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O baiano José
Medrado é um dos mais conhecidos e carismáticos expositores
espíritas da atualidade. Médium, escritor, apresentador de
programas de TV, Medrado possui uma maneira contagiante de
transmitir a mensagem espírita, sempre com muita alegria e
entusiasmo.
P: – Como o
senhor descobriu a Doutrina Espírita?
R:
– Eu descobri a Doutrina Espírita aos 15 anos. Na época eu era
aluno do colégio da Polícia Militar lá em Salvador e já sentia,
digamos assim, a ação da mediunidade e não entendia. Um
professor meu de português, certa vez falava com um outro colega
meu sobre sintomas da mediunidade e aí eu fui vendo que tudo o
que ele dizia era o que eu tinha, então, ali mesmo, ele disse
que iria me levar a um centro e eu fui, e já comecei a trabalhar
mediunicamente aos 15 anos e com 17 anos eu, esse professor e um
grupo de amigos fundamos o centro que eu estou dirigindo até
hoje.
P: – Quais
os desafios e oportunidades que a mediunidade trouxe par ao
senhor?
R:
– Eu vejo a mediunidade com bastante naturalidade. Não acho que
o médium seja melhor do que ninguém ou que tenha uma missão por
desenvolver. Eu acho que é uma tarefa que pode se diferenciar
das demais, mesmo com aquela concepção kardequiana de que todos
somos médiuns, mas há aqueles que se diferenciam pela
peculiaridade da tarefa que tem a desenvolver e, naturalmente,
tem me dado muitas alegrias o trato com a mediunidade e a
convivência com os espíritos, inclusive aqueles menos
esclarecidos, porque nós temos a oportunidade de fazer florescer
a esperança naqueles corações que ainda não conseguiram
vislumbrar a luz.
P: – Qual a
reação de sua família quando o senhor abraçou o Espiritismo?
R:
- Minha família é muito católica. Meu pai era carregador de
andor, era da irmandade da Conceição da Praia que é a irmandade
católica mais antiga do Brasil, então eu sofri um revés muito
grande no primeiro momento. Já minha mãe não, minha mãe sempre
me apoiou. Mas com o passar do tempo meu nome foi se tornando
conhecido e hoje meu pai, meus irmão vão ao centro. Hoje falam
de mim com muito orgulho. Meu pai me criou muitas dificuldades,
mas hoje quando alguém pergunta ele diz: “não, eu sempre apoiei,
sempre apoiei porque sabia que este era o caminho dele.”
(risos).
P: – O
senhor tem uma agenda muito cheia. Como o senhor lida com a
grande disponibilidade de tempo que tem que dedicar aos outros?
Isto não pesa, não causa transtornos?
R:
– Olha, é verdade, causa. Eu não gosto daquelas opiniões
santificadoras, superiores. Eu sou um espírito muito comum. Eu
tenho as mesmas qualidades e defeitos que 99% da população do
mundo possui. Por exemplo, eu não gosto de viajar. Gosto de
estar nos lugares, mas o trajeto em si me cansa.
Eu moro numa casa,
eu gosto de cuidar do meu jardim. Eu tenho 4 cachorros, então
para mim, ficar afastado deste meu ambiente domestico é um pouco
custoso sim, mas eu gosto. Gosto de estar entre amigos, gosto de
fazer novos amigos, então eu você se acostuma com o processo e
você sente que tem alguma coisa para oferecer. Eu,
particularmente, que tenho este trabalho diferenciado dentro do
movimento porque trabalho muito a alegria, trabalho muito estar
de bem, naquele sentido das pessoas se soltarem. Uso muito a
música, então eu termino me integrando aquilo que eu peço que as
pessoas façam eu faço também, então me dá um bem-estar muito
grande e isto termina compensando este aparente transtorno das
viagens.
P: – O
senhor veio a Fortaleza para ministrar um seminário sobre
felicidade. Por que as pessoas têm tanta dificuldade para sentir
felicidade?
