|
O jornalista Luiz
Signates é professor da Universidade Federal de Goiás e é um dos
sócios da Faculdade Araguaia.
P: - Como
devemos orientar nossos filhos, com tanta sensualidade/erotismo
existente na televisão, em especial no Carnaval, à luz da
doutrina espírita?
R:
- O diálogo é a melhor forma de prevenção contra os excessos do
mundo. Além disso, os pais devem ter a consciência de que eles,
e não a televisão, são a influência mais importante para a
formação dos filhos. Devem, por isso, utilizar pedagogicamente a
televisão, utilizando suas imagens e informações para debater
com eles as questões e problemas do mundo. Se houver presença e
atenção deles, a televisão acabará sendo vista como uma mera
janela distorcida do mundo com o qual é preciso conviver para
melhorar. Em relação às questões de sexualidade, é preciso que o
diálogo dos pais não seja tangido pelo tabu e o preconceito. O
ato sexual não pode ser visto como algo sujo ou perigoso, e sim
como um fato natural da vida, que será sempre belo e prazeiroso,
quanto mais for movido por sentimentos de afeto e sinceridade.
Eis o que deve ser tematizado com os filhos, ante as exibições
televisivas.
Nesse sentido, a
censura e a proibição nem sempre são os melhores recursos, vez
que, além de reforçarem uma visão preconceituosa de que o sexo é
errado, podem ter o efeito inverso, isto é, podem aguçar a
curiosidade da criança e se tornar depois o meio de contestação
delas à sociedade e aos próprios pais. Nesse sentido, assim que
a criança se mostrar em idade de compreender tudo isso, a
sexualidade mostrada na televisão deve ser tematizada pelos
pais, não no sentido de se proibir, mas de sempre se perguntar
se os personagens do filme ou da novela se amam de fato e se há
respeito de um para o outro. Assim, a criança perceberá
claramente que nem tudo o que a televisão mostra é bom e deve
ser imitado. E, além disso, ficará evidente para ela que há
outras coisas na televisão, além de sexo, que também são
importantes.
P: - O que
é "comunicação social" em espiritismo?
R:
- Temos, em nosso trabalho, diferenciado de forma muito séria os
conceitos de "comunicação social espírita" e de "divulgação do
espiritismo". A divulgação é uma atitude centrada na mensagem e
cujo propósito acaba sendo, na prática, converter pessoas ao
espiritismo. Isso não é um mal em si, mas trata-se de um
propósito que, além de não coadunar com os objetivos do próprio
espiritismo, representa um problema ético sério: o fato de não
estarmos propondo um relacionamento com a sociedade marcado
pelos princípios do diálogo.
Para marcar essa
diferença ética é que propomos o termo "comunicação social
espírita". A idéia é nos inserirmos na discussão social dos
problemas humanos e, mesmo, criarmos espaços para que essa
discussão seja feita, e chamarmos para ela todas as instâncias
da sociedade que se interessem pela temática. Nesse sentido,
haveria um diálogo, no qual nós aprenderemos com o saber
produzido pelas outras esferas e eles, evidentemente, tomariam
conhecimento de nossas posições, podendo também aprender com
elas. Essa gestão democrática do diálogo não seria, nesse caso,
centrada na mensagem e sim na forma de relacionamento, e mesmo
as temáticas seriam pautadas não pelo espiritismo, e sim pelas
necessidades humanas.
P: -
Existem obras que tratem da educação e do aspecto científico do
espiritismo, dentro dos critérios de cientificidade da
atualidade?
R:
- Os espíritas
brasileiros têm demonstrado dificuldade em dialogar com as
ciências humanas e sociais, em razão de uma certa
indisponibilidade para o uso da metodologia científica.
Entretanto, há obras espíritas sobre educação, cuja
cientificidade, você, como mestrando, deve avaliar com atenção,
verificando, inclusive, a que tendências da teoria educacional
cada uma delas se filia, fazendo, assim, a devida
contextualização da literatura espírita a respeito. Os
principais autores espíritas disponíveis, a respeito, são Pedro
de Camargo (pseudônimo: Vinícius), Herculano Pires, Ney Lobo e
Dora Incontri. Todos eles são encontráveis em boas livrarias
espíritas.
P: - Até
que ponto os comunicadores têm responsabilidades sobre o que
divulgam e sobre o que é divulgado de suas vidas particulares na
mídia?
