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HERMÍNIO C.
MIRANDA - Formado em ciências contábeis, o conhecido escritor
Hermínio C. Miranda já tem publicados mais de trinta livros,
alguns deles verdadeiros best sellers. Sua pesquisa mais recente
voltou-se para as vidas de Fénelon, Espírito que participou
ativamente da codificação da Doutrina Espírita. Tendo trabalhado
durante muitos anos em Nova York, o Dr. Hermínio domina a língua
inglesa e dela tem tirado enorme proveito para aprofundar seus
conhecimentos. Conhecedor das técnicas de regressão a vidas
passadas, ele as utiliza apenas com propósitos científicos.
P: - Qual é
a sua atividade profissional?
R:
- Minha formação profissional foi em ciências contábeis.
Aposentei-me em 1980, após 43 anos de trabalho, 38 dos quais na
Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda- onde nasci, em
Nova York e no Rio.
P: - E como
o senhor participa do movimento espírita?
R:
- Do movimento propriamente dito posso dizer que não
participo no sentido de estar ligado a tarefas administrativas
em uma ou mais das numerosas instituições ou centros, espalhados
por toda parte. Se é que o escritor pode ser considerado
participante, então, sim, estou nele profundamente envolvido.
Tive que fazer tal opção, pois dificilmente poderia me dedicar
ao movimento simultaneamente com a tarefa de escritor. Uma delas
ou ambas, sairiam prejudicadas.
P:
- O senhor viveu algum tempo fora do país. Como foi essa
experiência, no que concerne à atividade espírita?
R:
- Eu
ainda não era espírita ao tempo que trabalhei no escritório da
CSN, em Nova York, na década de 50. Foi somente depois de
regressar ao Brasil, no final de 1954, após cinco anos nos
Estados Unidos, que comecei a estudar a Doutrina dos Espíritos.
Não há dúvida, no entanto, de que permanência na América foi
muito enriquecedora como experiência de vida, tanto para a minha
família como para mim pessoalmente. Para citar apenas um aspecto
positivo, além do impulso que minha carreira profissional tomou,
o inglês passou a ser minha segunda língua, o que muito me tem
ajudado na busca do conhecimento.
P: -
Sabemos que o senhor desenvolveu pesquisas de regressão a vidas
passadas, inclusive naquela que resultou em um livro em parceria
com o Luciano dos Anjos. Como o senhor explica essas regressões?
R:
- Em primeiro lugar é necessário esclarecer que não
cuidamos, em nossas pesquisas, de promover regressões por mera
curiosidade e nem com finalidade terapêutica. Nosso objetivo num
pequeno grupo foi, basicamente, o de estudar mecanismos da
memória. Do que resultou, aliás, o livro A Memória e o Tempo,
hoje em quinta edição. A pesquisa com Luciano dos Anjos, pelo
que depreendemos, foi um projeto combinado na dimensão
espiritual. O livro Eu sou Camille Desmoulins não apenas
demonstra convincentemente a realidade da reencarnação, como
constitui um singular documento histórico sobre a Revolução
Francesa.
P:
- Qual é a sua atual linha de pesquisas espíritas?
R:
-
Terminei há pouco um livro sobre Fénelon, um dos integrantes da
equipe espiritual que trabalhou, como se sabe, junto de Kardec
na elaboração da Doutrina dos Espíritos. A idéia surgiu enquanto
eu realizava a pesquisa para escrever Alquimia da Mente. Mas eu
desejava, antes do estudo sobre Fénelon, que exigiria demoradas
consultas bibliográficas, escrever o livro intitulado
Guerrilheiros da Intolerância e mais o recém-lançado volume
sobre o autismo (Autismo - Uma Leitura Espiritual), duas obras
igualmente trabalhosas em termos de pesquisa. É que me chegaram
ao conhecimento seis existências de Fénelon, desde o tempo do
Cristo, e a curiosidade me levou a mergulhar no tema.
Especificamente sobre Fénelon, por exemplo, foi necessário
discorrer sobre ele na condição de Arcebispo de Cambrai, ao
tempo de Luís XIV e, posteriormente, como Espírito. Como
entidade desencarnada ele participou ativamente junto de Kardec,
com vimos, mas também no grupo de Bordeaux, onde atuava a Sra.
W. Krell, conhecida por sua excelente mediunidade. Foi esse o
grupo que recebeu a muita conhecida Prece de Cáritas. Esse
valioso material figura no livro Rayonnements de La Vie
Spirituelle, edição da Union Spirite Belge, em 1949. Encontramos
também comunicações mediúnicas de Fénelon-Espírito no raro livro
La Survie, de 1897, coordenado por Rufina Noeggerath. Meu livro
deveria intitular-se As Seis Vidas de Fénelon. Depois de
concluído, no entanto, descobrimos, “por acaso”, que Lavater
também poderia ser considerado uma possível existência da mesma
entidade que vivera como Fénelon. Tenho outros projetos a
desenvolver, mas no momento estou dando uma trégua a mim mesmo.
