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"Licenciado em
Física pela Universidade Federal Fluminense, Doutor em Educação
pela UNESP - Universidade Estadual Paulista - e Professor na
citada Universidade Federal Fluminense, nosso entrevistado
Raul Teixeira é sobejamente conhecido do movimento
espírita nacional e internacional. Já esteve em 37 países em
atividades de divulgação da Doutrina Espírita; tem 23 livros
publicados, ditados por diversos espíritos, sendo 3 deles já
traduzidos para o espanhol e é um dos mais requisitados oradores
espíritas no Brasil e exterior, pois seu verbo fácil e lúcido é
garantia de impecável transmissão dos postulados doutrinários do
Espiritismo. Lidera igualmente um trabalho assistencial a
crianças socialmente carentes e seus familiares, através da
Sociedade Espírita Fraternidade - conhecida como SEF (em
Niterói-RJ) -, que mantém o Remanso Fraterno, departamento que
desenvolve aquela atividade, e a Editora Frater que edita seus
livros.
P: - Como
você analisa o movimento espírita mundial?
R:
- O nosso movimento espírita, em termos mundiais, vem crescendo
consideravelmente. As células espíritas vão agindo aqui e ali,
graças ao empenho individual de alguns poucos afervorados, ou
pela dedicação de pequenos grupos de dispostas criaturas. Há
muitos países onde há poucas células espíritas, mas é dessa
sementeira pequena que se constituirá a grande e pujante
floresta do amanhã. É importante lembrar os esforços do mundo
espiritual para convocar as pessoas de boa vontade e de
conhecimento espírita para esse empreendimento, para essa
divulgação.
P: - O
cristianismo e outras religiões foram, ao longo dos séculos,
desfigurados na sua essência verdadeira. Poderá ocorrer o mesmo
também com o espiritismo?
R:
- Com o espiritismo isto não ocorrerá. O que se deu com o
movimento cristão foi uma falta de estruturação nas palavras de
Jesus. Suas palavras foram trabalhadas pelos teólogos, pelos
padres, pelas religiões institucionalizadas e o verdadeiro
ensino ficou soterrado sob essa avalanche de interpretações. E
cada uma dessas religiões funcionava de acordo com as
idiossincrasias dos reformadores, dos sacerdócios e dos clérigos
protestantes de todos os matizes que, em grande parte das vezes,
se afastaram do veraz ensinamento de Jesus Nazareno.
A grande diferença
da Doutrina Espírita é que o movimento espírita não se pautou em
nenhuma teologia, mas na codificação espírita. Então, quando
alguém foge desta codificação, é fácil de ser identificado. Mas,
se surgissem vários ismos se enraizando sobre o espiritismo, já
seria difícil identificar o que seria e o que não seria
espiritismo. É por isso que não se pode admitir o espiritismo
adjetivado. Não há "espiritismo de mesa", "espiritismo de
terreiro", "espiritismo científico", "espiritismo evangélico",
"alto espiritismo" nem mesmo "espiritismo kardecista". Essa
coerência, se for mantida pelos espíritas, permitirá que o
espiritismo não seja deturpado, não venha a ser adulterado,
ainda que haja muita tentação para que isso ocorra, em nome de
caprichos ou vaidades humanas.
Verificamos que
hoje existem umas correntes personalistas no nosso movimento
espírita. Se aprendermos o espiritismo na sua base - que é a
codificação kardequiana - será fácil perceber as intromissões
indevidas, o que permitirá a necessária e oportuna reação do
movimento para impedí-lo. As pessoas, simplesmente, irão
deixando de lado e as que seguem esses personalismos, por não
conhecerem, com a devida clareza e profundidade, o arcabouço
glorioso do espiritismo.
P: - Como
você analisa os encontros de jovens espíritas, sobretudo durante
o período de carnaval, nas chamadas COMEERJs?
R:
- Tenho a grata felicidade de ter sido um dos iniciadores da
COMEERJ. A primeira reunião se deu há mais de 30 anos, com a
participação do Dr. Mário da Costa Barbosa, de saudosa memória,
de Wanderlei da Silva Coutinho e a Dra. Maria Elide Capobianco,
que hoje reside na cidade de São Paulo, tudo sob a coordenação
da nossa cara irmã Darcy Neves Moreira, do Rio de Janeiro, e com
outros companheiros que com ela somaram.