R:
- Parece-me uma
regra simples de ética da comunicação que todo aquele que diz
algo (seja ou não um profissional da comunicação) assume a
responsabilidade pelas conseqüências por aquilo que diz. Mesmo
que saibamos que, de um ponto de vista científico, o falante
jamais tem completo controle das repercussões e conseqüências de
seu dizer, porque os atos simbólicos são sempre passíveis de
interpretação por parte de quem ouve. É preciso considerar ainda
um fator cultural importante, no mundo contemporâneo. Vivemos
uma sociedade em que o capitalismo se aprofundou de tal maneira
na vida cotidiana das pessoas que rompeu a barreira entre o
público e o privado, de tal modo que se, por um lado,
multiplicam-se as formas de corrupção pela apropriação privada
dos bens e do interesse público, por outro, as questões privadas
da intimidade, como o sexo e o dia-a-dia de pessoas famosas,
acabaram gerando interesse nem sempre devido para os públicos
conectados aos processos e tecnologias de comunicação social.
Tais acontecimentos são de enorme relevância ética e nós, os
espíritas, temos grande contribuição a dar nesse sentido, na
medida em que consigamos tratar dessas questões despidos dos
velhos preconceitos ou das formas arcaicas do moralismo
religioso, isto é, dando relevo às problemáticas do sofrimento e
dos direitos humanos, em termos de uma interpretação espiritual
da vida.
P: - Será
que alcançaremos o socialismo pregado por Léon Denis em sua obra
sobre o assunto?
R:
- O socialismo de Denis é o socialismo utópico e romântico que
prevaleceu sobretudo no século dezenove, mas cujos referenciais
despontam hoje como alternativas a serem pensadas com seriedade.
Pensar com seriedade significa, a meu ver, levar em conta a
ambigüidade e as contradições do processo social no mundo
contemporâneo. Não vivemos mais um mundo onde se justificaria
esperar dos valores da burguesia emergente a fundação de uma
sociedade fraterna e justa. A ascensão da economia burguesa, no
mundo capitalista, engendrou sistemas de dominação de alta
complexidade, cujas características são, marcadamente, a
reprodução do poder e do dinheiro. Tais sistemas não produzem
senão sua própria sobrevivência, utilizando, em sua lógica, os
seres humanos para isso. Entretanto, a criação de sistemas como
a economia e o Estado não anulou a sociedade, nem as
possibilidades de afirmação da subjetividade e da
intersubjetividade humanas. Sabe-se, por isso, hoje em dia, que
uma transformação profunda da sociedade - em direção a algum
modelo de socialismo, por exemplo -, se vier, virá das mudanças
das próprias relações humanas. Em outras palavras, tomar o
Estado ou falir a economia não resolveria os problemas humanos;
mas, organizar a sociedade, para além dos referenciais do poder
e do interesse material, parece ser a alternativa emancipatória
para o espírito humano nesta virada de milênio. A emergência de
novos movimentos sociais e de organizações não governamentais,
bem como de questões globais como a ecologia e os direitos
humanos, são sinais claros de que as transformações a serem
buscadas não mais estão exclusivamente permeadas pelos canais
institucionalizados da política e, muito menos, pelo jogo de
interesses da economia. Exigir uma visão com tal
contemporaneidade de Léon Denis seria pedir excessivamente da
clarividência de seu gênio. Mesmo assim, debater tais questões
nos nossos centros espíritas seria um avanço enorme para o
espiritismo brasileiro, que ainda refuga de forma
incompreensível muitas questões de contexto e profundidade
social.
P: - Por
que algumas pessoas possuem o dom da fala, e outros mal
conseguem dizer seus nomes?
R:
- As diferenças de habilidades entre as pessoas têm diversas
origens, inclusive a das experiências reencarnatórias. Apesar
disso, é preciso evidenciar que a competência da fala não está
tão restrita quanto outras habilidades, sobretudo aquelas que
exigem elevado desempenho técnico e profissional. Saber falar,
saber comunicar-se, enfim, é uma condição para a própria vida em
sociedade. Eis porque algumas habilidades específicas,
originárias da capacidade geral da fala, como a retórica (junto
ao alfabeto, uma das primeiras tecnologias da comunicação
pública) são muito mais fáceis de se desenvolver do que outras,
menos ligadas a uma competência tão geral.
