O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Adolescência

Entrevistado:
Alcione Albuquerque de Andrade

Fonte:
CVDEE

ENTREVISTAS

       

Alcione Albuquerque de Andrade - Escritora e palestrante espírita.


P: - A gravidez na adolescência é, na minha opinião, uma crise que se sobrepõe à crise da adolescência. Gostaria que a senhora comentasse porque as adolescentes, tendo conhecimento dos métodos contraceptivos tem a despreocupação com a gravidez ou tem o desejo, nem sempre consciente, de engravidar. Seria isto uma auto-afirmação ou uma maneira de se rebelar contra a autoridade paterna ou ainda a busca de um sentido ou uma razão para viver? Como a casa espírita deve abordar a gravidez na adolescência?
R: - Vamos por partes: Sem dúvida a gravidez na adolescência faz um acréscimo na crise de transição e checagem de valores, através da qual o indivíduo, primeiro púbere e depois adolescente, poderá ou não dar entrada satisfatória na vida adulta. Isto por que ele não está "pronto", seja do ponto de vista físico , cultural e social. Se exatamente neste momento se instala um fato chamado gravidez que estabelece maternidade ou paternidade, este adolescente se verá "forçado" a ser adulto. Ora, todos sabemos que a evolução é um processo , o que também é verdade do ponto de vista da maturidade psicológica. O que se vê então são jovens sobrecarregados, ou seja, com uma carga maior do que podem suportar. Por outro lado, a opção pelo aborto também vai gerar uma sobrecarga, certamente de maiores consequências. Este o desafio com que nos defrontamos.

Muitas vezes o adolescente está informado pela escola ou pela mídia em geral sobre os métodos anticonceptivos. Mas desde quando informação é sinônimo de educação? A transformação ou seja, mudança de comportamento, que está implícita no processo educação passa pela capacidade de conceituação (significando estabelecer um conceito, uma opinião própria sobre o que me é dito, ao contrário do preconceito). Se não conceituarmos, não compreenderemos e também não faremos uso disto em nossas vidas. Serão palavras ao vento. O Evangelho aliás se ocupa do assunto na parábola do Semeador...

Entretanto, cada caso é um caso, tendo razão quem nos dirige a pergunta. Pode ser rebeldia, descaso da família, baixa estima, obsessão, tudo isto e muito mais. Cabe analisar de perto. A casa espírita já tem objetivos claros de cooperação para quem se aproxima de seu ambiente : formar caracteres de educação integral, envolvendo não só a alma - espírito encarnado - mas promovendo o bem viver de cada qual através de um programa eminentemente pedagógico e espiritual, como nos recomenda o Codificador. Entretanto não cabe a casa espírita julgamento ou exclusão quando o confrade não logra êxito em sua caminhada. Cabe o acolhimento, sem pieguismos de aprovação nem de desaprovação e o apoio para que a própria pessoa encontre seu caminho. Sendo possível, dependendo do perfil da casa, será válido um programa assistencial que vise apoiar a família, de feição preventiva. Surgindo a gravidez na adolescência, vamos lidar com a promoção dos envolvidos. A prova então terá alcançado seu objetivo de engrandecimento espiritual. Para finalizar lembramos que tanto o início da vida sexual quanto a gravidez e eventual aborto ou abandono do bebê em vida, são de responsabilidade de ambos os sexos envolvidos e não só da garota. Vamos mudar a crença de que só a mulher é responsável sexual.

E mais, já existem programas de Valorização da Vida que são levados por voluntários espíritas, psicólogos, as casas espíritas. Para saber mais entre em contato com o Departamento de Psicologia da Ass. Médico Espírita de MG - fone fax: 0XX 31. 3332.5293 e teremos o maior prazer em apresentar-lhe o nosso programa.

P: - Como trabalhar a sexualidade na adolescência sem causar danos a saúde psicológica do adolescente?
R: - O trabalho será o mais natural possível, isto é, de acordo com a natureza do adolescente, sem precipitação nem repressão. Ora, o que é tão simples inicialmente como conduta, torna-se complexo em razão das dificuldades do adulto "orientador". Todos somos medianamente conscientes de nossa dificuldade na área sexual não só em razão de nossa educação como também de nossas reincidentes dificuldades na área, verdadeira bagagem de problemas que vimos carregando encarnação pós encarnação.

