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Divaldo
Pereira Franco - Emérito educador. Fundou em 1952, na cidade de
Salvador-BA, com seu primo Nilson de Souza Pereira, a Mansão do
Caminho, instituição que acolheu e educou mais de 600 filhos
sob o regime de Lares Substitutos. Conferencista e médium
espírita, já proferiu mais de 10 mil palestras no Brasil e no
exterior e psicografou aproximadamente 200 livros espíritas que
já venderam 5 milhões de exemplares, inclusive com tradução
para 13 idiomas. Septuagenário quando fala sobre o espiritismo
demonstra o entusiasmo dos jovens com sabedoria que só a
experiência do bem viver pode proporcionar.
P: - Ao demonstrar as conseqüências que resultam de cada um
dos nossos atos, dando a certeza da vida futura, o Espiritismo
tem por finalidade a renovação íntima dos indivíduos. O que se
observa no Movimento Espírita, algumas vezes, é que coexistem
perspectivas diferentes sobre o caminho para se chegar a este
objetivo. Essas diferenças são prejudiciais à Doutrina Espírita?
R: - Em realidade, essas diferenças fazem parte do contexto das
necessidades humanas. Por um largo período ainda haverá
discrepâncias metodológicas, diferenças de aplicações de
recursos, tendo-se em vista os variados níveis de consciência
que assinalam a sociedade terrestre e, em particular, o
Movimento Espírita.
Somos um Movimento ainda em formação. Encontramo-nos na fase
da fixação dos valores, quando aprenderemos a selecionar aqueles
sentimentos éticos mais importantes para o nosso progresso moral
e intelectual. É natural, portanto, que indivíduos
intelectualizados, mas não necessariamente moralizados, ao
adentrarem-se no conhecimento espírita, intentem aplicá-lo de
acordo com a sua maneira de pensar e não de acordo com a
proposta exarada pelo Codificador. Disto resultam as
discrepâncias metodológicas que de nenhuma maneira afetam a
Doutrina, em seu contexto já perfeita, mas gerando algumas
dificuldades no Movimento que a qualidade das boas aplicações
terminará por superar.
P: - Os Espíritos que se manifestaram na Codificação
asseveraram a missão do Espiritismo como regenerador da
humanidade, idéia que se observa também nas comunicações
mediúnicas de inúmeros outros Espíritos. O Movimento Espírita ao
redor do mundo caminha nesta direção?
R: - Sem dúvida. Neste momento de transição vivemos os primórdios
da hora de renovação social que tomará conta do mundo, assim que
passem as grandes tribulações e os testemunhos que irão
purificar os espíritos que se olvidaram da lei de amor. Em toda
parte, as entidades venerandas comunicam-se convidando à
transformação moral do indivíduo, para que, a partir dela, haja
a renovação social.
É muito fácil pensar-se num mundo melhor, mas para que isto
ocorra é necessário que os espíritos que o habitamos sejamos
melhores. Quando nos tornarmos menos agressivos, menos egoístas,
menos atormentados pelas paixões inferiores, estas heranças
inevitáveis do nosso processo antropossociopsicológico, já
estaremos melhores e, conseqüentemente, constituiremos a
sociedade melhor para um mundo mais feliz e mais tranqüilo.
Examinando os períodos por que passaria a Doutrina Espírita,
o Codificador refere-se ao período de renovação social, que
seria o último, indubitavelmente, este que agora estamos
iniciando.
P: - Como avalia os meios utilizados para o ensino espírita,
atualmente, nos Centros Espíritas?
R: - Uma conversa de Espiritismo é uma aula de Espiritismo. Em
breve, sem dúvida, os núcleos espíritas, que já são escolas de
espiritização, transformar-se-ão nos verdadeiros centros de
ensinamento espírita.
Pessoalmente, acho muito difícil que venhamos a criar
instituições educacionais culminando em Universidades
eminentemente espiritistas. A experiência de outras religiões no
passado demonstrou que este não é o melhor método de divulgar o
pensamento filosófico de Jesus, porque inevitavelmente passamos
a elaborar separatismos desnecessários. Acredito, pessoal-mente,
que este ensino, conforme se vem dando, não atenderá a
tradicional metodologia e a pedagogia ancestral, que foram
trabalhadas com finalidades profanas. Na colocação do pensamento
espírita, estes ensinos obedecerão a outros métodos, que
facultarão o melhor entendimento do indivíduo sem que haja um
tipo de currículo, um tipo de disciplina, um tipo de classes e,
naturalmente, as diferenciações promocionais, a oferta de
títulos universitários, teológicos ou de outra natureza, aos
espiritistas que deverão primar pela sua transformação moral e
numa abrangência intelecto-moral.
P: - No mundo espiritual, há um movimento organizado pelos
espíritas desencarnados, semelhante ao que desenvolvemos na
Terra? Dividem-se os espíritos entre as tarefas de acordo com a
sua crença religiosa?