Por isso, parece
correto dizer que aqueles que não têm problemas físicos e
conseguem conversar normalmente com os outros, podem
perfeitamente falar em público, bastando para isso enfrentar
empeços psicológicos naturais, como os problemas de inibição e
nervosismo, e ganhar com o tempo a experiência de administração
de auditórios. Isso, desde que, é claro, tenham algo a dizer...
Nada, enfim, que uma orientação especializada e um pouco de
persistência não consigam solucionar.
P: - Há
alguma emissora de televisão com programação totalmente voltada
aos ensinamentos da Doutrina Espírita?
R:
- Não. E creio que, quando existir uma, não me parece que o
modelo de programação de emissoras como a rede católica citada
seja a melhor opção. Quando pensamos, como especialista, tanto
nas potencialidades da comunicação, quanto nos compromissos do
espiritismo, afigura-se extremamente pobre um padrão que perceba
as tecnologias e processos da comunicação como meros
instrumentos, e o espiritismo como um mero conteúdo a ser
divulgado. Nesse patamar, a presença espírita nos chamados
"meios" de comunicação pouco ou nada se diferenciará do
conversionismo dogmático das religiões tradicionais, perdendo,
assim, todo o seu potencial ético transformador da sociedade.
Uma opção muito mais rica e densa, e que o movimento espírita
brasileiro ainda não foi capaz de perceber, é a da comunicação
como uma forma de relação humana de caráter interativo e o
espiritismo como uma ética de fraternidade a ser evidenciada por
meio das práticas, muito mais do que de conteúdos. Uma emissora
espírita, a meu ver, seria evidenciada por uma programação
educativa, ética, dialógica, democrática e plural. E não por
limitar-se a conteúdos doutrinários consagrados.
P: - Porque
o Espiritismo deve ser preocupar com a divulgação de sua
perspectiva se a verdade por si só se encarrega de se divulgar?
Jesus não pregou na Galiléia em um lugar ermo e para poucos? A
verdade de suas palavras não se disseminou a revelia de seus
detratores?
R:
- Sem querer repetir respostas anteriores, penso que a força das
palavras e atos de Jesus se deveu muito mais à qualidade das
relações de amor e fraternidade que ele foi capaz de criar com
os outros, do que ao esforço de divulgação de ideias que ele
patrocinou. Eis porque considero que os espíritas devem se
preocupar mais com a natureza das relações que entretece com os
outros saberes e práticas sociais, do que com a difusão de suas
próprias ideias. Se criarmos uma relação de elevada
fraternidade, na qual tanto ensinemos quanto aprendamos, com os
diferentes grupos sociais disponíveis, estaremos transformando o
mundo na prática, e não apenas expandindo uma instituição ou um
movimento.
P: - Qual a
sua opinião sobre a divulgação do Espiritismo através da
Internet? Não é muito mais difícil manter um controle sobre o
que é divulgado como Doutrina Espírita?
R:
- Em comunicação, a preocupação por controle é, na prática, uma
pretensão de poder sobre os outros (no caso, sobre a fala dos
outros). Penso que a ética espírita nos orienta a, o quanto
possível, abandonar as pretensões de poder sobre os outros, e
exercitarmos, cada vez mais, a capacidade de dialogar e tolerar
as diferenças alheias. Infelizmente, ainda persistem em nosso
meio e não raro utilizando-se de recursos violentos, como ritos
de exclusão, maledicência e formação de preconceito, diferentes
formas de policiamento ideológico as quais, por romperem com
regras básicas de fraternidade e entendimento, precisam
continuamente inventar justificações ideológicas para ocultarem
a enorme contradição entre os conteúdos do que é dito e o que
está efetivamente em jogo quando se diz. A internet, por ser um
ambiente interativo por excelência, tende a sediar ambientes
muito mais democráticos e amplos de diálogo dos espíritas entre
si e destes com a sociedade. Por tal razão, penso que o ambiente
virtual é um lugar por excelência para se observar até onde vai
a capacidade do espírita de praticar a fraternidade que tanto
prega.
P: - O que
o Sr. Acha da divulgação do Espiritismo através de revistas que
tentam usar uma linguagem "popular" e chamativa, às vezes saindo
do caráter de seriedade da Doutrina Espírita?
