo.  Razões que, possivelmente, vocês jamais tenham confidenciado a ninguém, mas que Ele sabe.  E, por saber, envolve-os sempre com o Seu amor infindo, concedendo-lhes energias novas e força íntima, a fim de que meditem sobre a vida e sobre o significado libertador da desencarnação, enfrentando toda a sua situação com ardente confiança no poder do amor de Deus, que vai encontrá-los através de mãos amigas e vozes queridas, ajudando-os na travessia difícil dessas horas de testemunho, quando a coragem é fundamental.