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Carlos
Orlando Villarraga é um dos poucos espíritas que se
preocupam com a questão ecológica, o bem-estar ambiental.
Colombiano, radicado no Brasil, Villarraga reside em São José
dos Campos (SP) e exerce a profissão de químico. De família
espírita, escreveu o livro "La Conservación del Médio Ambiente
Físico y Síquico", que o PENSE planeja lançar em edição
eletrônica — obra rara no meio espírita onde o autor demonstra
toda sua erudição, conhecimento técnico e doutrinário, que os
leitores podem conferir nesta entrevista exclusiva. Ele destaca
a contribuição do Espiritismo para ajudar a resolver as questões
ambientais, em um mundo onde a consciência ecológica ainda é
desmerecida. Para Villarraga, “a visão espiritual da vida nos
convida a melhorar as condições sociais e ambientais do nosso
planeta Terra”. Ele é bem crítico em relação aos alimentos
transgênicos e defende uma efetiva participação das entidades
espíritas federativas na discussão da questão ambiental. Leia a
seguir a íntegra da entrevista.
P: - Como
tomou contato com o Espiritismo?
R:
- Meu pai era espírita e logo depois que a minha mãe se tornou
espírita, eles fundaram a escolinha espírita para crianças
“Senderos de la Esperanza”, em Bogotá, na Colômbia. Desde então,
começamos a estudar a Doutrina Espírita. Estudávamos os livros
editados pela CEPA chamados “El Espiritismo al alcance de los
niños”. Valioso material que colocava os fundamentos da Doutrina
Espírita em termos simples, de uma maneira didática para que
nós, crianças, pudéssemos entendê-los.
P: - Poucos
são os espíritas que se preocupam em correlacionar a filosofia
espírita com a ecologia. A que você atribui isso?
R:
- Penso que estes dois temas juntos pouco ou quase nada são
estudados ou debatidos nos centros espíritas. No livro terceiro
de O Livro dos Espíritos, se apresentam muitos dos princípios da
ecologia. Nós nos preocupamos muito com o além, quando
necessitamos resolver muitos problemas que acontecem aqui, no
nosso planeta Terra, tendo como base o conhecimento espiritual.
A filosofia espírita nos ensina as leis que regem as relações
dos encarnados com os desencarnados, com os outros encarnados e
com a Natureza. Também temos que estudar com mais detalhe a obra
de Kardec. A primeira vez que morei no Brasil foi em 1991,
quando se preparava a Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro. Daí comecei a me
perguntar como a Doutrina Espírita poderia contribuir num evento
dessa magnitude. Poucos trabalhos tinham sido elaborados nessa
área. Então, decidi estudar e pesquisar a obra de Kardec com o
objetivo de entender como a Doutrina Espírita podia explicar e
propor soluções sobre os problemas sociais, ambientais,
econômicos e espirituais que estavam se desenvolvendo em nossa
sociedade. O resultado dessa pesquisa foi o livro que escrevi
sobre a conservação do meio ambiente físico e espiritual sob a
visão espírita (“La Conservacion Del Médio Ambiente Físico y
Siquico” – Editorial Rivail, Colômbia). Também para tentar
mostrar a correlação que existe entre a Doutrina Espírita e a
Ecologia, estou no processo de fundar o Instituto de Ecologia e
Doutrina Espírita. A missão deste Instituto será a de integrar
os fundamentos da Doutrina Espírita e da Ecologia para
sensibilizar as pessoas com o objetivo de melhorar as condições
do meio ambiente físico e espiritual do planeta Terra.
P: - Qual a
expectativa de vida de nosso planeta? Os profetas do apocalipse
estão certos quando afirmam que o fim está próximo?
R:
- Depende do que
nós fizermos durante os próximos 50 anos. De acordo com o
relatório “O Estado do Mundo 2003”, do WorldWatch Institute, nós
temos uma ou talvez duas gerações para mudar o rumo que levamos
de degradação ambiental e exclusão social. Se continuarmos nessa
direção atual, a miséria generalizada e o empobrecimento
biológico tomarão conta do planeta, podendo levar ao colapso da
sociedade e de nós como espécie. Temos, entre muitos outros,
dois problemas MUITO sérios, cuja solução será crucial para o
equilíbrio do nosso planeta: o aquecimento do planeta e a perda
da biodiversidade. Na teia da vida do planeta Terra, nós, seres
humanos, somos só uma espécie entre quase 1.5 milhão das
classificadas pelos cientistas. Somos só uma entre as 10-100
milhões das estimadas que podem existir na Terra. Nosso sustento
físico (alimento) depende da existência de outras espécies
animais e vegetais. Destruindo o habitat, poluindo os diferentes
ecossistemas e reduzindo a biodiversidade, a teia da vida vai
ficando muito vulnerável. O que faz um ecossistema resistente é
a diversidade de espécies que o conformam.