R:
- Como estudioso
de comunicação, sou obrigado a admitir que, por sua marca de
origem, o espiritismo tem sido um movimento cuja doutrina apenas
dialoga com pessoas de uma certa capacidade intelectual. Isso,
num país de tantas desigualdades como o Brasil, significa não
apenas um corte ideológico, mas uma seletividade política e
econômica. Por tal razão, em princípio, parece ser uma
importante iniciativa o surgimento de mídias que se tornem
capazes de abrir o diálogo com as camadas mais pobres de nossa
sociedade. Entretanto, não raro percebemos que tais iniciativas
correm um alto risco de sucumbir no outro extremo desse
direcionamento, rendendo-se à cultura de consumo de massa, cujas
práticas de comunicação supõem um receptor próximo do imbecil e
travam com ele uma relação de mero entretenimento, não raro
reforçando velhos preconceitos sociais (nas publicações
espíritas, a manifestação de preconceito contra as tradições e
religiões negras, por exemplo, é às vezes flagrante). Parece-nos
imperioso construir, no movimento espírita brasileiro, uma nova
mentalidade em comunicação social, a fim de que a relação do
nosso grupo social com todos os demais que integram a sociedade
brasileira sejam traduzidos pela ética e pela autocrítica. A
"seriedade" do espiritismo jamais se traduzirá pela sua
incapacidade de dialogar com os mais humildes (o que, não raro,
apenas reproduz as velhas divisões de classe que ainda marcam
tristemente a sociedade brasileira), e sim pela ética com que
paute as relações que estabelece pelos processos de comunicação
que venha a fundar.
P: - Os
espíritas não deviam fazer uma campanha de esclarecimento na
mídia sobre as diferenças em relação a outras religiões que se
dizem espíritas?
R:
- Tenho acompanhado essa constante preocupação do movimento
espírita, e me perguntado o que é que nos move nesse interesse.
A alegação básica é estabelecer uma máxima clareza quanto às
definições que envolvem a identidade espírita que o movimento
brasileiro considera a mais correta, tendo em vista os
referenciais da obra de Allan Kardec. Sem dúvida, isso é justo.
Entretanto, ponderemos que essa busca, na prática, tende a
ignorar que o espiritismo, como toda e qualquer doutrina em
movimento, se enraíza na cultura e, por isso, está sujeito a
evoluções e transformações as mais diversas. Mas, não apenas
isso. O mais preocupante é verificar que a forma como se busca
afirmar a identidade espírita segue usualmente todos os
parâmetros do que a sociologia da cultura denomina "luta pelo
poder simbólico", definida como a utilização de estratégias de
combate a outras formas de interpretação, a fim de garantir a
hegemonia de uma certa interpretação. Em outras palavras, a fim
de garantir a "pureza" do espiritismo, desencadeamos guerras
ideológicas e disputas de interpretação, tanto dentro do
movimento, quanto junto às diversas esferas sociais. Tenho
estudado tais atitudes com alguma profundidade e constatado que
ocorre, nesse campo, o que se pode chamar uma "contradição
performática", isto é, a negação prática daquilo que se diz, no
próprio ato de dizer. Falando mais claramente, falamos de
fraternidade e, em nome de nossa interpretação, estabelecemos
uma espécie de disputa com outros pensamentos, na qual nem
sempre a fraternidade é o diapasão que funciona. Isso porque, na
prática, para preservar a interpretação considerada verdadeira,
estabelecem-se ritos de exclusão, rotulações, queimações
pessoais e montanhas de preconceito contra as pessoas que se
arriscam a não seguir o manual doutrinário estabelecido. Sem
pretender a defesa de um relativismo total no espiritismo, penso
que o problema ético contido nessa contradição performática deve
ser debatido muito por todos nós, a fim de que as nossas
interpretações doutrinárias não se tornem mais importantes do
que a busca maior pela fraternidade humana, que, a meu ver, é a
única que efetivamente justifica o espiritismo e todo o
movimento de espiritualização do mundo.
P: - Que
orientações o Sr. Teria para a divulgação da Doutrina Espírita
através de uma pequena rádio comunitária?
