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O nosso
entrevistado do mês é o médium Francisco do Espírito Santo Neto
(Quico). O médium tem vários livros publicados com o espírito
Hammed e dirige o projeto Boa Nova que conta com editora,
creche, além do Centro Espírita.
P: - Maria
João de Deus no livro Cartas de Uma Morta nos diz que a
mediunidade é como uma harpa melodiosa que quando parada
enferruja. Cada médium tem o início do seu trabalho mediúnico de
uma forma. Como foi a sua?
R:
- : O meu início nas tarefas mediúnicas, ou seja, o despertar
da mediunidade, deu-se quando eu era muito jovem. Quando
criança, morava com minha família na fazenda de meus pais, numa
casa muito antiga onde, durante a noite, eu registrava alguns
fenômenos curiosos. Naquela época, os eventos mediúnicos eram
para mim completamente desconhecidos, pois sempre recebi uma
educação religiosa católica.
À noite, eu
escutava passos e ruídos. Pessoas atravessavam os assoalhos de
madeira, pois a casa possuía um porão imenso, e vinham dialogar
comigo sobre vários assuntos. Algumas pessoas saíam dos quadros
pendurados na parede do quarto, principalmente de um que ficava
bem em frente de minha cama, o de São Domingos de Sávio, um dos
santos considerados protetores da juventude católica. Com o
tempo fui me acostumando com esses fenômenos e logo eles já nem
me assustavam mais. Eu atribuía isso tudo a minha mente
imaginativa de criança que soltava o pensamento, esperando o
sono chegar. Foi, portanto, na fase infanto-juvenil que os
primeiros fenômenos mediúnicos aconteceram comigo.
Depois, mais
adiante, eu me lembro que a minha mediunidade aflorou
ostensivamente quando eu fui assistir, com um grupo de amigos, a
um terreiro de Umbanda. Na época, eu tinha aproximadamente 18
anos. Fomos assistir curiosamente à reunião umbandista, como
qualquer jovem, ávido de aventuras, experiências e com uma
postura muito crítica. Todos os meus amigos participaram do
círculo formado, segundo os rituais umbandistas, a fim de ver os
transes, os cantos e tambores, enfim, como aconteciam as coisas
ali naquele momento. Foi enorme surpresa. Os meus braços
começaram a formigar, como se eu tivesse dormido em cima deles,
tinha uma sensação de estar sem braços, ou seja, "braço bobo"
como se diz no ditado popular, e depois esta sensação tomou
conta do meu corpo inteiro. Os meus amigos disseram que eu havia
recebido o espírito de um preto velho. No entanto, não me
lembrava de nada, absolutamente. Aquilo me assustou muito e
nunca mais voltei em qualquer terreiro de Umbanda, pois eu
receava que o fenômeno se repetisse.
De nada adiantou.
A partir desse fato, começaram a acontecer cada vez mais essas
sensações mediúnicas que antecedem a incorporação. Fui atraído,
como o ímã atrai os alfinetes.
No entanto, foi em
1973 que, pela primeira vez, tomei contato com as obras O Livro
dos Espíritos, de Allan Kardec, e Voltei, do Irmão Jacob,
psicografia de Chico Xavier, presentes do querido Diomar
Zeviani - amigo que muito me orientou na questão doutrinária
espírita.
Quando eu li esses
livros, registrei que seus ensinamentos eram para mim muito
familiares. Era meu primeiro contato com as obras, mas a
sensação era de que já havia lido ou ouvido tudo aquilo em algum
lugar. "Nada acontece por acaso". Assim refletindo, consigo
visualizar claramente toda a fase de preparação pela qual
passei, a fim de poder, hoje, contribuir humildemente com meus
poucos recursos de médium no trabalho iluminado do Espiritismo.
P: - Allan
Kardec em O Livro dos Médiuns no capítulo XV nos fala que na
psicografia existem médiuns mecânicos, intuitivos,
semi-mecânicos, inspirados e de pressentimentos. No seu trabalho
mediúnico, como isso se manifesta?
R:
- Eu acredito que tanto minha mediunidade de psicografia como a
de psicofonia funcionam numa fusão de alguns aspectos
mediúnicos. Eu classifico a minha mediunidade como semimecânica.
