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Rita Foelker
nasceu em Jundiaí/SP, no ano de 1965. É escritora e ilustradora
de livros infantis, tendo também trabalhos no âmbito da
literatura para adultos, seja como capista e ilustradora, seja
escrevendo ou psicografando obras mediúnicas. Graphic designer e
web designer. Tem concentrado seu trabalho em obras de cunho
educacional e dirigidas ao público infantil. É diretora de
Edições Gil. Trabalhos em Educação FORMARE - Programa de
Formação e Reciclagem do Educador da Infância e Juventude na
Casa Espírita.* Encontros Mensais de Atualização e Reciclagem
para Educadores da Infância e Juventude* Oficinas Artes Criação
Literária Origami Pedagógico Espaço do Educador - Página do
jornal "Alavanca", órgão de divulgação da USE - Regional de
Campinas/SP.
P: - A
Pedagogia infantil tem sido apresentada à luz do Espiritismo ou
não há necessidade de rotulá-la assim?
R:
- Desde que existe um pensamento espírita a respeito da
Educação, o qual estabelece princípios para a prática pedagógica
diferenciada, nós podemos dizer que existe, sim, uma Pedagogia
Espírita. Eu não sou professora nem pedagoga, estudo a Educação
como autodidata, para me aprimorar como escritora de livros
infantis e para colaborar com o trabalho que casas espíritas
desenvolvem, dirigido às crianças e aos jovens. Mas esta é minha
opinião.
P: -
Mudaria o conceito pedagógico se falássemos de reencarnação e
lei de causa e efeito para criança?
R:
- As idéias pedagógicas teriam muito a ganhar se incorporassem a
idéia de evolução espiritual, reencarnação e "causa e efeito",
não só para ensinar tais conceitos às crianças, mas para mudar a
maneira de entender o educando. É diferente educar para uma vida
e educar para a eternidade. É diferente estar diante de uma
criança que não era ninguém, antes de nascer, e diante da que
traz hábitos e traços de seu passado reencarnatório, idéias
inatas, conhecimentos e vivências.
Você poderia ter
citado, também, a mediunidade; a criança como espírito
encarnado, é naturalmente médium, sujeita a influências sobre
seu humor e seu comportamento. Se os educadores aprendessem a
lidar com essa realidade, muita coisa seria diferente, não só na
sala de aula , como nas reuniões de pais e no encaminhamento de
situações que, atualmente, dão trabalho e deixam os professores
sem saber o que fazer. Algum dia será assim, mas quem começa a
levar a realidade espiritual em conta tem visão de futuro e esta
alguns passos à frente.
Outra conseqüência
de se pensar a tarefa educacional, junto com os princípios
espíritas, seria o educador colocar-se mais aberto e receptivo
às inspirações e intuições dos Educadores do mundo espiritual.
Elas de fato existem e surgem sempre que necessário, se
permitirmos que aconteça: de uma fala que vem no momento certo
para dar um rumo produtivo ao estudo até uma idéia que vira ao
ponto de partida para todo um trabalho.
Contudo, é mais
fácil falar de Espiritismo que agir com o que nele aprendemos,
então você tem educadores espíritas que agem como qualquer
professor não-espírita. A Educação segundo o Espiritismo precisa
colocar em ação todos os ensinamentos espíritas. Mas a verdade é
que podemos ser espíritas por longos anos sem que o verdadeiro
pensamento espírita se incorpore às nossas atitudes a ao nosso
jeito de ver a vida.
Por que isto
acontece? Posso falar sobre isto? Porque, em muitas casas
espíritas, se faz um tipo de estudo que está a quilômetros de
distancia da realidade. "Aqui se estuda Kardec," dizem. Porém,
nós nos enriquecemos e entendemos melhor Kardec, quando
estudamos suas obras de maneira interdisciplinar e
contextualizada. Quando você estuda a doutrina, distante da vida
real, é muito difícil fazer as conexões que permitem aplicar o
conhecimento espírita na vida prática.
P: - Se
falasse para as crianças que seus pais poderiam ser seus filhos
em outras encarnações mudaria a educação dentro do lar?
R:
- Não creio. O que os pais mais fazem é falar, buscar todo tipo
de argumento para conseguir comportamentos apropriados por parte
dos filhos. O que mudaria a Educação, dentro do lar, seria
vivenciarmos tudo que aprendemos com o Cristo e a Doutrina
Espírita. Ou seja, como pais, somos pessoas transformadas pelos
princípios espíritas que abraçamos? Ou estudamos, sabemos tudo
no nível do intelecto, mas continuamos basicamente os mesmos de
antes? Nada transforma mais a realidade que a nossa
transformação.
P: - Dentro
do projeto "Filosofia Espírita para Crianças" poderão ser
introduzidas outras modalidades pedagógicas?