R:
- A ideia das rádios comunitárias, no contexto do
desenvolvimento das comunicações no mundo atual e,
especialmente, no Brasil, está ligada à defesa da democratização
cada vez mais ampla das tecnologias de comunicação. Dizendo de
outra forma, não há qualquer problema em o Roberto Marinho
possuir uma rede de televisão ou de rádio, desde que todos
aqueles que quiserem ter uma tenham igual oportunidade para
isso, especialmente as comunidades humildes que, geralmente, não
têm voz nem vez no grande diálogo social que essas tecnologias
possibilitam para o mundo contemporâneo. Penso, por essa razão,
que a apropriação pelas comunidades espíritas de emissoras
comunitárias devem se inserir nessa perspectiva mais ampla. Acho
que seria uma distorção indesejável se as possibilidades de
emissoras comunitárias caíssem nas mãos de pregadores
religiosos, sejam evangélicos, católicos ou espíritas,
simplesmente a serviço da divulgação de suas respectivas
doutrinas. Uma emissora comunitária tem que pertencer e ser o
espaço de diálogo da comunidade à qual ela se dirige. Não pode
ser via de mão única, nem propriedade de profissionais ou
instituições específicas, e sim estar a serviço das comunidades
e contar com a participação delas. Nessa perspectiva, vejo o
espiritismo como um filosofia que nos educa para esse tipo de
comportamento. Usar dessa forma uma emissora comunitária é, nem
mais nem menos, cumprir a ética do espiritismo, fazendo dela um
gesto de caridade: a caridade da comunicação, a caridade do
diálogo pelo qual as pessoas se tornarão cada vez mais cidadãos
e promoverão, a partir da experiência de dialogarem entre si, a
arte de construir a sociedade fraterna e justa que nós,
espíritas, chamamos "mundo de regeneração".
P: -
Existem algum órgão no Movimento Espírita dedicado
exclusivamente à comunicação social, ou divulgação da Doutrina?
R:
- Sim, existem
vários. Eu mesmo dirijo um deles, como presidente que sou do
Instituto de Comunicação Social Espírita, sediado em Goiânia.
Mas, há também, em praticamente todos os Estados do país, as "ADEs",
as Associações de Divulgadores do Espiritismo. E, todos nós, nos
ligamos à Abrade, a Associação Brasileira dos Divulgadores do
Espiritismo, instituição de nível nacional que sucedeu à famosa
Abrajee, Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores
Espíritas. Além disso, temos algumas emissoras de rádio e
diversas instituições e centros espíritas que patrocinam
programas de rádio e televisão em várias partes do país.
É preciso
considerar, porém, que este é um movimento que poderia ter muito
mais pujança do que tem. Na verdade, o espiritismo brasileiro
apóia muito pouco as atividades de comunicação, especialmente
aquelas que não se incluem nas práticas referendadas por Allan
Kardec (o livro e o periódico impresso, que eram, afinal, os
únicos suportes tecnológicos de comunicação social existentes no
século 19). Temos, normalmente, muitos recursos e voluntariado
para desenvolver atividades de assistência social, mediunidade
e, até, de estudos, mas as áreas de comunicação e artes, onde
dão certo, é porque se criam condições - nem sempre
recomendáveis - de profissionalização, e, mesmo assim, é uma
regra quase geral existir um ambiente de extrema dificuldade
para essas iniciativas. Dificuldade, inclusive, que cresce
exponencialmente, se o projeto se encaminha mais para a
comunicação do que para a divulgação...
P: - Temos
notado que os jornais espíritas incentivam muito mais a
dissensão, combatendo ideias de outros espíritas, do que a
união. Isso não é prejudicial para a imagem do Espiritismo?
R:
- Confesso que
tenho a respeito uma ideia um pouco diferente da sua. Meu olhar
sobre a imprensa espírita - que é numerosa e pródiga.
Devemos convir que ela mostra muito mais um modelo de imprensa
de tipo doutrinário, feita de artigos, do que uma imprensa
marcada pelo jornalismo, pela cobertura de fatos e pela
discussão de ideias. E, o mais interessante, é que o formato
"artigo" está classicamente inscrito no que se convencionou
chamar "jornalismo opinativo", mas é justamente a expressão da
opinião aquilo que mais se teme e mais se coíbe, na nossa
imprensa. Ou seja, privilegiam-se os artigos repetitivos, nos
quais apenas varia a forma de se dizer a mesma coisa, como num
gesto ritual dentro do qual apenas se permite a participação de
todos na condição de nada dizerem de novo, de apenas
referendarem aquilo que já está publicado nos livros
consagrados. Já tive oportunidade de dizer mais de uma vez, em
público, que não há jornalismo na imprensa espírita. Longe,
portanto, amigo querido, de ver a dissensão e a disputa de
ideias na nossa imprensa espírita, o que seria salutar, desde
que não implicasse em preconceitos, exclusões e falta de
fraternidade, o que nela presencio é um formato editorial
confirmatório e não raro presunçoso (especialmente quando aborda
assuntos científicos e especializados). Isso, penso eu, não é
culpa de ninguém, e sim um problema cultural. Parece-me que nós,
espíritas, não temos sido capazes de enxergar a união senão na
justaposição instituída das ideias. Guardamos uma enorme
dificuldade de promover a unificação no clima das diferenças.
