O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Entrevista com Heitor Luz Filho

Entrevistado:
Heitor Luz Filho

Fonte:
Petit Editora

ENTREVISTAS

      

Heitor Luz Filho, um escritor espírita além das fronteiras do tempo. Aos 83 anos de idade, Heitor Luz Filho faz planos para o futuro contabilizando, emocionado, os resultados de uma vida inteira norteada pela Doutrina Espírita.

O autor do romance espírita Além das fronteiras do tempo, publicação da Petit Editora, iniciou sua carreira literária em 1955, com o livro Pedra Grande, a saga dos pescadores de Santa Catarina. Esta entrevista, concedida em setembro de 2002 – a primeira concedida após um longo período de recolhimento do autor –, é uma breve demonstração do vigor e da lucidez de um intelectual que, ainda hoje, é capaz de lutar com firmeza e determinação pelos seus ideais.

P: - Qual foi a influência do seu pai, na sua formação?
R: - Meu pai influenciou-me por duas vertentes. Primeiramente, na formação espírita, pois ele sempre conduziu sua vida dentro dos postulados da Doutrina. Foi um dos pioneiros da implantação do Espiritismo em Santa Catarina, em 1918, fazendo parte da primeira Diretoria da Federação Espírita daquele Estado, onde militou, juntamente com minha mãe, até mudar-se para São Paulo. Como reconhecimento ao seu trabalho nessa área, seu nome, professor Heitor Luz, como era conhecido, foi dado à rua onde residiu, em Florianópolis, encontrando-se, no final, com a Rua Allan Kardec. Na segunda vertente, o exemplo de sua vida, na qual enfrentou dificuldades de toda ordem, especialmente depois que se instalou com nossa família no Rio de Janeiro. Sozinho, desempregado, porém, sem nunca desanimar, apoiado na fé, que a plena compreensão da Doutrina proporciona aos seus profitentes, reconquistou sua posição profissional num meio estranho e hostil, partindo da posição modesta de auxiliar de laboratório, até merecer que seu nome fosse, também, dado a uma rua do Rio de Janeiro. Transferiu aos seus filhos princípios de humildade e de luta, sem desânimo, que igualmente pautaram seu comportamento.

P: - Quando foi lançado seu primeiro livro, Pedra Grande?
R: - Foi em 1955, no Rio de Janeiro, quando já exercia a advocacia. As reminiscências da ‘santa terrinha’ – como dizem os ‘barrigas-verdes’ – eram muito fortes, principalmente porque lá estava o grande amor da minha vida, com a qual me casei e constitui família.

P: - Quando sentiu as primeiras manifestações mediúnicas?
R: - Ainda jovem, com cerca de dezoito anos. Naquela época, minha mãe foi vítima de uma doença grave, que motivou o início de nossas reuniões familiares em busca do socorro espiritual, despertando minhas primeiras manifestações mediúnicas. Ainda em Florianópolis, minha mãe acompanhava meu pai em palestras doutrinárias, nas caravanas de assistência social aos pobres e também na penitenciária local. A dor foi a motivação de um novo florescer da doutrina em nossa família.

P: - Recorda-se do centro espírita onde iniciou os estudos doutrinários?
R: = Como disse, minha iniciação na fenomenologia mediúnica foi espontânea, resultante de um autodidatismo, pois o fato levou-me a estudar a Doutrina Espírita nos livros que faziam parte da biblioteca do papai.

P: - Além da psicografia, o senhor é portador de outras percepções mediúnicas?
R: - Da psicofonia. Essa mediunidade manifestou-se durante as reuniões que se realizavam em nossa casa. Com o passar do tempo, formalizou-se um grupo familiar, dedicado à doutrinação de espíritos sofredores, sob a direção do meu pai, que era o doutrinador, com a autoridade, a experiência e o conhecimento doutrinário que possuía.