A maioria dos companheiros deve conhecer a piadinha que passo a contar, como ilustração . " Paulinho chega da pré-escola todo entusiasmado e pergunta logo ao pai: - Pai , de onde eu vim? O pai ansiosíssimo busca um número enorme de livros e mapas do corpo humano pré-escolhidos para o grande dia e começa a contar a história do espermatozóide e do óvulo, ressaltando sempre que tudo aconteceu "porque o papai ama muito a mamãe". Decorridos minutos eternos de muito suor, o pai ouve a exclamação de Paulinho:
- Nossa , que complicado! O meu colega veio de São Paulo!"

A blague ilustra bem nossa ansiedade e despreparo para o tema. Adequação + bom senso + admissão de que não estamos tão bem no assunto + informação + naturalidade + uma prece (porque não?) fazem uma boa sequência para que a conversa atinja seu objetivo. Afinal, a vida sexual faz parte de nossas vidas.

P: - Como lidar com o adolescente rebelde, pois na adolescência já não dá para manter a mesma relação que se mantinha com a criança?
R: - Você conhece aquele jogo Pedra - papel - tesoura? Então está me entendendo. Se não, busque conhecer. Quando o papel encontra a tesoura tudo dá certo, mas se é a pedra que a encontra, complica o jogo.

Busco esta analogia para ilustrar a idéia de que a flexibilidade é o melhor remédio para lidar com o adolescente rebelde. Mas não se assuste; flexibilizar aqui significa obter o que você quer do adolescente sem que ele perceba e não concordar com ele. Significa não "bater de frente", mostrar autoridade. Como? Recorramos ao Evangelho - Livro da Vida : que o seu sim seja sim , seu não seja não. O sim funciona como açúcar. Em altas doses cria problemas, mela; o não é o sal, tempera. Muito sal , amarga. Lidar com limites é sinal de proteção, tempero para o amor que você quer dar ao tal adolescente.

Entretanto é uma atitude que já deveria estar sendo cultivada desde cedo entre vocês. Outra atitude de valor é lidar com as discordâncias. Você pode discordar de mim, ainda assim continuaremos amigos se a amizade é o que nos interessa. O adolescente pode discordar de mim e eu dele, qual é o problema se não houver real prejuízo a não ser o da discordância? Não é sinal de desrespeito e sim de diferença. E diferença não é defeito.Veja com naturalidade o choque intergeracional. Nós fizemos algo parecido com nossos pais e avós. A cada geração estabelece-se a crítica aos valores vigentes. Os que se mostraram válidos para o grupamento humano sobrevivem; os inválidos, como numa guerra, deixam de existir. Chama-se Lei de Progresso. E mais, adolescente não é mais criança - é adolescente. É bom atualizar suas expectativas.

P: - Tenho um sobrinho neto, que também é meu afilhado, que é hiperativo. Ele tem  oito anos e é preciso ter muita paciência para lidar com ele. Por ser assim é excluído por alguns colegas, e por conseqüência sofre muito. Ele freqüenta sessões com a psicóloga, e toma remédio com prescrição médica. A nossa preocupação é como será a adolescência dele, se mesmo muito amado e muito querido no seio da família ele é assim. Como devemos lidar com ele espiritualmente para ajudá-lo a melhorar e ter uma adolescência mais feliz?
R: - Resposta: A sua questão é sobre a hiperatividade, não? Pelo exposto sinto que vocês já tomaram as providências devidas e vale a pena perseverar nelas a longo prazo. Os exercícios físicos, em especial a natação, assim como caminhadas, se ele ainda não os está fazendo poderão ajudá-lo. Vale a pena ir introduzindo pequenas tarefas de responsabilidade para ele em casa - forrar a própria cama, colocar o lixo para fora, aguar plantas, tudo isto bem rotinizado para que o condicionamento possa acontecer. Outra possibilidade é começar a levá-lo para acompanhar o parente adulto nas tarefas da casa espírita , como a campanha do quilo. O amor nunca será sinônimo de mimos. Amar é educar. E para educar teremos que fazer uso de duas ferramentas: o sim e o não. Espiritualmente ele já deve estar frequentando a Evangelização, creio. Os passes dispersivos, semanais, também devem ser buscados, além do culto do Evangelho no lar realizado com a presença dele e dos familiares. Uma música suave colocada no ambiente a hora de dormir, beneficiará a família toda para um descanso tranqüilo. Quanto ao futuro vamos aguardá-lo com confiança.

