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Richard
Simonetti, funcionário aposentado do Banco do Brasil, residente
em Bauru, SP. É orador, jornalista e escritor espírita,
ocupando atualmente o cargo de presidente do Centro Espírita
"Amor e Caridade". Livros publicados: "Quem Tem
Medo da Morte?", "Uma Razão Para Viver",
"Atravessando a Rua", entre outros.
P:–
Por que, na atualidade, parte da juventude vive conflitos tão
intensos que desembocam em comportamentos comprometedores?
R:
– O jovem é um espírito que desperta para a existência humana,
atrelado a um corpo que lhe impõe completa amnésia quanto a sua
identidade pretérita e dúvidas em relação à personalidade
presente. A juventude, por isso, sempre foi uma fase de
conflitos exacerbados ou minimizados, de conformidade com o
estágio evolutivo do reencarnado e as influências que sofre.
Esses conflitos eram reprimidos em gerações passadas. Hoje se
manifestam livremente, em face de radicais transformações no
relacionamento familiar, concedendo ao jovem o direito de
exprimir suas perplexidades, ainda que na forma de contestação.
P:
– Nota-se, atualmente, certa
rebeldia da criança e do jovem. Seria isso auto-afirmação?
R:
– É preciso não confundir o
empenho de auto-afirmação, natural no jovem, com falta de
educação. Refiro-me não à educação formal, mas à auto-educação,
a disciplina das emoções, que nos distingue dos habitantes das
cavernas, habituados a resolver suas pendências “no grito” ou
“no braço”. No passado, quando prevalecia a autoridade dos
pais, essa agressividade era contida.
P:
– Identifica-se, no momento, uma presença crescente do jovem nos
Centros Espíritas, inclusive com a participação na arte,
envolvendo teatro, poesia, música, etc. Como você vê isso?
R:
– Com satisfação. A arte é uma
das mais belas e promissoras manifestações da capacidade
criadora do ser humano. Desde que não configurem apenas
iniciativas “arteiras”, as atividades artísticas enriquecem o
Centro Espírita.
P:
– O jovem deve trabalhar nos
Centros Espíritas ou seria interessante que ficasse somente com
atividades teóricas ou recreativas?
R:
– Fica difícil fixar o jovem no Centro Espírita em base de
“blá-blá-blá” e “curtição”. A experiência tem demonstrado que
as mocidades espíritas que dão certo são aquelas em que os moços
são convocados a participar de todas as atividades do Centro,
fixando-se em setores compatíveis com suas disponibilidades e
aptidões.
P:
– Como o jovem deve ser aproveitado no Centro Espírita, para que
ele se sinta valorizado e motivado?
R:
– Quando elegemos determinadas
tarefas para os jovens, já os estamos discriminando. Todos, em
qualquer faixa etária, são chamados a servir no Centro
Espírita. O aproveitamento em determinado setor não deve
subordinar-se à faixa etária e sim às disponibilidades e
possibilidades do candidato. Em qualquer idade, o fundamental é
conscientizar as pessoas de que o Espiritismo é trabalho.
P:
– O que estaria faltando ao jovem, que o motivaria a buscar a
compensação nas drogas?
R:
– Falta-lhe consciência do que é o envolvimento com esse vício.
Vagas informações, em que pouco se detém, constituem
conhecimento precário, que apenas excitam a sua curiosidade com
o desafio de fazer algo proibido. Por outro lado, há o problema
da auto-afirmação. Quando adolescente, fumei algum tempo,
porque isso me dava segurança. Ostentando o cigarro, sentia-me
“gente”. Além disso, com ele eu deixava de ser um “estranho no
ninho”, entre companheiros fumantes. Assim, por espírito de
contestação ou por empenho de sociabilidade, o jovem cai na
armadilha das drogas, por sinal muito mais comprometedoras do
que o cigarro. Esse afeta o corpo; aquelas desagregam a mente.
P:
– De um modo geral, como a
criança ou o jovem tomam contato com as drogas?
