O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
O Movimento Espírita

Entrevistado:
Divaldo Franco

Fonte:
Jornal Mundo Espírita
24/03/2006

ENTREVISTAS

       
   

Divaldo Pereira Franco - Emérito educador. Fundou em 1952, na cidade de Salvador-BA, com seu primo Nilson de Souza Pereira, a Mansão do Caminho, instituição que acolheu e educou mais de 600 filhos sob o regime de Lares Substitutos. Conferencista e médium espírita, já proferiu mais de 10 mil palestras no Brasil e no exterior e psicografou aproximadamente 200 livros espíritas que já venderam 5 milhões de exemplares, inclusive com tradução para 13 idiomas. Septuagenário quando fala sobre o espiritismo demonstra o entusiasmo dos jovens com sabedoria que só a experiência do bem viver pode proporcionar.

P: - Ao demonstrar as conseqüências que resultam de cada um dos nossos atos, dando a certeza da vida futura, o Espiritismo tem por finalidade a renovação íntima dos indivíduos. O que se observa no Movimento Espírita, algumas vezes, é que coexistem perspectivas diferentes sobre o caminho para se chegar a este objetivo. Essas diferenças são prejudiciais à Doutrina Espírita?
R: - Em realidade, essas diferenças fazem parte do contexto das necessidades humanas. Por um largo período ainda haverá discrepâncias metodológicas, diferenças de aplicações de recursos, tendo-se em vista os variados níveis de consciência que assinalam a sociedade terrestre e, em particular, o Movimento Espírita.

Somos um Movimento ainda em formação. Encontramo-nos na fase da fixação dos valores, quando aprenderemos a selecionar aqueles sentimentos éticos mais importantes para o nosso progresso moral e intelectual. É natural, portanto, que indivíduos intelectualizados, mas não necessariamente moralizados, ao adentrarem-se no conhecimento espírita, intentem aplicá-lo de acordo com a sua maneira de pensar e não de acordo com a proposta exarada pelo Codificador. Disto resultam as discrepâncias metodológicas que de nenhuma maneira afetam a Doutrina, em seu contexto já perfeita, mas gerando algumas dificuldades no Movimento que a qualidade das boas aplicações terminará por superar.

P: - Os Espíritos que se manifestaram na Codificação asseveraram a missão do Espiritismo como regenerador da humanidade, idéia que se observa também nas comunicações mediúnicas de inúmeros outros Espíritos. O Movimento Espírita ao redor do mundo caminha nesta direção?
R: - Sem dúvida. Neste momento de transição vivemos os primórdios da hora de renovação social que tomará conta do mundo, assim que passem as grandes tribulações e os testemunhos que irão purificar os espíritos que se olvidaram da lei de amor. Em toda parte, as entidades venerandas comunicam-se convidando à transformação moral do indivíduo, para que, a partir dela, haja a renovação social.

É muito fácil pensar-se num mundo melhor, mas para que isto ocorra é necessário que os espíritos que o habitamos sejamos melhores. Quando nos tornarmos menos agressivos, menos egoístas, menos atormentados pelas paixões inferiores, estas heranças inevitáveis do nosso processo antropossociopsicológico, já estaremos melhores e, conseqüentemente, constituiremos a sociedade melhor para um mundo mais feliz e mais tranqüilo.

Examinando os períodos por que passaria a Doutrina Espírita, o Codificador refere-se ao período de renovação social, que seria o último, indubitavelmente, este que agora estamos iniciando.

P: - Como avalia os meios utilizados para o ensino espírita, atualmente, nos Centros Espíritas?
R: - Uma conversa de Espiritismo é uma aula de Espiritismo. Em breve, sem dúvida, os núcleos espíritas, que já são escolas de espiritização, transformar-se-ão nos verdadeiros centros de ensinamento espírita.

Pessoalmente, acho muito difícil que venhamos a criar instituições educacionais culminando em Universidades eminentemente espiritistas. A experiência de outras religiões no passado demonstrou que este não é o melhor método de divulgar o pensamento filosófico de Jesus, porque inevitavelmente passamos a elaborar separatismos desnecessários. Acredito, pessoal-mente, que este ensino, conforme se vem dando, não atenderá a tradicional metodologia e a pedagogia ancestral, que foram trabalhadas com finalidades profanas. Na colocação do pensamento espírita, estes ensinos obedecerão a outros métodos, que facultarão o melhor entendimento do indivíduo sem que haja um tipo de currículo, um tipo de disciplina, um tipo de classes e, naturalmente, as diferenciações promocionais, a oferta de títulos universitários, teológicos ou de outra natureza, aos espiritistas que deverão primar pela sua transformação moral e numa abrangência intelecto-moral.