P: - Como devemos lidar com a hiper-energia do jovem?
R: - A chamada hiper energia é sinônimo de vitalidade, saúde e resultante responsabilidade pois consoante a lição evangélica , muito será pedido a quem muito foi dado, e não será justificado enterrar os talentos recebidos.
Entretanto, peço licença para sugerir trabalho para o jovem que esbanja  energia. Entendemos por trabalho a responsabilidade por qualquer tarefa que, sendo-lhe entregue, será cumprida. Pode ser dentro de casa auxiliando nas tarefas domésticas, porque não? O perfil familiar hoje está atualizado para que ambos os cônjuges façam de tudo , imagine como será quando ele formar o próprio lar? Pode ser um trabalho remunerado de meio dia para que não ocorra prejuízo em sua vida escolar, pode ser ainda o trabalho voluntário oferecido a comunidade em geral e em particular, a comunidade espírita. É bom também fazer exercícios físicos, caminhadas, ciclismo, natação, vôlei, futebol, a sua escolha e possibilidade. Agora, vamos convir: o jovem que passa o dia assentado na TV ou no PC vai viver ou cochilando ou "aprontando"... Vamos conduzi-lo dando - lhe a entender que a nossa preocupação é a sua qualidade de vida.

P: - É recomendado forçar um jovem de 16 anos a freqüentar a Escola de Evangelização?
R: - Ir as aulas de Evangelização segue a mesma linha de ir a escola, ir ao médico , ao dentista. É necessário e deve ser feito. Mas devo insistir no conceito de educação ligado ao de processo. Processo é, simplificadamente, tudo aquilo que começa de um jeito, depende do tempo, e termina de outra forma. É portanto, dinâmico e seqüente. Por isso, a espiritualidade amiga nos tem dito que estamos em "processo de evolução". Juntamos a estas idéias a de que a natureza não dá saltos...Portanto, sinto informar, aos 16 anos o jovem será convencido por argumentos válidos para ele. E só. Confiemos entretanto na sua inteligência e auto estima. Ele há de querer o melhor para si, se é saudável. Caso contrário, talvez valha a pena buscar a orientação de um profissional pois a baixa estima é doença que se apresenta em graus variados.

Mas é bom também ouvir este jovem. Pode ser que ele tenha afinidade com outra religião. Neste caso, vamos respeitar sua decisão.

P: - Sou professor; a maioria de meus alunos são adolescentes. Queria saber por que eles adoram chamar tanto a atenção (através de risos, conversas altas durante as aulas)? E também como se explica essa apaixonite aguda dos alunos pelos professores?
R: - O universo afetivo do adolescente é complexo e sofre influências do contexto geral - mundial, familiar, local. Junte-se a isto a eclosão hormonal e você terá um pouco das explicações que busca. Além do que ele é um espírito com sua bagagem pessoal . Você se lembra da sua adolescência? Lembra-se então daqueles dias em que havia uma quase certeza de que se abrisse os braços, voaria? Pois esta onipotência é particular do adolescente, uma espécie de transe hormonal , como citam alguns autores. Há uma paixão pela vida, pelo amor. É muito linda esta fase .Mas como nada é perfeito, torna-se também perigosa quando sem referências saudáveis, sem limites, sem as balizas do sim e do não. O impulso sexual toma então as características da promiscuidade para justificar o comportamento do jovem, antes saudável, agora problemático. Nós, seus pais e professores, ficamos tímidos diante de tanta energia vital e nos recolhemos, indevidamente, deixando o jovem entregue a estas forças novas que segundo André Luiz podem ser comparadas a erupção de um vulcão e nelas o indivíduo pode se queimar indefinidamente. Os adultos muitas vezes chamam de respeito a sua própria impotência e medo . No Evangelho segundo o Espiritismo há uma página que se chama - A ingratidão dos filhos e os laços de família - pag. 249. FEB - que é um tratado de conduta. E permita-me sugerir também o capítulo - O Universo Afetivo da Adolescência, de minha autoria, que se encontra publicado no livro Saúde e Espiritismo da AME-Brasil . Tomara lhe seja útil Por último, quanto as apaixonites, se voce for objeto delas, continue adulto que apaixonite passa...

