O Mensageiro  -  Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio 
Título :
Assuntos Diversos

Entrevistado:
José Medrado

Fonte:
RCE

ENTREVISTAS

       
   

O baiano José Medrado é um dos mais conhecidos e carismáticos expositores espíritas da atualidade. Médium, escritor, apresentador de programas de TV, Medrado possui uma maneira contagiante de transmitir a mensagem espírita, sempre com muita alegria e entusiasmo.

P: – Medrado, fale um pouco sobre o movimento espírita baiano.
R: A cultura brasileira é uma cultura plural por excelência, em razão de todo processo de miscigenação que ocorreu. A Bahia é um "caldeirão", com a mistura de toda essa cultura, mas ao mesmo tempo, tem uma cultura muito própria, muito específica.

A cultura baiana é uma cultura muito forte, e o baiano, exatamente por conta desse processo cultural, sobretudo, de raízes afro – hoje, Salvador é a cidade com maior número de negros fora da África – favoreceu muito a um espiritismo "mais suave".

É verdade que ainda existe uma elite conservadora, muito ortodoxa, mas eu penso que por estarmos no século, por excelência, da comunicação rápida, direta, objetiva, quando neste terceiro milênio a internet faz com que o mundo "entre" em nossa casa pelo computador, em segundos, com tantas notícias, nós precisamos ir ao encontro das pessoas, com suas dores, na tentativa de fazer com que elas se sintam consoladas, e não ilustradas pelos processos espíritas, quando buscariam um aprofundamento doutrinário. Num primeiro momento é o consolo, e em Salvador eu tenho procurado fazer este trabalho. Eu tenho um programa na TV Bandeirantes local, há treze anos; apresento, também, um programa diário em uma rádio FM, no horário nobre.

Por conta disso tudo, e também com o trabalho de outros palestrantes espíritas, eu percebo que o espiritismo na Bahia se tornou um espiritismo mais suave, o que não quer dizer um espiritismo apartado de seus princípios doutrinários.

P: - Na Bahia, existe uma integração maior entre os movimentos espírita, umbandista e do candomblé?
R: - Existe, mas não ocorre em todos os centros, não.

No aniversário da Cidade da Luz eu realizei um culto ecumênico, com o padre Alfredo, da Igreja de Santo Antônio da Barra, umas das mais conhecidas de Salvador; convidei o babalorixá do Pilão de Prata, que na minha opinião é o verdadeiro herdeiro do candomblé no Brasil, porque é descendente dos que trouxeram o terreiro da Casa Branca, o primeiro das Américas; e o pastor batista Djalma Torres. Portanto, o aniversário da Cidade da Luz foi comemorado com um culto ecumênico. Quando eles me perguntaram o que iriam fazer, eu disse que cada um daria sua bênção, porque nós podemos esquecer as diferenças e nos apegarmos nas concordâncias, e existem muitos pontos concordantes. Por que temos que viver na diversidade fingindo que não existe o plural? Temos que, realmente, fazer com que o plural se torne a unidade, e essa unidade só se realiza se vivenciarmos os princípios cristãos. Segregar não é ser cristão. Afastar, tirar do nosso convívio aquelas pessoas que não julgamos dignos, não é cristão. Temos que acabar com este sentimento elitista, dogmático, existente por parte de um segmento espírita que infelizmente se sente dono do movimento espírita e no direito de ditar até mesmo regras de comportamento, e o que me chama mais a atenção é que ditam comportamentos divorciados do que é ser verdadeiramente cristão. Jesus não segregou e nós temos é que somar, buscando os pontos comuns.

P: - Como você analisa o movimento espírita? De Kardec aos dias atuais, houve uma evolução?
R: - Sim, houve! O espiritismo está bastante difundido. No momento em que ele aportou aqui no Brasil, foi José Olimpio Telles de Menezes quem fez, através do jornal Eco D’além Túmulo, a divulgação espírita de uma forma maior. Hoje, já existem dezenas de publicações, rádios... Além disso, o que também está mudando é a cultura da vivência espírita, que está se tornando uma cultura mais realista, menos fantasiosa. Eu me bato muito neste processo... de um desenvolvimento espiritista fantasioso, calcado muitas vezes numa espécie de "farisaísmo", de um espiritismo de aparências. Nós temos que ir para uma vivência prática, no dia-a-dia, como realmente estamos vendo nos dias hoje, buscando acompanhar também a evolução dos meios de comunicação, assim como a forma de simplificarmos a mensagem espírita, para que ela seja bem entendida, sem fugirmos dos princípios básicos, mas, torná-los mais acessíveis e compreensíveis.

