P:
- Neste momento, no Brasil, em que as Federações estão bem
estruturadas, o que falta para se efetivar a unificação do
Movimento Espíita?
R:
- A palavra unificação, tomada
ao pé da letra, significa a ação de ficar unido, manter junto
para viabilizar a Doutrina Espírita no atendimento do Centro
Espírita, para que ele alcance a sua finalidade maior, que é
estudar o Espiritismo, expor a Doutrina para a vivência de tudo
o que é divulgado, dentro das suas paredes e além delas.
A proposta de
unificação é uma atividade-meio, objetivando a célula do
Movimento Espírita, que é o Centro Espírita, para que ele
alcance a sua real finalidade, que seria desdobrar a Doutrina
Espírita no estudo, vivência e divulgação.
Nessa perspectiva, a
unificação é uma tarefa de relevância, posto que se propõe a que
possamos ombrear-nos uns com os outros, somarmos esforços,
dividirmos experiências, avaliarmos soluções para os problemas
que enfrentamos, procurarmos socializar o conhecimento espírita
e apoiar as casas mais frágeis.
A unificação tende a
potencializar o Movimento Espírita em qualidade e disponibiliza
ao movimento a possibilidade de fazermos correções de rumo, sem
nenhuma preocupação de tornar o Movimento Espírita uniforme, mas
sim respeitando as idiossincrasias de cada região, de cada
estado, de cada país.
O trabalho de
unificação objetiva assegurarmos a vivência do conteúdo espírita
que ganha diversos designs, de acordo com as diversas
localidades.
O Centro Espírita
localizado no centro de uma cidade trabalha a Doutrina Espírita
de um jeito; o grupo de periferia, que tem uma outra vocação,
trabalha numa outra perspectiva. Entretanto, todos estão
identificados com a mesma base kardequiana, estão vinculados aos
mesmos princípios doutrinários e podem guardar a mesma
fidelidade doutrinária, sem prejuízo da diversificação das suas
atividades.
A unificação é a
proposição de podermos estar integrados, unidos, reunidos
amorosamente, dando como conseqüência um trabalho mais
solidário, mais fraterno, mais amigo e mais fecundo, sem nenhuma
imposição, sem nenhum constrangimento, sem nenhuma violência a
ninguém, sem nenhum patrulhamento a esta ou àquela entidade, sem
nenhum tipo de ação que possa representar cerceamento da
liberdade de qualquer grupo.
É um trabalho,
portanto, assentado sobre a fraternidade.
Acho que Bezerra de
Menezes é o Espírito que melhor traduziu o trabalho de
unificação, depois de Kardec, quando ele propôs que esse
trabalho se estabeleça em regime de urgência mas que não seja
apressado. Urgência define objetivos bem claros a serem
alcançados e não apressado, diz ele, porque não nos é lícito
violentar a consciência alguma.
O trabalho de
unificação, no fundo, é uma tarefa-meio, que objetiva um fim que
todos nós espíritas desejamos, que é de colocar a Doutrina
Espírita ao alcance de todas as pessoas e ele tem como objetivo
máximo o Centro espírita, que é a unidade fundamental do
Movimento Espírita.
P: -
Quais seriam hoje os principais
obstáculos para a unificação?
R: -
Acho que é o personalismo, que constitui um obstáculo imenso ao
trabalho de unificação.
Somos espíritos que
trazemos dificuldades imensas no campo do orgulho, somos muito
egoístas. Nossa prepotência às vezes nos coloca acima da tarefa,
acima da causa. Achamos que a Casa tem de ser às vezes maior do
que a Causa. Isso faz-nos limitar a percepção, faz-nos
reivindicar idéias que às vezes são pessoais e às vezes são de
grupos e que se colocam em detrimento do coletivo, da maioria, e
faz com que a nossa posição seja de inflexibilidade, de
intolerância, de preconização da verdade exclusiva, e isso causa
uma impermeabilidade no contato com o outro. Todas as vezes que
nos manifestamos assim, criamos um grande vácuo na relação com o
outro.
A unificação prevê a
manutenção da individualidade de cada instituição, o perfil de
cada região, a idiossincrasia de cada Centro Espírita.
A imagem do feixe de
varas é significativa. Um feixe é constituído de diversas varas
que têm diversos polos, diversos jeitos, diversos tempos,
diversas texturas. Solitariamente, essas varas são frágeis, são
facilmente quebráveis, mas quando se agrupam elas formam uma
união de forças, na linguagem de Bezerra de Menezes, e se tornam
realmente invulneráveis.