P: = Qual foi sua primeira atividade no Espiritismo?
R: = Foram essas  já explicadas. Foi um início difícil, quando eu incorporava espíritos sofredores, em sua maioria necessitados de doutrinação.

P: - Como se sentiu o jovem Heitor ao mudar-se, da provinciana Florianópolis, para o Rio de Janeiro – na época a capital federal do País – agitada por movimentos políticos e culturais, onde o jogo e a diversão se confundiam nos cassinos e hotéis luxuosos?
R: = Foi um período difícil, sob vários aspectos. Filho de uma família de classe média baixa, como se diz agora, meu pai lutava com muitas dificuldades e eu não dispunha de muito tempo para grandes diversões, nem participava dos movimentos políticos. Ao ingressar na universidade, os contrastes eram muito grandes – já naquela época –, em confronto com os princípios, absorvidos da doutrina, que faziam parte da minha vida, como médium atuante que era.

P: - Qual era sua idade, quando escreveu a primeira psicografia?
R: - A mediunidade de psicofonia surgiu no Rio de Janeiro, aos dezoito anos, e a de psicografia, quando eu já era casado, aos vinte e seis anos. Nos momentos de paz, que a vida conjugal me proporcionava, comecei a desenvolver a psicografia e, com a coleção de mensagens recebidas, constituí o primeiro livro Portas de Redenção, publicado por minha própria conta, uma edição modesta à altura dos meus recursos. Achei que não devia deixar aquele material guardado na gaveta, caso contrário perderia a razão de ter sido psicografado.

P: = Nessa época, o exemplo de algum médium, em particular, o influenciou?
R: = Como não podia deixar de ser, Chico Xavier já despontara com seu trabalho na Doutrina e seus livros já começavam a ser editados pela Federação Espírita. Constituía, assim, um exemplo a ser seguido por todos os que se iniciavam na tarefa.

P: = Lembra-se de ter acompanhado seu pai a eventos ou reuniões da Federação Espírita Brasileira?
R: = Não. Papai relacionava-se com figuras proeminentes da FEB daquele tempo, em virtude de seu trabalho na formação e desenvolvimento da Federação Espírita de Santa Catarina, bem como na edição do jornal A Luz. Freqüentava a FEB sem participar de suas atividades e publicava, também, artigos na revista O Reformador.

P: - Manteve algum contato ou encontrou-se pessoalmente com Chico Xavier ou Waldo Vieira?
R: = Não. Conhecia-os, apenas, por intermédio de seus livros, que ia adquirindo à medida que eram publicados, possibilitando, assim, a formação de uma biblioteca completa de suas obras.

P: = Por ocasião dos seus trabalhos de psicografia, qual era o seu método e o local onde psicografava?
R: = Com a experiência já obtida nos trabalhos de comunicação com a espiritualidade, estabeleci uma disciplina, que previa momentos de recolhimento e prece em minha residência, em dias e horários fixos. As manifestações psicográficas foram, então, surgindo, com a assistência dos espíritos orientadores.

P: = Entre suas psicografias, encontra-se uma obra de Joanna de Ângelis, Desperta irmão! Quando foi recebida e qual foi sua reação ao sentir-se próximo de uma entidade tão ligada ao médium Divaldo Pereira Franco?
R: = De início, surpreso. Mas tal como ‘o vento’, o espírito ‘sopra onde quer’ e, além da assinatura, cada espírito autentica o trabalho pelo seu estilo, da mesma forma que os autores literários. Joanna de Ângelis, naquela época, seguia uma linha de conselhos e palavras de consolo evangélico aos que se encontravam em sofrimento, diferente daquela que adota hoje, de cunho psicológico.

P: - Quando foi e como se sentiu ao envolver-se mediunicamente com o Espírito Irmão X, durante as psicografias que recebeu?
R: = Sempre tive grande admiração pelo Irmão X, desde sua passagem entre nós como escritor, em que deixou bem marcada sua personalidade e estilo. Por isso, ao concluir a psicografia de sua primeira manifestação e ao deparar com sua assinatura, fiquei bastante feliz. Analisei o texto com cuidado, comparando-o com seu estilo, já há muito meu conhecido, e não tive dúvidas.

