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DIVALDO
PEREIRA FRANCO - Emérito educador. Fundou em 1952, na cidade de
Salvador-BA, com seu primo Nilson de Souza Pereira, a Mansão do
Caminho, instituição que acolheu e educou mais de 600 filhos
sob o regime de Lares Substitutos. Conferencista e médium
espírita, já proferiu mais de 10 mil palestras no Brasil e no
exterior e psicografou aproximadamente 200 livros espíritas que
já venderam 5 milhões de exemplares, inclusive com tradução
para 13 idiomas. Septuagenário quando fala sobre o espiritismo
demonstra o entusiasmo dos jovens com sabedoria que só a
experiência do bem viver pode proporcionar.
P: - Com relação ao
legado de Freud sobre a sexualidade, o desejo e a histeria....
R:
- Para nós, Freud foi um dos maiores
missionários na área da Psiquiatria a estudar as questões
sexuais. Ele penetrou no mais profundo do inconsciente humano.
Embora seja Jung que interpretou melhor o inconsciente
individual e o coletivo. Freud estabeleceu que a raiz de
qualquer transtorno comportamental era oriundo de determinados
desvios sexuais. Estabeleceu a libido como a força básica dos
conflitos do indivíduo. Para nós, ele exagerou em considerar o
ser humano apenas como animal sexual. É a ditadura do sexo. Nós
acreditamos profundamente na força da libido, mas acreditamos
também que existem outros valores. Aliás, Freud colocou muito
bem que a libido não é apenas um valor sexual. É o prazer
genérico. É o indivíduo que enfrenta a glutonaria, o alcoolismo,
por exemplo. São manifestações que levam ao prazer, ao desejo, a
uma forma de libido. O importante é que Freud acabou com o
puritanismo elisabetano; um puritanismo profundamente falso. Pôs
fim a velhas tradições segundo as quais o sexo seria imundo. O
sexo não é imundo. A mente, sim, é que o vê como tal. No
entanto, como a sua formação psiquiátrica em Viena era
eminentemente naturalista, ele concluiu que morreu o cérebro,
morreu o indivíduo. Para nós, morre o cérebro, mas não a vida. O
indivíduo leva a sua herança.
P: - A reencarnação
seria o grande dogma do espiritismo?
R:
- Por incrível que pareça, o espiritismo
não tem dogmas. Ele tem princípios, fundamentos, paradigmas. A
reencarnação explica a razão da vida, de estarmos no mundo.
Porque alguns nascem felizes e outros não; uns são feios e
outros são belos; porque alguns são inteligentes e outros não;
uns nascem ricos e outros miseráveis. Ora, acreditando na
unicidade da existência e em Deus seria um absurdo explicar
tantas injustiças. Somente a reencarnação explica essas
diferenças. E mais: explica ainda os transtornos psiquiátricos e
os desvios de comportamento. A reencarnação é um dos nossos
pontos básicos. Se o indivíduo não acreditar em Deus,
logicamente ele não aceitará a imortalidade da alma. Por
conseqüência, não acreditará no espiritismo. O espiritismo é a
crença em Deus, na imortalidade da alma, na comunicabilidade dos
espíritos, por fim, a crença na reencarnação. E para acreditar
na reencarnação é fundamental aceitar que o espírito vive e o
corpo morre. Aceitar a pluralidade dos mundos.
P:
- Como se daria a comunicação
entre estes mundos?
R:
- Nós vivemos num mundo de ondas, vibrações
de mentes, de intercâmbios. Cada um de nós ocupa uma faixa
vibratória. De acordo com nosso padrão de ondas, sintonizamos
com outras ondas equivalentes. Somos a soma de todas as
experiências de outras vidas. Quando morremos, entramos num
campo compatível com nossa conduta ética, moral e espiritual.
P: - E com relação à
obsessão?
R:
- São energias negativas. Se sou uma pessoa
cuja vida moral encontra-se num patamar negativo existirá uma
sintonia também negativa com o mundo espiritual. Torno-me uma
verdadeira tomada.
P: - O senhor
exemplifica em seu livro celebridades cuja vida sexual não foi
nenhum exemplo moral...
R:
- Refiro-me a algumas celebridades.
Cleópatra associou a sua beleza ao poder do Egito. Primeiro com
Júlio César; depois com Marco Antônio. Na Bíblia, também
encontramos personagens cuja conduta sexual foge aos parâmetros,
digamos, civilizatórios. Dalila, por exemplo, vendeu-se aos
filisteus. Nos tempos modernos, refiro-me a Marilyn Monroe e
Rita Hayworth. Encontramos na televisão, no cinema e na
sociedade celebridades que atingem o pódio não por determinados
valores morais de comportamento, mas por causa do valor do sexo.
Tornam-se sex simbols. Mas têm duração efêmera. Por mais que a
pessoa mantenha o culto ao corpo, a libido acaba por desaparecer
com a idade. É a inexorável perda de hormônios.
P:
- O Brasil é um dos países
com maior número de espíritas do mundo. Como o senhor explicaria
este fenômeno?
