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O médium
Herman Poliakoff que psicografou o romance O castelo das
almas feridas, do Espírito Samuel, lançamento recente da Petit
Editora, é filho de russos, nasceu na China, naturalizou-se
brasileiro e reside na cidade de Igarapé, em Minas Gerais.
Herman nasceu
em março do ano de 1943, na cidade de Harbin, China. Seus pais
eram russos e residiam numa grande colônia, onde permaneceram
até 1953, quando emigraram para o Brasil. Em 1973 Poliakoff
naturalizou-se brasileiro, e, aos vinte e um anos de idade,
empregou-se na Usiminas – Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais,
onde se aposentou. Nesta entrevista, revela acontecimentos que
marcaram sua vida, demonstrando, aos sessenta e um anos de
idade, o entusiasmo e a jovialidade próprios de alguém que se
entregou, de corpo e alma, a um grande ideal: a propagação da
literatura espírita.
P: - Quais as razões que levaram seus pais até a China?
R:
- A região da China onde nasci, a Manchúria, foi dominada pela
Rússia czarista até 1905 e possuía uma grande colônia de russos.
Depois da revolução comunista de 1917, o chamado proletariado
passou a perseguir os que tinham posses. Meu avô, ex-camponês da
Ucrânia, que havia enriquecido trabalhando na Rússia, escapou de
ser fuzilado em Vladivostok, no extremo oriente russo, por se
encontrar em coma terminal, vítima de um câncer. Depois do seu
desencarne, a minha avó fugiu, levando minha mãe e minha tia
ainda crianças, para a Manchúria, na China. Muitos russos,
residentes no extremo oriente da Rússia, também escaparam dessa
maneira da perseguição comunista.
P: - Você
permaneceu na China até os dez anos de idade. A cultura chinesa
o influenciou?
R:
- Não,
absolutamente. Harbin era uma cidade dividida em duas: a parte
chinesa e a parte russa. Na parte russa até as placas de rua
eram escritas no idioma russo. Na minha cidade existiam várias
escolas russas, inclusive uma universidade. O único contato com
a China era na parte da cidadania: governo, polícia, registro
civil etc.
P: - Quando
foi que sua família decidiu emigrar? Lembra-se o que motivou
seus pais a escolher o Brasil?
R:
- Com o passar do tempo, chegando o comunismo de Mao-Tse-Tung na
China, as autoridades chinesas começaram, discretamente, a
prejudicar os emigrantes russos residentes no país. Por exemplo,
meu segundo avô, o padrasto da mamãe, alugou um prédio que
possuía para o governo – o indivíduo na China de então não tinha
posses. Findo o prazo contratado, o prédio não foi devolvido,
mas o governo parou de pagar o aluguel. Sinais assim eram claros
para indicar que os russos – não comunistas – não eram
bem-vindos na China. A solução era ou voltar para a Rússia, ou
emigrar para o estrangeiro, para o mundo capitalista, quando se
perdia a nacionalidade e se tornava apátrida, abandonando bens e
levando consigo apenas os pertences pessoais... Quanto ao motivo
que levou meus pais a escolherem o Brasil, honestamente não sei.
Acho que, naquele tempo, apenas dois países estavam abertos à
emigração: a Austrália e o Brasil. Como Deus é muito bom para
mim, escolheram o Brasil. Eu não o trocaria por nenhum outro
país – apesar de ter tido essa oportunidade.
P: - Sua
família chegou ao Brasil em 1954 – em plena época da chamada
guerra fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética –
originária da China comunista. Vocês enfrentaram algum tipo de
segregação ou preconceito?
R:
- Pouquíssimo. Lembro-me de ter sido chamado uma só vez de bicho
d’água, nome pejorativo que então se dava aos emigrantes. Mas
foi a única vez. Aliás, essa é uma característica do nosso povo:
o calor humano, a amizade e a facilidade de relacionamento.
Depois, tive a oportunidade de viajar para o Japão e para os
Estados Unidos, quando trabalhava na Usiminas e pude constatar
que, povo igual o nosso, só aqui mesmo... Aliás, depois de vinte
anos de Brasil, ao informar um curioso a meu respeito, ouvi:
“Ah! Mas você já é brasileiro!” Guardo essas palavras na
lembrança até hoje...