O Movimento Espírita,
quando se une, se vincula, necessariamente não uniformiza todos
os Centros Espíritas, impondo que as varas tenham a mesma
textura, o mesmo comprimento, a mesma constituição, mas respeita
e assegura a liberdade de cada um poder ser como queira ser,
tendo entretanto como base fundamental a codificação kardequiana,
inspirada naturalmente no Evangelho que ela ressuscita.
O personalismo faz com
que assumamos uma posição de dono do movimento, de a nossa fala
ser mais importante que a dos outros e a gente assume a condição
de ser o porta-voz da verdade, em detrimento, às vezes, da
maioria. Isso cria dificuldade imensa.
Um outro problema que
encontramos para que a unificação se estabeleça é a falta de
encontro. Para que possamos nos unir, precisamos nos reunir. Se
não nos reunimos, como é que vamos nos unir? Penso que essa é
uma dificuldade que se coloca na contramão do trabalho de
unificação. Precisamos nos encontrar, estar juntos, conviver,
para podermos viver bem e o obstáculo sem dúvida maior é a
ausência da perspectiva amorosa de cada tarefeiro.
Só há unificação se
houver união; só há união se houver reunião; só há unidade se
houver fraternidade e só há fraternidade se houver amor nas
almas. Talvez por isso Jesus tenha afirmado de forma bastante
eloqüente que seus discípulos seriam reconhecidos por muito se
amarem, e os espíritas, na fala do Espírito da Verdade, viessem,
de forma categórica, dizer que o primeiro mandamento era
"amai-vos".
Penso que se não
conseguirmos experimentar o exercício da amorosidade entre nós,
trabalhadores espíritas, a unificação se tornará uma utopia, mas
se conseguirmos fazer esse esforço, então nos daremos conta de
que somos diferentes mas podemos estar juntos; podemos divergir
mas não precisamos nos separar; podemos pensar diferente sem
brigar; apresentamos às vezes idéias que não combinam, mas não
precisamos agredir pessoalmente um ao outro e, nesse processo de
convivência amorosa, nós vamos lapidando as nossas experiências,
ajustamos nossos pensamentos e vamos encontrando os nexos que
são naturalmente as posições de equilíbrio.
Já que o Movimento
Espírita, na tarefa de unificação, tem uma base espiritual, que
os espíritos trabalham nos inspirando, penso que à medida que
nós nos abrimos para a capacidade de aceitar o outro como ele é,
de uma forma incondicional, que seja possível ao nosso coração,
nós encontramos aí uma inspiração superior. Os espíritos
conseguem nos favorecer com suas energias, com seus pensamentos,
com suas intuições e nós conseguimos superar os obstáculos que
são próprios de seres humanos.
P:
- Qual
seria o papel da Federação Espírita na unificação?
R:
- O trabalho de uma federativa
é coordenar, dinamizar, propor, favorecer encontros, porque a
federativa, na verdade, não é uma pessoa e não é um grupo de
pessoas. A bem da verdade, ela deve ser a reunião da
manifestação dos espíritas de um determinado Estado, de um
determinado país ou região. A federativa do Estado representa os
espíritas daquele Estado, portanto, tem a função de dinamizar o
Movimento Espírita naquela jurisdição, por assim dizer.
Enquanto federativa, o
seu trabalho é de facilitar esses encontros, de propiciar a
catalização das atividades espíritas, de ajudar o Movimento
Espírita a trocar experiências para fazer correção de rumos, de
poder estar primando para que o Movimento Espírita valorize
eventos dentro de uma base kardequiana. Essa é a tarefa das
federativas.
Não é tarefa da
federativa mandar, obrigar, impor, constranger, determinar,
porque não há no Movimento Espírita uma organização hierárquica
religiosa, mas há uma organização fraternal, e esse é o vínculo
federativo.
As Casas se unem numa
adesão espontânea, inteiramente voluntária e sem nenhuma
subordinação a qualquer autoridade, o que faz a gente ver o
movimento de unificação, portanto, de uma forma bastante
diferente das outras organizações religiosas, porque é um
movimento horizontal, é um movimento no qual a Doutrina Espírita
deve estar preconizada como sendo a base das nossas relações e
onde nós somos companheiros de jornada. Não há, portanto, uma
figura que encarne, por assim dizer, a pessoa do sacerdote, de
um sumo sacerdote, como dizia Kardec.
Nós não temos a
formatação religiosa cultista. Isto nos dá bastante
flexibilidade para entender que uma federativa tem como meta,
como missão, unificar o Movimento.