P: - No mundo espiritual, há um movimento organizado pelos espíritas desencarnados, semelhante ao que desenvolvemos na Terra? Dividem-se os espíritos entre as tarefas de acordo com a sua crença religiosa?
R: - Segundo tenho podido constatar, a Terra continua sendo a cópia da realidade do mundo espiritual. Os indivíduos reúnem-se não apenas pela convicção religiosa, mas também nacional, lingüística, da última existência ou das penúltimas, aí continuando em grupamentos em que se estuda o pensamento do Cristo, dentro das suas antigas teologias, avançando para uma visão cósmica na qual todos se amarão, entendendo profundamente a palavra do Senhor, sem os divisionismos que se fizeram necessários em decorrência do processo de evolução dos indivíduos na Terra.

Tenho feito viagens espirituais e encontrado estes grupos étnicos, religiosos, lingüísticos, como se estivessem na Terra, mas também tenho tido ocasião de visitar lugares onde estas barreiras e discriminações foram superadas e os indivíduos amam com devotamento a Jesus, sem qualquer resquício evocativo das características terrenas. Já são faixas espirituais mais elevadas.

P: - Observa-se algumas vezes entre os adeptos do Espiritismo uma postura tradicionalmente religiosa na maneira de entender e de se relacionar com a Doutrina Espírita. Este entendimento dá margem a problemas dentro do Movimento Espírita, como a ritualização de certas práticas, abuso de poder nas hierarquias, e outras dificuldades. Tendo em vista os entraves que a cultura religiosa ancestral criou no pensamento humano, é correto buscar compreender o Espiritismo em primeiro lugar como uma ciência e filosofia, muito mais próximo das outras Ciências do que das religiões tradicionais? Poderia o Movimento Espírita organizar-se segundo esta idéia?
R: - Vivemos um momento de ásperas transformações, e o Movimento Espírita vem tentando encontrar o melhor caminho em um povo como o nosso, com tradições místicas, herdadas dos nossos ancestrais. A visão religiosa da Doutrina colocou-se como prioritária, por atender mais de imediato os grandes sofrimentos morais, econômicos, sociais, emocionais, que vergastam a nossa sociedade.

Uma visão de um Espiritismo sob o ângulo científico é muito válida para aqueles indivíduos que têm uma formação acadêmica e que se possam dedicar a experiências que confirmem todos os fatos que desde Allan Kardec já foram constatados. O que me parece deveria prevalecer ao invés da ritualística que lentamente vai sendo introduzida e aceita por desconhecimento da Doutrina, é que se levasse em consideração a proposta filosófica de uma visão ampla, de uma observação cuidadosa dos fatos da vida e de como o Espiritismo os explica e os orienta, ensejando, deste modo, um comportamento ético-moral saudável, no qual a conseqüência religiosa é inevitável, mas não as fórmulas que caracterizam as religiões, apresentando-se como seitas que já estão totalmente superadas.

Esta preocupação é muito válida, porquanto periodicamente surgem indivíduos em torno dos quais formam-se grupos, indivíduos portadores de mediunidade, nobre ou não, mas mediunidade, que não poucas vezes tornam-se líderes esquisitos e esdrúxulos, com comportamentos alienados, procurando apresentar propostas de exaltação do seu ego e gerando à sua volta uma mística que infelizmente vem desaguando em determinadas posturas incompatíveis com o Espiritismo, como o casamento espírita, etc.

P: - Alguma consideração especial ao Movimento Espírita paranaense?
R: - Aprendemos com os espíritos nobres que fora da Codificação não há Espiritismo. Todas as obras de todos os investigadores que vieram durante e após Allan Kardec, fazendo abordagens em torno da Doutrina, são valiosas, como contribuição de colaboradores que apresentam uma ajuda subsidiária de amplitude e desenvolvimento daquilo que Allan Kardec, com muita propriedade, sintetizou nas obras básicas que servem de estrutura para a preservação da Doutrina.

As informações mediúnicas que vieram após, através de médiuns nobres e missionários, são ainda o desdobramento daquelas bases profundas, atualizando-as de acordo com a época em que chegam estas informações.

Estudar Allan Kardec para poder vivenciar o Evangelho de Jesus, conforme o viveram ele e seus primeiros discípulos, é o grande desafio para todos nós, espíritas, que desejamos ser fiéis à própria Doutrina, à nossa consciência e à consciência cósmica.

Assim pensando, esta tem sido a conduta do Movimento Espírita paranaense, que se tem mantido fiel à Codificação, conforme a herdamos do egrégio mestre de Lyon. Preservar, portanto, o trabalho de divulgação doutrinária corretamente, sem os infelizes desvios que se observam em alguns setores do nosso Movimento, é dever que nos impomos, aqueles que prometemos fidelidade ao Espiritismo.