R:
- O projeto "Filosofia Espírita para Crianças" é um trabalho
recente, não completou sequer seu primeiro ano de idade,
portanto, ainda estamos descobrindo seus desdobramentos. Por que
"filosofia para crianças"? Kardec nos diz que a força do
espiritismo está em sua filosofia, "no apelo que faz à razão e
ao bom senso".
O que observamos é
que muitas das crianças que passaram a infância participando da
"evangelização" (do modo como é praticada nos centros),
freqüentemente, chegam à adolescência e à juventude bastante
despreparadas para pensar o Espiritismo, para responder a
argumentos contrários e para se posicionarem como espíritas. Não
me refiro a qualquer tipo de fanatismo, que se opõe ao
pensamento espírita. Mas quero dizer que, em geral, nossos
adolescentes e jovens não percebem a força dos raciocínios
espíritas, que também nos preparam para desafios da existência.
E precisamos mudar isto.
No item 8 da
introdução do estudo da Doutrina Espírita, que abre O Livro dos
Espíritos, Kardec nos orienta, dizendo que não se forma o gosto
pelo estudo sério da noite para o dia. Que uma Doutrina que nos
lança, de repente em cheio, numa ordem de coisas tão novas só
pode ser realizado com proveito por homens sérios,
perseverantes, isentos de prevenções e que tenham o forte
propósito de atingir um resultado.
Desenvolver os
instrumentos do pensar, do analisar, do comparar, refletir e
concluir é algo que pode ser feito desde muito cedo, se o
educador estiver preparado. Os objetivos e propostas do Projeto
estão disponíveis na Internet, em www.edicoesgil.com.br.
P: - Seu
trabalho de divulgação espírita através da Internet tem trazido
resultados satisfatórios?
R:
- Tenho colaborado com alguns sites e sou pessoalmente
responsável por dois: o do "Jornal do CEM",
www.jornalcem.hpg.com.br e o das Edições Gil,
www.edicoesgil.com.br, que dirijo e onde mantenho a Página da
Criança e o Espaço do Educador, homônimo da coluna no querido
"Alavanca" e com proposta muito semelhante. Hoje assumo que meu
"ofício" principal é escrever, minha principal atividade
espírita é divulgar o Espiritismo através da palavra. Como a
maior parte da informação presente na Internet é escrita , é um
ótimo lugar para um escritor estar.
Também colaboro
com o site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz, escrevendo
textos que versam sobre o tema da Família e da Educação. Muitos
dos textos lá publicados integram nosso livro "Pais e Filhos,
Companheiros de Jornada", que foi lançado em Campinas, na Feira
do Livro, em outubro de 2002.
Hoje em dia, há
inúmeros grupos de estudo e discussões sobre temas espíritas na
Internet com um conteúdo muito bom. Não tenho dúvida de que este
é um excelente caminho, especialmente pelo fato de atingir
lugares, e até outros países, onde o Espiritismo ainda é quase
desconhecido.
Acredito que os
educadores espíritas precisam se acostumar com isto, porque a
geração que está vindo aí domina esta linguagem e, se nós
soubermos usá-la, termos um grande auxiliar do nosso trabalho,
tanto para troca de idéias e textos como para pesquisa.
P: - Por
que você fala em "educador espírita", em vez de "evangelizador"?
R:
- Porque o que nos propomos a fazer, de fato, é educar. Nós nos
acostumamos a chamar de "evangelização", só isto. Evangelizar é
ensinar o Evangelho. Educar é mais, é preparar para a vida
imortal, desenvolver potenciais, olhando a criança como um ser
integral: físico, mental, emocional, moral, espiritual, social.
Há uma linha, dentro do Movimento Espírita, que defende a idéia
da Evangelização. Mas nossos grandes exemplos, como Pestalozzi,
Kardec, Euripedes, Anália Franco, e outros não eram
"evangelizadores". Eram educadores e neles é que devemos nos
espelhar. Vinícius que coordena a equipe espiritual do Formare
(Programa de Formação e Reciclagem do Educador da Infância e da
Juventude Espírita) e de nossas oficinas e seminários, era um
educador, muito embora tantos trabalhos de evangelização tenham
surgido sob sua inspiração.
P: - Os
seminários e oficinas para educadores tem tido boa repercussão;
você pretende dar continuidade?
R:
- Fizemos uma
oficina de literatura em Campinas que considerei muito boa, pelo
interesse dos participantes, pela acolhida da USE-Campinas e do
Centro Espírita Casa do caminho. Os dirigentes estão percebendo,
cada vez mais, a necessidade e o cuidado de oferecer aos
educadores recursos para aprimorar o trabalho. Considero este um
dos melhores resultado, porque observamos que os grandes
problemas da Educação Infanto-Juvenil na casa espírita são fruto
do despreparo da equipe e da falta de conscientização dos
dirigentes com respeito à natureza especial do trabalho dirigido
à criança e ao jovem, que implica em necessidades específicas e
que precisam ser atendidas.
P: - Estão
tentando aprovar a educação religiosa nas escolas; educação
religiosa, de qual religião?