P: - Como
podem ser dimensionados o efeito-estufa e a escassez de água no
futuro?
R:
- Podemos dimensionar o efeito-estufa no futuro pelos fatos que
já estão acontecendo em todo o globo, como conseqüência do
aquecimento do planeta. Nos últimos 30 anos a temperatura
aumentou 0.44 graus centígrados. Esse aumento de temperatura
leva a eventos climáticos mais extremos como o derretimento das
calotas polares, o aumento do nível do mar e o aumento do número
e severidade dos furacões. Em 1960, a espessura do gelo no Mar
Ártico era de 2 metros aproximadamente. No ano de 2001,
escassamente chegou a um metro!! O nível do mar aumentou 10-20
cm durante o século 20. Se continuarmos despejando gás carbônico
e metano nos níveis atuais, os cientistas estimam que a
temperatura do planeta pode aumentar de 1,4-5,8 graus
centígrados durante o século 21. Isso significa que o nível do
mar pode aumentar durante este século até quase um metro, o que
provocaria o deslocamento de milhões de pessoas do litoral para
áreas internas do território nacional.
Com relação à
água, existe um índice chamado de disponibilidade social de água
que compreende todos os recursos de água doce (superficial e
subterrânea) disponíveis relativo ao número de habitantes (m³/hab/ano).
As Nações Unidas definiram que países com índices menores que
1000 m³/hab/ano estão com “estresse de água”. 35% da população
do planeta já é atingida pelo estresse da água e a previsão é
que para o ano 2025, 66% da população mundial esteja nessa
situação, se continuar o aumento da população, o desperdício, a
poluição da água e o desmatamento.
P: -
Costuma associar-se a expansão da economia ao bem-estar dos
povos. Está correta essa associação?
R:
- Não está correta
porque só considera um aspecto do bem-estar do ser humano: o
aspecto econômico. O índice mais utilizado na economia para
medir o sucesso da economia é o PIB (Produto Interno Bruto).
Este índice mede todo o fluxo de dinheiro que se movimenta na
economia do país. Porém, não faz diferença sobre o tipo de
atividade que movimenta esse dinheiro. Por exemplo, a construção
de cadeias, a compra de armas pelo governo, o tratamento médico
de pessoas com câncer como conseqüência de fumar, o seguro pago
pelos danos causados por desastres naturais, os gastos efetuados
para tratar um vazamento de petróleo etc. Tudo isso aumenta o
PIB. Recentemente surgiram outros índices que refletem melhor o
bem-estar dos seres humanos. Foram desenvolvidos entre outros o
IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o GPI (Índice de
Progresso Genuíno). O IDH é uma medida composta da expectativa
de vida, o nível de educação e a renda per capita dos habitantes
de um país. O GPI consiste em uma medida de 22 componentes
econômicos, sociais e do meio ambiente.
Nos Estados Unidos
o PIB aumentou quase 100% durante os últimos 50 anos, porém o
GPI caiu 45 % durante os últimos 20 anos.
P: - A
contribuição que o Espiritismo pode oferecer à questão do meio
ambiente se dá em nível ético ou filosófico?
R:
- A contribuição
da Doutrina Espírita se dá tanto em nível ético como em nível
filosófico. Em nível filosófico, a Doutrina Espírita nos ensina
as leis que regem o nosso relacionamento com os encarnados, com
os desencarnados e com a Natureza. A Doutrina Espírita
explicando a lei de causa e efeito e a lei de reencarnação nos
leva a conhecer a magnitude da responsabilidade de nossos atos e
pensamentos. Em nível ético nos lembra o nosso compromisso com o
bem-estar do próximo e com a ação para tornar realidade a ajuda
material e espiritual. Também essa conduta ética deve se
refletir em novas leis e instituições. A visão espiritual da
vida nos convida a melhorar as condições sociais e ambientais do
nosso planeta Terra.
P: - Você
acredita que um dia o mundo dos Espíritos será incorporado ao
conceito ecológico de ecossistema?
R:
- Não tenho dúvida que isso vai acontecer. Assim como já se está
começando a considerar a economia como um subsistema da
Natureza, no futuro a Natureza será considerada um subsistema do
mundo dos Espíritos.
P: - Que
correlação faria entre a consciência ecológica e a consciência
espírita?
R:
- Penso que só falta o elemento espiritual para que a
consciência ecológica seja igual à consciência espírita.
P: - Como
os centros espíritas podem contribuir para elevar o nível da
consciência ecológica da sociedade?