P: - Como estimular os jovens a leitura, visto que tenho constatado que muito poucos se interessam, principalmente quando resolvemos fazer um programa de estudos sobre algum livro?
R: - Qualquer hábito se define pela repetição de um determinado comportamento, seja útil ou nocivo. Junte-se a isto as tendências do indivíduo e seu interesse e teremos um panorama explicativo das condutas do jovem, e dos demais indivíduos. Digo isto pois o jovem não é uma raça em separado. Somos nós mesmos, ontem, ou nossos filhos daqui a pouco. Aproveito para lembrar que também a adolescência não é a fase mais importante ou problemática da vida . É somente mais uma fase entre tantas pois a vida tem valor em si mesma.

Junte-se a nossa inabilidade ao contexto social e a eclosão hormonal com o start para a vida sexual e entenderemos o que nos faz debruçar sobre esta fase na tentativa de compreendê-la. E porque muitas vezes não tenhamos ficado satisfeitos com a nossa própria experiência como adolescentes, é que estamos potencialmente interessados em cooperar com jovem ao nosso lado. Dito isto passemos a questão do hábito de estudo e leitura. A Comunicação atual é especialmente áudio visual. É uma realidade que precisamos admitir. Desde que a TV entrou em nossa casa naturalmente lemos menos, salvo exceções. Com os computadores aliados a imagem televisiva qualquer propaganda vira um show, um hiper realismo e portanto capaz de prender a atenção de todos. A leitura deve então preencher a algo mais, não disponível apenas visualmente. O conteúdo da mensagem será a grande atração do livro, o mergulho no nosso imaginário e não apenas usufruir do imaginário do outro (filmes, TV, programas de computadores). Mas trata-se de um valor. Ler ou não ler, eis a questão. A
família tem o hábito da leitura? Os pais estão sempre lendo? Desde a infância compram livros específicos para as crianças? Presenteiam aos amigos com livros? Freqüentam feiras de livros? Possuem biblioteca em casa, mesmo que pequena? Como vê, na ausência destes estímulos, não haverá hábito de leitura. E os estudos sobre livros? Segue a mesma linha de argumentação mas com uma agravante: há estudos que são mesmo muito chatos.

P: - Por que na adolescência, a maioria dos jovens se afastam da casa Espírita? Os meus filhos participaram de todos os ciclos do DIJ, e hoje (adultos) não participam das atividades da Instituição que freqüento há 20 anos. Será que houve falha minha, será que eu deveria tê-los obrigado quando eles tinham entre 15/18 anos?
R: - Genericamente, o jovem se afasta porque está descobrindo outros interesses relativos ao seu momento de vida e talvez se sintam ou limitados pelos valores doutrinários ou até mesmo podem achar que o que já receberam é suficiente para si. De toda forma não é obrigando-os a estarem de 'corpopresente' que vamos obter êxito. Este hábito deveria estar formado junto com outros mais cedo e se tal não ocorreu vamos aguardar o tempo, que age a favor de todos nós. A boa semente já está plantada no solo de seus corações e a seu tempo germinará. Quanto as falhas paternas ou maternas que lhe preocupam, são naturais. Pertencem a nossa condição de aprendizes da vida e de nós mesmos.

Admitido isto podemos lançar algumas hipóteses: quem sabe houve uma overdose de freqüência a casa espírita na vida das crianças? Ou quem sabe se, observando o seu exemplo, eles não o aprovem? E se são espíritos com outras escolhas? Pode ser tudo isto ou nada disto. De toda maneira, fiquemos tranquilos. Continue agindo de acordo com a sua consciência, onde se encontra a lei de Deus, segundo a questão 621 d´O Livro dos Espíritos.

P: - Qual a relação entre o período de adolescência e o processo reencarnatório ?
R: - Não sei se consegui alcançar a sua pergunta .... O processo reencarnatório refere-se ao todo de nossa vida e não especificamente a um momento desta encarnação. Evidentemente reencarnado aos 7 anos de idade, o espírito assume sua bagagem transcendente, isto é , relativa as suas vidas sucessivas, Desta forma, gradativamente, a individualidade espiritual vai deixando suas pegadas na personalidade presente. A criança antes dócil, pode ir demonstrando mais 'opinião', a quietinha não pára mais em casa, e  assim por diante. Como na adolescência há uma crise de autonomia mais marcante devida inclusive a eclosão hormonal, pode ser que estas características, as mais das vezes difíceis, venham a tona .As lições pelas quais o espírito deve passar já como aluno repetente, visando crescimento e aprendizado surgem e nem sempre, nós, adolescentes ou não, somos bem sucedidos. Confiemos pois todas as circunstâncias estão a favor da criatura, conforme nos lembra Emmanuel.