R: - Segundo tenho podido constatar, a Terra continua sendo a
cópia da realidade do mundo espiritual. Os indivíduos reúnem-se
não apenas pela convicção religiosa, mas também nacional,
lingüística, da última existência ou das penúltimas, aí
continuando em grupamentos em que se estuda o pensamento do
Cristo, dentro das suas antigas teologias, avançando para uma
visão cósmica na qual todos se amarão, entendendo profundamente
a palavra do Senhor, sem os divisionismos que se fizeram
necessários em decorrência do processo de evolução dos
indivíduos na Terra.
Tenho feito viagens espirituais e encontrado estes grupos
étnicos, religiosos, lingüísticos, como se estivessem na Terra,
mas também tenho tido ocasião de visitar lugares onde estas
barreiras e discriminações foram superadas e os indivíduos amam
com devotamento a Jesus, sem qualquer resquício evocativo das
características terrenas. Já são faixas espirituais mais
elevadas.
P: - Observa-se algumas vezes entre os adeptos do Espiritismo
uma postura tradicionalmente religiosa na maneira de entender e
de se relacionar com a Doutrina Espírita. Este entendimento dá
margem a problemas dentro do Movimento Espírita, como a ritualização de certas práticas, abuso de poder nas hierarquias,
e outras dificuldades. Tendo em vista os entraves que a cultura
religiosa ancestral criou no pensamento humano, é correto buscar
compreender o Espiritismo em primeiro lugar como uma ciência e
filosofia, muito mais próximo das outras Ciências do que das
religiões tradicionais? Poderia o Movimento Espírita
organizar-se segundo esta idéia?
R: - Vivemos um momento de ásperas transformações, e o Movimento
Espírita vem tentando encontrar o melhor caminho em um povo como
o nosso, com tradições místicas, herdadas dos nossos ancestrais.
A visão religiosa da Doutrina colocou-se como prioritária, por
atender mais de imediato os grandes sofrimentos morais,
econômicos, sociais, emocionais, que vergastam a nossa
sociedade.
Uma visão de um Espiritismo sob o ângulo científico é muito
válida para aqueles indivíduos que têm uma formação acadêmica e
que se possam dedicar a experiências que confirmem todos os
fatos que desde Allan Kardec já foram constatados. O que me
parece deveria prevalecer ao invés da ritualística que
lentamente vai sendo introduzida e aceita por desconhecimento da
Doutrina, é que se levasse em consideração a proposta filosófica
de uma visão ampla, de uma observação cuidadosa dos fatos da
vida e de como o Espiritismo os explica e os orienta, ensejando,
deste modo, um comportamento ético-moral saudável, no qual a
conseqüência religiosa é inevitável, mas não as fórmulas que
caracterizam as religiões, apresentando-se como seitas que já
estão totalmente superadas.
Esta preocupação é muito válida, porquanto periodicamente
surgem indivíduos em torno dos quais formam-se grupos,
indivíduos portadores de mediunidade, nobre ou não, mas
mediunidade, que não poucas vezes tornam-se líderes esquisitos e
esdrúxulos, com comportamentos alienados, procurando apresentar
propostas de exaltação do seu ego e gerando à sua volta uma
mística que infelizmente vem desaguando em determinadas posturas
incompatíveis com o Espiritismo, como o casamento espírita, etc.
P: - Alguma consideração especial ao Movimento Espírita
paranaense?
R: - Aprendemos com os espíritos nobres que fora da Codificação
não há Espiritismo. Todas as obras de todos os investigadores
que vieram durante e após Allan Kardec, fazendo abordagens em
torno da Doutrina, são valiosas, como contribuição de
colaboradores que apresentam uma ajuda subsidiária de amplitude
e desenvolvimento daquilo que Allan Kardec, com muita
propriedade, sintetizou nas obras básicas que servem de
estrutura para a preservação da Doutrina.
As informações mediúnicas que vieram após, através de médiuns
nobres e missionários, são ainda o desdobramento daquelas bases
profundas, atualizando-as de acordo com a época em que chegam
estas informações.
Estudar Allan Kardec para poder vivenciar o Evangelho de
Jesus, conforme o viveram ele e seus primeiros discípulos, é o
grande desafio para todos nós, espíritas, que desejamos ser
fiéis à própria Doutrina, à nossa consciência e à consciência
cósmica.
Assim pensando, esta tem sido a conduta do Movimento Espírita
paranaense, que se tem mantido fiel à Codificação, conforme a
herdamos do egrégio mestre de Lyon. Preservar, portanto, o
trabalho de divulgação doutrinária corretamente, sem os
infelizes desvios que se observam em alguns setores do nosso
Movimento, é dever que nos impomos, aqueles que prometemos
fidelidade ao Espiritismo.
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