R:
- Não vejo o ensino religioso como tarefa da escola leiga.
Ética, sim. Orientação religiosa é tarefa dos pais
.Pessoalmente, acredito que a noção de Deus e da espiritualidade
poderiam estar presentes no ensino formal, como "temas
transversais", sem que se toque em questões especificas de cada
religião. Agora, uma escola espírita pode ensinar Espiritismo,
assim como uma escola católica pode ensinar Catolicismo, uma vez
que os pais que matriculam os filhos nestas escolas estão
cientes e concordam com a orientação que irão receber.
P: - O
Movimento Espírita brasileiro, por ser o maior do mundo, já tem
condição de orientar a sociedade sobre as tendências violentas?
R:
- Não. Somos seres humanos falíveis e já faremos muito se
orientarmos a nós mesmos. Primeiro, precisamos olhar para nós e
resolver nossas questões internas, antes de sair orientando a
sociedade. Agora, as obras de Kardec, e de alguns espíritas e
Espíritos admiráveis podem ajudar a sociedade a se orientar, com
certeza.
P: -
Acredita na idéia ecumênica como medida pedagógica, a curto
prazo?
R:
- Acredito que a consciência de Deus Criador, Inteligência
Suprema, como fonte superior de amor, bondade e justiça, não é e
nem precisa ser exclusiva dos espíritas. Hoje em dia, é cada vez
mais comum a pessoas dizerem que acreditam em Deus, sem se
considerarem pertencentes a qualquer religião. E este é um
pensamento que precisa unir as pessoas, não separá-las e
rotulá-las. Creio que o respeito aos vários pensamentos
religiosos e filosóficos precisa ser ensinado às crianças, assim
como o fato de sermos irmãos, independente daquilo em que
acreditamos. Conheço espíritas que se recusam a participar de
cultos religiosos, nem que seja para acompanhar ou dar apoio a
um amigo, usando como justificativa condição de serem espíritas.
Esquecem-se de que disse Jesus, que estaria onde dois ou mais se
reunissem em seu nome. Jesus não disse "onde dois ou mais
espíritas se reunirem em meu nome". Na verdade onde os corações
o buscam com sinceridade, sempre ele está.
P: - Como
escritora espírita, você acha que estão banalizando a literatura
em nome mediunidade?
R:
- Há um cuidado indispensável a se tomar, quando se publicam
livros e textos em nome do Espiritismo. Este cuidado nem sempre
é tomado.
Há uma série de
condições favoráveis à edição de material obtido através da
mediunidade. Primeira: hoje em dia, é muito mais fácil produzir
um livro do que antigamente, graças à evolução dos programas de
computador e dos processos de impressão. Segunda: junta-se a
isto o fato de que, com o grande número de centros e médiuns,
muita coisa é escrita, em reuniões e fora delas, e muitos
médiuns e grupos desejam publicar essas comunicações, até como
modo de conseguir dinheiro para seu trabalho social /
doutrinário. Terceira: as editoras descobriram que muita gente
gosta de ler livros espíritas- especialmente, romances- e
decidiram investir aí.
Mas Kardec já os
alertava sobre isto, num livro pouco conhecido Viagem Espírita
em 1862, se me permite, vou citá-lo. Kardec diz:
Isso me leva a
dizer algumas palavras sobre as comunicações mediúnicas.
A sua publicação
tanto pode ser útil, se feita com discernimento, quanto
perniciosa, em caso contrário. No número dessas comunicações
algumas há que, por muito boas que sejam, não interessam senão
àqueles que as recebem e que pareceriam aos olhos dos leitores
estrangeiros, simples banalidades. Outras apenas têm interesse
nas circunstâncias em que foram transmitidas. (...) Ao lado
disso, algumas há que são evidentemente nocivas, tanto por sua
forma quanto por seu conteúdo e que, sob nomes respeitáveis,
logicamente apócrifos, revelam um contexto absurdo ou trivial, o
que, naturalmente, se presta ao ridículo e oferece armas à
crítica.(...)
No interesse da
doutrina convém, pois, fazer uma escolha muito severa em
semelhantes casos e pôr de lado, com cuidado, tudo quanto pode,
por uma causa qualquer, produzir uma impressão ruim.
P: - Suas
considerações finais. Fale tudo que achar bom para o Movimento
Espírita no campo pedagógico e fale também do seu trabalho
social e a casa em que participa como colaboradora.
R:
- Fico feliz em poder colaborar mensalmente com o Espaço do
Educador, que este jornal publica desde Outubro de 2000, e
agradeço a confiança em nosso trabalho, o qual vem sendo
publicado com muito carinho. Eu gostaria de agradecer o convite
para esta entrevista. Entrevistas nos dão a chance de expor
nossas idéias num clima mais informal, oferecem uma visão melhor
do ser humano que somos. As pessoas costumam ter muitas
expectativas diante de um expositor ou médium espírita, contudo,
também somos humanos, temos opiniões pessoais, erramos e
acertamos.
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