R:
- Temos que começar por nós mesmos nos centros espíritas. Temos
que entender que estamos encarnados neste planeta e que o nosso
principal trabalho está aqui neste mundo. Que encarnamos para
contribuir a melhorar as condições físicas e espirituais da
Terra. Se como disse Kardec em A Gênese, “a fraternidade deve
ser a pedra angular da nova ordem social”, então devemos nos
educar, educar os nossos filhos e educar os demais integrantes
da sociedade nos princípios fundamentais que sustentam e
incentivam a fraternidade com objetivo de promover as bases de
uma nova ordem social. Esses princípios universais são a
existência de Deus, a pré-existência e a sobrevivência da alma,
o progresso contínuo, a lei de causa e efeito e a lei da
reencarnação.
Considero que nos
centros espíritas devemos estudar e debater mais em detalhe os
problemas sociais, econômicos e ambientais sob a ótica espírita.
Devemos participar com outras ONGs nas campanhas que visam
melhorar ou resolver algum problema específico da comunidade
onde atua o centro espírita.
P: - Como
analisa a questão dos alimentos transgênicos?
R:
- A maioria dos trabalhos, na área dos transgênicos, foi
motivada pelo lucro das empresas e não pela necessidade das
pessoas. Por exemplo, foi desenvolvida uma soja transgênica que
resiste especificamente ao herbicida produzido pela mesma
empresa. Este tipo de tecnologia aumenta a dependência dos
agricultores em relação a produtos patenteados. Os transgênicos
também contribuem na redução da diversidade de espécies para a
produção de alimentos o que faz que a nossa segurança alimentar
fique mais vulnerável. Os transgênicos são um experimento em
grande escala com os seres humanos, pois não sabemos as
conseqüências a longo prazo que o consumo de organismos
modificados geneticamente possam ter sobre a nossa fisiologia e
metabolismo.
P: -
Possuímos um dos ecossistemas mais ricos do planeta e, no
entanto, a fome e a miséria ainda são flagelos a serem
removidos. Qual sua visão a respeito?
R:
- A fome e a miséria convivem com a opulência, a abundância e o
desperdício como conseqüência de: 1) o egoísmo, a ambição e o
orgulho de uma pequena parcela da população; 2) o comodismo, a
omissão e a neutralidade de outra parte da população que prefere
não intervir na discussão e solução dos problemas sociais e 3) a
timidez e a ignorância da grande maioria da população para
exigir uma melhor distribuição da riqueza, do bem-estar físico e
do conhecimento do nosso planeta. A timidez ou a omissão diante
da injustiça social a fortalece e a faz crescer.
P: - Como
interpreta o Programa Fome Zero? Esse projeto poderia se
desdobrar em outros como Sede Zero, Desmatamento Zero, Poluição
Zero etc.?
R:
- Acredito que o programa Fome Zero tem um valor muito
importante para a sociedade porque colocou na agenda política
nacional e internacional o grave problema da fome. Esse programa
foi criado para combater a fome e as suas causas estruturais que
geram a exclusão social. O sucesso do programa Fome Zero vai
depender da implementação de soluções para eliminar as causas
que geram as desigualdades e não que seja simplesmente um
programa assistencial que crie dependência dos beneficiários.
Esse programa podia se desdobrar em outros programas como os que
você menciona e também poderíamos acrescentar os programas de
Violência Zero, Analfabetismo Zero, Desemprego Zero etc.
P: - Que
diferenças você vê entre o Espiritismo praticado na Colômbia e
no Brasil?
R:
- A diferença que vejo é no número de adeptos, o número de
publicações espíritas e o tamanho das obras assistenciais,
devido às diferenças do tamanho das populações dos dois países e
também ao maior número de anos que vem sendo divulgada e
praticada a Doutrina Espírita no Brasil.
Porém, o que mais
vejo são as semelhanças que existem entre o Espiritismo
praticado em ambos países, como o estudo da Doutrina Espírita, a
assistência social, a estruturação do movimento em nível
nacional, o esforço pela publicação de obras espíritas e a
existência de diferentes correntes de interpretação dos
princípios da Doutrina Espírita.
P: - De que
maneira instituições como a Confederação Espírita Pan-Americana,
a Federação Espírita Brasileira ou o Conselho Espírita
Internacional podem contribuir para o progresso ambiental? Seria
possível chegar a um consenso no momento em que houver a
necessidade dos espíritas se manifestarem socialmente?
R:
- Essas instituições podem contribuir para o progresso ambiental
da seguinte maneira:
- Promovendo eventos que discutam os temas ambientais sob a
ótica espírita.
- Manifestando, através da mídia, a posição da Doutrina Espírita
com relação aos problemas sociais, econômicos, éticos,
espirituais e ambientais.
- Utilizando para as publicações impressas, como livros,
revistas, mensagens avulsos etc. papel reciclado e tintas que
reduzem o impacto ambiental.
- Publicando obras que analisem estes temas sob a ótica
espírita.
- Estimulando o estudo detalhado da obra de Kardec.
- Educando o coração para a solidariedade e a fraternidade.
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