Aconteceu no
período de carnaval, numa casa do Alto da Boa Vista (no Rio de
Janeiro), onde efetuávamos diversos estudos pertinentes ao tema
programado para a época. A partir daí nasceu a COMEERJ, de cujo
movimento participei, algumas vezes, até o momento em que se
multiplicou felizmente para todo o Estado, formando os diversos
pólos hoje existentes. Vejo como um movimento muito feliz, muito
bem organizado, de muito boa inspiração, e que tem o cuidado de
se pautar pelo pensamento legítimo da Doutrina Espírita, para
uma reunião onde se encontram tantos jovens das mais variadas
procedências.
P: - O
carnaval vai se transformar ou será extinto?
R:
- O carnaval não precisa entrar em extinção. Ele precisa voltar
às bases da alegria verdadeira. As pessoas têm direito à
distração e ao contentamento. Sabemos que as culturas
permanecem, mas vão sendo transformadas de conformidade com as
épocas.
De acordo com o
tipo de espíritos reencarnados em determinadas épocas, as festas
culturais, herdadas de nossos ancestrais, vão tomando
características diferentes. Isso ocorre com quaisquer festas,
seja o Natal, o carnaval, a páscoa ou as festas juninas.
O carnaval hoje
sofre, infelizmente, a predominância da viciação, da violência e
da pornografia, em função dos espíritos pervertidos que
participam dessa loucura. Se olharmos para o lado da
descontração sadia, da alegria verdadeira, é claro que é uma
festa positiva. Nosso posicionamento não deverá ser contra essa
festividade, que pode se dar em qualquer época do ano. Devemos,
sim, ensinar às criaturas a saber usar bem a sua liberdade e a
oportunidade de ser feliz, mesmo que seja através dos folguedos
do mundo, uma vez que para os espíritas conscientes não pode
haver espaço para improdutivos radicalismos ou para a ignorância
quanto aos níveis de entendimento ou de desenvolvimento de cada
criatura.
P: - Qual é
o papel de uma casa espírita?
R:
- Segundo o Espírito Dr. Bezerra de Menezes, através de uma
mensagem escrita pelas mãos de Chico Xavier, na década dos 70, o
Centro Espírita é o educandário básico da mente popular. A
missão precípua do Centro Espírita é, portanto, ensinar
Espiritismo às comunidades.
Não adianta querer
transformar o Centro Espírita em qualquer outra coisa porque,
fundamentalmente, ele será o educandário básico da mente
popular, ainda que nós digamos que ele tem dimensões de um
hospital, de uma escola, de um templo ou de uma oficina de
trabalho. Todos esses elementos deverão estar a serviço do
processo educacional da criatura, ensinando-lhe a trabalhar pelo
próximo, sem receber pecúnio, seguindo a expressão evangélica
"dar de graça...", e a desenvolver suas potencialidades
espirituais, para servir melhor à vida.
Entendendo-o como
um hospital, verificaremos que estamos aqui para aprender a nos
libertar das mazelas, das enfermidades, em prol da nossa
reeducação. Como um templo, o Centro Espírita nos ensina a
entrar em contato com Deus, através dos benfeitores espirituais
que respondem em Seu nome, ensinando-nos a orar e fazer ponte
com nossos amigos espirituais, nos criteriosos trabalhos da
mediunidade. Essas dimensões diversas que atribuímos ao Centro
Espírita, se resumem em: escola. Por isso o Centro Espírita é o
educandário básico da mente popular.
P: - O que
você tem a dizer sobre os jogos, bingos e rifas nas casas
espíritas?
R:
- A casa espírita, sendo educandário básico da mente popular,
não comporta nenhum tipo de jogo de azar nem de sorte. Ela deve
ser o espaço para que seja feito aquilo que a Doutrina Espírita
propõe. No dia em que a casa espírita se converter num espaço de
jogos de qualquer teor, ainda que sob a justificativas as mais
piedosas, em nome da caridade, terá se convertido num clube,
numa área que não serve mais à causa de Cristo, mas aos
interesses imediatistas dos indivíduos.