Esquecemo-nos, não raro, que unir não é enquadrar ou
uniformizar, e sim manter o diálogo e a fraternidade, sem
excluir quem quer que seja. A formulação ética desse princípio
fora certa vez colocada pelo próprio Cristo: "Quem não for
contra mim, é por mim". Trazidas tais ideias para a prática do
jornalismo espírita, penso francamente que a nossa imprensa
demanda uma reformulação de proposta, na qual se torne,
efetivamente, o fórum de debate dos conflitos doutrinários e
práticos dentro do movimento espírita - mas dando a voz a todos,
e não privilegiando uns em detrimento de outros. Que ela seja,
além disso, o espaço público da interação espiritismo-sociedade,
tematizando o sofrimento humano, à luz do espiritismo, e,
também, dando voz às diferentes esferas da sociedade dentro do
movimento espírita. E, tudo isso, no regime da mais ampla
fraternidade.
P: - De que
forma cada pessoa, individualmente, pode colaborar na divulgação
da Doutrina?
R:
- Penso que a melhor forma de contribuir para a divulgação do
espiritismo é contratar ótimos publicitários e destinar grandes
verbas para as campanhas de propaganda, nos maiores meios de
comunicação disponíveis. Entretanto, se o que se busca não for
simplesmente a divulgação, mas a comunicação social espírita,
conforme defini das questões anteriores, considero que toda vez
que alguém estabelece com outrem uma relação na qual existe
fraternidade efetivamente praticada. Para isso, considera-se
fraternidade um tipo especial de relacionamento, no qual não
ocorre qualquer tipo de indiferença social, no qual a presença
da diferença do outro é respeitosamente aceita e, mais do que
isso, utilizada para que ambos aprendam um com o outro, e no
qual, finalmente, da forma que for possível, se construir o amor
entre esses seres em interação, sem que essa capacidade de amar
seja condicionada à extinção da diferença do outro. Se houver
isso, estará sendo estabelecida a comunicação não simplesmente
como difusão de uma filosofia ou conversão dos outros a ela, e
sim como fundação de um novo tipo de sociabilidade na terra:
aquela pretendida por Jesus, ao definir como seus discípulos não
os que admitissem essa ou aquela ideia, esse ou aquele postulado
teórico, e sim aqueles que se amassem uns aos outros.
P: - O que
o Sr. Acha do aumento do uso de temas próximos ao Espiritismo em
novelas e filmes? Isso ajuda na divulgação?
R:
- Indubitavelmente. Mais do que isso, esse aumento contribui
para introduzir os conceitos e a linguagem espíritas no
imaginário popular brasileiro. Evidentemente, as formas de
apropriação desses conceitos obedecem critérios próprios,
ligados às condições de produção e reprodução da cultura, em
intenso sincretismo com referenciais e matrizes simbólicas já
existentes. Por tal razão, é possível se assegurar que o
resultado da divulgação do espiritismo em telenovelas e filmes
será sempre diferente daquele que nós, espíritas, pretenderíamos
que fosse. Isso porque, para garantir referenciais homogêneos no
campo da cultura seria preciso uma enorme violência simbólica e
talvez física, mantida por ditaduras e perseguições (temos
exemplos em tragédias históricas como a Inquisição e o nazismo),
mas, que, mesmo assim, não se sustentariam por muito tempo. Eis
porque nós, espíritas, devemos estar convencidos de que
converter o mundo para as nossas ideias, dentro da "pureza" que
pensamos que as distingue, constitui uma tarefa inglória, porque
para alcançá-la, teríamos que destruir a ética do Evangelho por
completo, e fracassada, porquanto nem mesmo os atos mais
violentos jamais conseguem perpetuá-la. Resta-nos, pois, o
imperativo maior de buscar não a hegemonia de uma doutrina, e
sim o estabelecimento pragmático de uma ética, a ética do amor e
da fraternidade, dentro da diversidade dos pensamentos e das
práticas.