R:
- Temos, segundo estatísticas, mais de sete
milhões de espíritas. Mas elas não revelam a verdade. Este
número não corresponde à realidade. Muita gente ainda tem
preconceito. Prefere declarar uma doutrina tradicional que não a
nossa. Somente centros espíritas vinculados à Federação são
cerca de dez mil. Acho que temos por volta de 15 milhões de
espíritas.
P: - Mas por que o
Brasil é o maior país espírita do mundo?
R:
- Pela nossa miscigenação. Nossas heranças
indígenas e africanas. E também por causa da cultura européia,
portuguesa. O português é um povo muito crente. Veja a mudança
dos deuses convencionais realizada no Brasil pela nossa herança
africana. São muitas. Oxalá é o Senhor do Bonfim; Janaína é
Nossa Senhora. Quando o espiritismo chegou ao Brasil, por volta
de 1875, houve uma reação acadêmica e clerical, hoje suplantada.
Por outro lado, as doutrinas ortodoxas estão em crise por causa
da decadência dos valores e o academicismo encontra-se
arrebentado em conseqüência das conquistas modernas. Tudo que
era paradigma no Século XX, não é mais no Século XXI.
P:
— Por que o senhor coloca o
espiritismo como doutrina e não como religião?
R:
- O espiritismo é uma religião. Não uma
religião formal. Não temos nenhum tipo de ritual, não temos
culto. Preferimos dizer que é uma doutrina religiosa e não uma
religião doutrinária. Nossos postulados são aceitos
racionalmente. Allan Kardec foi tão notável que disse ser melhor
negar dez verdades a aceitar uma mentira. No dia que a ciência
provar que nós espíritas estamos errados em algum ponto,
abandonamos este ponto. Seguimos a ciência. Nossa doutrina se
fundamenta nos fatos. Nós abandonaremos este ou aquele conceito
caso haja qualquer tipo de contradição.
P: — Vivemos, assim,
em duas dimensões: uma material e outra espiritual. A ciência
explica esta dinâmica?
R:
- Sim, por que não? Existe uma ponte para
que não haja dois mundos. É um mundo só em dois campos
vibratórios. Como uma antena de televisão. Você vai caminhando
na rua e de repente olha para trás e tem a impressão de que
alguém está olhando para você. Isso, logicamente, não foi
somente impressão. Ou quando encontra um conhecido diz: estava
pensando em você. E o outro responde: eu também. Ora, isso é uma
telepatia direta do inconsciente. Os fenômenos, como a obsessão,
estão ocorrendo hoje com a maior naturalidade.
P: — Vivemos um mundo
onde o caos impera. Tanto moral, quanto social, inclusive, com
ameaça de guerra. O senhor é otimista com relação ao destino da
humanidade?
R: - Desse
caos não pode sair nada pior. Somente renovação. É necessário
muitas vezes destruir para renovar. Esta é uma das questões
abordadas por Allan Kardec no capítulo a "Lei da Destruição". Se
não houver destruição, não existirá renovação. Estamos passando
por um período decadente há anos. Enquanto acontece o
desenvolvimento industrial, tecnológico, científico, ao mesmo
tempo, ocorre um declínio ético e moral. Isso é natural. O ser
humano hoje desfruta de benefícios jamais imaginados. Isso em
vez de apaziguá-lo, atormenta-o. Ele quer sempre mais. Sou de
uma família muito modesta. Quando era criança, o pobre era uma
pessoa com um determinado padrão de vida. E aceitava aquela
situação. Hoje, ele não aceita. Existe um conflito econômico e
sociológico muito forte. Ele vê tanto poder, tanta glória que se
revolta. O pobre também, com razão, quer ter a sua televisão,
seu carro, sua casa. As coisas estão tão invertidas que, às
vezes, a televisão que o pobre tem dentro de casa é mais cara
que o seu barraco. É um paradoxo. Isso gerou o caos, a revolta.
O consumo desequilibrou o indivíduo. Deste desequilíbrio, nasce
a luta. Mas também advém um novo processo. Temos hoje várias
entidades preocupadas com os direitos humanos, os direitos da
mulher, da criança, do velho. Entidades internacionais como a
ONU, a FAO, a Unesco. Este é o contraponto. Há 70 anos, quando
era menino, tenho hoje 75, minha mãe era empregada, nunca saiu
da pia de lavar roupa e ainda buscava água na cabeça. Nem meu
pai, nem eu, nem meus irmãos, somos cinco homens, ajudavam-na
naquela tarefa. Ninguém ia buscar água. Era tarefa dela. Acho
isso hoje de uma crueldade sem limites, uma perversidade
incrível. Hoje, a mulher é mais respeitada. Em que época da
humanidade, houve tanto amor como hoje. Muitos destes órgãos
visam ao bem-estar da humanidade. É também um grande salto.
Vamos esperar ainda um pouco para que a cultura do amor, da
fraternidade e da beleza se consolide. Embora, convivamos hoje
com a ameaça de guerra. Haverá uma regeneração no Planeta Terra.
Você vai adquirir sentidos éticos, estéticos, vai poder amar sem
a grande preocupação do intercurso sexual.
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