|
Ramiro Gama é militante espírita,
professor e
palestrante espírita.
P: - Como
esta o movimento espírita brasileiro?
R: - Primeiramente, é oportuno diferenciar movimento de
Doutrina; A Doutrina Espírita é revelação dos Espíritos e o
movimento espírita poderá representá-la, mais ou menos, porque
constituído de seres humanos, por isto mesmo, falidos ou
falíveis como espíritos.
O movimento
espírita varia conforme os tipos ou as regiões que o
representem. As vezes, num mesmo Estado, podemos encontrá-lo em
multiformes expressões. Vários fatores incidem nestas
oscilações.
P: - Vivemos o
movimento espírita ideal?
R: - Podemos dizer que vivemos o movimento espírita que expressa
aquilo que somos, humanos, embora nossos naturais anseios de
acertar. Quem vai, como vamos, a diferentes tô ai, ouve o de que
goste e ás vezes de que não goste. Mas, respeitamos o colorido
mental e emocional dos pessoas. Ultimamente têm havido
reclamações de criaturas que admitem estar o movimento espírita
muito esquematizado, rigidamente esquematizado. O espírito
humano vê-se afogado, por isto, num verdadeiro mar de apostilas,
apreciações, recomendações, sugerindo tarefas dentro de tais ou
quais quadros, em seções, divisões, departamentos, parecendo até
uma "autarquização" , verdadeira burocratização doutrinária. Por
causa disto mesmo, objetivando respirar mais desafogadamente,
sempre procuramos fugir do "Espiritismo administrado", a fim de
ficarmos mais plásticos. Aliás, para se seguir Doutrina, basta
buscar a tarefa de que mais se gosta... e fazê-la. Não há nenhum
impedimento para que alguém queira se realizar como espírito.
Liberal, por excelência, a Doutrina Espírita não recomenda
hierarquização de valores humanos, muito instáveis, diga-se de
passagem.
As sociedades
espíritas podem se multiplicar á vontade, conquanto expressem,
com responsabilidade, o Ideal espírita. Lembramo-nos de Allan
Kardec, em "OBRAS PÓSTUMAS": "Vale mais, portanto, haver em uma
cidade, dez grupos de vinte adeptos cada um, nenhum dos quais
arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única sociedade
que os reunisse a todos. Esse fracionamento em nada pode quebrar
a unidade dos princípios, desde que a bandeira é uma só e todos
se encaminhem para um mesmo fim". A existência de uma
instituição, como a nossa amada FEB, deve ser providencial, mas,
como tantas vezes se têm expressado seus dirigentes, a FEB não
pode impor, por não ser este o seu objetivo, para que ninguém a
chame de papado, mas, pode recomendar no que for justo.
Capacitação ela deve ter para sugerir, todavia, isto é assunto
mais dela do que propriamente meu, seu, ou de qualquer um de
nós. E ninguém melhor do que presidentes de ocasião para
externar posicionamentos. Agora, sobre a sua linha doutrinária,
qualquer um dos sócios pode e deve sempre se manifestar, quando
se lhes oportunar ensejo, uma vez que é do seu Estatuto a
recomendação para zelar e preservar a guarda do tesouro
espiritual que está nela ou que ela é.
A linha
doutrinária a que nos referimos é o estudo e a difusão
permanente dos livros da Codificação de Allan Kardec e a
portentosa obra "OS QUATRO EVANGELHOS" coordenados por Jean
Baptiste Roustaing e captada pela mediunidade de Emite Collignon,
de Bordéus, que explica em espírito e verdade os Evangelhos de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Desta linha doutrinária não abrem
mão, nem seus Diretores e nem os seus sócios, pois que ela é
revelada do Mundo Maior, sustentado perenemente pelos emissários
de Jesus, é querida espontaneamente pelos sócios e tradicionais
seguidores da instituição.
P: - E sobre o
roteiro de palestras para 1978?
R: - Estava pendente até agora, porque aguardávamos a chegada de
correspondência. Ficou finalmente estabelecido o seguinte, no
que diz respeito a conferências marcadas: 60 em auditório não
espíritas e espíritas, 20 em setores umbandistas, 15 em
ambientes de pesquisas parapsicológicas ou paranomais e 15 em
reuniões predominantemente reformistas, pois muitos jovens
protestantes, às voltas com fenômenos de premonição, querem
saber algo a respeito deles e as revelações proféticas. Tenho
sempre dialogado com jovens protestantes, encontrando-os
corteses e bem comunicativos, uma vez que nosso diálogo nada tem
de impositivo, Deus nos livre a todos de imposições!