P: = O Espírito Francisco de Monte Alverne – de quem recebeu o livro O Cristo em cada um – raramente apresenta-se por meio da psicografia. Comente a participação dessa entidade na literatura espírita.
R: = Também o nome de Monte Alverne me surpreendeu, ao surgir na psicografia, porque eu não o conhecia. Parece-me que ele era um padre. Conheci-o por intermédio do espírito que fez o prefácio do livro, Zilda Gama. Assim, a prefaciante foi a apresentadora e a avalista do trabalho, porque eu não dispunha de elementos de comparação, como não tenho, ainda agora, para responder a esta pergunta.

P: = O Espírito Scheila comunica-se, segundo alguns médiuns, com muita ternura e elevação. Como foi o seu contato com ela? É possível descrevê-la?
R: = Descrevê-la, em sua configuração perispiritual, não, porque não sou vidente. Meu contato com ela foi por meio da psicografia, quando começou a transmitir mensagens que foram consubstanciadas no livro Cartas de paz e amor. O detalhe interessante, nas comunicações de Scheila, é que elas aconteceram depois que a minha esposa iniciou o Evangelho no Lar. Reunia suas amigas durante o dia, em nossa casa, uma vez por semana, para o estudo do Evangelho. Enquanto se reuniam nos estudos, e mesmo depois, eu aproveitava o ambiente de paz e harmonia que se instalava em nossa casa e me trancava no quarto – já estava aposentado – para receber as psicografias. Por intermédio de Scheila, por meio da psicografia, fiquei sabendo que ela e minha esposa foram companheiras de enfermagem durante a I Guerra Mundial. Em comunicação psicofônica, recebida após o desencarne da Sélene, soube que ambas prosseguem nessa atividade, em hospital do plano espiritual. Quanto à ternura e elevação de Scheila, estão patentes nas palavras manifestas em suas mensagens.

P: - Quais foram seus companheiros de militância doutrinária nessa época?
R: = Não exerci, praticamente, uma militância doutrinária, porque, como já disse, desenvolvi a mediunidade num centro familiar, que depois de funcionar durante um longo tempo, encerrou suas atividades. Nessa época, eu me encontrava entre o término da Faculdade de Direito, o início das minhas atividades advocatícias e preso a um emprego público, na expectativa de um casamento, por procuração – depois de um noivado postal de oito anos, sem ver a noiva. Em razão desses compromissos, não estava em condições de militar no movimento espírita. Não obstante, conheci espíritas que nele atuavam intensamente, como Abstal da Silva Loureiro e tantos outros.

P: = Como analisa o movimento espírita brasileiro, nos dias de hoje?
R: = Com os avanços tecnológicos dos meios de comunicação, o movimento espírita alcançou uma dinâmica muito boa. Já se encontram, nas livrarias, revistas e publicações voltadas exclusivamente para o Espiritismo. Programas de televisão e de rádio levam aos quatro cantos do país imagens e informações esclarecedoras sobre a fenomenologia e a filosofia espírita. Editoras colocam nas livrarias um grande volume de livros que atendem as mais variadas camadas de leitores, desde aqueles que buscam apenas uma distração e o deleite nas histórias ‘do outro mundo’, até aqueles que procuram o resultado de estudos e orientações doutrinárias, visando o aprimoramento de sua cultura espírita. As Obras Básicas são publicadas e distribuídas para todo o país por editoras de alta confiabilidade, como a Petit, permitindo ao grande público organizar sua biblioteca de estudos espíritas. Congressos, simpósios, ciclos de palestras, são realizados com freqüência, não só nas capitais dos Estados, como também nas cidades do interior, dos quais participam categorizados expositores, lotando auditórios, demonstrando que a Doutrina Espírita está em plena propagação entre nós, conscientizando grande parcela da nossa população.