P: - O jovem tem espaço como trabalhador da casa espírita? Se afirmativo, o que o jovem deve fazer para conquistar este espaço?
R: - A casa espírita com mais razão reconhece em seus frequentadores, espíritos "embalados" em corpos de várias idades. Desta maneira , o quanto antes o trabalhador mirim começa a sua formação. Os mais novinhos vão ajudar a professora de Evangelização arrumando a sala, carregando o material, montando o material... Um pouco mais tarde, acompanhando os pais, já estarão na campanha do quilo, carregando a sacola menor, depois já podem participar da visita fraterna quando o perfil da problemática do visitado o permita. Neste processo será natural que o jovem seja capaz de responder por uma campanha interna, e vá crescendo em responsabilidades e aptidão para coordenar um estudo ou uma reunião de jovens., chamada de Mocidade. Segundo o Codificador Allan Kardec é preciso que nos amemos e nos instruamos. O candidato a tarefa terá como piso a boa vontade mas entenderá que esta característica nobre em si mesma, é piso para a instrução doutrinária. Formada esta base, através de manuais de 'Como fazer' largamente distribuídos pelas federativas ou mesmo pela própria casa frequentada, facultará ao jovem o desempenho útil a si e aos demais. Feito assim, oferecer-se sem ansiedade. Aguardar. Quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece.

P: - Que posturas a casa espírita deve adotar na questão do sexo pré nupcial?
R: - Postura de respeito ao livre arbítrio de cada consciência. Nunca julgar; informar e aguardar a determinação do foro íntimo dos envolvidos. Fugir entretanto ao pieguismo de tudo aceitar sob o pretexto da compreensão cristã. A casa espírita, entre outras características, é também escola e portanto não foge a disciplina em seus domínios. Ao adentrá-la devemos respeitar suas determinações. Namoros esfogueados como muitas vezes temos presenciados as portas do templo espírita, são indicativos de que há algo a ser reorientado. Quantas vezes no exercício da tarefa de expositora, observamos na platéia casais que pretextando assistir ao estudo, ali se encontram com o interesse claro de apenas namorar como se o auditório espírita se assemelhasse a uma sala de cinema.... A disciplina antecede a espontaneidade, recomenda-nos o benfeitor Emmanuel. Nada temos contra o carinho natural aos casais que se namoram, nem mesmo a atividade sexual, natural e desejável em nossas vidas. O que nos recomenda a conduta é o bom senso, a adequação a nós e a quem nos assiste. E a responsabilidade pelos próprios atos e suas consequência.

P: - Gostaríamos se possível de saber, o que ocorre com o adolescente, que nesta fase da vida apresenta um grau elevado de irritabilidade?
R: - As crises de autonomia registradas pela Psicologia do Desenvolvimento
são quatro: aos 4 anos; aos 12; aos 14; aos 21 anos. Sua finalidade é, através da agressividade (lembre-se para a Psicologia agressividade é um impulso saudável, uma garra de viver e não violência como o leigo imagina e se tornou popular) transformar o ser em indivíduo, pessoa singular para si mesma, portadora de direitos constituídos pela sua conduta. Isto se faz , na prática, com um tanto de raiva. A raiva é uma das emoções naturais, isto é, faz parte de nosso repertório humano. As demais são alegria, tristeza, medo. São nossas professoras, melhor , orientadoras, pois se não a negarmos aprenderemos com elas sobre nós mesmos.

Assim é que a raiva, gera autonomia, a alegria gera otimismo e convivência externa; o medo gera a prudência - que é diferente da coragem vaidosa e a tristeza vai gerar introspecção e capacidade para ouvir as nossas próprias respostas.

Mas atenção! As emoções são dirigidas ao nosso próprio aprendizado e não para o outro a nossa volta. A raiva que sinto pelo que você me fez serve para que eu aprenda sobre mim mesma; para que eu aprenda a me defender de você, se for o caso, e NÃO para lhe agredir, lhe desrespeitar, brigar, xingar, bater... Esta é a indispensável referência de conduta. Já a irritabilidade é, por assim dizer, um sub produto da raiva. Algo inconsistente, uma falta de educação, uma fraqueza de argumentos convincentes. Parece-me que combina bem com o ser que adolesce e procura por sua própria definição. Pode ser também reativa, devido a muita exigência e repressão. Vamos ajudá-lo .