R:
– É como eu tenho dito aqui: “ É porque as pessoas têm conceitos
equivocados, ou melhor, elas não dão atenção ao seus próprios
conceitos de felicidade e elegem modelos e referências que,
muitas vezes, são referências falsas de felicidade.” As pessoas
elegem alguém e esse alguém pode passar marca de felicidade mas,
ali por dentro, pode estar uma alma em conflito, uma alma em
desespero. Então, as pessoas precisam entender que a felicidade
está circunstanciada às suas necessidades. Toda vez que nós
satisfazemos uma necessidade nesta luta humana por se buscar
felicidade, estamos criando oportunidade de alegria,
oportunidade de bem-estar. A felicidade vai ser sempre isto:
momentos. E nós sabemos, pela Doutrina Espírita, que não existe
a felicidade plena, mas nos podemos usufruir e aproveitar
bastante desta felicidade relativa que nos encanta. Eu falei há
pouco de estar em casa, cuidando de plantas. Eu adoro mexer em
jardins. Eu adoro ficar rolando na grama de minha casa com meus
cachorros, eu tenho 4 cachorros. Quer dizer, são momentos de
felicidade. Quando estou com meu público também, quando estou
fazendo o meu público sorrir, cantar, são momentos de
felicidade. Mas eu sei que ao lado disso vou ter que enfrentar
resistências de militantes mais ortodoxos, conservadores, que
não compreendem esta minha forma de pregação e é isso que eu
procuro anular, neutralizar dentro de mim, porque senão me
deixaria infeliz. A felicidade é em síntese: saber o que você
está necessitando. Ir em busca desta satisfação Lícita (ênfase)
e, ao mesmo tempo, neutralizar aquilo que por ventura possa
trazer no seu bojo alguma forma de infelicidade ao seu coração.
P: – Como é
que este sentimento de felicidade contribui com a saúde e com a
transformação do homem para melhor?
R:
– Ah, Mas muito! Você sabe, foi realizada uma pesquisa em Nova
Iorque, pelo Dr. John Thompsom, onde se comprovou que 10 minutos
de sorriso diários levam as pessoas a ter um sistema imunológico
mais forte. Foi feita também uma pesquisa na universidade da
Virginia, com o sistema límbico profundo, onde se colocaram 10
mulheres para mentalizarem uma coisa alegre, uma passagem alegre
de suas vidas, uma triste e uma neutra e se verificou que o
sistema límbico profundo esfriava quando da passagem alegre
gerando mais endorfina no cérebro que é o hormônio do prazer,
como a dopamina também e a serotonina. Quando elas vibravam com
a coisa triste, aqueciam esse sistema límbico, que é uma espécie
de noz que temos no centro do cérebro, e queimava o que tinha
ali armazenado de endorfina, dopamina e serotonina. E quando o
pensamento era neutro não mexia nada, quer dizer; comprovou-se
efetivamente que a movimentação da alegria pelo corpo gera um
bem-estar e uma saúde mais apurada, sem sombra de dúvidas.
P: – Como
deve ser a relação entre a razão e a emoção?
R:
– Deve ser uma relação de equilíbrio. Normalmente as pessoas
infelizes, elas se incomodam com a felicidade das outras.
Normalmente as pessoas tristes, elas se sentem agredidas com a
alegria das outras. Isso é um fato, você vai ver isso no
dia-a-dia da sua casa.então nós precisamos é exatamente aprender
a pautar as nossas emoções com razão e a nossa razão com doses
de emoção, porque só assim nós conseguiremos realmente viver uma
vida, aproveitando os seus momentos de satisfação, de prazer,
tirando lições daqueles momentos de dor e aflição e seguindo
intimoratamente na direção das nossas propostas evoutivas. Eu
acho que é o equilíbrio o grande desafio, que é muito
complicado, mas nada que não seja perfeitamente plausível.