P: = Quanto ao movimento espírita de São Paulo, poderia citar algum acontecimento importante?
R: = Sem dúvida, o movimento espírita bandeirante é o de maior categoria e pujança. A Federação Espírita do Estado de São Paulo exerce, com vigor, sua liderança, promovendo eventos, abrindo suas instalações modelares para a realização de atividades das mais diversas, não só nas áreas de estudo e pesquisa, como também no setor assistencial. As demais instituições, localizadas na capital e no interior do Estado, são igualmente ativas, mantendo suas portas permanentemente abertas para todos os que as procuram em busca de socorro para suas dores e esclarecimento para suas angústias.

P: = Na sua opinião, entre os jornais e revistas espíritas, há algum veículo que mereça maior destaque?
R: = Entre os jornais, destaca-se o Jornal Espírita editado pela Federação Espírita do Estado de São Paulo, com amplo noticiário do movimento em âmbito estadual e nacional, pelos seus artigos, assinados por figuras de destaque, reportagens e promoções literárias, vinculadas à Doutrina. A Revista Internacional do Espiritismo, da Editora O Clarim, de Matão, por sua vez, lidera as demais publicações do gênero, não só pela apresentação gráfica, como também pelos textos redigidos com seriedade e profundidade doutrinária. O Mundo Espírita, atualmente editado pela Federação Espírita do Estado do Paraná, é outro veículo que merece destaque. Aliás, tenho uma vinculação especial com esse jornal. Foi em sua sede – ainda no Rio de Janeiro, na Travessa do Ouvidor, no escritório do advogado Henrique Andrade, na época também  seu editor e proprietário – que comecei a ensaiar a prática advocatícia. Naquela oportunidade, escrevi novelas em capítulos, publicadas no O Mundo Espírita.  O Reformador, editado pela FEB, não pode deixar de ser citada, apesar do seu conservadorismo.

P: - Seu romance Além das fronteiras do tempo alcança três períodos: a Revolução Francesa, os instantes finais do Brasil Imperial, já às vésperas da República e a fase do golpe militar que governou o Brasil, a partir de 1964. Qual é, espiritualmente, o elo de ligação entre essas épocas?
R: = A Revolução Francesa foi um marco na história moderna da humanidade, criando uma nova concepção das relações humanas. A bibliografia espírita, de autores diversos, relata a transladação, para o Brasil, de grandes grupos de espíritos da França – que lá viveram naqueles dias tumultuados de violência e dor –, para aqui, na oportunidade do regime da escravatura, resgatarem as faltas cometidas. As ligações – de rancor, ódio e amor – que vinculavam entre si os indivíduos naquele evento, foram igualmente transferidas para cá, prosseguindo suas vivências, em novas oportunidades proporcionadas pela bondade divina. E os dramas se sucederam, com os personagens ocupando outras posições e roupagens, mas trazendo dentro de si mesmos, com intensidade, sentimentos a serem burilados. Uma encarnação revelou-se insuficiente para as modificações necessárias e, novamente, todos voltaram a encontrar-se em situações extremas, em lutas subterrâneas – repetindo aquelas mesmas ocorridas na França. As emoções afloram, a par com as violências e injustiças, tal qual naquela época, para finalmente renascerem num período de paz, em que o país e os personagens recebem da bondade do pai uma nova oportunidade para um reencontro de conciliação.

P: = Sua informação de que Além das fronteiras do tempo é um livro inspirado refere-se à contribuição de algum espírito em especial?
R: - Em especial, não. Creio que foi mais um trabalho resultante de minha intuição e admiração por aquele momento da história francesa, com repercussão em toda a humanidade, que estudei com dedicação. Como tudo tem uma razão de ser, especialmente essas atrações e vivências emocionais, poderá ter acontecido – quem sabe? – a intuição de fatos já vividos.

