O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Movimento Espírita

Entrevistado:
Ramiro Gama

Fonte:
Jornal Espírita

ENTREVISTAS

       

Ramiro Gama é militante espírita, professor e palestrante espírita.

P: - Como esta o movimento espírita brasileiro?
R: - Primeiramente, é oportuno diferenciar movimento de Doutrina; A Doutrina Espírita é revelação dos Espíritos e o movimento espírita poderá representá-la, mais ou menos, porque constituído de seres humanos, por isto mesmo, falidos ou falíveis como espíritos.

O movimento espírita varia conforme os tipos ou as regiões que o representem. As vezes, num mesmo Estado, podemos encontrá-lo em multiformes expressões. Vários fatores incidem nestas oscilações.

P: - Vivemos o movimento espírita ideal?
R: - Podemos dizer que vivemos o movimento espírita que expressa aquilo que somos, humanos, embora nossos naturais anseios de acertar. Quem vai, como vamos, a diferentes tô ai, ouve o de que goste e ás vezes de que não goste. Mas, respeitamos o colorido mental e emocional dos pessoas. Ultimamente têm havido reclamações de criaturas que admitem estar o movimento espírita muito esquematizado, rigidamente esquematizado. O espírito humano vê-se afogado, por isto, num verdadeiro mar de apostilas, apreciações, recomendações, sugerindo tarefas dentro de tais ou quais quadros, em seções, divisões, departamentos, parecendo até uma "autarquização" , verdadeira burocratização doutrinária. Por causa disto mesmo, objetivando respirar mais desafogadamente, sempre procuramos fugir do "Espiritismo administrado", a fim de ficarmos mais plásticos. Aliás, para se seguir Doutrina, basta buscar a tarefa de que mais se gosta... e fazê-la. Não há nenhum impedimento para que alguém queira se realizar como espírito. Liberal, por excelência, a Doutrina Espírita não recomenda hierarquização de valores humanos, muito instáveis, diga-se de passagem.

As sociedades espíritas podem se multiplicar á vontade, conquanto expressem, com responsabilidade, o Ideal espírita. Lembramo-nos de Allan Kardec, em "OBRAS PÓSTUMAS": "Vale mais, portanto, haver em uma cidade, dez grupos de vinte adeptos cada um, nenhum dos quais arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única sociedade que os reunisse a todos. Esse fracionamento em nada pode quebrar a unidade dos princípios, desde que a bandeira é uma só e todos se encaminhem para um mesmo fim". A existência de uma instituição, como a nossa amada FEB, deve ser providencial, mas, como tantas vezes se têm expressado seus dirigentes, a FEB não pode impor, por não ser este o seu objetivo, para que ninguém a chame de papado, mas, pode recomendar no que for justo. Capacitação ela deve ter para sugerir, todavia, isto é assunto mais dela do que propriamente meu, seu, ou de qualquer um de nós. E ninguém melhor do que presidentes de ocasião para externar posicionamentos. Agora, sobre a sua linha doutrinária, qualquer um dos sócios pode e deve sempre se manifestar, quando se lhes oportunar ensejo, uma vez que é do seu Estatuto a recomendação para zelar e preservar a guarda do tesouro espiritual que está nela ou que ela é.

A linha doutrinária a que nos referimos é o estudo e a difusão permanente dos livros da Codificação de Allan Kardec e a portentosa obra "OS QUATRO EVANGELHOS" coordenados por Jean Baptiste Roustaing e captada pela mediunidade de Emite Collignon, de Bordéus, que explica em espírito e verdade os Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desta linha doutrinária não abrem mão, nem seus Diretores e nem os seus sócios, pois que ela é revelada do Mundo Maior, sustentado perenemente pelos emissários de Jesus, é querida espontaneamente pelos sócios e tradicionais seguidores da instituição.

P: - E sobre o roteiro de palestras para 1978?
R: - Estava pendente até agora, porque aguardávamos a chegada de correspondência. Ficou finalmente estabelecido o seguinte, no que diz respeito a conferências marcadas: 60 em auditório não espíritas e espíritas, 20 em setores umbandistas, 15 em ambientes de pesquisas parapsicológicas ou paranomais e 15 em reuniões predominantemente reformistas, pois muitos jovens protestantes, às voltas com fenômenos de premonição, querem saber algo a respeito deles e as revelações proféticas. Tenho sempre dialogado com jovens protestantes, encontrando-os corteses e bem comunicativos, uma vez que nosso diálogo nada tem de impositivo, Deus nos livre a todos de imposições!