Em muitas ocasiões, sinto que eu escrevo inspirado. Em outras,
vejo e escuto os espíritos e escrevo. Em outras oportunidades,
eu durmo, sonho, converso com pessoas que me dizem coisas e as
registro, prontamente, ao acordar. Geralmente, quando eu estou
escrevendo um livro, os espíritos utilizam muito o fenômeno do
desdobramento durante o sono físico para conversarem comigo.
Quando eu estou levando a mensagem por um caminho inadequado ao
contexto do livro, ou seja, não está como os espíritos desejam,
sonho e eles me dizem que algo precisa ser mudado ou reescrito.
Ao acordar, faço a correção necessária, tal qual o Espírito me
orientou.
Na incorporação,
quase sempre, as mensagens que recebo dos Benfeitores
Espirituais são gravadas e transcritas para o papel. Acredito
que a minha mediunidade funciona como uma união íntima
resultante de combinação de várias mediunidades que me facilitam
o desempenho medianímico.
Tenho relativa
facilidade para escutar nomes, frases inteiras ditadas pelos
espíritos. Registro mensagens de entidades familiares, ouço
nomes e fatos que ocorreram com os espíritos. Essa mediunidade
auditiva facilita muito o recebimento de mensagens.
P: - Alguns
médiuns, quando estão psicografando um livro, têm um horário
preestabelecido para executarem esse trabalho. No seu caso,
existe ou somente acontece quando vem a inspiração de Hammed?
R:
- Hammed quis no início estabelecer um horário. Mas depois ele
percebeu que a minha mediunidade funciona mais por inspiração.
No entanto, isso não significa que não obedeço a horários
estabelecidos pelos Benfeitores. Às vezes escrevo inspirado e
depois, quando algo precisa ser modificado, a Espiritualidade
avisa-me no sono ou em momentos de prece. Na realidade tenho
alguns horários: duas ou três vezes por semana, durante a tarde,
deixo reservado um espaço para o trabalho de psicografia.
Regularmente tenho
trabalhos às quartas e às quintas-feiras à noite. Nas
quartas-feiras realizo um trabalho de psicografia durante uma
tarefa pública, ou seja, psicografo durante as palestras. Nas
quintas-feiras temos reunião de desobsessão, nas quais recebo
algumas mensagens escritas e no final, através da psicofonia.
Esses são infalíveis, são horários marcados. Nos outros dias da
semana, fica assim por conta da inspiração.
P: - As
obras do espírito Hammed como as do espírito Joanna de Ângelis
conjugam com maestria conceitos da psicologia inseridos na
perspectiva da Doutrina Espírita. Como vê esse trabalho,
inclusive na ajuda junto aos psicólogos e psiquiatras, que
indicam os livros desses espíritos aos seus pacientes?
R:
- Vejo com muita alegria o trabalho de Hammed e a obra
extraordinária de Joanna de Ângelis, porque, na realidade, tenho
como formação profissional o curso de Administração de Empresas:
não tenho nenhuma formação na área da psicologia. Tenho muitos
amigos psicólogos, alguns fazem parte das Associações de
Psicólogos Espíritas do Estado de Minas Gerais, do Rio Grande do
Sul, outros tantos do Nordeste, e todos são unânimes em me dizer
que fui um elemento utilizado pelos espíritos, porque não tinha
qualquer conhecimento de psicologia, o que de certa forma me
facilitou o recebimento destas obras mediúnicas. Para os
espíritos eu era papel "virgem" ou "em branco". Esses meus
amigos psicólogos me dizem, precisamente no livro As Dores da
Alma, que não tenho noção da validade e da diversidade de
conceitos e exemplos lúcidos que foram ali registrados pelas
minhas mãos, através do lápis mediúnico. O livro A Imensidão dos
Sentidos é também muito admirado por eles pela abordagem
psicológica com que Hammed analisa os diferentes aspectos da
personalidade dos médiuns e a influência desses mesmos aspectos
nas mensagens por eles transmitidas.
É bem verdade a
sua afirmação, os livros de Hammed estão sendo utilizados por
diversos psiquiatras e psicólogos espíritas no tratamento de
seus pacientes, ou mesmo no estudo de diversas casas espíritas.
Isso me traz muito contentamento, porque vejo que as pessoas
estão retirando conceitos importantes para a reforma íntima ou
transformação moral. Digo isso sem qualquer conotação de
orgulho, porque sei que estas tais não me pertencem, e sim, aos
espíritos superiores.