P: - As
reportagens nas revistas de comunicação, tipo Veja e IstoÉ, que
trazem informações às vezes equivocadas sobre o Espiritismo não
são prejudiciais?
R:
- Ressalvados os casos de enganos, que os jornalistas, por mais
criteriosos, sempre cometem, o que chamamos de "equívocos" são
apenas as discordâncias de pontos de vista entre o olhar do
movimento espírita organizado, que possui uma interpretação
própria, estruturada, a respeito de si mesmo e da doutrina que o
inspira, e o olhar do jornalista, que nos identifica na prática
de sua profissão e colhe nossas ideias a partir de entrevistas e
observações colhidas às vezes do dia-a-dia de centros espíritas.
A prática jornalística é mestra em confrontar ideias instituídas
pelos líderes autorizados com aquelas comentadas e praticadas
pelo cooperador ou o frequentador comum das instituições. A
abordagem do movimento espírita não foge, evidentemente, a essa
regra. Além disso, há de se convir que o jornalismo também serve
a propósitos e interesses, e isso muitas vezes condiciona
interpretações particulares que nem sempre nos servem. Cabe ao
nosso movimento assimilar cada vez mais o espírito democrático e
exigir da imprensa a pluralidade de ideias e visões, capaz de
contemplar uma visão larga e não restritiva de nosso movimento.
Fazendo isso, estaremos contribuindo não apenas para uma visão
social mais justa do que somos e fazemos, como também estaremos
cooperando para uma sociedade na qual a imprensa seja um lugar
de promoção da democracia e da fraternidade.
P: - Como
fazer a comunicação do Espiritismo para as classes mais pobres
da população, que não tem acesso às informações mais elaboradas?
R:
- Eis aí uma
questão essencial e que vem sendo cada vez mais sentida em nosso
movimento. Tardiamente, nós, os espíritas, temos descoberto a
dificuldade que temos tido em dialogar com as camadas mais
humildes da sociedade, especialmente aquelas que não lêem ou não
têm, por razões diversas, acesso a livros ou condições de
entendimento de nosso linguajar. Essa dificuldade acaba
retratada na composição dos espíritas nos índices demográficos
brasileiros, sempre no alto da pirâmide social.
Esse tipo de
situação é particularmente interessante, sobretudo se levarmos
em conta que o nosso movimento se construiu ao longo do século
vinte sendo legitimado pela enorme e abrangente obra social que
sustentou. Como é possível - perguntamos hoje - um movimento
que, à época de Bezerra de Menezes, era a opção dos pobres do
Rio de Janeiro, conforme reconheciam as próprias autoridades
estatais daquele período, estabelecer-se de forma tão nítida nas
classes médias e médias altas da sociedade brasileira? A
resposta, sem dúvida dolorosa, parece ser a de que a nossa
caridade, provavelmente, ainda é excludente. É como se, no
próprio ato de praticá-la, reproduzíssemos e mantivéssemos a
situação de desigualdade e divisão de classes da nossa
sociedade. Se esta interpretação for verdadeira, temos um
problema enorme diante de nós, que ultrapassa em muito a questão
de adotarmos uma linguagem que atinja as camadas menos
esclarecidas. Esta é uma das razões mais fortes para, hoje,
preferirmos adotar um prisma centrado na comunicação, traduzida
como relação social em padrões de ética espírita, em lugar de um
orientado para a divulgação do espiritismo. O nosso problema não
é tanto o de divulgar o espiritismo, quanto é o de estabelecer
uma relação social em que a fraternidade e a justiça social se
estabeleçam na prática. Se não fizermos isso, temo que
acabaremos restringindo o espiritismo a uma mera religião
institucionalizada e conservadora, em concorrência com as
demais, à procura de adeptos no mercado religioso, momento em
que, certamente, o trabalho de Jesus, de transformação
espiritual do mundo, continuará em outro lugar... Mas, parece-me
evidente que temos, no meio espírita brasileiro, informação e
inteligência suficientes para investigarmos a fundo os nossos
próprios problemas e partirmos decididamente a resolvê-los,
alterando, o quanto for necessário, o rumo de nossas práticas.
E, confesso-lhes com sinceridade, é essa esperança o que me move
hoje.
|