|
Escrevem-nos de
Gramat (Lot):
“Em uma casa do
lugarejo de Coujet, comuna de Bastat (Lot), ruídos
extraordinários se fazem ouvir desde uns dois meses. Eram
primeiro golpes secos, e muito semelhantes ao choque de uma
clava sobre as tábuas, que se ouviam de todos os lados: sob os
pés, sobre a cabeça, nas portas, através dos móveis; depois logo
os passos de um homem que caminhava de pé nus, o tamborilar de
dedos sobre as vidraças. Os habitantes da casa se amedrontaram e
mandaram dizer missas; a população inquieta dirigiu-se para o
lugarejo e ouviu; a policia interveio, fez várias investigações,
e o ruído aumentou. Logo, foram portas abertas, objetos
transtornados, cadeiras projetadas pela escada, móveis
transportados do térreo para o sótão”.
“Tudo o que vos
conto, atestado por um grande número de pessoas, passa-se em
pleno dia. A casa não é um antigo casebre sombrio e negro, do
qual só o aspecto faz cogitar fantasmas; é uma casa recentemente
construída, que é agradável; os proprietários são pessoas boas,
incapazes de quererem enganar alguém, e doentes de medo.
Entretanto, muitas pessoas não pensam que nada há de
sobrenatural, e tratam de explicar, seja pela física, seja por
más intenções que emprestam aos habitantes da casa, tudo o que
ali se passa de extraordinário. Por mim, que vi e creio, resolvi
dirigir-me a vós para saber quais são os Espíritos que fazem
esse barulho, e conhecer o meio, se houver um, de fazê-los
calarem-se. É um serviço que prestais a essas boas pessoas,
etc...”.
Os fatos dessa
natureza não são raros; eles se assemelham quase todos e não
diferem, em geral, senão pela sua intensidade e sua maior ou
menor tenacidade. Pouco se inquieta com eles quando se limitam a
alguns ruídos sem conseqüência, mas se tornam uma verdadeira
calamidade quando adquirem certas proporções.
Nosso honorável
correspondente nos pergunta quais são os Espíritos que fazem
esse barulho. A resposta não é incerta: sabe-se que os Espíritos
de uma ordem muito inferior são os únicos deles capazes.
Os Espíritos
superiores, tanto quanto entre os homens graves e sérios, não se
divertem fazendo algazarra. Freqüentemente, os chamamos para
perguntarmos o motivo que os levam a perturbarem assim o
repouso. A maioria não tem outro objetivo senão o de se
divertir; Esses são Espíritos antes levianos que maus, que se
riem do pavor que ocasionam, e das buscas inúteis que se fazem
para descobrir a causa do tumulto. Freqüentemente, se aferram
junto a um individuo, que se alegram em vexar, e que perseguem
de morada em morada; outras vezes se ligam a um local sem outro
motivo que seu capricho. Algumas vezes, é uma vingança que
exercem, como teremos ocasião de ver. Em certos casos, sua
intenção é mais louvável; querem chamar a atenção e se porem em
comunicação, seja para darem uma advertência útil à pessoa à
qual se dirigem, seja para pedirem alguma coisa para eles
mesmos. Vimo-los, freqüentemente, pedirem preces, outra vezes
solicitarem o cumprimento, em seu nome, de um voto que não
puderam cumprir, outras vezes, enfim, querer, no interesse de
seu próprio repouso, repararem uma ação má cometida por eles
quando viviam. Em geral, comete-se o erro de com eles se
amedrontar; sua presença pode ser importuna, mas não perigosa.
Concebe-se, de resto, o desejo que se tem de livrar-se deles e
se faz, geralmente, para isso, tudo ao contrário do que seria
preciso. Se são Espíritos que se divertem, quanto mais se toma a
coisa a sério, mais persistem, como crianças traquinas que
aborrecem mais aqueles que vêem se impacientarem, e que metem
medo aos covardes. Se se tomasse o sábio partido de rir por si
mesmo, de seus maus rodeios, acabariam por se cansarem e por
ficarem tranqüilos. Conhecemos alguém que, longe de se irritar,
os excitava, desafiando-os para fazerem tal ou tal coisa, tão
bem que, ao cabo de alguns dias, não retornavam mais. Mas, como
dissemos, existem alguns cujo motivo é o mais frívolo. Por isso,
é sempre útil saber o que querem. Se pedem alguma coisa, pode-se
estar certo que cessarão suas visitas, desde que seu desejo seja
satisfeito. O melhor meio de estar informado a esse respeito é o
de evocar o Espírito, por intermédio de um bom médium
escrevente; pelas suas respostas, ver-se-á o que disputam, e se
agirá em conseqüência; se for um Espírito infeliz, a caridade
manda tratá-lo com as considerações que merece. Se for um mau
brincalhão, pode-se agir para com ele sem cerimônia; se for
malevolente, é preciso pedir a Deus para torná-lo melhor. Em
todo estado de defesa, a prece não pode sempre ter senão um bom
resultado. Mas a gravidade das fórmulas de exorcismo fá-los
rirem e não as têm em nenhuma conta. Podendo-se entrar em
comunicação com eles, é preciso desconfiar das qualificações
burlescas ou apavorantes que se dão, algumas vezes, para se
divertirem com a credulidade.
A dificuldade, em
muitos casos, é ter um médium à disposição. É preciso, então,
procurar tomar-se a si mesmo, ou interrogar diretamente o
Espírito, conformando-se com os preceitos que demos, a esse
respeito, em nossa instrução prática sobre as manifestações.
Esses fenômenos,
embora executados por Espíritos inferiores, freqüentemente, são
provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada, com a
finalidade de convencer quanto à existência de seres incorpóreos
e de um poder superior ao homem. A ressonância que deles
resulta, o medo mesmo que eles causam, chamam a atenção, e
acabarão por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham
mais simples colocar esses fenômenos à conta da imaginação,
explicação muito cômoda e que dispensa dar-lhes outras; todavia,
quando objetos são postos em desordem ou vos são lançados à
cabeça, seria preciso uma imaginação bem complacente para se
figurar que semelhantes coisas são quando não o são. Nota-se um
efeito qualquer, esse efeito tem necessariamente uma causa; se
uma fria e calma observação nos demonstra que esse efeito é
independente de toda vontade humana e de toda causa material,
se, além disso, nos dá sinais evidentes de inteligência e de
livre vontade, o que é o sinal mais característico, somos
forçados a atribuí-lo a uma inteligência oculta. Quais são esses
seres misteriosos? É o que os estudos espíritas nos ensinam, de
modo o menos contestável, pelos meios que nos dá para se
comunicar com eles. Esses fenômenos nos ensinam, além do mais, a
separar o que há de real, de falso ou exagerado nos fenômenos
dos quais não nos damos conta. Se um efeito insólito se
produziu: ruído, movimento, mesmo aparição, o primeiro
pensamento que se deve ter é que foi devido a uma causa toda
natural, porque é a mais provável; é preciso, então, procurar
essa causa com o maior cuidado, e não admitir a intervenção dos
Espíritos senão conscientemente; é o meio de não se iludir.
Allan Kardec
|