Essas obras muito
me consolam, principalmente nos meus dias de conflito. Por isso,
sempre tive um grande interesse em estudar o comportamento
humano. Neste momento recordo-me de algo: toda vez que fazia as
minhas preces, para aliviar minhas dores morais, pedia para os
"psicólogos do além" para me auxiliarem. Eu acredito piamente
que eles me ajudaram. Atenderam aos meus pedidos.
P: - Poucos
documentos se têm a respeito da vida de Hammed. Afinal, quem é
esse Espírito que vem de uma forma tão sábia e simples nos
trazer tantos ensinamentos? Você pode trazer mais alguma
informação?
R:
- Realmente, Hammed é um Espírito de muita sabedoria e eu tive o
privilégio da sua convivência em algumas de minhas encarnações
e, na atual, a convivência mediúnica no dia-a-dia. Obviamente, é
por isso que temos esta parceria nos livros psicografados. Certa
feita ouvi Chico Xavier dizer que "de nada não sai nada". Nossa
relação é muito estreita. Às vezes, ele me solicita para que me
organize melhor, leia algum texto, um livro, o qual supostamente
ao acaso eu pego em uma livraria. Depois ele me diz assim: "Você
alcançou o livro certo, porque era isso que você tinha que ler
para poder aprender e poder melhorar, facilitando os nossos
encontros para a psicografia dos livros". Então, toda essa
orientação intuitiva acontece. Hammed tem sido para mim um
professor, um pai, um terapeuta e, acima de tudo, um amigo. No
entanto, eu acredito que a sua amizade para comigo é o item mais
importante, pois ele respeita as minhas questões pessoais, o que
eu sou, o que eu sinto, a minha forma de ser e de pensar. Ele
também me indica caminhos, no entanto, não impõe e nem espera
que eu os siga. Quer dizer, ele me aponta meta e sugere decisões
e como não sou bobo nem, nada eu sempre sigo (risos).
Em uma de minhas
encarnações eu convivi com Hammed na Índia, em Calcutá, no ano
1000. Ele era um sacerdote de uma seita hinduísta, por isso tem
bagagens nas áreas da meditação, reencarnação, concentração e
outras tantas adquiridas nas vidas pretéritas no oriente. É o
que eu também registro: percebo que nós tivemos uma vida intensa
e calorosa, no sentido de lutar por idéias, religiões,
filosofias. Participamos juntos em conflitos religiosos, por
exemplo, no Jansenismo, uma facção católica nascida na França no
século XVII. Os jansenistas eram pessoas extremamente rígidas e
inflexíveis quanto as suas idéias e ideais. Acreditavam numa
verdade absoluta, ou seja, diziam que algumas pessoas nasciam
pré-destinadas por Deus para serem salvas e, as outras que não
tivessem sido pré-destinadas, por mais que fizessem nunca
entrariam na glória divina. Era uma doutrina nascida no
catolicismo, uma facção religiosa muito puritana e conservadora.
Hammed participou desse movimento. Morava em um convento nos
arredores de Paris onde residia a grande massa jansenista da
época, isto no século XVII. Inclusive Pascal, o grande cientista
e matemático, pertenceu a facção e outros tantos indivíduos de
grande significância na França daquela época.
Na segunda metade
de 1600 esse convento foi dizimado por ordem do Rei Luis XIV da
França. Após a morte do rei, ficou como regente sua esposa, Ana
da Áustria, assessorada pelo iluminado São Vicente de Paula que
é uma personagem da mesma época. Hammed, nesta existência como
jansenista, obteve amplos conhecimentos a respeito do
catolicismo, do cristianismo, pois desde essa época ele fazia
pontes entre as religiões orientais e as ocidentais.
Todo esses
detalhes foram por mim registrados através da mediunidade, ou
seja, por meio dos relatos dos Amigos Espirituais. Aliás, quando
ele me falou do convento Port-Royal de Paris, disse-me também do
outro convento que era denominado Port-Royal des Champs (do
campo). Este último foi destruído e o de Paris ainda existe.