Já na área de Parapsicologia, a moçada, muito perspicaz, quer saber informes. Há necessidade da informática, mas, sem preocupações de encaixes obrigatórios ás mocidades espíritas ou ao ideal espíritico, desde o principio. Dai, quanto antes, as mocidades espíritas terem de se reajustar ou retomar bases adequadas, senão ficarão para trás, como que encerradas num triste bolsão. A vida não pode esperar, em se tratando de tarefas de pioneirismo; quem for conservado encerrar-se-á a si mesmo em círculos ultrapassados, o mesmo tendendo a fazer com os que se lhes confinam. Devemos ser modernos, ultramodernos, para entrevermos o espírito, segundo nos advertiu entidade espiritual sábia.

A verdade é que as mocidades espíritas não expressam as verdadeiras preocupações dos jovens, salvo raríssimas exceções. Nelas não há motivações adequadas e as reuniões são repetitivas, cansativas. Um exemplo? Focalizo progressista cidade do Sul. Anualmente, 900 jovens entram para as suas faculdades; desses, nem 10 por cento, se tornam espíritas ou vão á agrupamentos espíritas; 10 por cento, nem cinco: provavelmente 2 por cento. E quando as freqüentam, impõe se lhes figurinos de espiritualidade ditos elevados, tio etéricos, tão finos, que os moços se afastem. preocupados. Quando não surgem comparações silenciosas entre os que têm e não têm valores espirituais já consolidados, esquecendo-se de que a sedimentação destes valores é lentíssima e tarefa do tempo. Em seguida, vêm não propriamente proibições, mas embargos restritivos, intelectuais quanto à ida aos naturais folguedos da faixa biológica... Já viu.

P: - Como anda o relacionamento Umbanda-Espiritismo?
R: - A Umbanda é, quantitativamente falando, a força que ai está, enquanto a Doutrina se expressa em movimento mais qualitativo. Aos chamados terreiro, e lendas (muitas vezes só no nome, porque dispõem de auditórios confortáveis e moderníssimos, acomodando, sentados, mais de duas mil pessoas) acorrem centenas de milhares de pessoas, buscando auxilio, aflitas. Justo é que se lhes dê alimento espiritual. No Rio, os oradores espíritas sito chamados a prestar colaboração, através de conferências, elucidações, informes. Não é difícil tirar-lhes fotografias com o gongá de fundo (gongá, no Umbanda, é o altar, com as divindades e santos venerados). Vários oradores de tarefa espírita nacional, no campo da preleção falam em lendas de Umbanda no Rio e convivem fraternalmente com os umbandistas, nelas permanecendo para visitas, autógrafos .... sem nenhum constrangimento, sem guardar distância. Aliás, Jesus nunca esperou que as criaturas fossem a Ele; Ele sempre partiu ao encontro das criaturas, ofertando-lhes Seu amor.

Nós, espíritas, não lemos e nem devemos ter preocupação com a quantidade. Em todos os recenseamentos, o que melhora a estatística espírita é a imensa coletividade umbandista, assinalando os documentos de recenseamento e dizendo-se espíritas (ou reencarnacionistas). Muitos dos nossos companheiros espíritas surgem, precipitados e cobertos de indignação, superzelosos, pretendendo quase impedir aos umbandistas de se proclamarem espíritas o que é uma coisa impossível ou pretenciosa. Primeiro, porque não dispomos de instrumento legal para isto e, segundo, porque o mesmo gostaria de fazer o Catolicismo, impedindo-nos de declararmo-nos cristãos. Aliás, Allan Kardec esclarece que:

"O Espiritismo não é obra do homem. Ninguém pode dizer-se seu criador, porque ele é tão antigo quanto a criação: acha-se em toda parte, em lodos as religiões e mais ainda na religião católica, onde tem mais autoridade do que em todos as outras, porque nesta se encontra o principio de tudo..."