Os jogos são
eminentemente do mundo e, obviamente, não se ajustam à proposta
da casa espírita e muito menos à Doutrina Espírita. Com todo
respeito àqueles que usam o espaço do centro espírita para fazer
o que lhes dá na mente, o que lhes vem à cabeça, temos que dizer
que eles estão ignorando a seriedade do compromisso espírita,
atraiçoando a confiança com que os generosos Mentores do mundo
os convidou para o trabalho na fulgurante Seara Espírita.
Que a casa
espírita tenha necessidade de recursos materiais para atender
aos seus trabalhos materiais, não resta dúvida. Contudo,
deveremos procurar operar no campo das coisas dignas, que não
comprometam os princípios espíritas nem enxovalhem o nome de
tantas almas que sofreram e choraram, que deram suas vidas e
suas mortes, a fim de que hoje encontrássemos essa liberdade de
ser espíritas, de afirmar alto e em bom som a nossa fé, em toda
a parte.
P: - O
fanatismo religioso ainda campeia, destilando ódio e sangue em
nome de Deus. Até quando vamos assistir a esses fenômenos tão
feios, em nome da religião?
R:
- Enquanto houver
criaturas que se afirmem religiosas, mas que sejam, em
realidade, perturbadas e preconceituosas. Tudo o que essas
pessoas dizem e fazem, passa pelo filtro do seu entendimento, e
como o seu entendimento está contaminado por conceitos e
preconceitos indigestos, por propostas de fé deformadas, as
conseqüências do que dizem e fazem estarão carregadas desse
desequilíbrio.
A religião, por si
só, traz a todos o ensinamento do bem.
Se tivermos um
arejado entendimento da figura do Cristo, com aberturas
emocionais e intelectuais que nos permitam melhor entendê-Lo,
melhor O interpretaremos, melhor destrinçaremos Seus
ensinamentos. Porém, se tivermos aberturas menores, a tendência
será limitar, apertar, condicionar as interpretações dos Seus
ensinos em razão da estreiteza da nossa mente.
Se encontramos
pessoas excessivas ou mesmo fanatizadas na pauta do movimento
religioso, com certeza serão pessoas fanáticas em tudo o que
fizerem. Ninguém consegue ser fanático na religião e não ser
fanático (ciumento, possessivo, opressor, dono-da-verdade, etc.)
na relação com a esposa, com o marido ou com os filhos ou,
ainda, no seu trabalho profissional. São sempre pessoas
excessivas. O problema, assim, não é da religião que professam.
O problema é delas, estejam na religião ou onde quer que seja.
O fato de uma
pessoa pervertida estar dentro de um templo religioso não
significa que ela tenha mudado de vida, do mesmo modo, se
encontrarmos um santo visitando um gueto nauseante e sórdido,
não significa que ele tenha deixado de ser santo. Onde
estivermos portamos a nossa bagagem espiritual, as nossas
idiossincrasias ou a nossa cultura, no sentido mais amplo
possível. Tudo o que nós fizermos terá o sabor do estado
evolutivo a que tenhamos chegado.
Torna-se, então,
necessário nos investir de muita paciência e ter uma visão
bastante amadurecida relativamente a irmãos de outras crenças
que, muitas vezes, condenam os espíritas porque acham que somos
endemoniados, que não somos cristãos ou que não cremos em Deus,
como eles crêem. Por mais que falemos de Deus ou de Jesus, a
questão para eles é ideológica. Não conseguem aceitar que quem
não faça parte dos seus núcleos de crença, quem não faça os
mesmos gestos ou não repita os mesmos bordões, possam ser
considerados como filhos de Deus. Isso em nada nos deverá
perturbar.
Chegará o dia do
aclaramento, do amadurecimento, o dia da verdade. Porém, vale
verificarmos se em nossos arraiais não temos confrades com esses
mesmos teores de intolerância, com esse mesmo espírito
absolutista ou com essa postura messiânica de quem é capaz de
salvar o mundo, pelo fato de ser espírita, ou se nós mesmos não
alimentamos essa loucura internamente.