P: = O personagem central de Além das fronteiras do Tempo – Roque Scarpini – é real?
R: = Que eu tenha consciência, não. Alguma coisa, da criação do personagem, como religioso, no entanto, pode ter sido originária da minha passagem pelo colégio de padres, em Santa Catarina, de onde fui expulso, por incompatibilidade religiosa.

P: - As personagens de Além das fronteiras do Tempo,  Vivienne ou Sinhazinha Carolina, ou ainda a médium Terezinha, teriam algo em comum com Dona Sélene, sua esposa?
R: = Em comum, vejo a inocência, a doçura e a bondade que caracterizam as personagens, sentimentos que aureolaram, sempre, minha esposa, Sélene – por quem sou um eterno apaixonado. Aguardo, com ansiedade, o momento do nosso reencontro, tão logo o Pai entenda que tenha chegado a hora.

P: - Como conseguiu conciliar o exercício da advocacia, a literatura, as atividades no centro espírita e ainda suas obrigações familiares?
R: = Foi muito difícil. A advocacia é uma atividade na qual o profissional está situado, sempre, numa luta entre as partes envolvidas no processo. É um debate, nem sempre sadio, entre os interesses materiais em jogo. O advogado espírita, além dos códigos profissionais de ética, tem como bússola de comportamento e ação, as leis morais da Doutrina Espírita, que transcendem os limites legais dos homens. Tarefa espinhosa que, acrescida às atividades jornalísticas e obrigações familiares, permitiam pouco tempo para o lazer literário. O Espiritismo ocupava o tempo restante, que eu ampliei, posteriormente, com a minha aposentadoria.

P: = Fale sobre sua passagem de dez anos no jornal O Globo.
R: - Minha passagem em O Globo prendeu-se ao trabalho de reportagem e redação. O trabalho desenvolvia-se nas antigas instalações de um prédio antigo, no Largo da Carioca. O pessoal da redação sentava-se em torno de uma grande mesa comum, o que facilitava a aproximação de todos, cada qual no seu horário e tempo de serviço. Roberto Marinho, o dono do jornal, também participava da redação. À sua mesa de diretor, todos tinham acesso. Ao lado de uma janela – atrás de sua mesa, que dava para o Largo da Carioca, com vistas para o Mosteiro de Santo Antônio – ele chamava, de vez em quando, um jornalista para uma ‘conversa ao pé do ouvido’. Às vezes era para se inteirar de alguma questão difícil da política, ou para dar instruções especiais e, até, para uma reprimenda. Era uma pessoa muito humana na relação com o pessoal. Alves Pinheiro, o chefe da redação, era apelidado de ‘amansador de focas’. Por suas mãos passaram algumas gerações de jornalistas que, naquele tempo, não vinham de faculdades – pois estas nem existiam. Eram jovens desejosos de trabalhar num jornal, sem nenhum conhecimento, os chamados ‘focas’. Cabia, então, ao Pinheiro ‘amansá-los’. Muitos daqueles que passaram por suas mãos, revelaram-se mais tarde profissionais de destaque. Era uma figura de pouca simpatia, atrás de um charutão, perene e fumegante, sempre reclamando de alguma coisa. Abria a redação por volta das três horas da madrugada. Ao chegar, todos encontravam a pauta pronta, com as indicações das reportagens e matérias a serem feitas, e os nomes, endereços e telefones das personalidades a serem entrevistadas. Era de uma eficiência extraordinária. Por isso, todos suportavam o cheiro do charuto e as pragas que o Pinheiro rogava. O Nelson Rodrigues passava pela redação como um meteoro, apenas para entregar as matérias. Não pertencia à ‘cozinha’ do jornal. Dedicava-se mais ao teatro e ao futebol, escrevendo as crônicas que o imortalizaram. O Ibrahim Sued, quando aportei no O Globo, ainda era fotógrafo, saía para a reportagem geral, carregando, com muita desenvoltura – graças à sua compleição robusta, de ‘turco’, como o apelidaram – as máquinas fotográficas Speed Graff, enormes e pesadas, que funcionavam com lâmpadas de flash. Era um espírito gozador e brincalhão. Mais tarde, escalado para fazer coberturas de festas e acontecimentos da society, conquistou muitas amizades. Ibrahim encerrou sua carreira como destacada figura do mundo social, especializado nesse tipo de noticiário. Suas colunas eram reproduzidas em diversos jornais do país, e até mesmo em programas de televisão. Muitos companheiros passaram por aquela enorme e antiga mesa de redação. Um dia, O Globo mudou-se para modernas instalações, um prédio apropriado para a atividade jornalística, na rua que teve seu nome alterado para Irineu Marinho, em homenagem ao fundador do jornal.