P: - Vocês
desembarcaram no Rio de Janeiro e foram para Minas Gerais. Como
aconteceu essa transferência?
R:
- Moramos por uns
meses no Rio de Janeiro. Depois viajamos para São Paulo. Um ano
depois, se não me falha a memória, voltamos para o Rio de
Janeiro, onde permanecemos por mais um ano e pouco. Depois, por
alguns meses, voltamos para São Paulo, quando, então, viemos
para Minas Gerais. Na cidade de Belo Horizonte, por algum tempo,
depois Três Marias, na época da construção da barragem. Em 1960,
minha mãe e meu padrasto americano foram para os Estados Unidos,
e eu fiquei em Belo Horizonte.
P: - Depois
do golpe de 1964, instaurou-se a ditadura militar no Brasil.
Nesse mesmo ano, você empregou-se numa das maiores estatais
brasileiras, a Usiminas, ainda na condição de estrangeiro –
russo, de origem chinesa! Como conseguiu essa nomeação?
R:
- Sem problema algum. A Usiminas estava fichando pessoal. Estava
em plena construção e como no Brasil não temos muita conotação
política, acho que ninguém nem se deu conta de eu ser um russo
de origem chinesa...
P: - Suas
percepções mediúnicas despertaram em que idade? Onde se
encontrava nessa época?
R:
- Com maior clareza foi quando eu já possuía a noção do que era
mediunidade, depois da minha aposentadoria. Morava na cidade de
Belo Horizonte. Comecei a estudar a Doutrina Espírita no Grupo
Emmanuel, que passei a freqüentar, no bairro Carlos Prates.
P: - Em que
circunstâncias conheceu a Doutrina Espírita? Quando e onde isso
aconteceu?
R:-
Em 1991 ocorreram dois fatos marcantes comigo: a separação, do
primeiro casamento, e a aposentadoria, mais ou menos
compulsória. O desarranjo da minha vida causou desarranjos em
mim. Em especial nas áreas emocional e psicológica. Passei por
sérios problemas psíquicos, depressão, esquizofrenia... E assim,
apareceu diante de mim a Doutrina Espírita como alternativa de
vida, para uma vida com escassas alternativas.
P: - Qual
foi seu primeiro passo no sentido de aprimorar sua mediunidade?
Enfrentou alguma dificuldade? Alguém em especial o ajudou nessa
ocasião?
R:
- A bem da
verdade, senti manifestações mediúnicas ainda no tempo em que
comecei a trabalhar na manutenção da Usiminas. Muitas vezes,
tentava um reparo sem resultado. Surgia na minha mente uma idéia
que eu achava esdrúxula, a qual eu rejeitava. Passado algum
tempo, esgotado os meus recursos, a única opção era colocar em
prática aquela idéia esdrúxula, à qual eu recorria, em absoluto
desespero de causa, e ela provava ser a solução do problema!
Examinando a idéia, bem-sucedida, encontrava toda a lógica
técnica de que era imbuída. Isso aconteceu muitas vezes e sempre
fiquei curioso. Hoje compreendo que era a forma dos meus amigos
espirituais me ajudarem por intermédio da intuição. Quando
comecei a trabalhar na Engenharia, uma das minhas tarefas era a
elaboração de especificações de equipamento. Pois bem. Eu
passava dias sem que me viesse uma só idéia na cabeça. Passados
alguns, dois ou três dias, de repente, vinha-me à cabeça a
especificação inteira, e em questão de horas eu a realizava
completamente – e um detalhe: com pouquíssimo ou nenhum erro!
Hoje compreendo isso como um auxílio espiritual. Não sei quem me
ajudava naquela época. Sei apenas que sou muito grato. Essa
entidade colaborou decisivamente para que eu atingir o nível que
alcancei na Usiminas. Quando comecei a estudar o Espiritismo,
senti a esporádica vontade de escrever. Conhecedor desse
processo por intermédio da elaboração das especificações – que
havia vivido anteriormente – passei a atender a esses chamados.
Foi um período de treinamento, acredito. Mais tarde, fui
convidado por integrantes do grupo espírita que freqüentava para
uma reunião de desenvolvimento mediúnico. Como alguém comentara
que eu era médium, atendi ao convite. Ficava sentado,
participando das reuniões de estudos, ouvindo a parte prática.