O lamentável é que
todos os grupos ou indivíduos que atiram pedras, uns contra os
outros, sejam quais sejam as crenças que estejam em litígio, se
atribuem a condição de criaturas salvas, redimidas, e com
intimidade com Jesus Cristo. Essa suposta intimidade lhes dá o
direito de julgar e de condenar as outras pessoas, fugindo
completamente do ensino de Cristo que recomendou que amássemos
os próprios inimigos e orássemos por aqueles que nos
perseguissem e caluniassem. Ora, se nós, os espíritas, não somos
inimigos de ninguém, por que tanta malquerença, por que esse
espírito inamistoso, por que?
A nossa felicidade
hoje é não existir mais Tribunal do Santo Ofício e não haja mais
o espaço para as guerras santas, embora ainda existam,
extra-oficialmente. Pelo menos em nosso país isso não pode
existir. Essa é a nossa grande felicidade. Isso demonstra que já
evoluímos. Mas, no campo minoritário, quando chegamos no crivo
da sociedade mais basal, vamos achar Espíritos muito limitados,
açulados por mentes muitos sagazes, encarnadas e desencarnadas,
que deles desejam tirar proveito, ao mesmo tempo em que lhes
retarda a marcha do progresso. Utilizam-nos como marionetes,
nesse grande palco da interpretação religiosa. Cabe aos
espíritas não alimentar nenhuma guerra com esses irmãos, sem
deixar, contudo, de pôr cada coisa em seu lugar na esfera do
respeito social, que uns devemos aos outros, a fim de que as
relações sociais não se convertam numa balbúrdia. Temos que
compreendê-los em seu momento intelectual e moral, e não fazer
da mensagem do Cristo uma muralha divisionista, mas um toldo
unificador, independentemente dos modos de interpretar os Seus
ensinamentos.
P: - Como
deve ser a administração de uma casa espírita?
R:
- Será importante pensar que a administração de uma casa
espírita precisa de braços e inteligências para fazer o que a
Doutrina Espírita propõe. Claro que estamos no mundo e
precisamos acatar suas leis. Daí vem a necessidade, por exemplo,
de formar uma diretoria. Essa diretoria existirá somente para
fazer face às exigências sociedade, para registrar a instituição
e para movimentar a documentação que envolve o funcionamento de
uma instituição, ou de uma obra social. Fora isso, todos
deveremos ser trabalhadores do bem, sempre e cada vez mais
operosos, dedicados, incansáveis, no sentido de fazer a vida
pulsar sob a inspiração de Jesus Cristo, nas trilhas
estabelecidas pela Codificação Kardequiana.
Não existe, por
parte do mundo espiritual, nenhuma consideração especial por
quem seja presidente, secretário, diretor, conselheiro, etc. Os
Benfeitores do nosso Movimento Espírita saberão valorizar os
indivíduos ou as comunidades pela soma de bem que realizem, pela
orientação feliz que distribuam, pelas sementes de renovação que
deixem plantadas nas almas. Por isso, caberia à diretoria de um
centro espírita ser eleita por aclamação, quando se reuniriam os
companheiros que estão na linha de trabalho do centro, que são
dedicados e ativos na obra, estudiosos e respeitáveis, pessoas
responsáveis, a fim de decidir sobre os destinos da instituição.
Quando faltasse um
tempo para vencer um mandato, essa reunião de servidores
serviria para que, todos juntos, estudassem sobre quem estaria
em melhores condições de assumir a direção formal do centro para
o próximo período. Tal gesto propiciaria que o processo eletivo
transcorresse de modo mais fraternal, mais saudável, tanto
intelectual quanto emocionalmente. Evitaríamos, nos centros
espíritas as ditas (malditas?) campanhas, chapas ou slogans,
tornando-se o processo uma lamentável cópia dos processos da
política mundana, essa mesma que tanto condenamos, em virtude
dos meios utilizados para se alcançar os objetivos. Candidatos
que ficam indispostos com outros, porque sua plataforma é
diferente, em verdade são lobos travestidos de ovelhas, ansiosos
por fazer carreira política no Movimento Espírita. Com certeza,
não seria essa a proposta de Jesus Cristo. Seria muito
importante se nos reuníssemos para saber quem é que tem
possibilidades, agora, para estar à frente da nossa casa
espírita, ou da nossa obra social Quem quer que seja indicado
pelo grupo, merecerá as atenções e cuidados, a cooperação e o
respeito de todos os demais lidadores da instituição.
