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A noite descera do
poente longo...
Passeando no
Central Park, em Nova Iorque, surpreendi um amigo espiritual de
olhar sereno e doce, entre os obreiros desencarnados que
repousavam, após o dia.
— Você conhece? —
perguntou-me o Serpa, colega que me partilhava a pequena
excursão.
E espicaçando-me a
curiosidade:
— Aquele é Horace
Greeley, observador do Espiritismo, na América...
Não pude sopitar o
impulso afetivo que me requisitava para ele e aproximei-me.
— Horace Greeley?
— indaguei, emociona-mobilizando o meu péssimo inglês, praticado
nos últimos tempos.
— Sim, para
servi-lo.
Percebendo-me as
dificuldades no ensaio do tratamento, ele mesmo desembaraçou-me:
— Chame-me por
irmão. Somos companheiros de jornada. Já ultrapassamos os velhos
marcos dos preconceitos.
O nosso diálogo
deslizou, então, claro e simples:
— Meu amigo —
recomecei —, tenho visitado frequentemente os Estados Unidos,
junto de Frederico Figner, antigo lidador do Espiritismo no
Brasil, que habitualmente me fala do seu apostolado...
Semelhantes viagens adquiriram expressão de rotina para mim.
Agora, no entanto, acompanhamos amigos do Brasil, em tarefa
espiritual, num encontro fraterno com o povo norte-americano, e
estimaria ouvir-lhe algumas palavras...
— Em que lhe
poderia ser útil?
— Não lhe será
incômodo dizer-nos algo, em torno do movimento espírita em seu
País?
— De modo algum. A
Nova Revelação, que passou a ser conhecida, entre nós, como
sendo o moderno “Espiritualismo”, enfrenta valorosamente aqui os
obstáculos que o materialismo acumula contra nós todos, no
presente século, e vai concretizando a sua benemérita obra
missionária.
— Crê o senhor que
ela se acha aparelhada com todos os recursos precisos para
superar os empecilhos da nossa época?
— Não. Não devo
superestimar a nossa capacidade de concepção e de ação. O apego
aos fenômenos, em nossa esfera de luta, determinou o surgimento
de entraves com que não contávamos. A fome de demonstrações para
os olhos físicos, até certo ponto, deixou para trás a visão da
alma. Realizamos e continuamos a realizar excelentes construções
no terreno científico de maneira a patentear a. sobrevivência da
alma; contudo, talvez detidos demais na feição unilateral do
problema, não nos lembramos de que a edificação moral exige de
nós a mesma força de serviço e persuasão.
— Mas, o
Espiritualismo, na América do Norte, está alimentado pela seiva
do Cristianismo...
— Sem dúvida. E’
necessário frisar, porém, que temos dado ênfase excessiva ao
Cristianismo estático da crença que aprecia Jesus por salvador
externo, sem admiti-lo na condição de mestre da alma, com
instruções e disciplinas para o mundo íntimo. Faltam-nos os
esclarecimentos incisivos de Allan Kardec, capazes de
induzir-nos à fé raciocinada e à aceitação do Evangelho de Jesus
por sistema de renovação e aperfeiçoamento do campo individual.
— Isso quer dizer
que o senhor tem estudos meditados sobre a Codificação
Kardequiana.
— Como não?
— Julga o senhor
que a Codificação Kardequiana seja inatacável?
— Na essência do
ensino de que se faz portadora, ela se ergue sobre indicações e
diretrizes incorruptíveis como a própria vida, mas na superfície
que as palavras entretecem é natural que ela venha, com o tempo,
a sofrer revisões como qualquer construção, por mais
respeitável, que passe na Terra por mãos humanas. De qualquer
modo, vocês, os nossos irmãos latinos, devem a Allan Kardec
benefícios inapreciáveis do plano moral, principalmente porque
ele foi fiel aos Espíritos Instrutores que lhes presidiram a
obra, apresentando a Doutrina Espírita como doutrina deles, de
caráter universal, na revivescência do Evangelho do Cristo...
Nós, os companheiros do mundo anglo-saxônio, destacamos dois
pontos de fundamental importância de que Allan Kardec não se
descuidou, em favor da Humanidade: a vinculação do Espiritismo
ao Cristianismo dinâmico e a obrigação da mediunidade gratuita.
O Cristianismo dinâmico é uma escola de orientação que interfere
nos processos da consciência, despertando cada criatura para a
responsabilidade de viver, e a mediunidade gratuita é o único
meio de assegurar a livre manifestação do Mundo Espiritual.
— Que diz o senhor
da mediunidade remunerada?
Greeley sorriu, na
pausa com que pareceu refletir no delicado assunto que a nossa
inquirição levantava, e considerou, franco:
— Não podemos
esquecer que, nas áreas de língua inglesa, temos tido médiuns
abnegados, em todos os tempos, que tudo deram de si à causa da
verdade, sem a recompensa de um ceitil, e que, ao lado deles,
outros muitos terão tido necessidade de amparo’ material para o
serviço a que foram chamados; entretanto, somos constrangidos a
reconhecer que a mediunidade será gratuita ou a Nova Revelação
será abafada ou prejudicada por interesses inferiores ou
exclusivistas.
— Sabemos que o
senhor conheceu as irmãs Fox...
— Perfeitamente.
— Desejaria aditar
algum apontamento de sua parte à história delas?
— Nenhum. Elas
experimentaram, como quaisquer pioneiros do progresso, as
vicissitudes do clima terrestre em que viveram. Não será lícito
desconhecer-lhes as fulgurações e nem reprovar-lhes as
fraquezas... Eram, como nós, criaturas humanas, entre as
atrações da sombra e as exigências da luz.
Compreendi que
estava transformando a minha pesquisa num inquérito demasiado
longo e abreviei:
— Meu amigo, que
nos pode falar acerca da reencarnação nesta parte do Continente?
— A certeza da
reencarnação avança, cada vez mais, em nosso campo de serviço. O
tema concerne à verdade e a verdade, a pouco e pouco, se revela
de modo irreversível.
— O senhor tem
alguma sugestão para nós, os irmãos brasileiros?
— Quanto nos seja
possível, cultivemos o esforço da aproximação recíproca.
Aprendamos e sirvamos juntos. Conheçamo-nos. Permutemos estudos
e conclusões. Evolução é trabalho de espíritos reunidos.
Fixei, com mais
enternecida atenção o fundador do “Herald Tribune” e rematei:
— Estamos
sumamente satisfeitos. Muito gratos por sua palavra sincera e
persuasiva. Possuímos em sua presença uma das glórias mais altas
do jornalismo americano e não será justo esquecer que Nova
Iorque lhe honorifica a memória com uma estátua no Greeley
Square...
O entrevistado, no
entanto, cortou-me a ponderação, exclamando:
— Não diga isso.
Sou apenas um espírito consciente, buscando a execução do
próprio dever...
E acrescentou
sorrindo:
— Se você admite a
existência de glórias humanas, observe, quando passar na praça
referida, a estátua de que me fala e verá que a poeira e os
pombos não acreditam nisso.
Em seguida, Horace
Greeley pronunciou expressões de amizade e bênção, que
profundamente nos comoveram, e afastou-se, a passo rápido, como
quem seguia ao encontro de tarefas inadiáveis, sob a noite de
cinza.
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