O Centro Espírita é o
maior beneficiário da unificação e a Federação Espírita só
existe para de alguma forma apoiar o Centro nas suas atividades
fundamentais, porque é o Centro Espírita que faz esse trabalho
na linha de frente; é ele que atende o público, é ele que
recebe, que aplica o passe, que divulga, que faz atividades
comemorativas, e a Federação vai dotar o Centro Espírita para
que ele esteja aparelhado e possa receber assim a população e
fazer face à demanda que o alcança, exigindo-lhe uma posição
equilibrada doutrinariamente, lúcida, adequada e a Federação,
portanto, representa o esforço dos espíritas em salvaguardar a
Doutrina Espírita na sua pureza, na sua beleza, e socializar o
pensamento espírita entre todas as Casas, as que têm mais, as
que têm menos, aquelas que já superaram o problema em si e
aquelas que estão passando por problemas, por sua vez e assim
nós vamos caminhando, no âmbito da fraternidade, tendo como
canais de interlocução a Federação, os Conselhos Regionais, as
Uniões Regionais, os órgãos departamentais federativos, que são
todos mecanismos que tentam agenciar o grande objetivo de uma
entidade federativa.
P: - Como o
espírita, no seu canto de trabalho, pode colaborar na
unificação?
R:
- O espírita colabora quando
vende a idéia da unificação.
Eu comparo o Centro
Espírita com uma família. O trabalhador que veste a camisa do
Centro Espírita, dá a vida pela equipe em que trabalha, vamos
dizer que seja o setor de infância. Ele dá a vida pela infância,
mas não consegue ver o Centro Espírita. Ele só consegue ver o
trabalho da infância. É como se o Centro Espírita fosse só a
evangelização infantil. Se alguém lhe dissesse: "olha, vem aqui,
venha ajudar a limpar o Centro para a atividade adulta", ele
diria: "não, eu sou do departamento de infância". Ele é um
espírita que tem uma visão setorizada do Movimento Espírita.
Tem um outro espírita
que freqüenta a mesma Casa e que tem um outro perfil. Ele
consegue ver todas as atividades, as equipes, os departamentos.
Ele tem uma visão mais global. Ele se movimenta tanto num
departamento quanto noutro, mas se você disser: "olha, vamos a
um outro Centro fazer uma palestra, ajudar, porque eles têm lá
uma dificuldade de expositores", ele diria: "não, não, meu
Centro Espírita é este". Ele está restrito ao seu Centro
Espírita, que ele chama o "seu" Centro, porque a visão dele é
restrita. É maior do que aquela do trabalhador da equipe que
fica restrito ao seu departamento, mas é menor do que a daquele
outro que, participando da mesma instituição, é convidado e vai
a um outro Centro Espírita, para fazer uma doação de telhas,
porque o Centro está com dificuldades financeiras. O que tem
este perfil já tem uma visão de Movimento mais ampla. Ele começa
a ver a Causa acima da Casa. Ele já sabe que ali é um espaço
onde a Doutrina Espírita é elaborada, mas a Doutrina não é a
Casa. A Doutrina faz parte, e se desloca, e se movimenta em
inúmeras Casas, fazendo aquilo que Kardec chamaria a grande
família espírita. A gente sente que ele faz parte de uma grande
família.
Quem pensa grande desse
jeito, que consegue vislumbrar o todo, esse é o trabalhador da
unificação. Esse consegue pensar no Espiritismo como sendo a
doutrina que deverá estar animando a Casa. A Casa é o corpo. A
alma que alimenta a Casa é o Espiritismo. Ele vislumbra a
Doutrina Espírita de uma forma mais ampla, mais abrangente. Ele
não tem aquele amor egoísta do "meu Centro Espírita". O amor
dele se espraia além das fronteiras do seu grupo para ver o
Movimento Espírita. Ele está preocupado com o Movimento
Espírita.
Esses tarefeiros são
muito poucos. Se formos analisar, formamos como que uma
pirâmide. São poucos aqueles que estão no ápice, que têm essa
compreensão da pirâmide como um todo. Quem está na base não se
dá conta da totalidade da pirâmide. É como se alguém abrisse uma
janela e visse o tronco de uma árvore; outro abrisse a mesma
janela e dissesse: "mas que bosque extraordinário" e outro ainda
abrisse a janela e dissesse: "este mundo tem uma floresta que
nós precisamos proteger". Cada um olha pela mesma janela, mas
tem uma percepção diferente.
O trabalhador da
unificação é aquele que consegue vislumbrar a Doutrina Espírita
de uma forma grandiosa e vai além das fronteiras do seu Centro,
da sua União Regional, do seu Estado. Ele pensa no Movimento
Espírita no âmbito da Terra.
Esse é o trabalho de
unificação. É um desafio, portanto, estabelecer a construção
dessa consciência crítica e crística que deve ter o trabalhador
espírita identificado com a tarefa da unificação.