P: - Sabemos que na adolescência o espírito se mostra como o é! E na infância temos de o dever de reparar as mas pendências dos filhos amados! Assim pergunto até onde devemos usar da autoridade de pai e mãe, sem tolher os filhos para que não sejam inseguros e revoltados no futuro?
R: - Resposta: O ideal comum que está presente em todos os seres é o da liberdade.

Na doutrina Espírita está expresso no conceito do livre arbítrio, a nós outorgado após o pensamento contínuo e a noção de responsabilidade, inicialmente grupal e a na sequência, individual , conforme podemos ler em Evolução em Dois Mundos. O dever dos quais os pais são portadores em relação a educação dos filhos, termina onde começa a exigência. A educação , assim como o alimento comum , não deve se posta "goela abaixo" daqueles a quem amamos. Nos casos de inapetência é preciso buscar suas causas, sanando-as; nos casos de rebeldia também. Ademais o próprio Criador tem para conosco um infinito e paciente Amor. A reencarnação, dando-nos tempo para aprender, é prova disto. Porque nós, que também somos estudantes da evolução teríamos conduta diferente com nossos filhos? Já a autoridade precisa ser exercida. A palavra deriva de autor, isto é, aquele que fez, o que assinou, o que é responsável pelo feito. Está em relação direta com a nossa capacidade de fazer, tanto é que autores existem aos montes, bons e maus. A autoridade boa está em razão direta com a humildade; com a capacidade de entendermos que o melhor possível a nós não é o melhor que existe. As falhas são decorrentes
naturais da nossa condição humana. Entendendo isto, vamos relaxar um pouco.

Vamos fazer dentro de nossas possibilidades. Deus fará o resto por nós, e por nossos filhos.

Cabe aos pais o bom exemplo, a referência do sim e do não, o interesse amoroso pela conduta do filho, a contribuição para a sua qualidade de vida, a apresentação da religião e a vivência de valores consoantes a esta escolha.

Vale também a reprimenda, castigo que é limite por determinada atitude indesejável do filho, a suspensão de certos privilégios, tudo em favor da pedagogia, isto é da educação. Cuidar para que o personalismo , o autoritarismo não se mesclem em sua conduta. Se ainda assim o filho se revoltar no futuro, é porque a revolta é o seu desafio evolutivo mas não porque nós, pais, a cultivamos em seu coração. Para finalizar lhe digo que educar é mesmo muito difícil. Não desanime. Você não está sozinho com suas dúvidas.


Mensagem da Entrevistada

Envio esta mensagem na esperança que possa ser anexada às minhas respostas sobre adolescência, como meu agradecimento pela oportunidade de participar.

 

CAUSA E EFEITO

Quantas vezes bloqueamos a
espontaneidade das crianças,
esquecendo-nos
do quanto isso nos doeu na
nossa infância...

Quantas vezes exigimos mais
maturidade dos adolescentes
sem lembrarmos o
que passamos quando nos
exigiram isso...

Quantas vezes nos queixamos
dos colegas de trabalho e não
nos perguntamos se eles também
têm queixas sobre nós...

Quantas vezes nos irritamos
nas ruas sem percebermos que
nossa irritação
também causa mal aos outros...

Quantas vezes queremos
implantar paz na família
expressando-nos aos
berros...

Quantas vezes esperamos dos
nossos parceiros o que não
estamos dispostos
a dar-lhes...

Quantas vezes esperamos dos
nossos filhos o que não demos
aos nossos
pais...

Quantas vezes esperamos dos
nossos pais o que não damos
aos nossos
filhos...

Quantas vezes perdemos a
paciência com idosos
esquecendo que a velhice
chega para todos...

Quantas vezes repelimos
animais e nos comportamos
como seres
irracionais...

Quantas vezes pedimos aos
amigos coisas que não
gostaríamos que eles nos
pedissem...

A maior parte da vida deixamos
a Vida passar sem senti-la no
coração...

Creia que você, somente você
pode mudar tudo isto!

"Existe vida inteligente na
Terra?
Sim, mas estou só de
passagem..."