Outros detalhes, eu os sei por meio de uma sociedade francesa
denominada "Amigos de Port-Royal" a qual descobri por "acaso" na
internet. Não sei falar francês, mas tenho uma amiga que traduz
muitas coisas para mim. Esse pessoal da França me perguntava
porque eu era a única pessoa da América do Sul a ser filiada a
tal sociedade. Eles achavam curioso, mas nunca expliquei a
verdadeira razão: só disse que me interessava pela história das
religiões. Lourdes Catherine, que escreveu o livro Conviver e
Melhorar em parceria com o Espírito Batuíra, foi contemporânea
de Hammed nesta época. Enfim, depois de algum tempo, recebi
deles relatos e fotos dos retratos pintados a óleo destes dois
espíritos amigos e, eram idênticos aos que eu já tinha obtido
por meio da mediunidade (retratos falados deles, pintados por um
amigo, por meio de minha vidência). Realmente, quando recebi as
fotos dos dois, da França, enorme foi minha alegria por ver que
o quadro de Lourdes Catherine e o de Hammed eram praticamente
iguais aos pintados por meu amigo pintor. Isso me deu mais uma
certeza de que a mediunidade é algo surpreendente e
maravilhoso, porque todo médium precisa ser também crítico da
própria mediunidade. Tenho um lema comigo: nunca vou de cabeça
nas coisas que faço. Creio que a mente tem um poder muito grande
de imaginação e nós precisamos controlála para evitar delírios
ou distorção das coisas. Nossa mente é fantástica, mas
desconhecida.
Isto me certificou
das autênticas personalidades deles nesta época. O Espírito
Lourdes Catherine foi uma condessa pobre, que vivia aos cuidados
de uma duquesa rica no convento. E Hammed foi sacerdote e ao
mesmo tempo médico (atualmente Hammed trabalha na área das
idéias, da filosofia, e não da medicina ou da cura). Sempre que
eu falo de Hammed, registro a vivência no Jansenismo.
Inclusive, recentemente fui conhecer o convento de Paris, que
ainda existe e está em excelente estado de conservação. Graças a
Deus, eu consegui visitá-lo e foi uma experiência emocionante,
uma coisa maravilhosa.
P: - O nome
Hammed é um pseudônimo?
R:
- É um pseudônimo.
P: - O
livro Renovando Atitudes é todo inspirado em O Evangelho Segundo
o Espiritismo. É uma obra fantástica porque traz de uma forma
contundente a Reforma Íntima, que é um dos pilares para a
evolução humana. Como é feito o trabalho de psicografia nesse
caso? É o Espírito quem escolhe os versículos e depois os
explica ou é feito todo um trabalho de pesquisa pela editora
e/ou médium e depois o espírito psicografa discorrendo sobre o
assunto?
R:
- Os livros do Hammed são confeccionados da seguinte forma: ele
traz o esqueleto do livro. É ele quem escolhe os capítulos e os
itens a serem comentados. De que forma? No caso do Renovando
Atitudes, peguei o Evangelho e fui lendo. Ele ia me dizendo e
através da audição eu anotava os textos escolhidos. Portanto, é
ele quem marca, quem sinaliza para todos os capítulos e itens.
Eu os coloco em uma folha em branco e ele começa a tecer os
comentários através da psicografia. Hammed está sempre presente,
seja nas reuniões públicas de psicografia ou por meio da
psicofonia nas reuniões de quinta feira. Esta última é uma
reunião de desobsessão e, no término da tarefa, Hammed
transmite a mensagem final, ou também, nos dias de semana,
durante a tarde, período em que eu me predisponho ao recebimento
de mensagens mediúnicas. Ele comenta e ao término coloca o
título das mesmas. Acho fantásticos os títulos escolhidos por
Hammed, porque ele consegue sintetizar e ser muito original.
Quer dizer que ele programa o livro e depois o recheia. Ou seja,
ele escolhe os ingredientes do bolo e depois coloca o chocolate,
o glacê, ele confeita o bolo.
P: - Nós
gostaríamos que você nos desse a sua opinião: como lidar com as
dores de nossa alma no dia-a-dia tumultuado que temos vivenciado
atualmente?
R:
- Para lidarmos ou
termos sob controle as dores da alma é preciso prestar atenção
em nossos sentimentos e emoções. Nós os relegamos a segundo
plano: precisamos ser auto reflexivos.
Hammed me diz:
"Nós não sentimos errado, mas sim, interpretamos errado".
