 |
|
Título :
Primeira EntrevistaEntrevistado:
Yvonne A. Pereira
Fonte:
RIE - Maio/1972
|
 |
ENTREVISTAS |
|
Yvonne A. Pereira a notável médium concede pela primeira vez uma
entrevista à Imprensa.
P:
- Ao receber a mensagem do Além, para os seus livros, você fica
consciente do que escreve ou só se reconhece ao terminar?
R: - A
obtenção de um livro mediúnico é trabalho árduo, que mobiliza
todas as forças mentais e psíquicas do médium a serviço do
agente comunicante, pois, é transmissão de pensamento a
pensamento. nem todos os médiuns têm as mesmas características
para a recepção desse gênero de trabalho. No que me diz
respeito, sofro transe pronunciando, embora, não completo. Tenho
consciência de mim mesma, mas qualquer rumor exterior me poderá
perturbar. Por essa razão só escrevo altas horas da noite. Vou
lendo o que escrevo como se se tratasse de um folhetim que me
apresentassem. O impulso do braço e atordoamento é ligeiro sem
ser veloz. Às vezes, ouço o murmúrio do ditado como se se
tratasse de um folhetim que me apresentassem. o impulso do
braço é ligeiro sem ser veloz. Às vezes, ouço o murmúrio do
ditado como se o Espírito comunicante falasse aos meus
ouvidos, o que facilita a recepção. Se a obra é de difícil
captação, como Memórias de um Suicida e Nas Voragens do Pecado,
o impulso vibratório do braço é menos rápido. Perco a noção do
que me rodeia, mas não de mim mesma; somente me apercebo da
tarefa que executo, por isso necessito de silêncio e
tranqüilidade. Às vezes, vejo as cenas que estou descrevendo,
mas só me inteiro do conteúdo da obra, verdadeiramente, depois
da sua publicação.
P:
- Quantas
obras á publicou e quais os seus autores?
R: –
Publicados tenho apenas onze mas possuo várias outras inéditas,
esperando oportunidade para virem a lume. Os autores são os
espíritos de Adolfo Bezerra de Menezes, Camilo Castelo Branco,
Charles, cujo sobrenome ainda desconheço, e Léon Tolstói.
Nessas onze obras estão incluídas as duas constantes do
volume Nas Telas do Infinito e as duas constantes do
volume Dramas da Obsessão.
P:
- Como e
quando começou a psicografar?
R: -
Aos doze anos de idade já eu escrevia impulsionada pelos
Espíritos, sem contudo, ter verdadeira noção do fenômeno. Sou
criada em ambiente espírita desde o berço e por isso o fato
nunca me impressionou. Sentia indomável impulso no braço e
atordoamento, sem no entanto, se verificar o transe, e isso fora
mesmo de sessões práticas. Desejava parar de escrever e não
conseguia. o fenômeno parece que se processava pela psicografia
mecânica. E via o Espírito comunicante, que se nomeava Roberto,
afirmando ter vivido na Espanha, pelo século XIX.
Nunca procurei desenvolver a mediunidade ou a provoquei.
Apresentou-se-me, ela , naturalmente, desde a infância. Apenas
procurei imprimir-lhe o rumo conveniente, educando-me na moral
evangélica e nas disciplinas recomendadas pela Doutrina
Espírita. E comecei a psicografar livros ainda em minha
juventude, recebendo o primeiro convite ao trabalho e as
necessárias instruções do Espírito Camilo Castelo Branco, que
desde minha infância se revelou um grande amigo espiritual.
Qualquer entidade que conceda uma obra psicográfica convida o
médium (não ordena) e fornece instruções. Sem esse convite será
difícil senão impossível, conseguir-se alguma coisa autêntica.
Pelo menos é o que acontece comigo.
P:
- Possui apenas o dom da psicografia ou faz alguma outra
coisa dentro do Espiritismo?
R:
- Possuo
vários outros dons mediúnicos, inclusive o de cura, os quais pus
a serviço da Doutrina Espírita e do próximo desde a minha
juventude. De tudo já realizei um pouco, como médium e como
espírita. Atualmente, porém, como médium, limito-me à
psicografia, à oratória, à colaboração na imprensa espírita, ao
Esperanto, à correspondência doutrinária e a um pouco de
assistência doutrinária e a um pouco de assistência social nos
meios espíritas. Possuo também a faculdade de efeitos físicos
(materializações), mas, não me interessando por esse gênero de
trabalho espírita não a utilizo.
P: - Que pretende para a
vida espiritual? Ou já se afinou com ela?
R: – Nenhum
de nós poderá fazer projetos para a vida espiritual. Nosso
futuro em Além Túmulo depende das
ações praticadas durante a vida terrena, ou seja, dos méritos ou
deméritos adquiridos neste mundo. Nada posso pretender,
portanto, da outra vida. Cabe-me apenas esperar pela justiça e a
misericórdia de Deus. Não resta dúvida, porém, de que vivo mais
da vida espiritual do que da material, há muitos anos.
P:
- A psicologia e a Parapsicologia podem explicar
cientificamente os fenômenos de psicografia?
R: - Não,
porque propositadamente, os investigadores contrários à tese
espírita não querem explicá-los, assim como nenhum outro
fenômeno espírita.
Fecham os olhos para não ver, tudo atribuindo ao inconsciente,
quando o “maior livro de Parapsicologia escrito até agora é “O
Livro dos Médiuns”, de Allan kardec, tal a declaração de um
erudito espírita brasileiro. O fenômeno da psicografia é
mediúnico, carecendo sempre de um agente espiritual independente
do médium. Não havendo esse agente, isto é, o Espírito
comunicante, deixará de haver psicografia. O mais que os
senhores parapsicólogos têm feito é apontar fenômenos de
animismo aliá-los aos fenômenos mediúnicos, ou seja, fenômenos
produzidos pelo Espírito do próprio médium e não por um espírito
desencarnado; nesta última hipótese a Parapsicologia para,
quando devia continuar.