P: - Alguns meses atrás, um padre na Bahia foi afastado da Igreja por ter realizado um ritual católico com algumas características das religiões afro-brasileiras. Como você analisa este fato?
R: - Padre Pinto, que era da Igreja da Lapinha, é meu amigo. Tínhamos um convívio... ele me visitava na Cidade da Luz, eu ia em sua igreja.

Eu escrevo para o jornal A Tarde, de Salvador, e disse que o que padre Pinto fez não o desconsiderou a pregar a moral diante de seus fiéis, porque ele não tomou nenhuma atitude que fosse imoral ou indecente. Tanto que não saiu nada, da comunidade dele, que o desabonasse moralmente. Ele pode ter se excedido nos paramentos, eu até concordo, mas eu acho que temos que respeitar o direito das pessoas serem como elas são e como acham que devem seguir em suas caminhadas, ainda que não sirva para nós, mas temos que respeitar o outro. É o respeito à diversidade, à pluralidade.

Mas o respeito verdadeiro... tem espírita que diz "Eu respeito a umbanda e o candomblé, pois tudo está evoluindo..." como se essas doutrinas fossem inferiores. Isso não é respeito!

Com certeza! Ou aqueles que dizem "Eu respeito, mas eles lá eu aqui...". O respeito é pra congregar e conviver, porque há pontos em comum.

P: - E com relação à polêmica do "casamento espírita" que você realizou?
R: - Efetivamente, não há um casamento espírita. Mas veja bem... dois trabalhadores de nossa instituição tomaram todos os procedimentos legais para efetivar o casamento. Depois, eles me pediram para que eu fizesse o evangelho com eles, no centro espírita, falando a respeito de casamento e família na visão da doutrina. Muito bem, eu fiz como pediram e então, quando eles resolveram partir para o fórum, eu disse: "Não! Vamos buscar o reconhecimento deste casamento.". Porque o Brasil é um país laico, ou seja, é um país que não tem uma religião oficial, então, o Estado tem que me respeitar. Eu considero o espiritismo a minha religião, há quem não considera, mas eu considero. Quando o IBGE, durante o censo, vai me perguntar qual é minha religião, tem um quadradinho lá que diz "espírita", e é esse quadradinho que eu risco. Então, se o espiritismo é uma religião, e eu o considero uma religião, a justiça brasileira tem que respeitar essa religião e me dar o direito constitucional, que tem lá no artigo 5º da Constituição, de igualdade entre todas as religiões.

O casal, então, foi buscar o reconhecimento e a justiça negou. Esse casal entrou com um mandato de segurança e o tribunal pleno da Bahia nos deu ganho de causa, ou seja, reconheceu o casamento realizado no centro espírita como um direito.

P: - Então, eles não precisaram ir até o cartório?
R: - Não, foi tudo assinado no centro espírita. E por que não? Algumas pessoas contrárias a isso dizem: "Ah! Daqui a pouco vai ter até batismo!". Isso é uma ignorância... eu estava ali em busca de um direito constitucional. Nosso problema é acharmos que devemos fazer espiritismo só para espíritas e ficarmos dentro dos centros espíritas. Temos que buscar nosso direito, nosso espaço dentro da sociedade.

Por exemplo, quando vejo o presidente da República em um evento católico – e não tenho nada contra os católicos... tenho amigos católicos e convivo com muitos padres – acho isso um desrespeito, pois ele está representando toda uma nação. Ele não pode, simplesmente, chamar um evento católico quando é o presidente da República.

Precisamos aprender a buscar nosso direito...

Os companheiros espíritas da Suíça passam por uma dificuldade muito grande. O País cobra uma espécie de imposto e repassa esse imposto para as religiões, e como o espiritismo lá não significa quase nada, os espíritas e suas associações organizadas não recebem nada do Estado suíço. Então, é preciso que se situe, efetivamente, o que as pessoas consideram e como consideram o espiritismo e que aprendamos, também, a respeitar isso.

P: - Na Europa, onde o movimento espírita está mais se desenvolvendo? Em Portugal?
R: - Isso, em Portugal. Lá tem um movimento espírita muito forte por conta da nossa interferência. Eu tenho viajado muito e quando vou à Europa, inclusive a convite de universidades, os princípios espíritas, aquilo que a gente vê como a proposta, realmente, de Allan Kardec, estão sendo muito bem assimilados, mas não necessariamente o espiritismo. Mas o que importa? Não queremos rótulos, queremos é liberdade de consciência e compreensão dos processos da vida, e se alguém lá ou em qualquer parte do mundo assimila os princípios espíritas, mas não se diz espírita, isso não importa pra nós.