Qualquer sentimento sempre é verdadeiro, pois, na realidade,
eles sempre querem nos dizer alguma coisa, mas nem sempre nossa
percepção é correta. Os espíritos dizem: "Nós não somos aquilo
que pensamos ser, mas sim, somos o que sentimos". Não adianta
pensarmos que somos algo se sentimos o inverso. É a maior briga
que travamos com nós mesmos: querermos ser o que pensamos ser e
não o que nós sentimos.
Eu acredito que
cada um de nós tem uma missão peculiar, única, e que cada um vem
provido pela Divindade de sentimentos específicos para caminhar
na própria estrada, ou seja, realizar tudo aquilo para o qual
foi predestinado. Observando esses conceitos e colocando-os em
prática é que conseguimos realmente abrandar as dores da alma.
As dores da alma ou aflições só aparecem em nossa vida quando
nós nos desviamos de nossa trajetória existencial. Ninguém é
imperfeito, ninguém é errado, não precisamos ter medo ou receio
de nossos sentimentos e emoções, porque dentro de nós não há
nada de feio ou incorreto, dentro de nós existe nós mesmos - a
alma em evolução. Às vezes, o nosso medo é que propicia a má
interpretação de nossos sentidos internos. É preciso que
prestemos muita atenção em nosso mundo íntimo. Particularmente,
trago comigo uma frase interessantíssima de Buda: "Necessitamos
ter presença, ou seja, estar presente em nós mesmos a todo
instante." Um dia os discípulos de um mestre indiano disseram
aos discípulos de Buda: "Nosso mestre é um grande médium. O que
vocês têm a dizer sobre o seu mestre? O que ele pode fazer, que
milagres ele faz?". Os discípulos de Buda perguntaram: "Que tipo
de milagres seu mestre tem feito?". Os outros discípulos
responderam: "O nosso mestre levita, o nosso mestre faz
materializações extraordinárias. Nós mesmos presenciamos isso,
somos testemunhas! O que seu mestre Buda o que é capaz de
fazer". Eles disseram: "Quando está com fome, ele come, e quando
tem sono, dorme". O nosso mestre nos ensina quando andar, andar,
quando comer, comer, quando sentar, sentar. Os outros falaram:
"Do que você está falando? Chama isso de milagres? Todos fazem
essas coisas?". Os discípulos de Buda responderam: "Engano de
vocês. Ninguém faz isso. Quando vocês dormem, fazem mil e uma
coisas. Ao comerem, pensam em mil e uma coisas. Mas, quando meu
mestre dorme, ele apenas dorme: apenas o sono existe naquele
momento, nada mais. E quando sente fome, ele come. Ele está
sempre exatamente no lugar onde está, ou seja, está sempre
presente".
O que nós estamos
sentindo aqui e agora? Os nossos sentimentos e emoções nos dão
sempre um recado porque eles vêm da profundeza do self, da alma,
de nós mesmos. Nós precisamos sempre estar presentes, ou seja,
com a auto-reflexão em funcionamento em nossa vida. Porque toda
vez que nós dissermos assim: "Ah, não vou dar importância para
esse sentimento, eu não ligo para aquele", aquilo vai se
avolumando de tal forma que se torna um enorme emaranhado,
dificílimo de ser desvendado. Mas se fizermos como Santo
Agostinho recomenda na questão 919a de O Livro dos Espíritos:
"Toda noite reflexionar, pensar, analisar, o que você sentiu, o
que você fez, o que você não fez.", nós vamos deixando em ordem
nosso armário mental. Se deixarmos o "armário bagunçado",
chegará um dia em que ele estará tão desorganizado que ficaremos
estressados para arrumar e não teremos tempo de deixar tudo
aquilo organizado do dia para noite. Acredito que um item
importante para nós não sentirmos as dores é seguirmos o próprio
caminho, aliás, é essa a nossa missão aqui na Terra, somente
essa. Nós fazemos tudo: fazemos caridade, lemos, casamos,
descasamos, fazemos amigos, freqüentamos a casa espírita,
fazemos estudos, só para certificarmos o nosso caminho, ou seja,
aquele que Deus nos deu como missão. Na questão 115 de O Livro
dos Espíritos, Allan Kardec pergunta à Espiritualidade Superior
como é que fomos criados. E os espíritos respondem que nós fomos
criados simples e ignorantes, mas Deus deu a cada um a própria
missão. A causa de nosso sofrimento provém do desvio da nossa
missão, do nosso caminho. Uma das nossas grandes vitórias sobre
nós mesmos, que evita que as dores se avolumem (já que elas já
são quase inevitáveis pelo grau evolutivo em que nós nos
encontramos), é andarmos pelo caminho que é só nosso. A
incorporação desse princípio, ou seja, a conscientização desse
princípio já é um grande alívio para as dores da alma.