("O LIVRO DOS ESPÍRITOS'', Conclusão, item VI)

Dimensiona, assim, o conceito espiritismo de maneira diferente. E no "O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO" avança:

"O Espiritismo se encontra por toda a parte, na antiguidade e em todos os tempos da Humanidade. Em todos os recantos se lhe descobrem os traços nos escritos, crenças e nos monumentos”

(Introdução item1).

Ora, se o Espiritismo é tão velho quanto o próprio mundo, por que tanta confusão? Doutrina Espírita, isto sim, é em bases codificáveis, nova. Deixamos aos investigadores e pesquisadores o levantamento dos informes do Codificador Liones a respeito. Conhecemos muitos espíritas que guardam a responsabilidade de cargos em sócio-espíritas, atuando também em terreiros de Umbanda, em práticas afro brasileiros, ou então, têm os seus gongás em casa. Logicamente é de se admitir que, estando alguém portador de uma verdade mais completa, não tenha necessidade de se condicionar a uma verdade mais restrita, no relativismo humano. Mas, se eles querem fazer isto ou se são assim, vamos brigar? Vamos proibir?

Podemos e devemos levar a mensagem espírita aos locais umbandistas, mas, sem descaracterizá-la dispensando os rituais ali existentes. Divergir sem dissentir, como tio bem gosta de falar o Dr. Armando de Oliveira Assis, ex-Presidente da nossa FEB. Tolerar sem transigir naquilo que se nos constitui realidade intima.

P: - Que perspectivas vê para o movimento espírita?
R: - Periodicamente o nosso movimento espírita se ressente de um processo de decantação, que lhe retire os excessos de galharia. A vida sempre objetiva o melhor, na natural superação de velhas formas. Arcaicas estruturas que tendam aos vazios europeus podem ser abaladas.

A nosso ver, a roseira vai balançar em termos doutrinários, objetivando essa periódica necessidade de reformulação, quando se der o retorno do nosso Chico Xavier ao mundo maior. Quer ele queira, quer não, tornou-se, por vários motivos, um como que patriarca espírita, manifestando mediunidade missionária e idônea que praticamente atravessou lodo o miolo do século presente, no Brasil, dando os frutos ótimos que deu. Substancializou o movimento de tal ordem, que guarda, incontestavelmente, transito livre em todas as áreas espíritas. Mas, quando ele partir, corno ficará? Sendo, de certa forma, insubstituível no que pode e como pode, ocorrerá um vácuo enorme aqui em baixo mesmo. Não podendo ser preenchido por Espíritos desencarnados, porque se encontram noutra dimensão, invisibilizados ao olhar e necessidades humanas. E, para outros médiuns, surgirá a contestação em termos de aceitação de tudo. Nos dias presentes, por exemplo, pequenina rusga ou grande conflito entre espíritas ou movimentos regionais, enseja a ida de alguém a Uberaba ou a Pedro Leopoldo e vem a reconfortante e discernidora mensagem do Mais Além, através do Chico... e tudo se apazigua. Quando o Chico não mais estiver na carne, acabou-se o que era doce. Virá a necessidade da hora do senso e capacitação cresceram entre os responsáveis pelo movimento espírita, e fim de que eles se constituam naturais dirimidores de dúvidas, sem incomodar desencarnados e, no futuro a que nos referimos, sem preocupar seriamente medianeiros que saberão não ser aceitos totalmente.

Tudo isto é fruto de observação nossa. Outra coisa é traçar programas e bases para comportamento de massas em lugares diferentes e regiões dispares, por cause de múltiplos fatores. Outra coisa é a vivência do ser ou da coletividade que não se mostrem nada dispostos a fazer o que vem esboçado. Quem conhece o espírito das massas como conhecemos razoavelmente, pelo convívio de muitos anos, sabe que é muito lento o deslocamento evolutivo. Há de se esperar muitas vezes o resultado, não nessa, mas na outra vida encarnada, ou noutra, ainda.

Dei, por exemplo, a missão permanente do Dr. Bezerra de Menezes, acenando com a bandeira do Evangelho e da Doutrina Espírita (isto é, Kardec e Roustaing), para que haja luz nas almas e esclarecimentos nas mentes, seguindo caminho seguro e fugindo do atalho de que tanto fala o jornalista Luciano dos Anjos.