Um dia, uma outra médium viu um espírito conduzido para
atendimento em condições muito precárias e teve receio de
atendê-lo. Com outra médium aconteceu o mesmo. Uma terceira
também confirmou essa presença, mas também teve o mesmo receio.
Ouvi tudo aquilo e pensei: eu não entraria num açougue para
comprar remédio. Para tanto, iria até a farmácia. A
espiritualidade não levaria um espírito onde ele não pudesse ser
atendido! “Aqui deve haver alguém que tem condições de ajudá-lo”
– pensei. “Por que não eu mesmo?” Passei a idéia ao dirigente da
reunião, o qual concordou comigo. Nesse meio tempo, uma idéia
fixa de sofrimento e dor surgiu em minha mente – e eu sabia que
não era minha. Comecei a dizê-la em voz alta e esse foi o início
do meu primeiro atendimento mediúnico. Quando me mudei para
Igarapé, comecei trabalhando nas reuniões mediúnicas
socorristas.
P: - Quando
iniciou seu trabalho de psicografia? Em que local trabalha? Qual
é sua rotina?
R:
- Como já comentei, meu treinamento iniciou-se pela vontade
forte de escrever. Isso ocorria no meu apartamento, em Belo
Horizonte, e eu não compreendia esse fato como psicografia. Até
que, um dia, em que eu havia sido particularmente mordaz nas
minhas críticas, voltando à minha casa, senti um forte acesso de
depressão que durou uns cinco minutos. Eu conhecia bem o
processo e sabia que a duração era muito maior, de horas ou
dias. Ao acesso de depressão se juntou um desejo de quebrar
tudo, de beber etc. Depois, seguiu-se um acesso de paz e
bem-estar, que também era anormal na seqüência depressiva. Aí eu
já estava atento. O bem-estar durou poucos minutos e foi seguido
por uma grande vontade de escrever. Segui o desejo, bastante
curioso. O resultado foi uma poesia – e eu não sou
particularmente apreciador de poesias – dizendo, em síntese, “Eu
não te disse?
Eu não te
preveni?”. Sentei-me à escrivaninha. Analisei a situação, que
consistia em escrever para mim mesmo, e vi que existiam apenas
duas alternativas: ou eu havia enlouquecido ou era médium... A
lógica fez prevalecer a segunda hipótese. Já trabalhei no
ambiente do grupo espírita e psicografei muitas mensagens, mas
sempre considerei a idéia de psicografar em casa. Conheci
histórias de outros médiuns que psicografavam em casa, inclusive
na presença de familiares, e não via por que o ambiente físico
devia consistir em impedimento. Aliás, quando psicografava no
grupo, era freqüente eu me distrair com o trânsito ou
transeuntes no caminho, perdendo muito tempo, ou às vezes me
desconcentrando completamente. Quando começaram a surgir os
livros, como A chave da felicidade, eu passei a psicografar em
casa. Passei a respeitar os desejos de escrever em casa e
reservei um recinto para a psicografia. A minha rotina é me
manter tranqüilo nos dias em que sei que está esquematizado o
trabalho psicográfico, e procurar o que chamo de dirigir os meus
pensamentos ao assunto em pauta. Não é que fico planejando ou
fixando as idéias no assunto. Procuro deixar a mente livre de
quaisquer outros assuntos e as idéias surgem na minha mente, até
que alguém parece tomar conta de mim e me dirige. Praticamente,
sempre vejo o autor espiritual, mas ele não fica ditando,
continuamente. O processo todo se resume em escrever a primeira
frase que gira na minha mente. O restante vem naturalmente a
seguir, e só fico sabendo dessa seqüência quando estou
trabalhando. Geralmente psicografo na parte da tarde. Uso a
manhã para meditar sobre a minha reforma íntima, planejamento de
atividades, avaliação do acontecido no dia anterior etc. À noite
não psicografo, porque participo de reuniões e visitas a alguns
lares. Geralmente, as pessoas têm mais tempo livre à noite – é
quando as visito. Durante essas visitas, posso eventualmente
sintonizar com alguém necessitado, e isso prejudicaria o
trabalho de psicografia, por baixar minhas vibrações,
afastando-me do autor espiritual e aproximando-me do necessitado
ou sofredor. Assim, deixei de psicografar durante a noite.