R:
– A droga é hoje como a chuva que cai sobre uma cidade. Marca
presença em todas as ruas. A repressão policial é tão impotente
quanto impedir que a chuva toque o solo. Por isso, é preciso
dar ao jovem um “guarda-chuva”, formado por sólida convicção
religiosa, conhecimento preciso sobre o assunto e, sobretudo,
saudável ambiente doméstico, onde o diálogo marque presença
constante. Assim, nem por contestação, nem por fuga, nem por
curiosidade o jovem será tentado a experimentar esse enganoso
céu artificial que produz tormentoso inferno.
P:
– A atividade religiosa
contribui para que o jovem deixe de se embrenhar pelos caminhos
nocivos da droga?
R:
– Sem dúvida, desde que o jovem
cultive religiosidade, o empenho por vivenciar os princípios
religiosos, superando a mera freqüência às igrejas. A
contribuição da Doutrina Espírita, neste particular, é marcante,
porquanto mostra-nos claramente as conseqüências do vício, a se
estenderem à vida espiritual e às existências futuras.
P:
– Notando que o filho está
consumindo drogas, qual deve ser o comportamento dos pais?
R:
– A fórmula ideal é o diálogo. Para tanto, é preciso cultivar a
convivência, favorecer a confiança e a camaradagem, sem as quais
fica prejudicada a comunicação em família. Pais sem tempo para
os filhos são os melhores amigos dos traficantes.
P:
– Além dos prejuízos físicos,
quais são os danos espirituais que o fumo, o álcool e a droga
acarretam às criaturas?
R:
– O vício cria condicionamentos
espirituais que fazem o tormento do viciado no Plano
Espiritual. Imaginemos o toxicômano impossibilitado de usar
drogas. Isto sem falar nas graves limitações físicas que
enfrentará em existências futuras, fruto dos desajustes
perispirituais decorrentes do vício.
P:
– E o sexo livre? É saudável a
liberação sexual que a sociedade aceita hoje como normal?
R:
– A liberdade é uma conquista humana, expressão do
livre-arbítrio que se expande com a evolução das sociedades
terrestres. Ela é a mãe da responsabilidade, facultando ao
indivíduo o direito de cometer seus próprios enganos, com o
compromisso de pagar por eles, aprendendo em definitivo o que se
deve ou não fazer. Esse princípio aplica-se também ao sexo.
P:
– Os meios de comunicação têm
contribuído para a desinformação dos jovens, distorcendo as
reais finalidades do sexo?
R:
– Nos meios de comunicação
temos, segundo a expressão evangélica, “cegos conduzindo outros
cegos”. Estes, por inexperiência; aqueles, por imaturidade. Os
comunicadores, formadores de opinião, com raras exceções, são
doutores na exaltação do sexo-prazer, de inegável importância no
relacionamento entre o homem e a mulher – é o apelo mais
poderoso da natureza em favor da preservação da espécie. Mas
são analfabetos espirituais, sem a mínima noção dos problemas
cármicos gerados pela promiscuidade sexual. A AIDS é apenas a
parte visível, uma ponta do “iceberg”, em relação aos desajustes
físicos e espirituais gerados pelo relacionamento sexual
indiscriminado e irresponsável.
P:
– Que informação devem os pais passar para os adolescentes com
relação ao comportamento sexual?
R:
– Lembro-me do menino que perguntou a sua mãe como viera ao
mundo. Constrangida, ela informou que fora trazido pela
cegonha. O garoto quis saber, sucessivamente, dos pais, avós,
bisavós... A resposta era a mesma: a cegonha. E o filho
surpreendido: “Puxa mãe! Há um século que não temos relações
sexuais em nossa família!...” A história demonstra que pouco
podemos ensinar aos adolescentes de hoje sobre o sexo. Eles
sabem tudo. O problema, portanto, não é de informação, mas de
formação, cumprindo aos pais dar tratos à criatividade, buscando
passar aos filhos o sentido mais profundo da orientação do
apóstolo Paulo: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas
me convêm”.
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