P: – O que
a Doutrina Espírita trouxe para sua vida?
R:
– A Doutrina Espírita trouxe entendimento, trouxe alegria,
trouxe felicidade. Tudo dentro do processo relativo. Nem sempre
estar no movimento espírita é prazeroso, nem sempre estar no
movimento espírita implica em felicidade em razão exatamente das
almas em conflito que a gente tem que encontrar ao longo da
nossa caminhada. Mas eu acho que tudo isso faz parte desse
processo desafiador de nós sempre sermos mais e mais felizes,
porque sabemos que o movimento é feito pelos homens e a Doutrina
não, ela está ali, perfeita, pura. Então quando eu uso o
sorriso, quando eu uso a música, eu não vejo em nenhuma das
obras de Allan Kardec nenhuma citação negativa a esses
princípios, então a gente consegue compreender que as pessoas
que não entendem ou buscam outros caminhos estão vivendo também
os seus processos de entendimento pessoal. A Doutrina trouxe
isso. Trouxe-me como boa nova, trouxe-me em especial a esperança
de estar sempre, a cada dia, melhor.
P: – Quais
são seus projetos para o futuro?
R:
– Eu sou de uma índole muito irrequieta, eu sempre estou
querendo inovar, eu sempre estou querendo empreender. A Cidade
da Luz,a instituição que engloba alguns departamentos, nós temos
4 prédios na Cidade da Luz mais um prédio fora e nós sempre
estamos criando. Eu estou pensando agora em ver um centro de
cultura, colocar um centro de cultura que resgate a tradição do
nosso povo, do povo lá da Bahia. Então sempre estou vislumbrando
o movimentar, o gerar realmente dinamismo para que as pessoas se
sintam motivadas. Eu acho que nós estamos necessitando
permanentemente de motivação, porque o marasmo termina criando
poeira, dá bolor, ma mofo. Eu acho que a gente tem que estar
sempre se movimentando para continuar vivendo bem.
P: – O que
foi que transformou uma idéia, um sonho, nesta realidade
concreta que é a Cidade da Luz?Foi o otimismo?
R:
- Muito pelo contrário, interessante esta pergunta, muito pelo
contrário. Foi a miséria que eu passei na minha infância. Eu
tive uma infância onde passei fome, tive muitas dificuldades.
Minha mãe era pernambucana, órfã. Casou em Belo Horizonte e foi
para a Bahia. Meu pai se afastou um pouco da família, constituiu
outra família fora. Passamos muitas dificuldades sem médico, os
médicos que tínhamos era do antigo INPS que hoje é o SUS, então
eu sofri muito por conta disso, minha mãe também. Morávamos numa
região de prostituição lá na Ladeira da Preguiça em Salvador,
perto da Conceição da Praia. Isso tudo foi gerando em mim uma
vontade de ajudar mais as pessoas para que elas não passassem
pelo que passei, crianças não sentissem a fome que senti. Isso
que foi, em verdade, o meu mote para ajudar a construção da
Cidade da Luz e no ano de 2004 a Cidade da Luz realizou mais de
150.000 atendimentos sociais. Isto para mim foi uma conquista
muito grande e com muita alegria.
P: -
Pediríamos que o senhor deixasse sua mensagem final aos nossos
leitores.
R:
– Eu penso o
seguinte: Eu acho que está na hora, ou talvez já tenha passado
da hora de nós nos concentrarmos nos nossos objetivos de
felicidade nesta vida. Sei que a vida é difícil, a vida é
dolorosa, há momentos em que choramos, mas precisamos nos
concentrar nos momento em que sorrimos, nos momentos de alegria
para fazermos com que o fardo se torne um pouco mais leve. Além
do mais, confiar que “Se o Senhor é meu pastor nada me faltará”,
nunca (ênfase). É essa confiança que anima a alma a ter mais
força para vencer os desafios.
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