Já na área de
Parapsicologia, a moçada, muito perspicaz, quer saber informes.
Há necessidade da informática, mas, sem preocupações de encaixes
obrigatórios ás mocidades espíritas ou ao ideal espíritico,
desde o principio. Dai, quanto antes, as mocidades espíritas
terem de se reajustar ou retomar bases adequadas, senão ficarão
para trás, como que encerradas num triste bolsão. A vida não
pode esperar, em se tratando de tarefas de pioneirismo; quem for
conservado encerrar-se-á a si mesmo em círculos ultrapassados, o
mesmo tendendo a fazer com os que se lhes confinam. Devemos ser
modernos, ultramodernos, para entrevermos o espírito, segundo
nos advertiu entidade espiritual sábia.
A verdade é que as
mocidades espíritas não expressam as verdadeiras preocupações
dos jovens, salvo raríssimas exceções. Nelas não há motivações
adequadas e as reuniões são repetitivas, cansativas. Um exemplo?
Focalizo progressista cidade do Sul. Anualmente, 900 jovens
entram para as suas faculdades; desses, nem 10 por cento, se
tornam espíritas ou vão á agrupamentos espíritas; 10 por cento,
nem cinco: provavelmente 2 por cento. E quando as freqüentam,
impõe se lhes figurinos de espiritualidade ditos elevados, tio
etéricos, tão finos, que os moços se afastem. preocupados.
Quando não surgem comparações silenciosas entre os que têm e não
têm valores espirituais já consolidados, esquecendo-se de que a
sedimentação destes valores é lentíssima e tarefa do tempo. Em
seguida, vêm não propriamente proibições, mas embargos
restritivos, intelectuais quanto à ida aos naturais folguedos da
faixa biológica... Já viu.
P: - Como anda o
relacionamento Umbanda-Espiritismo?
R: - A Umbanda é, quantitativamente falando, a força que ai
está, enquanto a Doutrina se expressa em movimento mais
qualitativo. Aos chamados terreiro, e lendas (muitas vezes só no
nome, porque dispõem de auditórios confortáveis e moderníssimos,
acomodando, sentados, mais de duas mil pessoas) acorrem centenas
de milhares de pessoas, buscando auxilio, aflitas. Justo é que
se lhes dê alimento espiritual. No Rio, os oradores espíritas
sito chamados a prestar colaboração, através de conferências,
elucidações, informes. Não é difícil tirar-lhes fotografias com
o gongá de fundo (gongá, no Umbanda, é o altar, com as
divindades e santos venerados). Vários oradores de tarefa
espírita nacional, no campo da preleção falam em lendas de
Umbanda no Rio e convivem fraternalmente com os umbandistas,
nelas permanecendo para visitas, autógrafos .... sem nenhum
constrangimento, sem guardar distância. Aliás, Jesus nunca
esperou que as criaturas fossem a Ele; Ele sempre partiu ao
encontro das criaturas, ofertando-lhes Seu amor.
Nós, espíritas,
não lemos e nem devemos ter preocupação com a quantidade. Em
todos os recenseamentos, o que melhora a estatística espírita é
a imensa coletividade umbandista, assinalando os documentos de
recenseamento e dizendo-se espíritas (ou reencarnacionistas).
Muitos dos nossos companheiros espíritas surgem, precipitados e
cobertos de indignação, superzelosos, pretendendo quase impedir
aos umbandistas de se proclamarem espíritas o que é uma coisa
impossível ou pretenciosa. Primeiro, porque não dispomos de
instrumento legal para isto e, segundo, porque o mesmo gostaria
de fazer o Catolicismo, impedindo-nos de declararmo-nos
cristãos. Aliás, Allan Kardec esclarece que:
"O Espiritismo não
é obra do homem. Ninguém pode dizer-se seu criador, porque ele é
tão antigo quanto a criação: acha-se em toda parte, em lodos as
religiões e mais ainda na religião católica, onde tem mais
autoridade do que em todos as outras, porque nesta se encontra o
principio de tudo..."