P:
- Quantos livros o senhor já escreveu?
R:
- São
mais de trinta livros publicados. Alguns deles são de interesse
específico do movimento espírita - aquele tipo de livro que
dificilmente o leitor compraria, como Diálogo com as Sombras ou
Diversidade dos Carismas, que cuidam da teoria e da prática da
doutrinação e da mediunidade. Outros, sem excluir,
evidentemente, o leitor espírita, podem interessar a um público
mais amplo, não necessariamente espírita. Então neste caso A
Memória e o Tempo, Alquimia da Mente, Eu sou Camille Desmoulins,
Guerrilheiros da Intolerância e Autismo - Uma Leitura
Espiritual, ou Cristianismo, a mensagem esquecida (editado pela
Casa Editora O Clarim), bem como Nossos Filhos são Espíritos,
livrinho despretensioso que se tornou inesperado best seller.
Procuro, com estes últimos, oferecer uma leitura espírita de
aspectos paralelos da realidade espiritual como um todo.
P:
- Qual a sua opinião acerca de transplante e da doação de
órgãos?
R:
- Tive, de início, ao tempo em que os transplantes começaram
a ser feitos, algumas dúvidas sobre o assunto, perante o qual
ainda me vejo um tanto dividido. Não me parece que possamos
contar com padrões éticos suficientes confiáveis para lidar com
algo tão complexo como isso. Numa sociedade perfeitamente
esclarecida e convicta da realidade espiritual, esse aspecto
seria minimizado, mas, lamentavelmente, ainda estamos bem longe
disso, com sabemos. Esses temores já emergiam em escritos meus
publicados há quase trinta anos, como Uma Ética para a Genética
e outros. Não só eu temia pela mercantilização do sistema, e até
pela implantação de um câmbio negro de órgãos, como não me
parecia suficientemente examinado o componente espiritual
envolvido. Ainda penso assim. Um amigo médico me enviou, há
pouco, artigos publicados no exterior, nos quais são relatados
casos de influenciações e interferências psíquicas em pessoas
que receberam transplantes. Por outro lado, não me parecem
suficientemente seguros os critérios reguladores da extração dos
órgãos e sua distribuição. Impressionou-me de maneira dramática
um filme, ficção, mas assustadora - no qual um cardiologista
“encomendava” corações para uma verdadeira máfia que escolhia o
involuntário doador segundo especificações bem estudadas e o
executava friamente. As implicações do processo me parecem,
pois, amplas e profundas demais para um contexto em que a pessoa
humana é tida como máquina biológica em vez de um a entidade
espiritual reencarnada. Quanto à doação em si mesma, não tenho,
em princípio qualquer objeção a oferecer. Doar é sempre um gesto
de generosidade, especialmente quando se trata de propiciar
condições de vital importância para que alguém continue por mais
algum tempo a usufruir do privilégio da vida na carne. Mesmo
assim, contudo, penso que não conseguimos ainda regulamentar o
procedimento adequadamente. Com se viu, recentemente, no recuo
de certas determinações legais.
P:
- E sobre a clonagem de seres humanos?
R:
- A
clonagem inclusive, a meu ver, se situa no mesmo contexto de
insegurança mencionado a pouco. Não me parece que os
pesquisadores estejam conscientes das enormes responsabilidades
que assumem ao interferir com os processos da vida. Os
instrutores da Codificação advertiram sobre os riscos de tais
interferências. Clonar seres humanos para ter peças de reposição
é evidente temeridade. Somos espíritos encarnados e não
engenhocas biológicas. É claro que sempre que forem criadas em
laboratório condições para que o corpo físico se forme, alguma
entidade espiritual estará presente para reencarnar-se naquele
corpo. Não é isso contudo, que a gente lê, ouve e vê na mídia.
Há muita gente por aí tentando “brincar de ser DEUS”. Ainda não
sabemos ao certo como ser gente!
P:
- Como o senhor está vendo a imprensa espírita na
atualidade, incluindo o rádio, a televisão e a Internet?
R:
-
Penso que a
divulgação do modelo de vida contido no Espiritismo precisa ser
amplamente difundido, claro, mas não atabalhoadamente. O
Espiritismo não tem uma “mercadoria” para vender, mas uma
proposta muito séria de comportamento, uma visão nobre e
inteligente da vida e da chamada morte. A Doutrina Espírita não
deve e não precisa entrar na disputa de espaço na mídia a
qualquer preço, a custa do sensacionalismo. Claro, contudo, que
deve recorrer aos recursos disponibilizados pela tecnologia
moderna. Imprensa, rádio, TV, Internet e toda a parafernália
periférica estão aí para isso e a mensagem que temos para
divulgar é da melhor qualidade. Mais do que isso, o grande
público precisa desesperadamente dela para retomar o rumo
perdido.
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