Há companheiros
que só trabalham no centro espírita se pertencerem à diretoria
ou se tiverem uma função destacada na obra. Quando deixam de
pertencer às diretorias, afastam -se, aborrecidos, porque não
foram reeleitos, ou porque perderam a posição que ocupavam.
Então vejamos: a que patrão desejam servir? A que senhor querem
atender? Jesus deixou muito, claro através do Seu Evangelho, que
aquele que desejar ser o maior no reino dos céus tem que ser, no
mundo, o servidor de todos. Temos que criar a mentalidade de que
a diretoria de uma instituição espírita existe para atender aos
requisitos do mundo. Mas, que entre nós, quem desejar, de fato,
ser o maior dentre todos, seja, então, o servidor de todos.
Tornando-se o trabalho do bem o nosso maior galardão, que
consigamos eliminar essa busca excitada por cargos nas
instituições, conscientes de que o mais significativo é que
procuremos dar conta dos encargos, que representam grande
honraria para quem a eles se dedicam, não nos importando se são
encargos espirituais sublimes ou se são serviços miúdos,
simples, mas que conferem intensa alegria e grande harmonia ao
coração.
P : -
Alguns discutem, poucos trabalham e muitos usufruem. Como você
analisa as cestas básicas de alimentos, os receituários
homeopáticos e a cirurgia espiritual nas casas espíritas?
R:
- Quando falamos em cirurgias espirituais, temos que destacar
aquilo que os Espíritos fazem e que, muitas vezes, não temos
consciência. Eles trabalham no campo do perispírito,
utilizando-se dos recursos fluídicos do mundo espiritual e do
poder mediúnico que a casa tem, em função do seu corpo de
médiuns, e que nem ficamos sabendo. Quando passamos a saber,
costumamos fazer em torno disso um verdadeiro carnaval. Então,
surgem celeumas, discrepâncias, desentendimentos, jogos de
interesse e cerimoniais plenamente desnecessários para o
trabalho em questão.
Quando se tratar
de cirurgias com utilização de instrumentos de perfuração ou
corte, a casa espírita deverá todo cuidado possível porque essa
não é a proposta da Doutrina Espírita. Com todo respeito devido
aos médiuns curadores que utilizam as facas, canivetes,
bisturis, serras, agulhas, etc, cumpre saibamos que não é essa a
finalidade de um centro espírita, evitando, sempre que possível,
semelhantes práticas em nossas instituições. Perfurações,
cortes, extirpações de órgãos e tudo o mais nessa órbita são da
alçada da medicina humana, e devemos respeito aos facultativos,
respeito à ciência.
Temos a nossa
disposição a fluidoterapia, que é uma forma de tratamento que os
Espíritos nos ensinaram, conforme as referências de Allan
Kardec, no cap. XIV, itens 32 e 33, de A Gênese, o que deve ser
observado e realizado com profunda unção, identificando os
princípios da fluidoterapia com as perfeitas leis da natureza.
Há, contudo,
médiuns com possibilidade de realizar essas atividades de cura
espiritual, sem que pertençam a centro espírita algum, mas
quando pertencem, é comum haver muita indisciplina em torno
desse tipo de atividade, porquanto são raros os dirigentes que
não se põem extasiados diante dessa expressão mediúnica,
passando a devotar aos médiuns uma perigosa veneração e por isso
se sentem desencorajados de lhes chamar a atenção para a
indispensável vigilância e a urgente renovação, enquanto atuam
nos labores do bem ao próximo.