Obtive a confirmação da minha mentora de que, à noite, os
Espíritos são muito requisitados por médiuns que trabalham e têm
compromissos durante o dia. Por ser aposentado, posso fazer os
meus horários sem constrangimento algum. As sessões não são
públicas, só psicografo em particular, sozinho. A minha mentora,
Irmã Maria, está presente quase constantemente. Ela me auxilia
com bastante suas chamadas de atenção. O preparo consiste em
manter-me tranqüilo como que criando o ambiente de psicografia
em mim mesmo.
P: - A
Petit Editora está lançando O castelo das almas feridas, do
Espírito Samuel, psicografado por você. Quem é o Espírito
Samuel? Quando foi que essa psicografia se iniciou?
R:
- É a história verídica de uma família, mas o autor espiritual é
um talentoso ficcionista... Essa psicografia foi feita no
intervalo de 10 de fevereiro de 1995 a 14 de agosto de 1996,
durante sessões semanais.
P: - Herman
Poliakoff identificou-se com algum dos personagens de O castelo
das almas feridas?
R:
- Acredito que
tenho algo a ver com o Alfred...
P: - Sua
família é espírita? Apóia seu trabalho mediúnico?
R:
- Minha esposa e a minha filha mais velha são espíritas. Toda
família respeita o meu trabalho mediúnico.
P: - Além
da psicografia, dedica-se a outras tarefas mediúnicas?
R:
- Participo de uma reunião semanal de vibrações e de uma reunião
mensal de atendimento. Atualmente, estou trabalhando com
assistidos depressivos.
P: - Sabe
de alguma notícia sobre o movimento espírita na Rússia, terra
natal de seus pais?
R:
- Não. Eu não tenho nenhum contato com a Rússia. Sou brasileiro
por opção, por escolha própria – e muito feliz com isso.
P: - Alguns
autores espirituais que escreveram por seu intermédio
apresentam-se com nomes de origem russa. Essa sintonia se deve
ao fato de você ter nascido na Rússia?
R:
- Com certeza. Quando criança, não me era permitido brincar com
outras crianças por questões de criação, restrição que eu
respeitava. Eu ganhava, nos aniversários e festas, livros e mais
livros... Li todos, ou praticamente todos, os clássicos russos.
P: - Os
livros que você psicografou atendem uma gama muito grande de
interesses – psicologia, educação mediúnica, reforma íntima,
romances, entre outros temas – apresentando uma qualidade de
texto e conteúdo acima da média. Considerando-se o curto período
de seu treinamento mediúnico, como explicar essa qualidade?
R:
- O médium é um instrumento dos espíritos. Por intermédio da
mediunidade, os escritores espirituais transmitem suas obras. A
eles, os autores espirituais, é que nós devemos atribuir todos
os méritos da psicografia. Não podemos nos esquecer do preparo
que o médium recebe no plano espiritual. Nesse intervalo, entre
uma e outra encarnação, estuda e se fortalece, em espírito, para
a realização de suas tarefas. É de grande importância, também, a
sintonia com as entidades comunicantes. No meu caso, desde a
infância aprecio a literatura – sempre fui um devorador de
livros. Acredito que essa minha vontade de estudar, por conta
própria – sou um autodidata por vocação – tenha contribuído para
firmar essa aproximação com os espíritos escritores. Por outro
lado, fiquei sabendo de alguns aspectos de minhas vidas
anteriores – fui um padre na Inquisição Espanhola, sou um
espírito devedor... A misericórdia divina me deu essa
oportunidade impar de quitar meus comprometimentos – a
mediunidade. Sei que já usei mal a inteligência e durante muito
tempo – inclusive nessa mesma encarnação. Agora estou aprendendo
a usá-la corretamente. Gostaria de aproveitar para agradecer a
carinhosa e estimulante consideração dos amigos da Petit
Editora. Pretendo continuar – se Deus permitir – atendendo às
expectativas na condição de servidor da espiritualidade, nada
mais...
P: - Quais são
seus planos?
R:
- Com a permissão
de Deus, continuar trabalhando na divulgação da Doutrina
Espírita, que é o Cristianismo Redivivo.
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