("O LIVRO DOS
ESPÍRITOS'', Conclusão, item VI)
Dimensiona,
assim, o conceito espiritismo de maneira diferente. E no "O
EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO" avança:
"O Espiritismo
se encontra por toda a parte, na antiguidade e em todos os
tempos da Humanidade. Em todos os recantos se lhe descobrem os
traços nos escritos, crenças e nos monumentos”
(Introdução
item1).
Ora, se o
Espiritismo é tão velho quanto o próprio mundo, por que tanta
confusão? Doutrina Espírita, isto sim, é em bases codificáveis,
nova. Deixamos aos investigadores e pesquisadores o levantamento
dos informes do Codificador Liones a respeito. Conhecemos muitos
espíritas que guardam a responsabilidade de cargos em
sócio-espíritas, atuando também em terreiros de Umbanda, em
práticas afro brasileiros, ou então, têm os seus gongás em casa.
Logicamente é de se admitir que, estando alguém portador de uma
verdade mais completa, não tenha necessidade de se condicionar a
uma verdade mais restrita, no relativismo humano. Mas, se eles
querem fazer isto ou se são assim, vamos brigar? Vamos proibir?
Podemos e devemos
levar a mensagem espírita aos locais umbandistas, mas, sem
descaracterizá-la dispensando os rituais ali existentes.
Divergir sem dissentir, como tio bem gosta de falar o Dr.
Armando de Oliveira Assis, ex-Presidente da nossa FEB. Tolerar
sem transigir naquilo que se nos constitui realidade intima.
P: - Que
perspectivas vê para o movimento espírita?
R: - Periodicamente o nosso movimento espírita se ressente de um
processo de decantação, que lhe retire os excessos de galharia.
A vida sempre objetiva o melhor, na natural superação de velhas
formas. Arcaicas estruturas que tendam aos vazios europeus podem
ser abaladas.
A nosso ver, a
roseira vai balançar em termos doutrinários, objetivando essa
periódica necessidade de reformulação, quando se der o retorno
do nosso Chico Xavier ao mundo maior. Quer ele queira, quer não,
tornou-se, por vários motivos, um como que patriarca espírita,
manifestando mediunidade missionária e idônea que praticamente
atravessou lodo o miolo do século presente, no Brasil, dando os
frutos ótimos que deu. Substancializou o movimento de tal ordem,
que guarda, incontestavelmente, transito livre em todas as áreas
espíritas. Mas, quando ele partir, corno ficará? Sendo, de certa
forma, insubstituível no que pode e como pode, ocorrerá um vácuo
enorme aqui em baixo mesmo. Não podendo ser preenchido por
Espíritos desencarnados, porque se encontram noutra dimensão,
invisibilizados ao olhar e necessidades humanas. E, para outros
médiuns, surgirá a contestação em termos de aceitação de tudo.
Nos dias presentes, por exemplo, pequenina rusga ou grande
conflito entre espíritas ou movimentos regionais, enseja a ida
de alguém a Uberaba ou a Pedro Leopoldo e vem a reconfortante e
discernidora mensagem do Mais Além, através do Chico... e tudo
se apazigua. Quando o Chico não mais estiver na carne, acabou-se
o que era doce. Virá a necessidade da hora do senso e
capacitação cresceram entre os responsáveis pelo movimento
espírita, e fim de que eles se constituam naturais dirimidores
de dúvidas, sem incomodar desencarnados e, no futuro a que nos
referimos, sem preocupar seriamente medianeiros que saberão não
ser aceitos totalmente.
Tudo isto é fruto
de observação nossa. Outra coisa é traçar programas e bases para
comportamento de massas em lugares diferentes e regiões
dispares, por cause de múltiplos fatores. Outra coisa é a
vivência do ser ou da coletividade que não se mostrem nada
dispostos a fazer o que vem esboçado. Quem conhece o espírito
das massas como conhecemos razoavelmente, pelo convívio de
muitos anos, sabe que é muito lento o deslocamento evolutivo. Há
de se esperar muitas vezes o resultado, não nessa, mas na outra
vida encarnada, ou noutra, ainda.
Dei, por exemplo,
a missão permanente do Dr. Bezerra de Menezes, acenando com a
bandeira do Evangelho e da Doutrina Espírita (isto é, Kardec e
Roustaing), para que haja luz nas almas e esclarecimentos nas
mentes, seguindo caminho seguro e fugindo do atalho de que tanto
fala o jornalista Luciano dos Anjos.
|