É muita gente que
procura essa faceta mediúnica, é muita gente que a deseja e
diversos são os médiuns que se dedicam a essa lida, mas que se
sentem impossibilitados de vivenciar a disciplina que o
espiritismo propõe, e passam, em nome do exercício da caridade,
a dedicar um tempo muito grande a essas práticas, deixando de
lado o tempo precioso para os estudos indispensáveis para
refletir em torno da sua própria atividade, para saber como
atuam os Espíritos por seu intermédio, que objetivos têm eles ao
se prestar a esse serviço; e por desconhecer o sentido da
mediunidade para a vida dos médiuns, menosprezam aos esforços da
auto-renovação, conquanto se apóiem, quase sempre, numa visão
distorcida do que seja a prática da caridade. Esse é um aspecto
perigoso das práticas cirúrgicas nos centros espíritas. É certo
que os Espíritos dedicados ao bem do próximo, realizam
verdadeiros prodígios sem que o saibamos. Outros dão-se a
conhecer, mas investem recursos na melhoria íntima daqueles aos
quais oferecem curas físicas, em nome do Senhor.
No Rio de Janeiro
há instituições muito conhecidas que, como o Templo Espírita
Tupyara, realizam respeitáveis trabalhos de tratamento de saúde
física, que se tornaram dignos de confiança pelos resultados
obtidos, em razão dos médiuns que lidam nesse labor serem
instados às disciplinas e à boa conduta, para que possam merecer
o auxílio dos Bons Espíritos. Realizam tratamentos cirúrgicos à
distância sem que nenhum médium necessite furar ou cortar os
pacientes. É comum que as pessoas sintam os resultados e as
curas são realizadas, demonstrando, exatamente, aquilo que O
Livro dos Médiuns nos ensina, ou seja, quando mérito do enfermo
e um médium em boas condições para a realização do fenômeno da
cura, ela se dá.
Os indispensáveis
cuidados que o centro espírita deverá ter são: primeiro,
verificar se há médiuns com essas habilidades todas - que são
raros - e, depois, que tipo de trabalho será chancelado pela
instituição, em nome do espiritismo. O tratamento da saúde
alheia é algo de muita responsabilidade.
Quanto aos
receituários, os Espíritos (segundo O Livro dos Médiuns)
trabalham com o laboratório do mundo invisível. Diz Allan Kardec
que os Espíritos não têm nenhuma pretensão de competir com os
farmacêuticos e inventores de reconstituintes da terra (O Livro
dos Médiuns, cap. VIII, questão 13.ª, nota de Kardec), o que nos
permite entender que o trabalho de lidar com as dificuldades da
saúde humana, de tratá-la e medicá-la pertence à humana
medicina.
O receituário
mediúnico não deveria ser uma coisa realizada sem sentido,
aberta ou escancarada, em que as pessoas com indisposição para
ir ao médico, ou as que não desejam enfrentar as filas dos
institutos de previdência, ou as que se valem dos motivos mais
banais se alistam, por comodidade, no rol dos necessitados e vão
ao centro espírita para que os Espíritos as mediquem.
Naturalmente, os Espíritos não se negam a dar uma orientação,
desde que haja razão de ser no pedido, restando saber se o
centro espírita dispõe de um médium receitista conforme manda o
figurino, ou se serão pessoas receitando placebos para enganar a
boa fé dos consulentes, enquanto as reais enfermidades se vão
agravando.
O fato de um
médium ser psicógrafo não significa que ele tenha que ser um
médium receitista. O receituário mediúnico é uma especialização
que pode ser através da psicografia, da psicofonia, da
inspiração ou da intuição. Não nos cabe, apenas por querer
imitar outros grupos e instituições, "inventar" um médium
receitista para atrair multidões, pois não é essa a função dessa
expressão mediúnica. As conseqüências dessa "invenção" costumam
ser muito danosas, muito dolorosas mesmo.
Quando se descobre
que no centro espírita há médiuns com essa habilidade para o
receituário mediúnico, aqueles que conseguem estabelecer contato
psíquico com médicos desencarnados em prol dos necessitados
humanos, então se deverá providenciar uma reunião para esse
mister. O trabalho do médium Chico Xavier nesse caso, é um
exemplo muito interessante, pois se realizava uma reunião de
estudos doutrinários, com os comentários dos participantes,
enquanto o médium receitista, no caso, o próprio Chico, era
situado numa outra sala, com a ajuda de um auxiliar, a fim de
atender às solicitações que lhe chegavam, com os mais variados
tipos de solicitação. No caso, deverão ser selecionados os
pedidos de orientação para os casos de saúde. As leituras,
estudos e comentários ajudarão a criar e a manter o clima de
salutar vibração para que o receitista possa atender ao seu
compromisso.