Os espíritas foram os primeiros a observar os fenômenos
produzidos pelo animismo e nunca se sentiram diminuídos por
eles. Trata-se de fenômenos belíssimos, de grande valor,
provando não só a existência da alma e suas poderosas forças,
mas ainda a vontade soberana dela, sua independência e lucidez
fora dos limites corporais, sua ação, seu poder particular
conferido pela Natureza.
Essa questão vem sendo esclarecida desde os primórdios do
Espiritismo os ilustres pesquisadores e sábios psiquiatras
europeus e norte-americanos, e também por vários observadores
brasileiros.
Qualquer espírita, ainda que pouco versado em matéria de
mediunidade, e desde que não deixe cegar pelo fanatismo, poderá
realmente distinguir o fenômeno espírita do fenômeno puramente
anímico, porquanto eles são absolutamente diferentes. A
Parapsicologia, pois não explica a psicografia, como não
explicar nenhum outro fenômeno espírita de que participe o
espírito desencarnado, visto que prefere encobri-los.
P: - O psicógrafo interfere
na qualidade literária da mensagem?
R:
- Até
certo ponto, sim. Se, na vida prática e em sua vida mental, ele
age de forma a só atrair bons Espíritos, necessariamente as
comunicações recebidas serão de excelente qualidade . Se se
afinar, porém, com Espíritos ignorantes, medíocres, frívolos ou
mistificadores, as mensagens recebidas (escritas ou verbais)
serão suspeitas ou de má qualidade. Esse, um ponto doutrinário
dos mais conhecidos e debatidos. Se o médium possuir cabedal
intelectual também influirá, de certo modo, porque o agente
comunicante encontrará facilidade em usar esse material e a obra
sairá mais completa. Mas há médiuns iletrados, sem serem
analfabetos, que produzem obras literárias de imenso valor.
O médium norte-americano Andrew Jackson Davis, por exemplo,
obteve várias obras literárias importantes, entre outras a Grand
Harmony, que maravilhou o mundo; e o médium Thomas P. James,
também norte-americano, um simples mecânico impulsionado pelo
Espírito do escritor inglês Charles Dickens, terminou o romance
O Mistério de Edwin Drood que o autor deixava a meio, ao
falecer. E de tal forma o conseguiu que não foi possível
determinar o ponto em que termina a obra do escritor e começa a
ação do médium. Outros psicógrafos existiram, como o português
Fernando de Lacerda, que escrevia mediunicamente, em prosa e em
verso, conversando com amigos, com as mãos, acionado pelos
escritores clássicos de Portugal. Às vezes, Fernando de Lacerda
despachava com a mão direita papéis da repartição em que
trabalhava, enquanto psicografava com a esquerda páginas de
Alexandre Herculano, Eça de Queirós, Camilo, etc. O mesmo
sucedia ao médium brasileiro Carlos Mirabelli, de S.Paulo, que
psicografava com as duas mãos, também conversando, teses
científicas ou filosóficas, em línguas diferentes umas das
outras. E apenas cito esses, que, certamente, não interferiram,
de forma alguma, na qualidade ou na ação da psicografia. Médiuns
desse tipo são, porém, muito raros. O mais comum é haver
influência do médium, sobretudo quando ele não observa uma
disciplina rigorosa e não se empenha em bem compreender a
mediunidade, a fim de exercê-la criteriosamente. O médium muito
intelectualizado, por sua vez, mantendo idéias e opiniões muito
pessoais, e preconceitos às vezes inveterados, poderá influir
bastante, alterando o pensamento da entidade comunicante,
produzindo o a que denominamos “enxerto”.
Os Espíritos elevados, que já se manifestam com obras de
responsabilidade, preparam os seus médiuns longamente , por
vezes desde a infância, a fim de evitar tais ocorrências. De
qualquer forma, o Espírito comunicante utiliza o cabedal
fornecido pelo médium. Poderá este psicografar assuntos muito
superiores à sua capacidade, mas sempre existirão certas
expressões particularmente suas, naquilo que produz. De outro
modo, a qualidade da mensagem não depende apenas do médium, mas
também do Espírito que a fornece e até do ambiente em que exerça
a sua faculdade.
É trabalho penoso para ambos, e assunto complexo. O melhor meio
de a palavra dos Espíritos chegar pura e de boa qualidade é
procurar o médium moralizar-se, elevar-se espiritualmente,
fazer-se humilde , reconhecer as próprias fraquezas e jamais se
considerar excelente ou indispensável, além do dever de exercer
o bem de toda parte. Eis como o médium poderá influir nas
mensagens que recebe.
P: - Pode descrever um
pouco do estado de espírito da pessoa no momento de psicografar?
R: - Quase
que de regra, esse fenômeno se verifica tão inesperadamente que
o médium se surpreende a aturde, mormente se o fato vem
espontaneamente, sem o preparo prévio das sessões de
experimentação mediúnica. Se se trata, porém, de psicografia já
educada, com o médium responsável, ou da obtenção de um livro,
por exemplo, quando já o médium recebeu as devidas instruções de
seu Guia Espiritual; se se trata de um receituário, um conselho
a particulares, etc., esse estado (em mim, pelo menos) é de
expectativa, de emoção, de profundo respeito e até de religioso
temor, se assim me posso expressar. Às vezes, certa inquietação
sobrevém, pois que, já empunhado o lápis, com a mão apoiada
sobre o papel, o médium não tem a mínima idéia do que escreverá.
|
|
   
|
|
 |