P: = As exigências da profissão de jornalista – horários irregulares, viagens, vida noturna – prejudicaram suas atividades doutrinárias?
R: - Muito pouco. Minha atividade jornalística prendia-se a reportagens, entrevistas e matérias de cobertura local, que começavam e terminavam no horário de expediente do jornal. Não influíam, portanto, na rotina das minhas atividades de estudo da Doutrina. Apenas uma vez, ausentei-me por um mês, para fazer a cobertura do Padre Antônio que, sem se saber como, ganhou a fama de ‘milagreiro’, na pequena cidade de Urucâina, interior do Estado de Minas Gerais. Verdadeiras multidões acorriam ao lugarejo pobre, de poucas casas e apenas uma capela, sem espaço para abrigar a todos. Romeiros de todo o País e até mesmo do exterior buscavam na bênção do padre a cura para os seus males. Embarcamos numa caminhonete do jornal, levando um cego, funcionário da Imprensa Nacional, que ansiava por voltar a enxergar. Ele seria a prova do milagre a ser coberto pela nossa reportagem. Depois de um mês assistindo o desfile daquela  multidão, em sofrimento e dores, enviando matérias e fotografias pela rodoviária da cidade mais próxima,  retornamos sem presenciar nenhum  milagre. O nosso cego ficou por lá, sem o seu milagre, vendendo medalhinhas e santinhos aos romeiros.

P: = Na literatura universal, quais são seus autores ou obras preferidas?
R: = No Brasil, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros.  Na literatura mundial, Vitor Hugo, Emile Zola, Maupassant, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, Dostoyeswsky, entre outros.

P: - Mencione uma das grandes alegrias que já viveu: um momento inesquecível.
R: = Quando me encontrei com a Sélene, já minha esposa – pois havia casado com ela por procuração –, após oito anos de noivado epistolar, sem vê-la. Foi a maior alegria de minha vida, ficou marcada para sempre e, até hoje, recordo com saudade, aquele momento.

P: - Comente sua aproximação com a Petit Editora.
R: = Meu amigo Abstal da Silva Loureiro, companheiro de ideal, freqüentador das reuniões de Estudo do Evangelho, em minha casa, tomou conhecimento da minha última produção, Além das fronteiras do tempo. Gostou e sugeriu que a encaminhasse ao Flávio Machado, para sua apreciação. O trabalho foi aprovado e tenho a honra de participar da galeria de autores da Petit, que tão nobremente divulgam a Doutrina Espírita pelos mais distantes rincões, já que a editora destaca-se como uma das maiores editoras e distribuidoras de livros espíritas do país.

P: = Gostaríamos de finalizar com sua mensagem, especialmente dirigida aos leitores.
R: = Caros leitores: a missão desempenhada por uma editora, como a Petit é da maior importância para todos nós. O mestre de Lion afirmou: o melhor que se pode fazer pelo Espiritismo é a sua divulgação. Assim, a Petit, no seu trabalho dedicado à Doutrina, está realizando exatamente aquilo que nos foi apontado pelo Codificador. Levar ao público, espírita ou não, obras escolhidas, plenas de ensinamentos doutrinários, que proporcionem a reflexão e o conhecimento sobre os ensinamentos de Jesus, à luz do Espiritismo, a verdade que liberta.