Essas atividades
de receituário devem ser muito bem pensadas, para que não
modifiquemos a proposta da doutrina espírita, em nome de um
suposto movimento de caridade. É importante que não
desenvolvamos uma ação de "descaridade" para com o espiritismo,
em nome da caridade.
A coordenação dos
trabalhos doutrinários do centro espírita deverá persuadir, caso
seja necessário, o médium a participar das reuniões de estudos,
para que ele não se apresente como um livre atirador, nem fique
à mercê dos inimigos desencarnados de todos os que, embora se
dediquem ao bem, mostram-se relapsos ou negligentes com suas
responsabilidades pessoais. Os médiuns, quaisquer que sejam, não
pode visitar o centro espírita somente nos dias de reuniões
mediúnicas, alegando não ter mais tempo para as demais
atividades da instituição. Se não participa dos estudos, se não
desenvolve disciplinas e se não participa de uma obra social em
que teria chance de pôr em prática o seu discurso teórico, o
resultado será o envolvimento na má inspiração, em razão da fuga
deliberada da sintonia dos bons Espíritos. Esses são cuidados
cabíveis a uma instituição espírita dinâmica e responsável.
Quanto às cestas
básicas, vestuários, remédios, médicos, etc., deveremos ter a
nítida consciência de que fazemos isso por causa dos
descompromissos das autoridades governamentais, a quem caberia
tais providências. Precisamos ter a consciência de que esse não
é o papel fundamental do centro espírita. Não será de bom
alvitre abrir-se um centro espírita com essa finalidade, uma vez
que o centro deve ser o educandário básico da mente popular.
Entretanto, com
base no Evangelho de Jesus, se nos chega alguém padecendo fome,
não adiantará fazer discursos bonitos e doutrinários para essa
pessoa; ela precisa é de alimentação. Tem que se lhe dar comida.
Se se aproxima alguém ao relento, desnudo, precisando de roupa,
não adianta oferecer-lhe comida, será preciso dar-lhe uma peça
de roupa. Por outro lado, se aparece em nossa instituição alguém
doente, não valem discursos nem peças de roupa; há que se lhe
providenciar um atendimento médico, seja num posto de saúde,
seja num hospital para que seja devidamente tratado. Assim,
atenderemos os nossos irmãos do caminho em função das carências
que apresentem.
Não viveremos para
dar cestas básicas ou roupas. Seria um trabalho de mera
filantropia e nós, os espíritas, precisamos ter a consciência de
que isto é o de menor importância na pauta de nosso trabalho.
Torna-se por demais importante ensinar as pessoas a se conduzir
no mundo, ensinar-lhes a viver... Ao lado de tudo o que o centro
espírita possa ofertar, a importância maior recairá sobre aquilo
que possamos dar de nós mesmos aos necessitados de quaisquer
matizes. Muitas vezes somos hábeis na entrega de muitas "coisas"
a necessitados, embora tenhamos muita dificuldade de abrir o
coração às pessoas. Costumamos ficar sempre longe deles; não
procuramos saber quem são, seus nomes, ou quais são as suas
necessidades verdadeiras.
Os nossos irmãos
necessitados não deverão ser transformados em números fichados,
a fim de que os espíritas os utilizemos para sermos caridosos,
às custas da exibição da miséria ou das carências deles. O
aprendizado espírita nos faz compreender que são, todos, nossos
irmãos, são os filhos e as filhas do calvário. Por isso é que
todos os trabalhos desenvolvidos pelo centro espírita deve ser
bem pensado, deve ter um porquê, precisa ter um sentido, uma
razão de ser, a fim de que não percamos tempo realizando
atividades que podem ser comparadas às de quem enxuga gelo.
Jamais deveremos
fazer algo somente por fazer, sem que haja um sério e espiritual
objetivo nessa realização.
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