P: - A
proposta trazida pelos autores espirituais do livro Conviver e
Melhorar é a de buscar auxiliar o ser humano para que ele tenha
um bom relacionamento consigo mesmo, para que, em seguida, possa
lidar melhor com as personalidades difíceis com as quais convive
no dia-a-dia. Como é psicografar dois espíritos distintos numa
mesma obra? Como se deu o contato com eles? Existe a
possibilidade de outros livros serem escritos por eles?
R:
- Sim, existe possibilidade, no entanto, é preciso que haja
programas espirituais para que isso ocorra. O grande detalhe é
que eu não sei se vou dar conta do recado, mas, se eles fizerem
nova proposta, vou me esforçar.
É muito
gratificante psicografar dois espíritos com personalidades
completamente diferentes. Batuíra é um trabalhador espírita que
viveu recentemente em São Paulo, ou seja, no século XIX e
desencarnou em 1909. Ele possui uma bagagem doutrinária
eminentemente alicerçada nas obras básicas e um amplo
conhecimento do Movimento Espírita. Conseguiu colocar um aspecto
muito interessante no livro que é a organização e a
administração da Casa Espírita. Pode-se dizer que ele fez um
trabalho de administrador de empresa. As pessoas que lêem o
livro Conviver e Melhorar aprendem a lidar com os amigos e
parentes no social e com os trabalhadores e voluntários na Casa
Espírita e a fazer uma boa gestão administrativa nas áreas
sociais, doutrinárias e de divulgação espírita.
Lourdes Catherine
viveu em sua última encarnação no século XIX, em Bordeaux, na
França. Nessa época, ela conheceu Allan Kardec, pois ele fazia
divulgações do Espiritismo em algumas cidades do sul da França,
inclusive em Bordeaux, e ela teve a oportunidade de assistir a
uma palestra proferida por ele. Tornou-se espírita depois desse
encontro. Lourdes Catherine também é um pseudônimo. Ela é um
Espírito meigo, muito doce, é uma alma que fala de flores,
colocando em suas escritas toda uma explicação por meio de
metáforas, usando a mitologia, o simbolismo das flores. Batuíra
já é um Espírito mais enérgico. Posso dizer que psicografar o
livro Conviver e Melhorar foi de certa forma um trabalho árduo,
porque ora tinha que colocar minha mente na personalidade de
Batuíra, ora na de Lourdes Catherine. Não foi muito fácil, mas
eu acredito que eles conseguiram exprimir da maneira clara o que
se propuseram a fazer, ou seja, escrever o livro Conviver e
Melhorar.
P: - No
livro A Imensidão dos Sentidos, o espírito Hammed além de fazer
um trabalho voltado ao Livro dos Médiuns envolve-nos numa
análise dos cinco sentidos. E o sexto sentido, como analisá-lo
em todo este conceito da sensibilidade humana?
R:
- Allan Kardec faz um trabalho genial em O Livro dos Médiuns.
Nós acreditamos que seja uma obra basilar na orientação para
todos aqueles que têm sensibilidade mediúnica. Nessa obra,
Hammed não só estuda o cinco sentidos, mas, especificamente, o
sexto sentido. Ele diz: "Os cinco sentidos humanos são a base
de todas as percepções físicas, mas, quando somamos a eles o
"sexto sentido", não só experimentamos um maior grau de
consciência existencial como também passamos a descortinar os
mistérios da vida invisível", ou seja, diz que os cinco sentidos
ajudam o sexto, e o sexto sentido ajuda os cinco numa relação
recíproca. Existe uma fusão, fusão essa que proporciona ao
indivíduo uma lucidez mental para se guiar na vida. Ele coloca o
sexto sentido como sendo um elemento natural do ser humano que
deve ser usado convenientemente. Em mediunidade nunca devemos
descartar a auto-análise dos cinco sentidos, pois "para
desenvolver a mediunidade, é necessário, inicialmente, aprender
a comunicar-se com os próprios sentimentos para, a partir daí,
entrar em contato com os de outras pessoas (encarnadas ou não).
O Criador guia suas criaturas utilizando a capacidade
intelectual/sensorial delas de avaliar seu reino íntimo", diz
Hammed.
O que eu vejo,
escuto, falo, o que percebo com o tato, o olfato, o paladar são
sensações que interagem no transe mediúnico. Nesse livro, ele
faz um estudo do comportamento dos médiuns e, ao mesmo tempo,
exemplifica-o. Por exemplo: se o estilo pessoal ou o modo de
expressar do sensitivo for de caráter intolerante,
perfeccionista, melindroso, o indivíduo não entra plenamente em
transe mediúnico com as Esferas Superiores, mas, sim,
identifica-se com seu próprio mundo de mágoa, inflexibilidade.
Como é que o sexto
sentido funciona? Como age sua personalidade ou área anímica nas
comunicações espirituais? No médium mais flexível, seguro,
conscientizado, os espíritos conseguem encontrar maior
facilidade no transe, sem grandes interferências do sensitivo.
Sucessivamente, Hammed vai fazendo estudos da personalidade, do
conteúdo psicológico dos médiuns, do caráter e vai fazendo
pontes com o sexto sentido e com as mensagens recebidas - que
são subproduto dessas estruturas íntimas. Eu acho tudo muito
interessante. Por exemplo, Hammed diz que nosso entendimento é
limitado. Muitas vezes não compreendemos porque muitos médiuns
têm facilidade de receber mensagens de cunho inovador e outros
médiuns possuem sérias dificuldades, permanecendo no mesmismo.
Apesar de toda aquela classificação que Allan Kardec descreve em
O Livro dos Médiuns: médiuns historiadores, poetas, receitistas,
científicos, filósofos, religiosos, etc., ainda é preciso
acrescentarmos a estrutura psicológica do médium nas
comunicações recebidas. Vejamos: um médium historiador pode
produzir muito bem, mas se ele for conservador, suas mensagens
históricas terão uma atmosfera de conservadorismo. Já um médium
historiador com comportamento aberto e flexível poderá
transmitir mensagens históricas sobre um aspecto novo, ou seja,
envolvidas em uma visão nova. Um médium poeta pode receber
mensagens de uma forma tradicionalista, mas se ele for flexível
ele pode trazer poemas de um cunho mais original, renovador,
inédito. Eu acredito que A Imensidão dos Sentidos é um livro
muito interessante. Eu o utilizo muito para os meus estudos
pessoais e com a equipe com a qual trabalho mediunicamente. Eu
o aprecio muito, sempre o leio para saber lidar com meus pontos
fracos, meu lado inflexível. Porque nós sempre estamos atraindo
criaturas (encarnadas ou não) com nosso lado que está em
evidência na época. Nós somos uma fusão de vários sentimentos e
emoções.
Em determinada
época nós estamos mais ciumentos e atraímos espíritos ciumentos.
Isso é anímico. Aliás, anímico vem de animus (alma): nós
atraímos com a nossa aura determinados espíritos, eles sentem-se
atraídos pela nossa área frágil. Se nós estamos depressivos, em
certas épocas da vida em que sofremos algumas "quedas
vibratórias ", atraímos, certamente, espíritos depressivos. A
mediunidade é sempre um termômetro para sabermos como estamos
indo interiormente, o que temos que mudar. O que nós estamos
atraindo revela como está o nosso mundo íntimo.
Quando começo
atrair alguns tipos de pessoas (encarnadas ou não) para a minha
vida, aí eu me pergunto: "Quico, o que é que você está emitindo
energeticamente. Porque estão aparecendo muitas pessoas em sua
vida com este tipo de problema? Onde tudo isso está em você?
Você está percebendo, você já se deu conta de que de certa forma
a sua antena está captando ou atraindo estas emissões."
Tudo isso que
falei é uma visão muito pálida do que Hammed me transmitiu ao
escrever o livro A Imensidão dos Sentidos. No entanto, minha
mediunidade funciona em tantos outros aspectos que seria
impossível transmiti-los numa entrevista.
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